No início de maio, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) noticiou a aprovação de um financiamento de R$ 49,8 milhões para a Cooperativa Agroindustrial Agrária, do distrito de Entre Rios, em Guarapuava (PR). O dinheiro é destinado à construção de uma nova torre com capacidade de 80 mil toneladas, além da modernização do parque industrial. No entanto, a novidade é só a ponta de um iceberg de R$ 1,1 bilhão: o projeto de construção de uma nova maltaria dedicada a maltes especiais que deve dar frutos a partir de 2028. Além de reduzir a dependência brasileira de importações, o projeto pode reduzir o preço desse tipo de produto em até 40%.
Foi o que explicou ao Guia da Cerveja o superintendente de Negócios da Cooperativa Agrária, Jeferson Caus, ao detalhar os planos de expansão da empresa. O executivo contou que é um projeto inédito nessa escala no Brasil — hoje apenas algumas micromaltarias fazem pequenos lotes desse tipo de produto.
O projeto está sendo realizado em parceria com a empresa alemã Ireks, referência mundial no setor de ingredientes para panificação e cervejaria, e conta com o apoio do governo estadual por meio do programa de incentivos fiscais.
Confira os detalhes da nova maltaria de maltes especiais da Agrária na entrevista abaixo.

A notícia do empréstimo do BNDES para a ampliação da maltaria nos chamou a atenção. Quais são os planos para essa nova torre? E o valor de aproximadamente R$ 50 milhões divulgado compõe o total do projeto?
Vamos por partes. O montante do anúncio do BNDES é só uma pequena parte de um projeto maior: a construção de uma maltaria de maltes especiais. São maltes torrados e caramelizados, que fogem dos maltes base, como o Pilsen, Pale, Viena e Munique. Eles precisam de um cuidado maior na sua criação. Hoje, a grande maioria desses maltes não é produzida em grande escala no Brasil e ficamos muito dependentes de importação.
E a Agrária vem há muito tempo pensando em dar um passo nesse sentido, o que seria importante até para o mercado brasileiro, uma vez que, a partir daí, as cervejarias poderão ter a possibilidade de contar com matéria-prima nacional, produzida no Brasil com cevada brasileira. Com certeza, isso traria um benefício em termos de custo, uma vez que haverá economia com a questão da importação e dos impostos.
Então, a gente entende que, com isso, vamos ajudar a viabilizar muitos projetos de cervejeiros e cervejarias que estavam na gaveta por conta de custos. E agora poderão sair do papel. Mas não é fácil. Por isso vamos contar com um parceiro para trazer know-how para o projeto.
Acontece que, junto com essa iniciativa, a gente vai aproveitar e fazer uma série de melhorias no nosso processo. Inclusive uma reforma total da nossa primeira maltaria (a M1, iniciada em 1977 e que produz desde 1981). E, para não perder produtividade nesses anos do projeto, decidimos construir uma nova torre.
O financiamento do BNDES foi mais atrelado a essa reforma do que ao projeto como um todo. Mas o investimento total gira mesmo em torno de R$ 1,1 bilhão.
Então, a reforma, a parte do BNDES, fazem parte de um projeto maior, de uma maltaria de maltes especiais. Primeiro, sobre a reforma, qual é a ideia?
A gente vai aproveitar e fazer uma série de melhorias no nosso parque industrial, desde a armazenagem, transferência e beneficiamento da cevada, até a reforma na M1. Serão automações e inovações tecnológicas para elevar nossa maltaria mais antiga ao patamar que ela merece. Inclusive, vamos trabalhar toda a parte de caldeiras, de energia térmica, toda a parte de sustentabilidade, automação 4.0, manutenção 4.0… Então é um investimento bem grande. Vamos mexer em toda a parte logística também, nos caminhões, com um novo pátio, um centro logístico.
Enfim, uma série de investimento que juntamos num mesmo pacote, até para buscar financiamento e também para sentar com o Estado e falar de incentivos. Algo assim vai gerar empregos e será uma inovação importante, porque estamos falando de um novo produto que não existe. O Brasil e o Paraná vão deixar de importar para gerar valor dentro do estado, dentro do país. Então, é um passo bem importante para o mercado.
O projeto focado em maltes especiais é inédito? Não há quem os faça em escala industrial no Brasil?
Existem pequenas iniciativas de microindústrias, com produções quase artesanais, mas não em escala industrial para atender o mercado de maneira relevante. É um projeto inovador.
E vocês já têm ideia de quais maltes serão produzidos?
Temos uma ideia inicial de ter de dez a 12 produtos (SKUs) num primeiro momento. Mas é tudo muito incipiente ainda. O mercado varia muito na sua demanda por tipo de cerveja, mas a única certeza é que vamos produzir tanto maltes torrados quanto caramelizados, que são totalmente diferentes. O objetivo é ter flexibilidade para afinar a cor e a torra de acordo com a necessidade, atendendo desde as grandes cervejarias até as artesanais (crafts) do mercado inteiro.
Você mencionou uma parceria tecnológica para viabilizar isso. Pode dizer quem é?
A nossa parceira é a Ireks, que já é uma grande produtora de maltes especiais no mundo. Nós já somos sócios deles no Brasil em uma fábrica focada no mercado de misturas para panificação e confeitaria. Entendemos que seria muito conveniente conceber esse projeto com eles, e a nova planta de maltes especiais ficará ao lado de onde já operamos com a Ireks. Eles vão nos dar todo o suporte e know-how tecnológico, mas quem produzirá os maltes será a Agrária e a marca será Agrária. Importante ressaltar que continuaremos com as nossas outras parcerias, como a Weyermann, para produtos específicos que optarmos por não produzir aqui.
O impacto desses maltes especiais não se mede necessariamente por volume, já que, apesar de serem uma parte pequena nas receitas da cerveja, têm um valor agregado maior em comparação ao malte base. Qual é a projeção de impacto desse produto no faturamento e no mercado?
Esse mercado específico de maltes especiais deve girar em algo em torno de R$ 100 milhões. Pode parecer pouco se pensarmos isoladamente no ingrediente, já que ele vai numa fórmula numa proporção de 3%, 5%, 10% ou menos. No entanto, ele vai baratear custos e viabilizar projetos bilionários de inúmeras cervejarias. Hoje, o cervejeiro desenvolve a receita conosco, mas esbarra no alto custo e desiste. Quando passarmos a produzir maltes especiais aqui, ele terá economia na logística e nos impostos de importação.
É possível estimar de quanto seria essa redução no custo do malte especial em relação ao importado?
Hoje, cerca de 30% a 40% do custo desses maltes é oriundo de logística e imposto de importação. A estimativa é de que o produto da Agrária chegue a ser aproximadamente 30% a 40% mais barato, embora isso dependa muito do tipo de produto que vamos desenvolver. Além do preço, existe o ganho da conveniência e da disponibilidade. Atualmente, o prazo de trânsito (transit time) para importar um contêiner é de 3 a 5 meses. Produzindo no Brasil, nós paramos de falar em meses de espera para falar em dias.
Por que esse investimento bilionário foi focado na planta de Entre Rios, em Guarapuava, e não na Maltaria Campos Gerais, em Ponta Grossa, que é uma estrutura mais nova e da qual vocês são sócios?
A gente entende que esse é um projeto bem menor e que a Campos Gerais não previa algo do tipo na sua concepção. Então, não tem envase e uma série de questões que tornariam a nova iniciativa mais complicada ali. Nós já planejávamos ter os maltes especiais em Entre Rios mesmo antes da existência da Maltaria Campos Gerais. A estrutura de Entre Rios tem armazenagem e certas tecnologias mais adequadas para maltes especiais.
Esse projeto já começou? E qual a previsão de conclusão?
O projeto já começou e hoje já temos um canteiro de obras movimentado em Entre Rios. Em 2028 já teremos algumas estruturas prontas e as demais finalizarão em 2029. É uma obra complexa porque não estamos começando do zero num terreno vazio; trata-se de uma reforma profunda em uma fábrica que continuará funcionando. Faremos todo esse investimento sem deixar de atender os nossos clientes e o mercado atual; por isso, exige um cronograma de 2 a 3 anos. Foram cinco anos de estudos apenas para conceber o projeto.
Para encerrar, com um investimento tão alto, a Agrária vê, então, um bom futuro para o mercado cervejeiro nacional, não? Seria possível até exportar?
Estamos investindo muito neste momento, acreditando justamente numa melhora do mercado. O setor tem crises e ondas que são cíclicas, como a que tivemos com as cervejas puro malte entre 2018 e 2019. Acreditamos que a Agrária poderá ser parte de uma nova revolução. Sobre a exportação, esse é um ponto muito importante: no caso do malte Pilsen, é muito difícil competir mundialmente; mas com os maltes especiais, quem sabe a Agrária mude esse paradigma. O Brasil pode deixar de ser apenas um importador e passar a ser um exportador desse insumo, atendendo não só o mercado local com matéria-prima nacional, mas também países da América do Sul e da América Central. Já estamos olhando para essas possibilidades.
LEIA TAMBÉM:


