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Reconhecimento do gramado: como é o mercado da cerveja nos países-sede da Copa do Mundo 2026?

Às vésperas do Mundial, o Guia da Cerveja fez uma análise dos mercados cervejeiros dos Estados Unidos, do Canadá e do México. O “reconhecimento do campo” mostra as semelhanças e contrastes do setor cervejeiro na América do Norte

A Copa do Mundo 2026 está chegando. Em menos de uma semana, na quinta-feira (11), a bola já começa a rolar com o primeiro jogo entre México e África do Sul no Estádio Azteca, na Cidade do México. Mas, como é costume no futebol, antes do apito inicial é preciso fazer o reconhecimento do gramado. Se o torneio fosse a Copa do Mundo da cerveja, isso seria equivalente a conhecer o mercado da cerveja dos países-sede, que pela primeira vez serão três: Estados Unidos, o Canadá e o México.

A América do Norte abriga operações que vão dos maiores conglomerados do mundo a microcervejarias de vanguarda. Ao analisar esses três “campos”, podemos observar três estágios de mercado completamente diferentes, moldados por raízes históricas, legislações locais e comportamentos de consumo distintos.

Seja você entusiasta da cerveja, profissional ou empresário do setor, que tal aproveitar o evento também como uma janela de observação e aprender com esses mercados?

O peso da camisa no mercado da cerveja da América do Norte

Que tal começar medindo literalmente os campos? Para isso, os relatórios globais de 2024 da Barth-Haas e do Grupo Kirin estabelecem um panorama de gigantismo da região na indústria cervejeira.

Os Estados Unidos e o México são, respectivamente, o 2º e o 4º maiores produtores de cerveja do mundo. O mercado americano fabrica cerca de 184,5 milhões de hectolitros anuais, seguido pelo volume mexicano de 144,9 milhões de hectolitros. O Canadá, com uma base populacional muito menor, ocupa a 19ª posição global, produzindo 20,4 milhões de hectolitros.

No entanto, não é o tamanho do gramado que garante a beleza da partida. A liderança de produção não reflete a sede do consumidor.

O México é o líder absoluto da região em consumo per capita (83,4 litros por pessoa ao ano), ocupando a 12ª posição mundial e mantendo a cerveja consolidada na cesta de consumo regular de mais de 60% da população. Os Estados Unidos (29ª posição global) vêm perdendo força, consumindo 65,4 litros per capita. Já o Canadá, impactado por mudanças demográficas, imigração e uma forte cultura de moderação, viu o consumo de álcool atingir seu nível mais baixo em 20 anos, com a cerveja girando em torno de 47 litros por habitante.

A bola também rola diferente em cada tipo de grama. A discrepância se estende aos preços. No varejo padrão, levantamentos globais mostram que EUA e Canadá figuram entre os dez países mais caros do mundo para se comprar cerveja. Segundo a plataforma financeira HelloSafe, custa em média R$ 12 e R$ 11 a garrafa de 355 ml, respectivamente. Nos supermercados mexicanos, o vasilhame de 500 ml sai por R$ 10, sendo ainda mais comuns os formatos ultraeconômicos de vidro retornável, como as garrafas de quase 1 litro (popularmente chamadas de caguamas).

Para dar o exemplo mais direto possível dessa disparidade, enquanto os estádios mexicanos na Copa venderão cervejas a partir de R$ 14, os modernos estádios da Califórnia quebrarão recordes ao cobrar até R$ 72 por copo.

O berço da cerveja moderna em fase de correção

Não é porque os ingleses inventaram o jogo chamado futebol que tem os melhores estádios. Da mesma forma, apesar de não serem uma das culturas cervejeiras mais tradicionais — como Reino Unido, Alemanha e Bélgica —, os Estados Unidos têm uma importância enorme para o mercado da cerveja no mundo hoje: eles adaptaram a cerveja para a versão mais popular do mundo hoje (o estilo American Lager) e são o berço do Renascimento da Cerveja Artesanal. É como se eles tivessem redefinido as regras do jogo. Duas vezes.

A base cervejeira americana vem dos colonizadores britânicos, mas foi fortemente influenciada por imigrantes alemães no século 19. Eles popularizaram as cervejas de baixa fermentação (Lagers) claras no Novo Mundo. A Lei Seca (1920-1933), com a proibição de produção e consumo de álcool, devastou milhares de pequenas fábricas, levando à consolidação do mercado por gigantes.

Após a guerra, elas popularizaram uma versão de cerveja inspirada nas Pilseners alemãs, mas muito mais leve e padronizada, com uso de adjuntos, como arroz e milho, e focada na produção em massa. O estilo, hoje chamado tecnicamente de American Lager mas muito conhecido ainda como Pilsen, domina seguramente mais de 80% do market share mundial.

Após anos de domínio de um único tipo de cerveja feito em massa para todos, a resposta veio a partir dos anos 1960. Pioneiros como a Anchor Brewing, New Albion e a Sierra Nevada resgataram estilos esquecidos, dando início ao que se chama de Renascimento da Cerveja Artesanal. Hoje os EUA são o mercado de craft beer mais maduro e desenvolvido do mundo. As mais de 9.578 microcervejarias independentes em operação controlam cerca de 13,3% do mercado nacional em volume (mais de 2,5 bilhões de litros). O setor movimenta cerca de US$ 28 bilhões anuais em vendas no varejo.

Ajuste de rota

Mas mesmo um terreno tão fértil pode sofrer com buracos no gramado. Dados de 2025 da Brewers Association (BA) mostram um mercado em correção. O volume de produção artesanal caiu 5% no ano, e o fechamento de fábricas (481) superou de forma acentuada as novas aberturas (300). Segundo Bart Watson, economista-chefe da BA, trata-se de uma “vibecession” — um momento em que a percepção pessimista parece pior do que os dados reais, visto que 39% das cervejarias ainda registraram crescimento no período.

A dinâmica financeira atual forçou as cervejarias a focarem no modelo de venda direta e na hospitalidade de seus taprooms e brewpubs. Esses formatos se mostram mais resilientes contra a saturação das prateleiras do varejo tradicional.

Além disso, o mercado da cerveja americano encontrou um novo e poderoso “montinho artilheiro”, um filão de faturamento: a categoria de cervejas artesanais sem álcool, cujas vendas em dólares saltaram 159% (e 111% em volume) desde 2021, surfando na onda de saúde e moderação, da qual a Geração Z vem se mostrando adepta.

Tradição autossuficiente e o peso do Estado

O campo canadense não é tão moderno quanto o dos Estados Unidos. Mas segue suas diretrizes e se mostra bem honesto, possibilitando boas partidas de diferentes estilos de jogo.

A escalação e a consolidação do mercado da cerveja no Canadá foram desenhadas por sucessivas ondas migratórias, iniciadas pelos colonos da Nova França no século 17. Os primeiros registros de cerveja datam dessa época em Quebec. Desse período e do contato com os povos indígenas, nasceu a exótica Spruce Beer (Cerveja de Abeto), feita com brotos de pinheiro para combater o escorbuto (doença provocada por falta de vitamina C) durante os rigorosos invernos.

Com a posterior dominação britânica e a chegada massiva de soldados e lealistas fugindo dos EUA, o paladar do país mudou drasticamente, criando uma enorme demanda por Ales que impulsionou a fundação de cervejarias históricas, como a de John Molson (1786) e a de Alexander Keith (1820).

Essa fusão de influências europeias e adaptações locais moldou a diversidade que o consumidor encontra hoje no mercado canadense. As províncias atlânticas preservam a herança britânica, Quebec foca em inspirações franco-belgas e a Colúmbia Britânica absorve as inovações lupuladas da Costa Oeste dos Estados Unidos.

Hoje o Canadá possui um mercado artesanal consolidado e maduro. O país conta com cerca de 1,3 mil cervejarias que detêm sólida participação de 10% em volume no mercado interno. Uma característica comercial fortíssima do Canadá é a autossuficiência e a lealdade do consumidor. Impressionantes 88% de toda a cerveja bebida no país é produzida domesticamente pelas cervejarias locais.

O desafio da “arbitragem”

O maior desafio para a cadeia cervejeira canadense, no entanto, é a arbitragem. Os juízes são muito rígidos, construindo um ambiente regulatório e tributário dos mais agressivos para cervejarias no mundo.

Os impostos governamentais engolem quase 50% do preço final da cerveja nas prateleiras. O cenário foi agravado em abril de 2024, quando o governo introduziu um aumento de 4,7% no imposto federal sobre a cerveja (a maior alta em quase 40 anos), gerando forte custo operacional e drenando dezenas de milhões de dólares do setor.

Aliado a isso, o escoamento dos produtos ainda esbarra em monopólios de distribuição em várias províncias, como The Beer Store em Ontário, exigindo das cervejarias independentes canadenses estratégias altamente eficientes para se manterem viáveis e criando uma barreira de entrada quase intransponível para marcas importadas.

Um mercado da cerveja gigante e adormecido

O gramado mexicano foi moldado para possibilitar um jogo tradicional, mas dificulta o jogo de quem aposta na criatividade.

Durante a era colonial do século 16, a Coroa Espanhola restringiu a produção de cerveja com altas taxas para forçar a importação de vinhos. O consumo mexicano se voltou para fermentados locais como o pulque (seiva de agave fermentada) e o tesgüino (cerveja de milho). A virada ocorreu no final do século 19, sob influência de imigrantes europeus e do breve império de Maximiliano I da Áustria, que introduziu as tradicionais cervejas tipo Vienna Lager — uma tradição até hoje presente em rótulos como Negra Modelo.

No início do século 20, as grandes cervejarias industriais fizeram campanhas contra as bebidas nativas, consolidando definitivamente a cerveja de matriz europeia como bebida popular moderna. A indústria também aproveitou os efeitos do período da Lei Seca dos Estados Unidos para crescer. Muitos atravessavam a fronteira para beber e deixavam o dinheiro para as cervejarias mexicanas.

Atualmente, o panorama financeiro mexicano apresenta uma dicotomia extrema. Na produção industrial, o México é um titã. A cerveja é uma das principais exportações. Na verdade, o país é o maior exportador de cerveja do planeta com rótulos onipresentes como Corona e Modelo Especial. O mercado da cerveja interno é dominado de cerca de 90% a 95% pelo duopólio formado pelo Grupo Modelo (Anheuser-Busch InBev) e pela Cervecería Cuauhtémoc Moctezuma (Heineken).

Por outro lado, o mercado artesanal é uma fração pequena ainda. Segundo dados da Associação de Cervejarias Independentes do México (Acermex), as microcervejarias (cujo número é estimado entre 940 e 1,5 mil) representam algo em torno de meros 0,22% a 0,23% de todo o volume de cerveja consumido no país.

“Custo México”

Performar nesse tipo de campo exige muita energia dos jogadores mais criativos. Apesar das taxas de crescimento que chegaram a superar 50% ao ano na última década, os empresários artesanais enfrentam as agressivas barreiras do “Custo México”.

Pela falta de uma infraestrutura agrícola nacional voltada à cerveja, eles precisam importar cerca de 85% de suas matérias-primas primárias, como malte e lúpulo. O que expõe o setor artesanal a uma forte volatilidade cambial frente ao dólar.

Além disso, a carga tributária é punitiva: os produtores pagam 16% de Imposto de Valor Agregado (IVA) somado a um Imposto Especial sobre Produção e Serviços (IEPS) que pode chegar a 26,5% para pequenas empresas. O estresse hídrico no norte do país (onde se concentra mais da metade da produção artesanal) é outra enorme ameaça de longo prazo, tendo levado o governo a sugerir, em secas recentes, que o setor paralisasse atividades por não ser “essencial”.

Mesmo com as dificuldades, a cadeia artesanal mexicana inova ao se desvincular das tendências estritas dos vizinhos. Ela utiliza ingredientes como cacau, café, tamarindo, goiaba e pimentas nativas, criando complexidade e identidade local que têm garantido prêmios e o início de exportações de nicho bem-sucedidas.

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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