Foi num jarro do sítio arqueológico de Godin Tepe, no vale de Kangavar, oeste do atual Irã, que arqueólogos encontraram na década de 1990 os primeiros vestígios químicos de uma cerveja da antiguidade. E a bebida tinha mais de 5,5 mil anos de idade. Essa nação, reconhecida como um dos berços ancestrais da bebida mais popular do planeta, vivencia hoje um paradoxo interessante. Desde a Revolução Islâmica de 1979, o álcool foi varrido das prateleiras, dando lugar a uma indústria pulsante, mas estritamente sem álcool.
Com a guerra entre Estados Unidos e Israel com o Irã, o mundo voltou seus olhos para o Oriente Médio mais uma vez. E um mergulho na cultura cervejeira iraniana pode ajudar a entender um pouco melhor a história daquele país bem como descobrir como uma tradição milenar se adaptou a leis teocráticas, trocando o teor alcoólico por sabores locais.
A famosa pedra cervejeira
Entre as décadas de 1960 e 1970, uma equipe liderada por T. Cuyler Young Jr., do Royal Ontario Museum, escavou o sítio de Godin Tepe. O local era um importante posto comercial na Cordilheira de Zagros, conectando as planícies da Mesopotâmia ao planalto iraniano. As descobertas foram muitas e um volume extenso de material foi coletado para análises posteriores.
Devido à complexidade do trabalho laboratorial, foi somente na década de 1990 que a arqueóloga Virginia Badler identificou algo curioso. Ao analisar fragmentos de cerâmica recuperados, notou ranhuras profundas no interior de um jarro. Dentro delas, havia um resíduo amarelado e pálido que parecia “estranho” para um recipiente comum.
Badler enviou amostras para o Dr. Patrick McGovern, um pioneiro na “arqueologia molecular”. Usando técnicas avançadas de análise química, eles identificaram material popularmente chamado de “pedra cervejeira”, que funciona como uma impressão digital química da bebida. Trata-se de um composto que se forma a partir da mostura, do “cozimento” do malte com água e normalmente se deposita no fundo das tinas.
Até então, era sabido que os sumérios, uma antiga civilização mesopotâmica, bebiam cerveja por causa de tabuletas de argila com pictogramas e escrita cuneiforme. No entanto, não havia evidência física do líquido.

No mesmo local, a equipe de McGovern também encontrou potes com resíduos de ácido tartárico, o que prova a existência de vinho. Ou seja, tanto a bebida de uva quanto a cerveja de cevada já eram produzidas na região por volta de 3.500 a.C. A descoberta foi publicada num artigo científico na revista Nature em 1992.
Atualmente, as descobertas mais antigas sobre cerveja são restos de amido fermentado encontrados em escavações na Caverna de Raqefet, em Israel, datando de cerca de 13 mil anos, associados à cultura natufiana.
Cerveja no Irã hoje
A produção de cerveja com álcool é ilegal no Irã desde a Revolução Islâmica de 1979. No entanto, o país possui uma forte indústria de cervejas sem álcool, com marcas populares como Istak e Delster. Vendidas sob o rótulo de bebidas de malte, elas oferecem um paladar que vai do estilo Lager tradicional a combinações exóticas inspiradas na agricultura local, como tâmaras e maçãs-verdes.
Mas nem sempre foi assim. Antes da Revolução, no regime do Xá Mohammad Reza Pahlavi, que governava desde 1941, o álcool era permitido e várias cervejarias abasteciam o país. A mais famosa era a Argo, de Teerã, construída no início da década de 1920, sendo considerada uma das primeiras do país.
Ela fechou pouco antes da mudança de regime por questões operacionais e ambientais. Recentemente, o edifício histórico foi reformado, mantendo suas características industriais, e tornou-se a Argo Factory, um importante centro de arte contemporânea na capital.
Embora o consumo público seja proibido, existe um mercado informal de bebidas alcoólicas. Além disso, minorias não muçulmanas oficialmente reconhecidas (como cristãos armênios, judeus e zoroastrianos) têm permissão legal para produzir e consumir bebidas alcoólicas de forma privada, para uso pessoal e ritos religiosos, conforme garantido pela constituição iraniana.


