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Artigo: o impacto da atividade cervejeira na agricultura brasileira

O Brasil é um dos principais produtores agrícolas do mundo e está na vanguarda de inovação e sustentabilidade no setor. Contudo, existem alguns produtos e insumos de que ainda somos dependentes de importação, tais como os fertilizantes, que tiveram grande aumento devido às tensões geopolíticas, guerras tarifárias e territoriais.

Outros produtos de que ainda somos grandes importadores são insumos para nossa indústria cervejeira. É de notório saber que a indústria nacional de cerveja depende de importação de malte e lúpulo, em torno de 50% e 99%, respectivamente. Isso é um contrassenso, uma vez que o Brasil é o terceiro maior produtor de cerveja do mundo com 15 bilhões de litros por ano.

Diante desse quadro, vamos analisar a produção local desses insumos e verificar o seu impacto na agricultura nacional, ao que passo que joga luz para o tamanho da oportunidade que é avançar na produção local de cevada/malte e lúpulo.

Cevada

A atividade cervejeira no Brasil tem espaço relevante na economia e na cultura nacional, gerando 2% PIB nacional, com quase 2 mil cervejarias de todos os tamanhos nas 27 unidades da federação, gerando mais de 2 milhões de empregos diretos, indiretos e induzidos, com uma produção de mais de 15 bilhões de litros anual. Contudo, existem importantes e crescentes números do impacto positivo do setor cervejeiro na agricultura, a saber, a produção de cevada e a recente produção de lúpulo.

A cevada possui uma história mais longa no Brasil e dados de safra da CONAB mostram que a produção vem crescendo década após década. A série histórica começa em 1976 e há uma grande evolução nos últimos anos, como podemos verificar nos gráficos abaixo sobre área plantada, produção e produtividade.

Fonte: Elaboração própria, a partir de CONAB

Em relação à área plantada importante notar que existe uma grande dispersão de dados no período analisado (1976-2026), o que mostra uma alta heterogeneidade dos dados. Para se ter uma ideia, o valor máximo de área plantada é de 1981, com 161 mil ha, frente à projeção de 146 mil hectares para 2026, contudo, a produtividade daquele ano foi de apenas 628 kg/ha, quanto que para esse ano se espera uma produtividade de 3.898 kg/ha. A primeira vez que a produtividade passou de 2 mil kg/ha foi em 1988, 3 mil kg/ha em 2010 e 4 mil em 2025, com 4.358 kg/ha, sendo o maior valor de série histórica. A projeção para 2026 é de 3.898 kg/ha. Veja que para passar de 2 para 3 mil kg/ha passaram-se mais de 22 anos e de 3 para 4 mil kg/ha 15 anos, ou seja, além do nítido aumento de produtividade existe uma aceleração do crescimento, consolidando a máxima da agricultura nacional, conseguimos produzir mais utilizando menos terra proporcionalmente.

Na análise espacial vemos um grande destaque do estado do Paraná que tomou o posto do Rio Grande do Sul entre 2008 e 2012 em área plantada e depois de 2018, para se consolidar como líder do setor, com 74,2% da área plantada de cevada. Neste ponto o Rio Grande do Sul vem perdendo área para outras culturas e hoje tem apenas 23%, totalizando 34 mil hectares, sendo que esse valor já foi de 76% em 1999. Santa Catarina parou sua produção em 2024 pelo mesmo motivo, mas já teve 23% do total da área plantada de cevada em 1985. O estado de São Paulo aparece como novo ponto de plantação de cevada, mas tem apenas 2,7% do total da área plantada, com 4 mil hectares. Sobre a produtividade, o estado do Paraná ainda é referência com valores maiores que a média nacional. Da mesma forma que no Brasil o Paraná precisou de mais tempo para a primeira barreira entre os 2 mil kg/ha para os 3 mil, do que dos 3 mil para os 4 mil kg/ha, levando 17 de 1985 para 2002 na primeira barreira e apenas 11 anos de 2002 para 2013 na segunda barreira e se mantém nesta faixa de 4 mil kg/ha.

A produção de cevada no Brasil mostra tendência de crescimento em toda a série histórica, chegou perto de 400 mil toneladas em 2005, mas depois teve forte queda no ano seguinte, ficando perto das 200 mil toneladas. A retomada do crescimento se viu a partir de 2009 até o recorde de produção em 2025 com 600 mil toneladas, representando a multiplicação por 3 vezes da produção. A safra esperada para 2026 é de 584 mil toneladas. Novamente na análise especial mostra-se a forte liderança do Paraná desde 2006 e para 2026 espera mais de 80% da produção nacional com 469 mil toneladas, o Rio Grande do Sul já teve 77% do total da produção em 1999, mas hoje tem apenas 17% com 101 mil toneladas e São Paulo com 13 mil toneladas tem apenas 2%.

Os dados do IBGE da Pesquisa Agrícola Municipal – PAM, apesar de atualizados somente para o ano de 2024, trazem informações importantes a nível de município, onde realmente a produção ocorre. A partir desses podemos confirmar a importância do estado do Paraná no setor de cevada, conforme tabela abaixo

Dez principais municípios para o setor da cevada em diferentes aspectos

Área plantada ProduçãoProdutividadeValor da Produção
1Guarapuava (PR)Guarapuava (PR)Itapeva (SP)Guarapuava (PR)
2Arapoti (PR)Pinhão (PR)Taquarivaí (SP)Tibagi (PR)
3Tibagi (PR)Candói (PR)Taquarituba (SP)Pinhão (PR)
4Pinhão (PR)Arapoti (PR)Pinhão (PR)Candói (PR)
5Candói (PR)Tibagi (PR)Foz do Jordão (PR)Arapoti (PR)
6Ponta Grossa (PR)Ponta Grossa (PR)Guarapuava (PR)Ponta Grossa (PR)
7Sertão (RS)Vacaria (RS)Muitos Capões (RS)Itapeva (SP)
8Vacaria (RS)Reserva do Iguaçu (PR)Reserva do Iguaçu (PR)Reserva do Iguaçu (PR)
9Jaguariaíva (PR)Itapeva (SP)Candói (PR)Carambeí (PR)
10Carambeí (PR)Sertão (RS)Campos Novos (SC)Vacaria (RS)

Fonte: Elaboração própria, a partir de PAM/IBGE.

Dos 10 municípios com maior área plantada de cevada, oito são do Paraná, com destaque para Guarapuava com quase 20 mil hectares, completam os três primeiros Arapoti e Tibagi, ambos no Paraná. O primeiro fora é Sertão no Rio Grande do Sul, seguido de Vacaria. Dos 155 municípios que produzem cevada, 85 estão no Rio Grande do Sul (55%), 57 estão no Paraná (37%), 7 em São Paulo (5%), além de outros. Isso mostra que os gaúchos têm mais dispersão da produção, os paranaenses estão mais concentrados, como podemos confirmar com os dados da área plantada de Guarapuava-PR, que possui sozinha quase 10% do total plantado no Brasil, com 11.570 hectares, contudo, teve redução de 41% em relação ao ano anterior, ao passo que Arapoti, em segundo lugar, cresceu 55%, alcançando 7148 hectares, representando 6%.

A produção em toneladas, consequentemente, também é liderada por Guarapuava com 55 mil toneladas, e fora do Paraná novamente Sertão e Vacaria no Rio Grande do Sul e Itapeva em São Paulo. Na produção a distância do líder é ainda maior com 13% do total e o segundo, Pinhão (PR), com 6%. Com 29 mil toneladas. Porém, a redução de Guarapuava foi de 9%, enquanto Pinhão cresceu quase 40% e o destaque foi Sertão com mais de 140% de aumento, chegando a 12 mil toneladas.

Já sobre produtividade, a liderança é de Itapeva (SP), com 6000 kg/ha em 2024, somente Taquarituba (SP) ultrapassou esse valor com 7200 kg/ha em 2022. Taquarivaí (SP) também alcança 6000 kg/ha. A maior produtividade fora de São Paulo é de Pinhão com 4910 kg/ha. A aceleração dos ganhos indica avanços em genética, manejo e organização da cadeia produtiva, aproximando o Brasil de padrões internacionais de eficiência.

No valor da produção Guarapurava retoma a liderança com R$ 77 milhões, apesar da redução de 13%, em segundo temos Tibagi (PR), com R$ 48 milhões e crescimento de 71% em relação ao ano anterior, destaque também para Vacaria com aumento de 100% chegando a R$ 14 milhões

Toda essa produção alcança 1988 propriedades rurais nos três estados do Sul e São Paulo, segundo dados do Censo Agropecuário de 2017 do IBGE. Quase a totalidade dessa produção se converte em malte por meio das maltarias que atendem à indústria cervejeira nacional, a cevada que não atinge o grau de germinação necessário acaba virando ração animal e perde muito valor, sendo negociada perto da metade do valor do milho. Nossos maiores fornecedores são, na sequência, Argentina e Uruguai, sendo que o Bloco Mercosul já consegue abastecer significativamente a necessidade de malte de indústria cervejeira brasileira.

Lúpulo

Já o Lúpulo é cultura mais recente, apesar de iniciativas exitosas nos séculos XIX e XX chegando no Brasil antes da Argentina, a produção se perdeu no tempo. Atualmente, segundo dados de 2024 da Associação Nacional de Produtores de Lúpulo – APROLÚPULO, a produção está espalhada em 109 propriedades rurais, em mais de 90 municípios e 13 estados da federação, concentrados em São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro conforme destaca mapa a seguir

Unidades da Federação com produção de Lúpulo

Em 2024 a produção alcançou 81 toneladas, em uma área aproximada de 95 hectares, gerando um valor de produção de aproximadamente R$ 12 milhões anuais. A produtividade alcançou 852 kg/ha, com predomínio de variedades aromáticas — com destaque para Comet, Cascade e Saaz —, reflete uma estratégia alinhada ao perfil da indústria cervejeira brasileira, majoritariamente orientada a cervejas de maior valor agregado e crescente utilização de lúpulos aromáticos e especiais.

Em comparação ao ano anterior ocorreu retração na área plantada (-16%) e no volume de produção (-8%), contudo, ocorreram ganhos de produtividade como eixo central do desenvolvimento atingindo 852 kg/ha (+7,5%), o maior valor da série histórica brasileira. Esse comportamento segue uma trajetória convergente às dinâmicas internacionais do setor, como é observado na Alemanha e nos EUA, com redução da área e aumento de produtividade, que nestes países chega a 2000 kg/ha.

A cadeia agrícola da cerveja ainda é fortemente dependente de importação. Em se tratando de malte, observamos um aumento considerável na capacidade produtiva dos países do bloco do Mercosul, passando de 2,03 mi toneladas em 2021 para 2,44 mi toneladas em 2025, representando um aumento de mais de 20%, sobretudo com expansões no parque produtivo do Brasil e do Uruguai, conforme dados da Cooperativa Agrária, exemplificados na tabela abaixo.

Balanço de Oferta e Demanda de Malte NCM 1107.10.10 toneladas (2021-2025)

AnoProdução Total de malte BrasilConsumo Brasileiro de Malte(-) Déficit interno de MalteImportação de Países do Mercosul(-) Déficit e/ou (+) Superávit intrabloco de MalteImportação de Países Extrabloco Mercosul(=) Superávit [excedente] extrabloco de Malte
 ABC=(B-A)DE=(D+C)FG=(F+E)
2021719.0001.900.000-1.181.000879.646-301.353539.033237.679
2022753.6301.825.000-1.071.370900.908-170.461371.290200.828
2023753.6301.860.000-1.106.370969.157-137.212324.143186.930
2024930.0001.900.000-970.000926.840-43.159243.775200.616
20251.046.0001.994.000-948.000932.302-15.697313.069297.371

Fonte: AGRÁRIA.

Como podemos observar, o Brasil possui uma demanda de malte relativamente estável na casa de 1,9 milhões de toneladas de malte, já a importação de países intrabloco Mercosul tem leves oscilações, se mantendo na casa de 0,9 milhões de toneladas. Contudo, em relação à importação de países extrabloco Mercosul, os números eram bem relevantes em 2021, representando 38% do total, mas já para o ano de 2025 esse valor passou para 25%. Neste contexto, o que mais contribuiu para o balanço quase zero da oferta e demanda de malte foi o aumento da produção nacional que saltou 45% no período analisado, isso significa manter no Brasil a riqueza produzida pela produção de malte e depender cada vez menos das importações.

Se observarmos a importação de maneira agregada dos dois principais insumos da cadeia da cerveja, observamos períodos de crescimento e estabilização. A partir dos dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – MDIC.

Fonte: Elaboração própria a partir de COMEXSTAT

A parir desses dados é possível estabelecer período de estabilidade bem definidos, entre 1997-2006 a média de importação do agregado malte esteve em 207mo US$ e do agregado lúpulo 16miU$$, para o período 2007-2016 o malte cresceu 184% atingindo uma média de 587miUS$, já o lúpulo cresceu 117% alcançando 36miUS$ de média, no último período analisado, 2017-2025, o malte cresceu 37% para marca de 805miUS$ de média e o lúpulo avançou 74% para casa de 62miUS$ de média. Essas variações têm nítida relação com a produção de cerveja e as flutuações econômicas, tais como crises cambiais e creditícias, e além da já conhecida proximidade com o poder de compra do trabalhador brasileiro, motor do mercado nacional de cerveja. Por fim, a importação de insumos no Brasil movimentou R$ 4,5 bilhões em 2025.

Diante do cenário, podemos afirmar que a atividade cervejeira impacta positivamente a agricultura e possui, devido à necessidade de importação de insumos, vasto caminho para expansão, sobretudo na cultura do lúpulo. Pontos de destaque: temos o crescente aumento de produtividade da cevada nas últimas décadas e do lúpulo nos últimos anos, a concentração da produção de cevada no Paraná e a dispersão da produção de lúpulo em mais de dez unidades da federação.

Essa dinâmica aponta para uma trajetória de verticalização e profissionalização, onde a integração entre a indústria da cerveja e o campo é o motor para reduzir a dependência externa e fortalecer a soberania agroindustrial nacional. Exemplo desse processo é a iniciativa da indústria nacional da cerveja de oferecer suporte técnico e contratos de compra antecipada para produtores de cevada do Sul do país, garantindo assim o escoamento da produção, a estabilidade da renda do produtor e a expansão da área plantada.

Por fim, podemos afirmar que a indústria da cerveja no Brasil impacta cerca de 2,1 mil propriedades rurais, cobrindo uma área de quase 150 mil hectares, com produção perto de 600 mil toneladas, num valor de produção de aproximadamente R$ 600 milhões por ano, em 13 unidades da federação e mais de 250 municípios.

ANEXO – Agregação de NCM por insumo

Código NCM  – Descrição Lúpulo

12102010 – Cones de lúpulo, triturados ou moídos, ou em “pellets”

13021300 – Sucos e extratos, de lúpulo

12101000 – Cones de lúpulo, frescos, secos, não triturados, não moídos, etc

12102020 – Lupulina

Código NCM  – Descrição – Cevada/Malte

10039010 – Cevada cervejeira        

11071010- Malte não torrado, inteiro ou partido            

11072010- Malte torrado, inteiro ou partido            

19019010- Extrato de malte            

11072020- Malte torrado, moído ou em farinha            

11071020 -Malte não torrado, moído ou em farinha            

10030091- Cevada cervejeira         

BIBLIOGRAFIA

AGRÁRIA. Estudo Cadeia Produtiva Cevada-Malte. Guarapuava-PR: AGRÁRIA, 2025.

APROLÚPULO. Mapa do Lúpulo Brasileiro 2024. Lages-SC: APROLÚPULO, 2025.

CONAB. Acompanhamento da Safra Brasileira. Brasília: CONAB, 2026.

IBGE. Pesquisa Agrícola Municipal. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.

IBGE. Censo Agropecuário 2017. Rio de Janeiro: IBGE, 2026.

MARCUSSO, E. Os primórdios do Lúpulo no Brasil. RIHGB, v.183, n.488, 2022.

PIMENTEL-GOMES, F. Curso de Estatística Experimental. Piracicaba: FEALQ, 2009.


Eduardo Fernandes Marcusso é Consultor Técnico da Câmara Setorial da Cerveja e Servidor do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).


* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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