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Mudanças climáticas podem alterar produção, sabor e consumo de cerveja no mundo

A onda de calor que atingiu a Europa na semana passada elevou as temperaturas a 41°C na França (região de Beaulieu-sur-Layon), 35,3°C no País de Gales (Gogerddan) e 37,7°C nos Jardins Botânicos Reais de Kew, em Londres, segundo dados do The Wheater Channel. E trouxe mais do que apenas desconforto térmico. Também veio com um lembrete de que as mudanças climáticas são bem reais e já estão acontecendo. No setor cervejeiro, episódios como esse já afetam desde o comportamento do consumidor até a viabilidade das matérias-primas e a sustentabilidade das operações. 

Estudos recentes apontam que o consumo de álcool cai quando a temperatura aumenta muito, a seca sufoca lavouras de lúpulo e o aumento da temperatura já está diminuindo a produção de compostos amargos em algumas variedades. Ao mesmo tempo, produtores e cervejarias vêm investindo em adaptação: grãos perenes que economizam água e regeneram o solo, sistemas de captura direta de carbono na atmosfera e pesquisas sobre o amido da cevada.

Calor extremo e o consumidor

Existe um senso comum no mercado de que “quanto mais quente, melhor” para vender cervejas. No entanto, pesquisas acadêmicas recentes publicadas pela Reuters revelam um paradoxo: as vendas de bebidas alcoólicas crescem com a temperatura apenas até um patamar específico de pouco mais de 32°C. Acima desse limite, o efeito positivo reverte.

Quando o calor é excessivo, passa a gerar desconforto e o consumo cai, segundo estudo publicado em março pela Universidade da Califórnia, ETH Zurich e Universidade Estadual da Carolina do Norte. O efeito variou conforme a região geográfica e foi menos pronunciado em regiões já quentes. A pesquisa é baseada em dados de vendas no varejo dos EUA entre 2006 e 2023.

Além disso, em momentos de crise climática aguda, o próprio poder público intervém. Em Paris, por exemplo, a venda em lojas e o consumo de bebidas alcoólicas chegaram a ser proibidos temporariamente durante picos de calor. O álcool pode causar desidratação, o que representa um perigo maior durante períodos de calor extremo.

Diante desse cenário, gigantes do setor, como a dinamarquesa Carlsberg, já redirecionam suas estratégias de portfólio. A empresa foca agora na expansão de opções de cervejas de baixo teor alcoólico ou sem álcool (NoLo) e refrigerantes, buscando manter o volume de vendas.

Mudanças climáticas no campo

O maior impacto das mudanças climáticas, no entanto, ocorre na agricultura. Os ingredientes fundamentais da cerveja — o lúpulo e a cevada — sofrem diretamente com o aumento global das temperaturas.

As variedades de lúpulos nobres (Saaz, Hallertauer Mittelfrüh, Tettnanger e Spalt), cultivadas tradicionalmente na Europa Central para dar o aroma característico às icônicas Lagers locais, estão sob ameaça. De acordo com pesquisas do Instituto de Pesquisa sobre Mudanças Globais da Academia de Ciências da República Tcheca, divulgadas pela BBC Future, a produção dessas variedades tradicionais caiu 20% desde a década de 1970 em algumas das principais regiões produtoras.

Os cientistas projetam que, até 2050, os rendimentos de lúpulos nobres cairão entre 4,1% e 18,4% devido à seca e ao calor extremo.

E o problema vai além do volume colhido: a concentração dos alfa-ácidos, compostos que dão amargor e ajudam na conservação da cerveja, deve cair 31% até 2050, ameaçando diretamente o sabor e a estabilidade sensorial dos produtos e aumentando os custos.

A pesquisa mostra que o início do período de cultivo do lúpulo na Alemanha e na República Tcheca também adiantou 13 dias entre 1970 e 2018, enquanto a maturação adiantou 20 dias. Essa maturação precoce impede o pleno desenvolvimento dos óleos essenciais e dos ácidos alfa. Além disso, em picos extremos de calor que atingem cerca de 46°C, as plantas de lúpulo param completamente de crescer.

A crise da água no Yakima Valley

Nos Estados Unidos, o Yakima Valley, no estado de Washington, concentra aproximadamente 75% de toda a produção nacional de lúpulo. Como publicado pelo The Guardian, as lavouras da região enfrentam secas severas consecutivas e dependem vitalmente da água de irrigação gerada pelo derretimento da neve das Montanhas Cascade.

Com as mudanças climáticas, os cientistas estimam que o acúmulo de neve na primavera nas montanhas sofrerá uma redução de 75% até o fim do século, o que pode inviabilizar o fornecimento estável de água para os produtores locais.

O amido da cevada

Não é só o lúpulo que vem sofrendo com as mudanças climáticas no campo. Com o aumento da temperatura, a composição do amido na cevada também está se alterando, segundo pesquisas de bioengenheiros como Charlotte De Schepper e Kevin Verstrepen, da KU Leuven (Katholieke Universiteit Leuven), a maior e mais antiga universidade da Bélgica e dos Países Baixos, com cursos voltados à formação de profissionais e à pesquisa em cerveja.

Há naturalmente na cevada grânulos de amido menores e maiores. No entanto, o aquecimento global das últimas décadas tem feito com que a planta produza mais grânulos menores, que são menos eficientes na conversão em açúcares que serão fermentados para se tornarem cerveja. Ou seja, é preciso mais cevada para atingir os mesmos níveis de álcool e cerveja finais — o que encarece a produção.

Soluções sustentáveis e tecnológicas no campo

Diante desses desafios, a comunidade cervejeira responde com inovação agrícola e tecnológica, abrindo espaço para novas frentes de investimento verde.

A cevada, base tradicional de açúcares fermentáveis para a cerveja, exige replantio anual e preparo intenso do solo — uma das etapas mais associadas à emissão de gases de efeito estufa em toda a cadeia cervejeira. Para contornar esse desafio, a Deschutes Brewery, do Oregon, nos EUA, desenvolveu uma cerveja utilizando o Kernza, segundo o The Guardian.

O Kernza é um trigo perene com raízes profundas e densas. Ao contrário da cevada convencional, não precisa ser replantada anualmente, o que reduz o uso de tratores, combustível e reviramento do solo. Também apresenta alta eficiência no uso de água e resistência à seca, além de capturar carbono da atmosfera e armazená-lo no subsolo, ajudando a mitigar as mudanças climáticas.

No lúpulo, produtores como Christian Ettinger, fundador da Hopworks Urban Brewery, lideram a transição para práticas sustentáveis no campo. Entre as técnicas que ganham força estão o cover cropping (cultivo de plantas de cobertura entre as fileiras de lúpulo para reter umidade, evitar erosão e nutrir o solo de forma orgânica) e a aplicação de biochar, um tipo de carvão vegetal rico em carbono que otimiza a retenção de água na terra, reduzindo os custos de irrigação.

Carbonatação sustentável diretamente do ar

Uma das inovações tecnológicas recentes do setor ocorre no coração do processo de fabricação: a gaseificação. Apesar de a bebida produzir gás carbônico (CO₂) naturalmente, ele normalmente é descartado por conter compostos de aroma não desejáveis. O padrão da indústria é comprar o gás, obtido como subproduto da indústria petroquímica ou de usinas de etanol — que fornecem 35% do CO₂ da América do Norte. Por isso, o preço fica extremamente dependente de condições externas.

Em Alameda, na Califórnia, a Almanac Beer Company adotou uma solução diferente, reportada pelo New York Times. Em parceria com a startup Aircapture, instalou um sistema modular de captura direta do ar (DAC) no estacionamento do brewpub. A máquina extrai o gás carbônico diretamente da atmosfera, purifica-o no padrão de bebidas e o liquefaz no local.

A tecnologia reduz a pegada de carbono da cervejaria, representa economia de 15% a 20% no material e elimina o risco de paralisação de produção por falta de entregas de gás. Na reportagem, representantes da Almanac contam que já tiveram que parar a produção por dois dias no outono anterior devido à escassez de CO₂ comercial — o tipo de interrupção que a captura direta do ar foi projetada para evitar.

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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