Poucas pessoas conhecem o mercado cervejeiro americano tão bem quanto Bob Pease. Ex-presidente e CEO da Brewers Association, onde atuou por 32 anos até se aposentar em 2025, foi ele quem liderou a campanha de 12 anos que resultou na aprovação do Craft Beverage Modernization and Tax Reform Act, cortando em 50% o imposto federal sobre a cerveja artesanal nos Estados Unidos.
Duas vezes eleito Pessoa do Ano da indústria pelo veículo especializado norte-americano BrewBound e com presença constante na lista dos principais lobistas de Washington, Bob Pease subiu ao palco da 19ª edição do Congresso Brasileiro de Ciência e Tecnologia Cervejeira (CBCTEC) na Brasil Brau 2026 sem vender otimismo barato. Trouxe números duros e recados diretos que merecem atenção do cervejeiro brasileiro, até porque as tendências americanas costumam chegar por aqui com alguns anos de atraso.
Bem-estar e falta de fidelidade à bebidas
O primeiro recado é de contexto. A Pandemia de Covid-19 abriu o olho do consumidor para saúde e bem-estar, e esse movimento se somou a uma atuação coordenada de forças neoproibicionistas que trabalham para demonizar o álcool. O resultado é que a ocasião de consumo da cerveja, antes praticamente cativa, passou a ser disputada com outras bebidas e até com a abstinência.
Bob Pease também descreveu a nova geração de consumidores como “omnibibulous”: todo mundo bebe de tudo. No passado, cada pessoa tinha a sua bebida de preferência e raramente saía dela. Hoje o mesmo consumidor transita entre cerveja, vinho, destilados e drinks sem álcool.
E há um dado que deveria incomodar o setor: o principal motivo apontado para não consumir cerveja artesanal é simplesmente não gostar do sabor. Somem-se a isso a polarização do mercado, dividido entre rótulos de baixo teor alcoólico e latas únicas de alta graduação, e o retrato fica completo.
O que fazer, segundo Bob Pease?
Diante desse cenário, qual a saída? Para Pease, o ponto de partida é inegociável: “world class beer gets you in the game”. Ou seja, a cerveja de nível mundial não é diferencial competitivo. É o ingresso para entrar no jogo. Quem não tem qualidade nem chega a disputar. Quem tem, apenas começou.
A partir daí, o jogo se decide em outro campo. “It’s the experience, stupid”. O cliente precisa de uma razão concreta para voltar: ser recebido com cordialidade, encontrar copos limpos, ter um atendimento impecável. “World class service” deixou de ser luxo e passou a ser condição de sobrevivência.
Na visão de Pease, a cervejaria precisa entender que está no negócio da hospitalidade. O consumidor tem que sair do taproom sentindo que o dinheiro foi bem gasto. Quando isso não acontece, ele não volta e ainda compartilha a má experiência com outros.
Há ainda um alerta econômico relevante: cerca de 40% da capacidade produtiva instalada nos Estados Unidos está ociosa. Capacidade parada é prenúncio de mais fechamentos. A resposta passa por foco no consumidor, resiliência e pela busca constante de formas de fazer a marca se destacar.
A cerveja não vai a lugar nenhum!
Apesar do diagnóstico duro, a conclusão de Pease é de confiança no produto: “beer is not going anywhere”. A cerveja vai continuar aqui.
A pergunta que fica para o cervejeiro brasileiro é se a sua operação está preparada para um jogo que agora exige, ao mesmo tempo, qualidade de nível mundial, experiência memorável e hospitalidade genuína.
André Lopes é advogado, sócio do escritório Lopes Verdi Advogados e criador do Advogado Cervejeiro.
* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.


