Cada vez que o mercado de cerveja lança uma inovação, eu penso: “daqui a pouco vão colocar whey na cerveja”. Era só uma piada. Aí colocaram.
Tão rápido quanto muita gente correu para elogiar o lançamento da cerveja com proteína, outra parte da internet não botou tanta fé. Teve quem dissesse que agora dá para bater a meta de proteína no boteco. Outros lembraram que a única proteína aceitável perto de uma cerveja gelada continua sendo aquela servida ao ponto e bem acebolada.
O marketing que me perdoe, mas os memes são um ótimo termômetro do nosso tempo. Só que, dessa vez, acho que eles olharam para o lado errado.
A novidade não é a cerveja com proteína, mas que — queira você ou não — ela faz sentido em 2026. Nos últimos anos, a cerveja mudou demais: tiraram o glúten, as calorias, o álcool, o açúcar e, segundo alguns, a própria razão dela existir. A Gen Z bebe menos; o consumo mundial caiu; as cervejarias leiloam a própria dignidade pra tentar ser relevantes. Ou seja, aquela brejinha que sempre esteve no mesmo lugar na nossa vida precisou procurar novos espaços no nosso dia a dia.
A cerveja parece que vive uma crise de identidade.
Antes o jogo estava ganho. Bastava ser boa e chegar gelada. Agora, a cerveja precisa ser saudável, funcional, compatível com a academia, com a corrida noturna, com a dieta, não reagir com os remédios de emagrecimento, ficar bonita na foto do Instagram e fazer sentido em uma rotina que não gira mais em torno do happy hour.
Percebe como a conversa mudou?
A cerveja não briga mais com outras cervejas. A disputa agora é com suplementos, cafés especiais, energéticos, refrigerantes, água saborizada e qualquer coisa que prometa acompanhar o nosso estilo de vida e ainda render um bom post.
Talvez seja por isso que enfiaram proteína na cerveja. O que não tem a ver com reinventar a lei da pureza alemã, mas com um consumidor que não é mais o mesmo e com a eterna tentativa da indústria de acompanhar as tendências.
O ponto é: até onde uma cerveja pode mudar sem deixar de ser cerveja?
Não pergunto isso como purista, pelo contrário. E como alguém que trabalha com comunicação e marketing, entendo o drama da indústria e a necessidade de inovar.
O que me intriga é que, em algum momento, toda marca corre o risco de tentar agradar tanta gente que perde o próprio rumo. Na cultura pop, isso é conhecido como “fan service”, quando a direção e os roteiristas começam a guiar a história pelo termômetro das redes sociais, da fan base ou pela vontade de chocar a audiência. Isso acaba quebrando a lógica interna da série e dos personagens, como rolou em “Game of Thrones”, “Lost” e outras séries.
Talvez isso nunca aconteça com a cerveja e essa coisa de “beer protein” vire moda, vire categoria, vire barrinha sabor calabresa, pernil e medalhão de frango com bacon. O pessoal é criativo.
Ou talvez, daqui a alguns anos, a gente descubra que sempre subestimou os memes.
Enquanto a resposta não chega, continuo achando que a proteína vai muito bem com cerveja. Desde que venha no rechaud, rodeada de cebola dourada, maionese da casa e rodelas de pão francês que montam um combo de assustar qualquer Gen Z fã de balada de cafeteria. Mas é só a minha opinião. Qual é a sua?
Eduardo Sena é publicitário, entusiasta cervejeiro, podcaster e agitador etílico-cultural. Com mais de 20 anos de experiência como criativo, é diretor de conteúdo do Hora do Gole HUB — plataforma que conecta cerveja, cultura, equidade e criatividade. Também colabora como estrategista e criativo para outras marcas.
* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.


