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Cervejarias do Mondial adiado vão vender a produção em festival gratuito na Rua da Cerveja

Festejo Carioca da Cerveja, articulado pelo setor em menos de uma semana, ocupa o Centro do Rio de 31 de outubro a 2 de novembro; prefeitura paga a estrutura

A produção que mais de 40 cervejarias prepararam para o Mondial de la Bière vai ser vendida no Festejo Carioca da Cerveja, festival gratuito na Rua da Cerveja, no Centro do Rio. O evento acontece de sábado (31) a segunda-feira (2), feriado de Finados. Foi articulado em menos de uma semana por cervejarias, bares e restaurantes, depois que o Mondial foi adiado para 2027 a nove dias da abertura.

O festival foi confirmado na sexta-feira (23), em reunião com os órgãos municipais. Segundo a organização, a prefeitura vai custear a estrutura e a operação, como trânsito, limpeza e segurança, e dispensar as taxas de alvará e licenciamento. Os expositores não pagam pelo espaço nem repassam parte das vendas. Participam apenas as cervejarias que tinham contrato com o Mondial.

A pressa se explica pelo produto. Boa parte do que as cervejarias levariam ao Píer Mauá é chope, a cerveja que não passa por pasteurização, o tratamento térmico que elimina microrganismos capazes de estragar o produto, alterando aroma e sabor. Sem ele, a bebida dura poucas semanas e não resistiria até a nova edição.

O Mondial estava marcado de 29 de outubro a 1º de novembro. A organização atribuiu o adiamento a “complicações operacionais que impossibilitaram a realização do evento”, sem detalhar quais, e promete a nova edição para o primeiro semestre de 2027, ainda sem data. Quem comprou ingresso pode mantê-lo e ganhar outro da mesma categoria ou pedir reembolso no site da Ingresse.

Como o setor montou o Festejo Carioca da Cerveja

A mobilização começou na terça-feira (20), dia do anúncio do adiamento, em mais de uma frente. A sommelier e juíza internacional de cerveja Aline Ferreira, fundadora da Hop Your Media, agência especializada em comunicação de cerveja, e hoje curadora do festival, passou a reunir as cervejarias prejudicadas. A primeira ideia dela era um formulário em que cada marca informaria o estoque, para ligar os produtores a bares e restaurantes. “A gente vai ter que fazer alguma coisa, porque tem muita gente preparada com cerveja”, lembra.

Foi Aline quem procurou o vereador Flávio Valle, que levou a proposta ao prefeito Eduardo Cavaliere. “A Prefeitura recebeu muito bem a ideia, justamente por entender que ela mitiga prejuízos e fortalece o centro da cidade”, afirma.

O empresário Raphael Vidal, dono da Choperia Cotovelo, na Rua da Cerveja, conta que outros grupos se organizaram ao mesmo tempo, um liderado por Renato Brandão, da cervejaria Criatura, e outro por Luiz Oliveira, da Cervejaria Vírus. Ele e o sócio Edu Pontes procuraram o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Osmar Lima. “É o resultado do movimento independente de vários atores do setor cervejeiro e de bares e restaurantes”, diz Raphael.

Valle é sócio das cervejarias niteroienses Máfia e Masterpiece, que também estariam no Mondial. Ele avisou por ofício os estabelecimentos da Rua da Cerveja que as marcas dele ficarão fora do festival, “para evitar qualquer conflito de interesses”.

Um modelo montado por quem produz

Reunião com a prefeitura onde o evento foi aprovado aconteceu na sexta-feira (Crédito: Festejo Carioca da Cerveja / Divulgação)
Reunião com a prefeitura onde o evento foi aprovado aconteceu na sexta-feira (Crédito: Festejo Carioca da Cerveja / Divulgação)

O arranjo foge do roteiro dos grandes festivais de cerveja, em que uma empresa organizadora monta o evento e as cervejarias entram como expositoras. No Festejo Carioca da Cerveja, a iniciativa partiu dos próprios produtores e de donos de bares, e a prefeitura entrou com a estrutura.

Gilberto Tarantino, presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), acompanhou as conversas e vê no episódio um sinal de mudança. “O mundo está mudando, o nosso setor da cerveja também está mudando, então a gente precisa de eventos que sejam benéficos às cervejarias e não aos organizadores de evento”, afirma. Segundo ele, a Abracerva quer captar recursos para criar um modelo próprio em 2027, com palestras, congresso e concurso.

Na curadoria, Aline diz ter insistido para que a participação fosse gratuita para os cervejeiros, e todas as marcas terão barracas do mesmo tamanho.

A equipe de Raphael, que organiza eventos no Centro desde 2012, ficou com a produção. O empresário afirma que a festa não pretende ocupar o lugar do Mondial. “A ideia não é de substituição, mas de somar para que em 2027 tenhamos os dois eventos ocorrendo na cidade”, diz.

Palco, gastronomia e pequenos produtores

O Festejo Carioca da Cerveja vai das 12h às 20h, com a rua fechada ao trânsito e palco com programação musical. Segundo o planejamento até agora, deve haver gastronomia e espaço para cerca de dez pequenos produtores de pães, queijos e doces. A lista definitiva de expositores ainda está sendo fechada e deve ser divulgada, com as demais atualizações, no perfil do festival no Instagram.

A Rua da Cerveja é o polo de cervejarias artesanais instalado em casarões históricos da Rua da Carioca, perto da estação do metrô Carioca. O projeto da prefeitura subsidia desde 2023 a reforma dos imóveis e parte das despesas de quem se instala neles. Tem sete brewpubs em funcionamento, casas que fabricam e vendem o próprio chope, e foi inaugurado oficialmente em setembro.

Valle quer que a festa se repita. Segundo o Diário do Rio, ele apresentou à Câmara Municipal um projeto de lei para incluir o Festejo Carioca da Cerveja no calendário oficial da cidade, com uma edição por ano.

Para Aline, o festival nasce de uma perda. “Vira meio que a oportunidade de criar do zero, de algo muito ruim que aconteceu”, diz. “A gente está criando algo novo.”

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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