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Brasil supera tradição da Noruega e vence por 3 a 2 na Copa do Mundo da Cerveja

A Seleção Brasileira de futebol e o time da Noruega se enfrentam neste domingo (5) no estádio de Nova York/Nova Jersey às 17 horas, no horário de Brasília, pelas oitavas de final da Copa do Mundo 2026. E se o peso da camisa pende a balança a favor dos canarinhos em campo, na cerveja é o contrário. Os noruegueses fabricam a bebida há mais de mil anos — desde pelo menos a Era dos Vikings! — fazendo com que a tradição esteja a favor deles. Mas entre o gigantismo cervejeiro do nosso país (terceiro maior produtor do mundo) e a longa história dos escandinavos, quem vence?

A resposta ainda é Brasil, que sobrevive para jogar mais um dia. Mas, como no jogo contra o Japão, o páreo foi duríssimo na Copa do Mundo da Cerveja, quadro elaborado pela equipe do Guia da Cerveja para comparar os países que se enfrentam em campo por meio de seus mercados cervejeiros. Funciona como um “Super Trunfo”, com cinco critérios: tamanho do mercado, consumo per capita, preço, tradição cervejeira e variedade. Ganha quem marcar mais gols, ou seja, quem tiver maior nota em cada um dos quesitos.

Nesse confronto, depois de perderem em tamanho de mercado e consumo per capita, os noruegueses marcariam lindos gols em tradição e variedade cervejeira, empatando o jogo. Mas o peso dos impostos sobre a bebida na Noruega acaba favorecendo o Brasil no critério de preço, que decide a disputa a nosso favor.

Confira como seria essa disputa:

Tamanho do mercado

O Brasil começa o jogo com força total, pega o adversário distraído e marca o primeiro gol facilmente nos primeiros minutos. Um ótimo início!

O mercado cervejeiro brasileiro é muito grande. Nosso país produziu 15 bilhões de litros de cerveja em 2025, segundo o Anuário da Cerveja 2026 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Isso garante o terceiro lugar em fabricação no ranking mundial, atrás apenas da China (35,9) e dos Estados Unidos (19,3).

Já a produção norueguesa é de 273 milhões de litros anuais, de acordo com o Barth Haas Report 2025. Isso é equivalente a menos de 2% da produção brasileira.

Consumo per capita

O segundo golaço do Brasil vem numa jogada de talento, com toda a ginga brasileira. Em consumo per capita, damos outra lição à Noruega. Cada brasileiro bebe 70,3 litros de cerveja por ano, segundo números do relatório Global Beer Consumption 2025 da Kirin Holdings. Já os noruegueses, diferentemente do que se possa imaginar, ficam em 55,8 litros/ano apenas, como se algo os limitasse nessa área. 

Na pontuação, o resultado é uma nota 4,7 contra 3,7 dos europeus. Isso porque nota 10 mesmo seria um consumo como o da República Checa, que chega a 148,8 litros/ano.

Tradição cervejeira

Mas com esse início fácil, o Brasil relaxa em campo e dá chances para o adversário, que finalmente chega para o jogo e marca um belíssimo gol de placa no início do segundo tempo.

A tradição cervejeira da Noruega remonta a mais de mil anos, na chamada Era Viking (entre 800 e 1050 d.C.). A cerveja para os escandinavos em geral era uma bebida ao mesmo tempo do cotidiano e sagrada. Era feita em fazendas, onde se plantava a própria cevada, e proporcionava conexão com os deuses. É muito presente na mitologia nórdica, apesar de não ser a única bebida, dividindo espaço com hidromel e sidra.

A cerveja era, portanto, basicamente rural e caseira. As grandes cervejas acabam surgindo com a industrialização no século 19: Bryggeri em 1834, Borg Bryggerier em 1855 e Ringnes em 1877 — a última hoje pertence à dinamarquesa Carlsberg. O país passa, então, a ser dominado pelas Pilsens e Lagers industriais.

Já a história da cerveja no Brasil é mais modesta. O território em que hoje se encontra o país teve uma das primeiras cervejarias do continente americano, instalada pelos holandeses em 1640 em Recife (PE) durante o período em que dominaram a região Nordeste. O país contou também com influência britânica, de quem importou cervejas ao longo do século 19. 

A indústria nacional cresce principalmente a partir de 1850 pelas mãos de imigrantes, e acaba sob forte influência alemã. Já as grandes cervejarias no final do século 19: Antarctica é fundada em 1885 em São Paulo e a Brahma em 1888 no Rio de Janeiro.

Variedade

Os noruegueses empatam o jogo ao vencerem uma bola dividida numa disputa acirrada na pequena área. Não é um gol bonito, mas ainda assim a bola entra e garante a igualdade no placar.

Em termos de variedade cervejeira, os países se parecem bastante. Ambos acabam desenvolvendo um maior número de opções para o consumidor a partir do Renascimento da Cerveja Artesanal que chega ao Brasil na década de 1990 e em 2000 no país escandinavo. Além disso, em volume, são equiparáveis. As cervejas artesanais ocupam de 1% a 3% de ambos os mercados.

Mas a primeira grande diferença está na proporcionalidade. Apesar de ter mais cervejarias (1.954 segundo o último Anuário da Cerveja), a população brasileira é muito maior (203 milhões de habitantes), gerando uma média de uma cervejaria para cada 103 mil pessoas. Na Noruega, são cerca de 300 para 5,6 milhões de residentes. O que dá um número de cervejarias por habitante muito menor: uma para cada 18 mil.

Além disso, o Brasil só está desenvolvendo estilos próprios de cerveja agora. Enquanto a Noruega conserva estilos tradicionais, que ganharam mais visitabilidade recentemente.

Preço

Depois de passar mais um sufoco com o empate, nosso país consegue vencer com um gol decisivo no final do jogo: o preço.

Enquanto o Brasil tem uma cerveja bem mais acessível que a média mundial, a bebida na Noruega já foi eleita uma das mais caras do mundo. Nos supermercados, a basileira custa cerca de 1,38 dólares, enquanto a norueguesa sai por mais que o dobro: 3,5 dólares em média. Mas a grande diferença aparece mesmo nos bares. Um pint custa entre 9,9 e 14 dólares na capital Oslo. Já no Brasil, é possível encontrar o mesmo volume de 2,5 a 4 dólares.

O fator decisivo aqui foi a alta alíquota de impostos do governo, que encarece muito a cerveja no país europeu, além de outros fatores de regulação específicos, como horários para comprar bebidas nos supermercados e limitações para bebidas acima de 4,75%. Elas só podem ser compradas nas lojas de bebidas Vinmonopolet, controladas pelo governo. 

Brasil bate a Noruega por 3 a 2

Graças à desvantagem fiscal, que afeta o preço e com certeza também influencia o consumo per capita, o Brasil bateu a Noruega num jogo bastante disputado, apesar das claras vantagens para cada um dos lados. Melhor para os canarinhos!

Agora só resta saber se em campo a história vai se repetir. Lembrando que é mata-mata. Quem perder está fora. Vale vaga nas quartas de final.

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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