Passado o segundo turno das eleições, no domingo (25), o setor cervejeiro tem um pedido a quem governar o país a partir de janeiro: previsibilidade, a começar pelo imposto da cerveja. Ouvidas pelo Guia da Cerveja, três entidades da cadeia, a Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), o Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv) e a Associação Brasileira da Lata de Alumínio (Abralatas), apontam a implantação da reforma tributária como o tema que vai pesar nos investimentos dos próximos anos.
O ponto mais sensível é o Imposto Seletivo, que vai mudar o imposto da cerveja a partir de 2027. Apelidado de “imposto do pecado”, ele foi criado pela reforma para substituir o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) em itens como bebidas alcoólicas, cigarros e bebidas açucaradas.
As regras do primeiro ano, porém, ainda estão nas mãos do atual governo. A proposta do Ministério da Fazenda, que deve chegar ao Congresso por medida provisória depois do segundo turno, prevê para 2027 uma carga igual à do IPI. Como passou o prazo para que o novo tributo valesse em 1º de janeiro, a cobrança só poderá começar em fevereiro, e a pasta estuda uma emenda constitucional para prorrogar o IPI em janeiro, como o Guia da Cerveja mostrou na semana passada. O que vier depois disso fica com o governo eleito.
Setor cervejeiro quer regras estáveis para investir
Para a grande indústria, o que falta no imposto da cerveja é data e número. O Sindicerv, que tem entre os associados a Ambev e a Heineken, as duas maiores cervejarias do país, apoia a simplificação do sistema, mas defende que a transição seja conduzida com neutralidade, segurança jurídica e critérios técnicos. “A definição do calendário de implementação, das alíquotas e dos parâmetros do Imposto Seletivo será determinante para o planejamento das cervejarias nos próximos anos”, disse ao Guia da Cerveja o diretor institucional da entidade, Pedro Macêdo.
No desenho do tributo, o sindicato pede um modelo que preserve a competitividade, diferencie as bebidas pelo teor alcoólico e considere empresas de portes diferentes, pedidos que as entidades do setor repetem desde o ano passado. Fora da agenda tributária, a entidade espera diálogo institucional e políticas que estimulem investimento e inovação. “Estabilidade regulatória e previsibilidade serão fatores decisivos para que a indústria mantenha sua capacidade de crescer, inovar e contribuir para o desenvolvimento econômico do Brasil”, afirma Macêdo.
A mesma palavra aparece na resposta da Abralatas, que reúne os fabricantes de latas de alumínio para bebidas, fornecedores do setor cervejeiro. Perguntada sobre o que a indústria de latas precisa encontrar no país no novo ciclo que começa em 2027, a presidente executiva da entidade, Thais Fagury, lembra que esse negócio depende de investimentos e decisões de longo prazo. Além de previsibilidade, ela quer regras tributárias e ambientais que reconheçam “quem investe e entrega resultados concretos em logística reversa e reciclagem”.
No imposto da cerveja, pequenas pedem um olhar próprio
Na Abracerva, que representa as cervejarias artesanais, a expectativa recai sobre o porte. “O que a gente espera é que, seja quem for o vencedor, tenha um olhar para o pequeno empresário, porque a situação está muito difícil”, disse ao Guia da Cerveja o presidente da entidade, Gilberto Tarantino.
O dirigente vê no novo tributo uma chance de arrumar o sistema, com uma condição. “A gente acha que o Imposto Seletivo pode ajudar a organizar esse manicômio tributário, porém, ele não pode penalizar os pequenos.”
Essa ressalva já tem proposta no papel. Em agosto de 2025, a Abracerva entregou à Fazenda um plano de desconto para as artesanais que escalona o imposto da cerveja por volume de produção, em cinco faixas: redução de 95% para quem faz até 1 milhão de litros por ano e nenhuma acima de 10 milhões. O argumento é de escala. Segundo o Anuário da Cerveja 2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), 90% das cervejarias do país dividem só 0,5% do volume produzido.
De acordo com Tarantino, a proposta foi articulada com as grandes cervejarias, e o pedido converge com o do Sindicerv, que também pede atenção ao porte de cada empresa.


