Apesar do cenário desafiador no mercado global, a indústria cervejeira do Brasil está seguindo em rota própria. Aqui o setor demonstra resiliência, e segundo dados do Anuário 2025, mantém a produção estável e continua expandindo o número de cervejarias, que cresceu 5,5% no último ano. Para o presidente executivo do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv), Márcio Maciel, a força cultural da bebida no país, sua capilaridade — presente em todos os estados e em 790 municípios —, e a geração de 2,5 milhões de empregos explicam boa parte dessa vitalidade. Some-se a isso o crescimento das pequenas cervejarias, cada vez mais associadas ao movimento “beba local, beba melhor”, e a variedade de estilos que democratizam o consumo entre diferentes faixas de renda.
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Em entrevista ao Guia da Cerveja, Márcio analisa os dados do Anuário da Cerveja 2025 e aponta tendências que já moldam o futuro do setor, como o avanço das cervejas sem álcool e a premiunização. Ele também destaca os principais desafios, entre eles a reforma tributária, que pode definir a competitividade do setor nos próximos anos, além do potencial de crescimento em regiões como Norte e Nordeste.
O setor de cerveja internacionalmente vive um momento desafiador, mas o Anuário da Cerveja 2025 mostra que no Brasil houve crescimento no número de cervejarias e a produção se manteve estável. Quais são os pontos fortes da indústria cervejeira brasileira que explicam essa resiliência?
O Brasil vive uma realidade distinta de países como a Alemanha, que têm registrado queda de produção. Aqui, a indústria cervejeira é forte cultural, econômica e socialmente, está presente em todos os estados, emprega 2,5 milhões de pessoas e gera renda local, com 90% do valor agregado permanecendo nas comunidades, segundo a FGV. Isso garante resiliência e valorização por parte do consumidor.
Outro ponto importante é o crescimento sólido das pequenas cervejarias, que, mesmo enfrentando dificuldades típicas do empreendedorismo no país, seguem se expandindo e se associando à cultura local, com eventos e o movimento “beba local, beba melhor”. Essa proximidade reforça os laços entre cerveja e comunidade.
Há ainda a questão histórica. Desde as primeiras cervejarias no Brasil, a bebida está ligada à cultura, ao clima e aos momentos de celebração do brasileiro. A variedade de estilos disponíveis permite atender diferentes faixas de renda, tornando o produto acessível e democrático. Somado ao cenário que estamos vivendo atualmente de maior empregabilidade e renda, acho que isso explica por que o mercado brasileiro não está em crise, mas sim está maduro, exigindo das empresas adaptação às novas demandas, como premiunização e produção de bebidas locais.
Acredita que o perfil do consumidor brasileiro é muito diferente do europeu?
O Brasil tem uma cultura de moderação muito forte no consumo de álcool se comparado com outros mercados. Aqui a gente tem regras muito rígidas sobre beber e dirigir, não vender bebidas para menores de 18 anos, com criminalização para isso. E por que estou falando isso? Porque quando você pega um país como a Alemanha, que é muito menor que o Brasil, tanto em população quanto espaço, você vê que o consumo per capita deles de cerveja é maior que o brasileiro. Estou fazendo uma reflexão aqui, não tenho nenhum dado sobre isso. Mas acredito que talvez essa queda de consumo possa ser reflexo da mudança de um comportamento, de mudar um consumo não tão moderado.
Outro dado que se destaca no anuário é o crescimento da produção de cerveja sem álcool no Brasil. Como você enxerga esse movimento? É um novo segmento que se expande ou uma forma de as cervejarias compensarem a desaceleração da venda da cerveja tradicional?
A cerveja sem álcool existe no Brasil desde os anos 1990, mas só recentemente ganhou força com novas tecnologias que melhoraram muito a qualidade. O salto de 500% que o anuário mostra confirma uma tendência que já vinha aparecendo nas pesquisas de consumo. Mas a gente não enxerga isso como sendo o futuro da indústria cervejeira, mas ela é uma parte desse futuro, entende? Está crescendo, mas ainda é um nicho, e nossa expectativa é que ambos os produtos, com e sem álcool, possam seguir caminhando lado a lado.
Outra questão interessante é o valor. A zero já pode ser encontrada quase no mesmo preço da cerveja de linha. Isso é uma novidade porque era um pouco mais cara antes. Então esse crescimento casa muito com a discussão de moderação, porque a cerveja zero é um convite para passar mais tempo celebrando e socializando com os amigos. Por que no final das contas cerveja é isso, né? Celebração. Então agora eu não preciso ser o cara da água, do refrigerante que não vou beber, posso ter uma opção que te deixa conduzir o veículo depois, que te permite intercalar entre a cerveja tradicional com a cerveja zero, enfim, traz outras possibilidades de consumo.
A reforma tributária é um tema central para a indústria cervejeira. Quais pontos você considera mais importantes para serem defendidos pelo setor?

A primeira é você não ter aumento de carga tributária porque a nossa cadeia da cerveja paga a maior taxa da América Latina. Estamos falando de 56% do preço final da cerveja em média ser imposto. E é uma indústria que está presente em todos os estados do Brasil, gerando muito emprego. Ou seja, já é uma indústria que é bem penalizada e que na reforma vai pagar mais imposto do que todo mundo que não está lá no imposto seletivo.
O segundo ponto: esperamos que o crescimento de pequenas cervejarias no Brasil seja estimulado na reforma por meio do tratamento diferenciado para pequenos produtores. Isso é uma pauta que a gente defende também desde o início, de que pequenos produtores não paguem o mesmo imposto do que as gigantes. E o terceiro ponto é garantir que durante o período de transição da reforma, de 2026 até 2032, que você mantenha o mesmo nível de carga tributária, ou seja, que o nosso imposto seletivo vá subindo até a alíquota de equilíbrio ao longo da transição. Porque se já começar no valor cheio, quando começar a transição do ICMS, o pessoal vai querer aumentar a nossa carga.
O anuário também mostrou que apenas 1% das cervejarias respondem por quase 50% da produção, e que 5% concentram praticamente tudo. Como você avalia esse cenário? Ainda dependemos muito das gigantes do setor?
Eu não diria que é dependência, mas uma característica do setor cervejeiro, no mundo todo é assim. Alimentos e bebidas são produtos de baixo valor agregado, então você ganha renda com escala. Por mais que existam países com maior representatividade das artesanais, de forma geral o grosso da produção está concentrado nos quatro grandes grupos do ocidente, que são a AB InBev, a Heineken, a Carlsberg e a Molson Coors. Então isso é uma característica geral do mercado.
E um lado positivo disso no Brasil é que as grandes cervejarias permitem maior distribuição. Você não precisa ter fábrica de todas as cervejarias em todos os estados para que aquele consumidor possa ter uma variedade de cerveja grande. O custo de distribuição no Brasil é gigantesco. Então, as grandes permitem que uma pessoa no Acre tome uma Lagunitas, que uma pessoa no Amapá tome uma Corona, enfim, além das regionais específicas de cada lugar. Algumas cervejas que começaram com produção pequena e artesanal, como Baden Baden, Colorado, hoje são distribuídas nacionalmente. Tem uma competitividade benéfica para o ecossistema cervejeiro. Então a gente enxerga com naturalidade essa questão da concentração, mas acredita ao mesmo tempo que existe um espaço gigantesco de crescimento das pequenas, especialmente se a Reforma Tributária favorecer isso.
Outro ponto foi a exportação, que cresceu principalmente para países vizinhos da América Latina, como Paraguai, Bolívia, Uruguai, Chile e Cuba. Como avalia esse movimento?
Acho que pode ser um caminho interessante. Mas é aquele negócio, cerveja não gosta de viajar muito. Então, não podemos nos comparar com a indústria exportadora de carne, de soja, mercados completamente diferentes. Mas acho que temos um grande potencial de volume de exportação para países próximos, do Mercosul, especialmente pela alta qualidade das cervejas que temos aqui.
Que outro dado do anuário 2025 você destacaria?

A capilaridade do setor é um fator bem importante. Estamos com 790 municípios com cervejarias e isso diz muito sobre o setor, especialmente quando você pensa em capacidade de geração de emprego. A indústria cervejeira é uma indústria que leva emprego para os quatro cantos do país e para o interior. E isso traz muita relevância para o setor. Também tem o potencial de crescimento nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Especialmente o Nordeste, que teve um aumento de 16%. O nordestino gosta muito de cerveja, e tem um potencial de crescimento muito bom lá. Então, esperamos que esse crescimento continue nos próximos anos.
O Brasil vive atualmente um momento político histórico, em que um ex-presidente está sendo julgado por tentativa de golpe de estado. De que forma essa agitação política pode impactar o setor cervejeiro?
Acho que esses momentos dificultam um pouco o andamento de alguns processos importantes, como implementação da reforma tributária, de ajuste fiscal, de necessidade de geração de empregos. E quando você não tem previsibilidade nas regras, é ruim para todo mundo porque o custo de investir fica mais alto. Mas acho que apesar de estarmos passando por um momento político conturbado, não existe uma crise institucional, como já vimos em outros momentos. Então, a gente tem plena confiança que temos maturidade política, democrática e institucional para evitar que ruídos políticos afetem os negócios no Brasil. E, especialmente, o direito do brasileiro de tomar sua cerveja no happy hour com seus amigos ao final do dia.


