“O mundo tá ao contrário e (quase) ninguém reparou”
Tava pensando nessa frase de “Relicário”, música do Nando Reis que resume bem o momento que a gente vive, e fiquei preocupado. Enquanto uma parte do mundo discute a escalação da Seleção, outra camada da realidade expõe guerras, democracias fragilizadas e um futuro cada vez mais incerto. Um palco onde discursos de medo e intolerância ganham espaço e se replicam na voz de líderes cada vez mais (perigosamente) à direita. Nesse ambiente, as redes sociais viram trilha de pólvora, incendiada pela polarização que divide o mundo em uma torcida organizada. É preocupante, talvez você também tenha pensado nisso, mas não foi sobre política que eu mais pensei no fim de semana.
Foi em um palhaço.
Aipim é o alter ego do artista circense Davi Maia, que mistura humor, acrobacias em pernas de pau e uma rara capacidade de fazer pensar enquanto diverte. Vi o show dele com as crianças, em um espetáculo de malabarismos que deixou as crias vidradas, arrancava gargalhadas da plateia, mas também mantinha a atenção dos adultos de um jeito diferente.
Pra quem via de fora, era só um show de palhaço. Mas, entre uma piada e outra, Aipim deixava pequenas provocações pelo caminho. Ela falava sobre futuro, escolhas, cultura e educação, além de pontuar sobre a importância de preservar espaços onde as pessoas possam pensar, aprender, discordar e conviver.
Tudo isso na brincadeira, zero discurso.
O puro suco da refinadíssima arte da metáfora, na qual o palhaço raiz (com perdão do trocadilho) mostrou também ser mestre. Talvez por isso tenha sido tão eficaz.
Enquanto as crianças riam, os adultos ouviam perguntas que não costumam aparecer em um domingo à tarde. Perguntas feitas com um sorriso escancarado, carregadas de seriedade e incômodo invisíveis, mas notáveis.
Como o fato de ver um palhaço de rua pensando mais sério sobre nossa liberdade e o futuro do mundo do que pessoas em posições mais privilegiadas, que podem influenciar e decidir o debate.
Confesso que tomei um gole invisível para pensar naquilo.
A gente vive num mundo que enxerga certas profissões por uma hierarquia invisível. Nela, uns são responsáveis por pensar o futuro. Outros só seguem vivendo dentro dele.
Naquele momento, durante o show, essa divisão morreu. Quem exercia a cidadania de forma mais concreta não era uma autoridade, um especialista ou um líder político.
Era um artista de rua.
Alguém que depende da praça, da circulação de pessoas, de oportunidades escassas, da existência da cultura, da liberdade de expressão e da própria vida pública para continuar fazendo seu corre.
Talvez por isso, “o palhaço das pernas de pau” entenda tão bem o que está em jogo, percebendo o que muitos de nós esquecemos: o futuro não é construído só em gabinetes, nas eleições ou em grandes discursos.
Ele também é construído em conversas numa mesa de bar, em encontros, na arte, na educação e nos pequenos espaços onde a gente aprende a conviver com quem pensa diferente. Algo que a pandemia de Covid colocou na pauta, mas que começou a sair de cena tão logo a contagem de corpos também parou.
Saí do espetáculo de boca seca e cabeça explodindo, pensando que a pergunta mais importante do dia não veio de um analista político.
Veio de um palhaço.
Talvez isso diga menos sobre ele do que sobre a gente. Afinal, se até um palhaço tá preocupado com o futuro, a pergunta que temos que fazer é: o que a gente anda fazendo com essa preocupação?
É pra pensar entre umas e outras.
Eduardo Sena é publicitário, entusiasta cervejeiro, podcaster e agitador etílico-cultural. Com mais de 20 anos de experiência como criativo, é diretor de conteúdo do Hora do Gole HUB — plataforma que conecta cerveja, cultura, equidade e criatividade. Também colabora como estrategista e criativo para outras marcas.
* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.


