A produção de lúpulo no mundo enfrenta hoje um cenário de excesso de oferta. E uma das grandes causas está longe das lavouras. O consumidor global mudou: ele está bebendo menos cervejas tradicionais, buscando novos perfis de sabor e impulsionando uma verdadeira explosão de opções sem álcool. Isso tudo está levando as fábricas a mudarem ou criarem receitas com menos dessa matéria-prima.
O resultado é um “efeito dominó” que está esmagando os preços — do outro lado, os custos estão aumentando com a inflação —, gerando sobras históricas e forçando os produtores a se reinventar. É o que mostram os dados e análises do BarthHaas Report 2025/2026, a principal e mais prestigiada referência estatística do setor no mundo, lançado em 21 de julho na Alemanha.
Produção de lúpulo mundial
Com o objetivo de não gerar ou diminuir os estoques, os produtores globais cortaram o tamanho de suas plantações, fazendo com que a área mundial cultivada caísse 5,5%, para 52.660 hectares. Houve também um declínio de 3,8% no volume físico da colheita, que totalizou 109.188 toneladas em todo o mundo. No entanto, o “tiro saiu pela culatra”. A planta se tornou mais eficiente: o rendimento médio global subiu de 2,04 para 2,07 toneladas por hectare, e o teor médio de ácido alfa — como o relatório nomeia o princípio ativo do amargor — subiu levemente para 10,6%.
O resultado foi a manutenção de um quadro de excesso. “Embora a área cultivada tenha sido reduzida mais uma vez, o mercado ainda não encontrou o equilíbrio”, analisa Heinrich Meier, autor do relatório. Ele explica que a produção de lúpulo excedeu a demanda novamente em 2025, gerando uma sobra de aproximadamente 1,2 mil toneladas de ácido alfa no mercado global, o equivalente a uma capacidade estrutural de superprodução de cerca de 5,1 mil hectares. Quando somados os anos anteriores, o mundo acumula impressionantes 8,6 mil toneladas de amargor desde 2020.
Para os produtores, esse descompasso gerou impacto no preço. Nas vendas sem contrato prévio, variedades tradicionais como Perle e Hallertau Tradition chegaram a ser entregues por valores irrisórios, entre um e dois euros por quilo na Alemanha. No caso de lúpulos de amargor, como o Herkules, as propostas no mercado à vista foram de 25 euros por quilo de ácido alfa. “A indústria global de lúpulo e cerveja está passando por um período de profunda mudança estrutural”, crava Thomas Raiser, CEO da BarthHaas. Segundo ele, o excedente persistente é agravado pelo comportamento do consumidor e pela “crescente pressão econômica em toda a cadeia de valor”.
Amargor das cervejas em baixa
A raiz do problema não está apenas na estagnação das vendas de cerveja, mas na decisão contínua das cervejarias de utilizar cada vez menos lúpulo de amargor na elaboração de suas receitas, diz o relatório.
A produção global de cerveja caiu levemente (0,7%) em 2025, fechando em pouco menos de 1,896 bilhões de hectolitros. Entretanto, a demanda específica por lúpulo despencou de forma muito mais agressiva: uma queda de quase 3%, caindo para apenas 10,7 mil toneladas de ácido alfa demandadas.
Ou seja, além do menor volume de bebida fabricada, “os principais fatores responsáveis foram a redução da dosagem de lúpulo no processo de fabricação e as mudanças na estrutura de estilos de cerveja”, enfatiza o documento da BarthHaas.
Isso é comprovado pela chamada taxa de dosagem, que mede as gramas de ácido alfa utilizadas por hectolitro de cerveja. O dado vem caindo ano a ano, ininterruptamente, passando de 5,78 gramas alfa/hl em 2022 para 5,50 gramas alfa/hl em 2025, com projeções de que o índice recue ainda mais para 5,42 gramas alfa/hl em 2026.
Aroma em alta
Enquanto o amargor puro perde espaço, a busca por aroma e sabor consolidou as variedades aromáticas como a prioridade das fazendas.
Os números mostram que a participação das variedades de aroma aumentou tanto no volume físico colhido quanto no volume de ácidos alfa produzidos. Em 2025, as variedades de aroma responderam por 53,4% do peso físico de toda a colheita mundial, relegando o lúpulo de amargor estrito a 46,6%.
A força do aroma é tão resiliente que a variedade Citra® — uma das mais tradicionais dos EUA — quebrou a tendência de queda do mercado e voltou a crescer 11,9% em área plantada no Pacífico Noroeste americano.
Cervejas sem álcool aumentam

Mas uma das grandes esperanças da indústria do lúpulo são as cervejas sem álcool. O documento da BarthHaas dedica um capítulo inteiro para relatar o estrondoso sucesso da categoria, apontando que as vendas desse segmento estão crescendo a taxas impressionantes de 85% nos EUA, 8% na Alemanha e 150% na Irlanda nos últimos cinco anos.
Do ponto de vista técnico, a ascensão das cervejas sem álcool acabou valorizando o uso do lúpulo. Sem o etanol, a cerveja perde muito do efeito conservante natural. O relatório explica que, para compensar essa ausência e evitar contaminações microbiológicas, as cervejarias estão utilizando os ácidos amargos do lúpulo na brassagem como escudos protetores.
Em paralelo, para mascarar a falta do álcool e muitas vezes o sabor residual dos processos de produção, “o late hopping no whirlpool e no final da fermentação demonstraram ser eficazes na produção de um aroma de lúpulo que é ao mesmo tempo equilibrado e complexo”, diz o documento.
Aposta em novos produtos de lúpulo
O lúpulo em seu formato natural de flor ou mesmo peletizado está dividindo as atenções com soluções laboratoriais mais eficientes. Segundo o relatório, o mercado tem exigido o desenvolvimento de produtos modernos que ofereçam “soluções práticas e eficientes para a produção de cervejas e outras bebidas”.
A resposta da indústria tem sido uma nova geração de extratos oferecidos em forma líquida e compacta. O apelo para a migração não é apenas produtivo, mas também financeiro: os novos produtos líquidos melhoram o prazo de validade do insumo e garantem “economias nos custos de logística e armazenamento”.
Para o produtor de cervejas, a vantagem vai muito além da panela de fervura. O uso dessas formulações amplia o leque criativo, permitindo um “controle direcionado de parâmetros específicos do produto, como turbidez, sabor e estabilidade”, qualidades importantes para criar as novas cervejas artesanais e os produtos sem álcool.
Sustentabilidade e genética na produção de lúpulo
A crise econômica do lúpulo divide os holofotes com os severos desafios impostos pelas mudanças climáticas. O clima extremo tem forçado os agricultores a buscar soluções na agronomia e na genética. Nos EUA, o Pacífico Noroeste lidou com um terceiro ano consecutivo de seca, com os reservatórios do emblemático Yakima Valley operando com apenas 38% de sua capacidade normal na primavera, além de enfrentar incêndios florestais ameaçadores no verão.
O grande laboratório de sucesso contra o clima hostil foi a Austrália. O país registrou secas prolongadas e duas ondas de calor intenso na região produtora de Victoria, no Sudoeste do país, mas manteve rendimentos excepcionais. O relatório da BarthHaas atribui esse êxito ao fornecimento confiável de água aliado ao uso de variedades proprietárias exclusivas “adaptadas ao clima” desenvolvidas pela Hop Products Australia (HPA).
O resultado de investir em genética focada em resistência climática fez com que a Austrália alcançasse um teor de ácido alfa altíssimo de 16,4% nas variedades Galaxy® e Vic Secret™, superando as médias globais.
O CEO Thomas Raiser alerta que “a sustentabilidade deixou de ser apenas um diferencial opcional. Está se tornando um pré-requisito fundamental para a competitividade a longo prazo”. Para o mercado de lúpulo do futuro, o sucesso não dependerá apenas da quantidade que se planta. Mas da eficiência limpa e tecnológica que se consegue colher.


