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Falta de gás carbônico nos EUA empurra cervejarias para tecnologia projetada para Marte

Em 2021, a Maine Beer Company, de Freeport, região Nordeste dos Estados Unidos (EUA), recebeu do fornecedor o aviso que nenhuma cervejaria quer ouvir: não havia mais gás carbônico para entregar. “Havia o risco da nossa cerveja envelhecer nos tanques”, contou Dave Love, gerente de sustentabilidade da empresa americana, ao site da NASA. Sem o gás não se engarrafa, não se enche barril e não se passa cerveja pela centrífuga — dava para produzir, não para vender. A solução que ela comprou tinha sido projetada para outro planeta, e por um motivo bem terreno: com o dióxido de carbono caro e incerto nos Estados Unidos, ficou mais barato capturar o que a própria fermentação solta do que comprá-lo no mercado.

A crise não passou. Em agosto, Chuck Skypeck, diretor de projetos técnicos de cervejaria da Brewers Association, entidade que representa os produtores artesanais independentes americanos, escreveu que as interrupções recentes no sudeste do país “expuseram a fragilidade do fornecimento de CO₂ de grau de bebida na América do Norte”. Quem compra o gás por lá convive com força maior, entrega fora de hora, cota de fornecedor e preço em disparada. O setor já enfrentou a crise de lata, de malte e de frete. Faltava a do gás.

Uma fábrica de gás carbônico que compra gás carbônico

Ninguém que faz cerveja é pego de surpresa pelo gás da fermentação. É o mesmo princípio do pão: a levedura come açúcar e devolve álcool e dióxido de carbono, e é esse gás que faz a massa crescer. Na cervejaria, ele é exatamente o que vai ser preciso depois, para carbonatar a bebida, purgar tanques e envasar.

Mas o gás sai do fermentador impuro, misturado ao ar que estava no tanque e em pressão baixa. Para virar CO₂ de cilindro, precisa ser lavado, comprimido e liquefeito — uma cadeia de equipamentos que, segundo a consultoria cervejeira First Key, só se paga a partir de 50 mil barris por ano. É por isso que as grandes recuperam o próprio gás há décadas e as pequenas, não. “Elas não têm capacidade de liquefazer o dióxido de carbono que sai dos fermentadores para colocar na cerveja”, resume Robert Zubrin, engenheiro aeroespacial, presidente da Pioneer Energy e fundador da Mars Society.

O resultado é uma conta que sempre pareceu inevitável: a microcervejaria manda para o céu o gás que acabou de fazer e paga pelo gás que o caminhão traz. O equivalente a deixar a chuva cair no ralo e comprar água mineral para regar o jardim.

Em Marte não existe posto de gasolina

Foi essa ausência de posto de gasolina no planeta vermelho que criou a tecnologia. Nos anos 1990, Zubrin trabalhou com a equipe de ISRU do Johnson Space Center, em Houston — sigla inglesa para utilização de recursos locais. Em vez de levar combustível da Terra, a missão o fabrica lá. E a matéria-prima está no ar, já que a atmosfera marciana é mais de 95% dióxido de carbono.

Duas peças desse projeto chegaram à cervejaria. Uma é a autonomia, porque nem em Marte nem numa cervejaria pequena existe alguém de plantão para operar a máquina. A outra são os leitos dessecantes, que tiram a água do gás. “Os fermentadores das cervejarias têm água dentro, e você tem de manter essa água fora do dióxido de carbono, ou ela congela nas linhas e bloqueia tudo”, explica Zubrin. Em Marte, a mesma peça secaria o oxigênio e o metano antes de armazená-los.

A conta que saiu da faixa

A proposta original era uma economia modesta. O sistema recupera cerca de cinco toneladas de gás carbônico por mês, o bastante para uma produção de até 60 mil barris por ano — justamente a faixa que ficava abaixo do piso das plantas industriais. Quando a NASA divulgou os números, em 2016, o gás custava de US$ 200 a US$ 300 a tonelada nos Estados Unidos, e o equipamento se pagava em dois anos.

Seis anos depois, essa faixa de preço foi superada de tal forma que virou piada. Katie Stinchon, diretora-executiva do Massachusetts Brewers Guild, contou ao site americano Good Beer Hunting, em 2022, que cervejarias do estado foram cotadas a US$ 1,20 a libra de dióxido de carbono, quando o normal girava em 11 centavos — de cerca de US$ 220 para US$ 2,4 mil a tonelada. “Normalmente se paga uns US$ 150 de CO₂ para carbonatar e envasar uma cerveja. Imagine ir para US$ 750, US$ 850 nessa mesma cerveja. É insustentável”, disse na época Matt Malloy, dono da Dorchester Brewing, de Boston.

A máquina também não é bala de prata. A Austin Beerworks, uma das primeiras a instalar, em 2018, cobre de 10% a 15% do dióxido de carbono que consome, e não mais do que isso por falta de gente para operar o equipamento. “É uma tecnologia incrível e eu realmente acredito que seja o futuro do nosso setor”, disse Adam DeBower, cofundador da cervejaria. “Mas integrar isso na cervejaria de todo mundo neste momento simplesmente não é possível.” Os sistemas custavam a partir de US$ 90 mil.

A trajetória do invento diz algo sobre o tamanho que o assunto ganhou. Licenciada pela Earthly Labs em 2016 e vendida à Chart Industries em 2021, a tecnologia foi junto quando a Chart passou para a Baker Hughes, em negócio de US$ 13,6 bilhões fechado em julho deste ano. E deixou de ser só economia de insumo: a Brewers Association informa que conseguiu no ano passado equiparar o reúso de dióxido de carbono ao sequestro de carbono na legislação tributária americana.

No Brasil, recuperar o CO₂ da fermentação é rotina nas grandes e raridade nas artesanais, que seguem ventilando o próprio gás e comprando o de fora. As duas contas que empurraram os americanos para esse equipamento são conhecidas de qualquer cervejaria brasileira de porte médio: depender de um fornecedor só e ver o preço subir sem aviso. Fechar o ciclo aqui resolveria as duas de uma vez — e para isso não precisa de Marte.

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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