Cilene Saorin era uma menina que não resistia a uma bola de futebol. Rápida e habilidosa, gostava de jogar no pátio da escola e no campinho ao lado da igreja, no interior de São Paulo, onde passava as férias. Nem sempre conseguia terminar a partida: com frequência, alguém a tirava de campo. Na época, ela achava que os meninos simplesmente não suportavam seu talento.
“Sim, eu era ligeira com a bola no pé”, recorda. “Na minha inocência, eu achava que era implicância dos meninos que não suportavam meu futebol envolvente.”
Anos depois, ao trocar a faculdade de Engenharia de Alimentos pela fábrica, Cilene encontraria obstáculos parecidos na indústria cervejeira. No início da década de 1990, ouviu que mulheres não tinham lugar no ambiente de fábrica. Insistiu. Passou por Brahma, Petrópolis, Antarctica e Ambev, fez mestrado em Madri e há 18 anos dirige a área de educação da Doemens Akademie, escola alemã de formação cervejeira, na América Latina e na Península Ibérica.
Neste Outubro Rosa, o Guia da Cerveja conta o lado B de uma das mulheres que abriram caminho nas fábricas de cerveja do país. Aos 54 anos e com 34 de profissão, Cilene Saorin guarda histórias que raramente aparecem no currículo: a infância na periferia de São Paulo, o aperto financeiro na faculdade, as marcas do preconceito e uma paixão por música, literatura e cinema que divide espaço com a cerveja.
A menina da periferia e a “gênio pobre”
Cilene Saorin nasceu em 1972, na periferia da capital paulista, e é a mais velha de três irmãs. O pai trabalhou a vida inteira como açougueiro; a mãe cuidava da casa. Ela descreve a família como uma estrutura típica do século passado, em que aprendeu cedo a assumir responsabilidades.
Foi alfabetizada aos cinco anos e guarda lembranças da professora, da cartilha e do hino nacional cantado todos os dias na escola.
O esporte ocupava boa parte da infância. Quando o vôlei ganhou popularidade no Brasil, no início dos anos 1980, ela encontrou uma alternativa ao futebol: foi defensora e levantadora, até trocar a quadra pela piscina. Tornou-se nadadora federada, no estilo costas, e competiu até entrar na faculdade.
Aos 16 anos, em 1989, começou o curso de Engenharia de Alimentos no Instituto Mauá de Tecnologia. A graduação coincidiu com um período difícil para a família: o confisco de recursos financeiros do Plano Collor, em 1990, abalou as contas da casa.
Cilene só continuou os estudos graças a uma bolsa. Durante cinco anos, passou dias inteiros na faculdade, dividida entre as aulas e as atividades exigidas pelo programa de assistência.
Em 1993, recebeu o Prêmio Escola de Engenharia Mauá de melhor aluna. Décadas depois, soube por uma amiga da turma que alguns colegas a chamavam, pelas costas, de “a gênio pobre”.
“Muitas fichas me caíram… Eu sou feita das minhas origens, dos contextos, dos sonhos e das voltas que dei e dou pra estar aqui e agora.”
Os “nãos” que Cilene Saorin ouviu na fábrica

Ela entrou no mundo da cerveja em 1992, ainda na faculdade, como trainee de produção da Brahma em Guarulhos (SP). Mulheres em funções técnicas nas fábricas eram bem menos comuns que hoje, e o diploma não bastava para abrir portas.
“Comecei no chão de fábrica e ali aprendi logo que eu não teria a ‘passabilidade’ da faculdade dentro da cervejaria”, conta.
Na prática, a competência reconhecida na universidade não garantia o mesmo tratamento na indústria. Segundo ela, era comum a ideia de que certas funções não deveriam ser exercidas por mulheres.
“Na memória, guardo os NÃOs estapafúrdios que recebi por ser mulher. Por exemplo, nos idos de 1992, dificilmente uma mulher era contratada para estudar e atuar como mestre cervejeira. Diziam categoricamente que não cabiam mulheres em ambiente de fábrica…”
Da Brahma, ela foi para a fábrica da Cervejaria Petrópolis, na serra fluminense, onde ficou até 1996. Juntou dinheiro por anos para estudar fora e, entre 1996 e 1997, fez o mestrado em ciência e tecnologia cervejeira da Escuela Superior de Cerveza y Malta, na Universidad Politécnica de Madrid. Na volta, trabalhou como cervejeira na Brahma de Jacareí (SP), na Antarctica e, até 2001, na área de pesquisa e desenvolvimento da Ambev.
A carreira internacional começou em 2001, como consultora de análise sensorial da inglesa FlavorActiV para a América Latina e a Península Ibérica.
Em 2006, abriu a própria consultoria; em 2008, assumiu a direção de educação da Doemens nas mesmas regiões, e no ano seguinte se formou sommelière de cervejas em Munique. Hoje conduz os cursos de sommelier em espanhol da Doemens e, em novembro, presidirá o júri do I Campeonato Nacional de Sumillería de Cerveza, na Espanha.
Da indústria, diz ter levado argumentação, diplomacia e competitividade. Na consultoria e na sala de aula, encontrou outro jeito de trabalhar, baseado em colaboração e troca de conhecimento.
De 1992 para cá, as mulheres ganharam espaço no setor. Cilene Saorin reconhece o avanço, mas diz que ele ainda convive com obstáculos do dia a dia.
“Muitas mulheres de diferentes competências têm alcançado esses e outros tantos espaços de trabalho nas últimas três décadas. E isso é maravilhoso. Mas é ainda bem comum termos trabalho extra pra provar competência ou termos de lidar com as inconveniências cotidianas.”
O que formou a visão de mundo de Cilene Saorin
As reflexões dela sobre desigualdade e direitos das mulheres nasceram também da própria vida. Ela relata ter enfrentado assédio sexual, físico e moral em fábricas, restaurantes, feiras, congressos, salas de aula e redes sociais.
“Na verdade, tudo começa pelo instinto de sobrevivência mesmo. Como mulher, ou aprende a se defender; ou fim. E não há exagero aqui.”
Esses episódios a levaram a pensar sobre relações de poder e desigualdade social. Leituras, conversas e terapia fizeram parte do processo, assim como o contato com pessoas que enfrentavam outras formas de discriminação.
“E aí então acontece uma coisa maravilhosa: a gente se reconhece, aprende sobre empatia, cumplicidade e senso de comunidade, e toma consciência do lugar que ocupa na sociedade.”
A ligação entre cerveja e questões sociais também aparece no que ela escreve. No artigo A Cerveja e a Besta, publicado no Guia da Cerveja em 2020, Cilene discutiu a presença histórica das mulheres na produção de bebidas fermentadas e o preconceito que atravessou os séculos. Entre 2020 e 2021, assinou no site a coluna Balcão da Cilene.
A cerveja também pode contar histórias

A websérie A Cerveja Explica! Uma Terapia de Botequim foi criada por Cilene Saorin e pela diretora e roteirista Bruna Lessa, fundadora da Bruta Flor Filmes ao lado da fotógrafa Cacá Bernardes. Aprovado pela Lei Paulo Gustavo, o projeto estreou em setembro de 2025 com dez episódios no YouTube, em que Cilene e a atriz Laíza Dantas viajam por cidades do interior paulista.
A proposta é apresentar a cultura cervejeira ao grande público com humor, passando por gastronomia, turismo, história e comportamento. Para Cilene, foi um trabalho muito diferente daquele que construiu sua reputação: ela participou do roteiro, da direção de arte, da produção, da atuação, da comunicação e da captação de recursos.
“Este projeto me deu dimensão do imenso trabalho e responsabilidade por trás da entrega de um programa audiovisual de alto padrão de conteúdo cinematográfico.”
A equipe da produtora ganhou dela um agradecimento à parte:
“Guardo profunda admiração e respeito ao profissionalismo e às competências multifacetadas das mulheres potentes da produtora Bruta Flor Filmes.”
Em dezembro de 2025, A Cerveja Explica! venceu como Melhor Série Educacional na 11ª edição do Rio Webfest, festival de webséries realizado no Rio de Janeiro. O saldo, para ela, cabe em duas frases: “Enfim, isso foi uma escola. E sigo aprendendo.”
Entre Secos e Molhados, Madonna e Raduan Nassar
Cilene Saorin escolheu morar no centro de São Paulo para ficar perto do circuito cultural da cidade. Música, cinema, pintura, desenho e arquitetura estão entre seus interesses.
A música vem de longe. O disco dos Secos e Molhados, que ouvia na infância, segue como referência: ela lembra a liberdade, a psicodelia e as provocações do grupo como algo que ainda carrega consigo.
Entre as preferências está também o pianista de jazz Keith Jarrett, cuja obra descreve como pulsante, reflexiva e melancólica. E há uma presença que atravessa todas as fases: “E muito Madonna, sempre.”
Na literatura, Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, está entre as obras que influenciaram seu jeito de pensar.
O corpo também segue em movimento. Depois de um intervalo, ela voltou às piscinas e, mais recentemente, somou outra prática à rotina:
“Sigo nadando. Há poucos anos, tenho aprendido Tai Chi Chuan: uma arte marcial milenar chinesa. Essa prática tem sido essencial e transformadora pra mim.”
A utopia ainda cabe no futuro
Ao olhar para a jovem que entrou na Brahma em 1992, Cilene Saorin percebe o quanto mudou — no ofício, nas viagens e no jeito de enxergar as desigualdades sociais.
A menina que gostava de futebol construiu uma carreira internacional, tornou-se professora, consultora e uma das vozes mais conhecidas do mercado cervejeiro brasileiro. Ainda assim, continua interessada em aprender e experimentar coisas novas. “Meu pensamento insiste na utopia, apesar de tudo. Mas a vida tem se encarregado de me inundar de senso de realidade.”
Entre os planos estão aprender outro idioma e viajar para o Oriente. Quando fala do futuro, porém, a expectativa mais importante não é individual. “Espero que eu ainda possa experimentar a olhos nus um mundo inteligente e inclusivo, festivo e plural, justo e farto à mesa.”


