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Entrevista: Zine “Na Língua” mapeia a “poliglotia líquida” do Brasil para descolonizar o paladar

Durante séculos, fomos ensinados a olhar para o copo e associar sofisticação quase que exclusivamente àquilo que vem de fora do país. E nosso ecossistema brasileiro de bebidas gasta muita energia para dominar os cânones importados, como estilos de cerveja estrangeiros ou tipos de vinhos europeus. Enquanto isso, tecnologias fermentativas complexas e ricas de matriz afro-indígena foram invisibilizadas ou tratadas como saberes “menores” ao longo da nossa história. Mas e se a gente começasse a propor um “reflorestamento” do nosso próprio paladar?

Essa é uma das provocações de “Na Língua”, uma fanzine lançada no início de junho que busca uma reflexão cultural, histórica e sensorial sobre o beber brasileiro. Idealizada pelas sommelières Aline Smaniotto (que também é antropóloga) e Bia Amorim (colunista do Guia), à frente da agência BeberÚ, a publicação faz um resgate riquíssimo da nossa “poliglotia líquida” — mostrando que o país fala a língua de bebidas que vão muito além do comum, incluindo fermentados ancestrais, como o Tarubá e o Aluá.

O projeto é um desdobramento direto do curso “Sommelieria Pindorama”, criado pela dupla em 2023, e se materializou graças ao apoio do Edital Fermenta 2025, da Academia da Cerveja, da Ambev. “Na língua” foge da estética engessada dos guias tradicionais e mistura ensaios, memórias afetivas, ilustrações e até cartas para refletir sobre a nossa cultura etílica. 

São muitos nomes e textos que valem a leitura. Citar aqui apenas alguns seria injusto. A boa notícia é que o leitor interessado pode ver tudo isso no próprio material, que está disponível para download gratuito no site da BeberÚ.

Para mergulhar de cabeça nessa tentativa de explorar a brasilidade e “descolonizar o copo” e fugir do lugar comum, o Guia da Cerveja fez uma entrevista exclusiva com Aline e a Bia. Na conversa a seguir, elas explicam por que colocar um ingrediente exótico no copo não é o suficiente para criar brasilidade e fazem um convite irrecusável para valorizarmos o nosso jeito de servir e beber.

No editorial, vocês citam que a zine “Na Língua” nasceu para “instigar mais bebericagens sobre os Brasis que habitamos”, no plural. O que a maioria das pessoas e dos negócios ainda confunde quando tenta vender ou servir “brasilidade” em formato líquido?

Pouca gente efetivamente vende ou serve o Brasil com esse olhar atualmente. A brasilidade surge muitas vezes como tema, decoração ou ingrediente pontual, mas não como uma reflexão mais profunda sobre território, memória, clima, hábitos de consumo e modos de convivência. 

Falar dos Brasis no plural é justamente reconhecer que não existe uma forma única de ser brasileiro e como isso se reflete nas práticas do comer e beber. Existem muitos repertórios, ingredientes, histórias e tecnologias convivendo ao mesmo tempo.

Talvez a principal confusão seja transformar a brasilidade em uma estética quase única, quando ela poderia ser entendida como uma experiência cultural viva, diversa e interessante de ser consumida e mais conectada aos comensais.

Como o mercado pode abraçar ingredientes nossos (como o pequi, o buriti ou o caju) sem tratá-los como mera curiosidade ou “gourmetização” passageira?

Esse ponto é complexo e muito interessante de ser investigado. O desafio é dar forma, assinatura e identidade sem recorrer ao óbvio. Construir uma linguagem que escape dos clichês de brasilidade e da estética gourmet previsível. 

Talvez o caminho seja tirar esses ingredientes do exótico e olhar para os contextos que o cercam: quem produz, quem consome, quais saberes estão envolvidos e quais histórias ele carrega. O ingrediente passa a ser entendido como cultura alimentar, ganha profundidade e permanência.

Olhar para os Brasis e valorizar os nossos sabores, técnicas e memórias, tanto quanto ou até mais do que valorizamos aquilo que vem de fora. 

“Na Língua” faz um resgate riquíssimo de tecnologias ancestrais e locais, como o Tarubá e o Aluá. Por que o ecossistema de bebidas no Brasil prefere gastar energia dominando os cânones e estilos de escolas estrangeiras (como IPAs ou vinhos europeus) em vez de codificar e valorizar a nossa própria “poliglotia” líquida?

Durante muito tempo aprendemos a reconhecer qualidades a partir de referências externas. Isso aconteceu com as cervejas, com os vinhos, com a gastronomia no geral e até com a ideia de sofisticação que isso trazia. Os estilos europeus e norte-americanos possuem séculos de documentação, instituições, mercado e prestígio construídos. Quem domina as histórias e as formas de contá-las detém o poder.

Precisamos também construir essa relevância, experienciar e documentar essas culturas diversas, trazendo diferentes falas, de diferentes personagens, de diferentes regiões.

Já muitas das nossas tecnologias alimentares e fermentativas foram invisibilizadas ou consideradas menores ao longo da história. O que a zine “Na Língua” propõe não é abandonar esses repertórios internacionais, mas ampliar a conversa. O Brasil possui uma enorme poliglotia líquida, formada por bebidas indígenas, afro-brasileiras, rurais e urbanas. Valorizar esse patrimônio também é uma forma de produzir conhecimento e inovação.

Bia, no seu ensaio você faz um “convite para um serviço à brasileira”. Na prática do bar, do restaurante ou até do isopor na rua, como se materializa esse serviço? É uma questão de temperatura, de copo, de hospitalidade ou de tudo junto?

Bia Amorim: Tudo junto. Entendo que o Brasil já possui uma assinatura própria de hospitalidade, mas ela ainda precisa ganhar mais força quando colocamos nossos sabores e saberes à mesa e também nossa forma, atenção e cuidado. Essa materialização passa pela construção de uma identidade que reconhecemos como nossa e que precisa ser fortalecida em toda a cadeia do beber.

O serviço à brasileira precisa ser compreendido por quem serve e por quem bebe. Por isso considero fundamental trazer essa conversa para a rotina dos bares, restaurantes e eventos, valorizando também as pessoas que estão com a bandeja na mão e fazem a experiência acontecer.

Eu defendo, por exemplo, que beber uma cerveja bem gelada faz parte de uma cultura construída em um país de temperaturas elevadas, onde o refresco tem papel importante na sociabilidade. Diante das mudanças climáticas, é interessante pensar como até as tradições consideradas universais podem se transformar. Será que os verões europeus não começam a pedir cervejas mais leves e mais geladas do que no passado?

O convite para um serviço à brasileira nem sempre precisa acontecer por meio de um discurso. Muitas vezes ele acontece no próprio gesto de servir, acolher e compartilhar.

Aline, como antropóloga, você menciona no seu texto que regimes etílicos coloniais violentos tentaram apagar os modos de fermentação dos povos originários. Como essa estrutura colonial ainda dita o que o brasileiro médio considera uma “bebida de status” hoje em dia?

Aline Smaniotto: Quando falamos em descolonizar pensamentos e paladares, não é apenas sobre uma única classe. A questão não é sobre um status médio do consumo. É toda uma estrutura social. Quem dita as regras do jogo comercial e do consumo são os discursos dominantes. Inverter as regras do jogo é então reflorestar nosso paladar por meio de nos aproximarmos, valorizarmos e permitirmos que nós mesmos ditemos as nossas próprias preferências. Narrar e ouvir nossas próprias histórias. 

O comer e o beber fizeram parte da tecnologia de memória para as culturas afro-indígenas. São culturas que construíam o social e seus modos de se relacionar entre si, com os animais, com as plantas, através de suas cosmologias. Que, por sua vez, a todo momento nos contam sobre o que, com quem e para que se come e se bebe. O apagamento de povos passa pelo apagamento de tudo o que os une, e uma das pontas desse elo é a cultura alimentar. 

Quiseram nos fazer acreditar que as bebidas do dito norte do mundo, que as suas técnicas e seus ingredientes eram melhores que os nossos. E nos desconectaram de nossos territórios, da nossa gente. Por isso, a urgência em retomá-los em todo o seu valor e seus sentidos. 

Agora é continuar nossa pesquisa e entender as demandas de uma nova edição de “Na Língua”, com mais bebidas, mais brasilidade, provocações e debates sobre esse beber brasileiro.

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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