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Acordo Mercosul-UE: o que muda, de fato, para o setor cervejeiro

“Se o setor brasileiro souber usar esse novo ambiente para se preparar melhor, ampliar presença qualificada e profissionalizar sua inserção internacional, o acordo Mercosul-UE pode representar uma oportunidade histórica”, diz o tributarista Clairon Gama

Durante muitos anos, o acordo Mercosul-UE foi tratado como uma promessa distante. Sempre presente no debate, mas ainda fora da rotina prática das empresas. Isso mudou em 2026. O Congresso brasileiro promulgou, em 17 de março, o Acordo Provisório de Comércio entre os blocos. E o governo federal concluiu em 28 de abril a etapa final para viabilizar sua entrada em vigor, com início em 1º de maio de 2026. A partir daí, o acordo entre Mercosul e União Europeia deixou de ser apenas diplomático e passou a merecer leitura concreta também pelo setor cervejeiro. 

Acordo Mercosul-UE

É claro que não estamos diante de uma abertura instantânea e irrestrita. O próprio factsheet oficial do acordo mostra que a lógica adotada é de desgravação gradual, com cronogramas diferentes conforme o produto e sua sensibilidade. 

Na oferta europeia, há eliminação tarifária em prazos de 4, 7, 8, 10 e 12 anos; na oferta do Mercosul, os prazos vão de 4 a 15 anos. Em termos amplos, a UE eliminará tarifas sobre aproximadamente 95% dos bens, enquanto a oferta do Mercosul cobre cerca de 91% dos bens importados da União Europeia. 

Em outras palavras, o acordo cria uma nova trajetória de integração comercial, mas não produz, da noite para o dia, um mercado plenamente nivelado. 

E a cerveja?

Para a cerveja brasileira, isso significa uma oportunidade real, mas que não pode ser romantizada.

O Brasil já exporta cerveja e os números mais recentes mostram isso com clareza. Em 2025, foram 315,5 milhões de litros exportados, com faturamento recorde de US$ 218,3 milhões e preço médio de US$ 0,69 por litro, o maior da série recente. A cerveja brasileira chegou a 77 países.

O dado, porém, precisa ser lido com atenção, pois 98,5% do volume exportado teve como destino a América do Sul e os países europeus ainda aparecem de forma bastante modesta entre os principais compradores. Os Países Baixos, por exemplo, surgem como primeiro destino fora do continente americano, com 214.785 litros em 2025. 

Esse ponto é importante porque ajuda a separar expectativa de realidade. O acordo pode facilitar acesso e melhorar condições comerciais ao longo do tempo, mas ele não transforma automaticamente a cerveja brasileira em protagonista no mercado europeu. Hoje, nossa presença internacional ainda é fortemente concentrada no entorno regional. Isso quer dizer que a oportunidade existe, mas exigirá mais do que redução gradual de barreiras. Exigirá estratégia comercial, regularidade de fornecimento, posicionamento de marca, adaptação a exigências técnicas e capacidade de competir em mercados mais maduros. 

Importações

Mas o acordo não traz apenas portas de saída. Ele também aumenta a pressão de entrada. O Anuário da Cerveja 2026 mostrou que o volume de cerveja importada pelo Brasil saltou 251,4% em 2025, chegando a 26,3 milhões de litros, enquanto o valor importado cresceu apenas 1,7%.

Com isso, o preço médio da cerveja importada caiu para US$ 0,36 por litro, o menor da série histórica. Sem falar que dos quinze maiores exportadores de cerveja para o Brasil em volume, nove são europeus. E, em valor, a Alemanha lidera as importações brasileiras de cerveja. Isso mostra que a integração comercial precisa ser lida também como teste de competitividade para a indústria nacional. 

Oportunidade ou ameaça?

Por isso, talvez a principal contribuição do acordo para o setor cervejeiro não seja a promessa de expansão automática, mas a imposição de uma nova régua. O debate deixa de ser apenas sobre se haverá oportunidade e passa a ser a respeito de quem está preparado para aproveitá-la. 

Há aqui uma lição que vale além da cerveja. Em comércio internacional, acordos não substituem competitividade interna. No máximo, a expõem com mais nitidez.

Se o setor brasileiro souber usar esse novo ambiente para se preparar melhor, ampliar presença qualificada e profissionalizar sua inserção internacional, o acordo Mercosul-UE pode representar uma oportunidade histórica. Caso seja tratado apenas como manchete otimista, o risco é outro: abrir mais o mercado sem conseguir ocupar com a mesma velocidade os espaços que ele promete criar. 


Clairton Gama é advogado e sócio do escritório Kubaszwski Gama Advogados Associados. Possui mestrado em Direito pela UFRGS e é especialista em Direito Tributário pelo IBET. Além disso, é cervejeiro caseiro.


* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.

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