Quem vive na ponte aérea entre São Paulo e Rio de Janeiro certamente já teve aquela sensação de que o tempo gasto no ar poderia ser melhor empregado em solo, sentado à mesa de um bar e tomando cerveja com os amigos. Agora, o passageiro da Gol pode ter pelo menos um gostinho do happy hour que está perdendo: a cerveja está de volta ao serviço de bordo da companhia.
Nas quintas e sextas-feiras, nos voos que decolam de 17h às 23h dos aeroportos de Congonhas (SP) e Santos Dummont (RJ), é possível optar por uma Heineken como bebida do serviço de bordo gratuito oferecido pela companhia – que inclui ainda mini-hambúrgueres de picanha Wessel com queijo prato. A princípio, trata-se de uma campanha por tempo limitado – até o final do ano.
Essa, porém, não é a única iniciatica nessa linha. Quem viveu tempo suficiente (não precisa ser muito) se lembra das mudanças no padrão do serviço de bordo e na experiência proporcionada ao usuário de aviação. Nos últimos dez anos, a tendência das aéreas foi de enxugar os serviços ao máximo e cobrar por alguns deles – e, nessa onda, a cerveja praticamente sumiu dos cardápios. Mas, nesse ano, ela voltou a aparecer em voos.
A Azul também passou a servir Skol em voos no happy hour (entre 17h e 21h), às quartas e sextas. Ao contrário da Gol, trata-se de uma volta definitiva ao cardápio, em voos que interligam 11 cidades: São Paulo, Rio de Janeiro, Campinas, Curitiba, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Recife, Porto Alegre, Salvador e Vitória.
A cerveja é servida em latas de 269 ml e, para chegar mais próximo de um happy hour de verdade, acompanha batatinha frita e amendoim.
A inflação da cerveja vem destoando do mercado brasileiro em 2018. Enquanto o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 1,26% entre janeiro e junho, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o preço da bebida caiu 3,09%. E o principal responsável pela queda é o Rio de Janeiro.
Na capital carioca, o preço da cerveja em domicílio despencou 8,12% nos seis primeiros meses do ano. Logo em seguida aparecem duas cidades nordestinas: Salvador, com baixa de 7,53%, e Fortaleza, com 4,66%. Curitiba (-4,45%) e Goiânia (-3,87%) completam a lista.
Outros importantes polos cervejeiros também apresentaram queda. Em São Paulo, por exemplo, o preço da cerveja caiu 2,85% em 2018. E, na Região Sul, além de Curitiba, Porto Alegre (-0,53%) também teve deflação.
Já Rio Branco foi na contramão do mercado cervejeiro: alta de 2,21%. O mesmo ocorreu com Campo Grande e Belo Horizonte, que apresentaram inflação de 1,28% e 0,94%, respectivamente.
Em relação à cerveja fora do domicílio, que teve alta nacional de 0,67% nos seis primeiros meses do ano, o preço subiu mais em Campo Grande (5,86%), Curitiba (3,81%) e na Grande Vitória (2,37%). Lideraram as baixas, por sua vez, Recife (-2,91%), Aracaju (-2,21%) e Belém (-1,34%).
A ampliação da oferta de cursos facilitou a vida do apreciador de cerveja. Para se aprofundar no assunto e fazer da bebida um caminho sem volta, ele tem hoje uma série de escolas especializadas nas mais diversas cidades do país. Trata-se, então, de escolher aquela mais próxima ou à ideal ao seu perfil – e iniciar a saborosa jornada.
Mas, no meio desse caminho, existe uma pedra. Em meio à saudável ampliação da oferta, é preciso estar atento para saber qual curso atende as suas necessidades. Pode não parecer, mas existe uma grande diferença entre eles, mesmo para o iniciante que pretende dar o primeiro passo. O importante, então, é: como não tropeçar nessa pedra? E a resposta soa límpida como um poema drummondiano: conhecendo exatamente o que cada um oferece.
“Os cursos básicos de degustação e fabricação são indicados para todos os amantes da bebida, mesmo os que não têm formação na área ou que estão entrando nesse mundo agora”, conta Júlia Reis, sócia e professora da Sinnatrah, uma cervejaria-escola de São Paulo que oferece cursos desde 2009.
“O ‘bebedor de cerveja’ tende a procurar dois caminhos principais: aprender a degustar uma boa cerveja, através de formações como a de sommelier, ou a produzir sua própria bebida em casa, nas suas panelas”, acrescenta Carlo Enrico Bressiani, sommelier de cervejas, PhD em Finanças pela Universitat Ramon Llull, de Barcelona, e diretor-geral da Escola Superior de Cerveja e Malte, de Blumenau.
Há, também, os cursos avançados, especialmente voltados para quem já deu os primeiros passos. “São destinados aos cervejeiros que já sabem produzir cerveja, mas buscam aprofundamento sobre ingredientes, novas técnicas (lupulagem, mostura, boas práticas de fermentação) e que querem conseguir montar suas próprias receitas do zero”, explica Júlia.
Confira, a seguir, alguns dos cursos oferecidos e veja qual se adequa a você:
PARA CONHECER
Sommelier de Cervejas É um curso de degustação “orientado”, conforme indica Amanda Reitenbach, fundadora do Science of Beer Institute, uma escola criada em 2010, localizada em Florianópolis e com parcerias na América Latina e na Europa. “Aborda aspectos como degustação orientada, harmonização de cerveja e alimento, serviço de bebidas. Habilita o aluno a atuar como sommelier, atuando na comercialização e orientação de cervejas”, diz. “Para o curso de sommelier de cervejas o único pré-requisito é ser apaixonado por cervejas e estar aberto a aprender ainda mais sobre o assunto.” Serviço: O Science of Beer Institute oferece o curso em diversas cidades ao longo do segundo semestre. Confira mais detalhes
Júlia Reis, sócia e professora da Sinnatrah
Degustação
Um curso de análise sensorial e degustação dará as ferramentas para aproveitar tudo o que a cerveja oferece e melhorará a sua experiência com a bebida, relata Júlia Reis, da Sinnatrah. “No que eu ministro, por exemplo, incluímos dicas de temperatura de serviço, técnicas para identificar o aroma e o sabor completo da cerveja, percepções sobre o amargor, o impacto dos ingredientes no sabor”, aponta. “A ideia não é que a pessoa beba uma garrafa inteira de cerveja estudando, isso pode parecer muito sério ou monótono para algumas pessoas. A ideia do curso é mostrar as possibilidades de sabor que a cerveja oferece sem que, necessariamente, ele se torne um especialista ou grande estudioso.” Serviço: A Sinnatrah oferece o curso nos dias 31 de julho e 22 de agosto, em São Paulo. Confira mais detalhes
PARA FAZER
Fabricação Se você é da linha “faça você mesmo”, um curso de fabricação será a porta de entrada ideal para esse universo. “Afinal, ensinamos o passo a passo para o preparo de uma cerveja em casa sem a necessidade de tantos equipamentos como em uma fábrica. Fazer a própria cerveja e escolher as características de cor, amargor, álcool é muito prazeroso para quem gosta de cerveja”, garante Júlia. Além de ser um hobby que se tornou popular nos últimos anos, o curso não requer conhecimento prévio de química ou engenharia como muitos imaginam, segundo a professora. Serviço: A Sinnatrah oferece o curso nos dias 21 e 28 de julho, além de 23 de setembro, em São Paulo. Confira mais detalhes
Science of Beer: cerveja na teoria e na prática
Tecnologia em Processos Cervejeiros Assim como o de sommelier, o curso de tecnologia em processos cervejeiros serve para o apaixonado por cerveja que pretende aprender sobre o assunto, segundo Amanda. “É voltado para quem quer aprender os processos de fabricação, aprimorar conhecimento técnico, profissionalizar suas produções e inserir-se no mercado de trabalho, pois orienta a planejar e coordenar todas as etapas da produção de cerveja.” Serviço: O Science of Beer Institute oferece o curso em diversas cidades ao longo do segundo semestre. Confira mais detalhes
PARA APROFUNDAR
Science of Beer Styles; Escolas e Estilos de Cerveja Curso ideal para quem gosta de conhecimento. Investiga os estilos de cerveja e fala sobre suas origens, sua importância histórica, sua classificação – e aborda as escolas cervejeiras. “O curso de estilos cervejeiros pede um conhecimento prévio para execução, uma vez que a proposta gira em torno do aprofundamento”, avisa Amanda. Serviço: O Science of Beer Institute oferece o curso em diversas cidades ao longo do segundo semestre. Confira mais detalhes. E, para saber sobre o curso da Escola Superior de Cerveja e Malte, clique aqui
Escola Superior de Cerveja e Malte: pós em cerveja
Graduação e Pós-Graduação em Tecnologia Cervejeira A Escola Superior de Cerveja e Malte criou uma verdadeira grade universitária sobre a bebida mais consumida do mundo. É a Engenharia de Produção Cervejeira, primeiro curso de graduação sobre o tema fora da Alemanha. Tem 4.194 horas e dá diploma em Engenhenharia de Produção. Já o curso de Pós-Graduação em Tecnologia Cervejeira é feito em 18 meses e visa “fornecer o domínio de todo o processo produtivo aos mais exigentes padrões de qualidade de forma a otimizar e inovar na fabricação cervejeira”, segundo a escola. Serviço: Confira mais detalhes sobre o curso de Engenharia de Produção Cervejeira. E, aqui, sobre a Pós-Graduação em Tecnologia Cervejeira
A terra árida, seca, quase dourada da Grota do Angico, em Poço Redondo, no Sergipe, se enlameou definitivamente com o sangue ainda quente de Maria Bonita em 1938, a companheira de Lampião degolada viva após uma emboscada. A história de luta da primeira mulher cangaceira, contudo, foi retomada décadas depois por um grupo de pernambucanas. E o que se verte, hoje, é resistência lupulada: entre goles de um líquido também dourado, agora festivo, mas ainda exclusivo, a Confraria Maria Bonita trava sua moderna batalha pela inclusão da mulher no mercado cervejeiro.
Diretoria no aniversário de dois anos da Confraria Maria Bonita
Contra a ideia estabelecida de que o “sexo frágil” (sic) deve, por exemplo, gostar apenas de cerveja leve e doce, entre tantos outros preconceitos, o grupo foi formado em fevereiro de 2015 por quatro mulheres interessadas em mudar esse cenário. Tem, entre suas integrantes, gente do calibre de Gabi Ramos, da Ambev, Patrícia Sanches, sócia da cervejaria Patt Lou e do Instituto Ceres de Educação Cervejeira, e Nadhine França, consultora cervejeira e organizadora de eventos.
“A confraria surgiu da inquietação da beer sommelière Gabi Ramos em perceber que o mercado cervejeiro local só tinha homens e, em conjunto com Patrícia, que havia começado a fazer cerveja com o esposo, resolveram criar a confraria em uma tentativa de reunir mais mulheres com esse interesse, além de poder atrai-las para o mundo cervejeiro. Começamos com quatro meninas fazendo degustações e participando de eventos”, relata Nadhine França.
A confraria, então, cresceu. Entre conversas no WhatsApp para debater assuntos, tirar dúvidas cervejeiras e compartilhar eventos, a Confraria Maria Bonita foi se estruturando em comissões – “um grupo toca as degustações, outro as brassagens, que normalmente são mensais, outro organiza os eventos maiores”, segundo Nadhine – até alcançar mais de 90 membros.
“Hoje, o grupo conta com 93 participantes. Todas possuem interesse na cerveja de alguma forma, seja apenas para aprender a apreciar melhor, seja profissionalmente ou efetivamente fomentando a cultura cervejeira local”, explica Nadhine.
Uma nova batalha O crescimento da Confraria Maria Bonita, porém, não esconde uma dura realidade: ainda há muito trabalho a ser feito pelas integrantes para minimizar os efeitos do machismo não apenas do mercado cervejeiro, mas da sociedade em geral.
“Hoje nossa luta é contra o machismo de uma maneira mais ampla, mas tentando mudar o status quo no meio cervejeiro com pequenas ações. Lutando para que nos lugares que frequentamos, a mulher seja respeitada como cliente e consumidora de cerveja, que a mulher tenha chances iguais de trabalho e salário equivalente ao de um homem na mesma função. Mostrar para a mulher que a cerveja é um mundo, além de um mercado em ascensão, e que temos todo o poder para estar dentro dele.”
Se a difícil missão passa por superar um dos grandes males enraizados em nossa cultura patriarcal, a escolha de sua principal inspiração demonstra que, entre copos de cerveja, a confraria sabe bem o que pode construir. “Maria Bonita é uma representante da força da mulher nordestina. Ela também vivia em um ambiente majoritariamente masculino, foi a primeira mulher a participar de um grupo de cangaceiros. E abriu margem para entrada de muitas outras. Morreu lutando por aquilo que acreditava e hoje é um símbolo”, aponta Nadhine.
Patrícia, Lucy, Gabriela e Nadhine, as quatro primeiras fundadoras
Conheça algumas integrantes da Confraria Maria Bonita:
Patrícia Sanches é beer sommelière, técnica cervejeira, sócia da Cervejaria Patt Lou e do Instituto Ceres de Educação Cervejeira;
Lucy Cavalcanti é consultora cervejeira e gerente do BrewPub Cervejaria Laborada; Gabi Ramos é beer sommelière e trabalha na Ambev; Nadhine França é consultora cervejeira, entusiasta e organizadora de eventos; Julyana Alecrim é beer sommelière e sócia do Instituto Ceres de Educação Cervejeira; Márcia Marcondes é beer sommelière e cervejeira caseira.
Maior evento cervejeiro do planeta, com edições no Canadá, na França e em São Paulo, o Mondial de La Bière iniciou a venda de ingressos para sua versão carioca que ocorrerá entre os dias 5 e 9 de setembro, nos armazéns 2, 3 e 4 do Píer Mauá, no Rio de Janeiro. E, apostando na diversidade da oferta, a organização garante que o festival focará tanto o público mais aficionado por cerveja quanto os “beergeeks”.
“O Mondial de la Bière tem um papel fundamental de abertura de mercado e aumento da penetração da cerveja artesanal no mercado consumidor. O evento é democrático e tem oferta de cervejas complexas para ‘beergeeks’ e cervejas de entrada para novos consumidores”, conta Luana Cloper, diretora da Fagga, com exclusividade ao Guia da Cerveja.
Com a expectativa de receber mais de 1.500 rótulos e 10 mil visitantes por dia, o Mondial Rio de 2018 investirá na participação de cervejarias estreantes e novamente terá estrangeiras, segundo informa a executiva da Fagga, empresa responsável pela organização do evento.
“Dentre as novidades, destaque para as cervejarias estreantes no evento. Hoje já temos 30 cervejarias que estão participando do evento pela primeira vez, mas esse número vai crescer até o evento”, garante Cloper, antes de acrescentar.
“Hoje temos mais de 100 cervejarias confirmadas, vindas de diversos estados do Brasil e também do exterior através das importadoras. Ainda estamos na reta final de confirmações, portanto esse número vai crescer. Como ainda não recebemos os cardápios das cervejarias, não temos a relação de rótulos que estarão no evento. Nossa expectativa é ultrapassar 1000 rótulos”, pontua.
Entre as cervejarias confirmadas estão a Viper, Brewlab, Kremer, Matisse, Primata, Show de Bola, Viquim, Dream Bier, Thirst Howks, Halve Maan. Além da extensa oferta de rótulos, o Mondial de La Bière Rio terá o concurso MBeer Contest Brazil, dezenas de shows e boa gastronomia, entre outras atrações.
“O visitante vai encontrar um grande evento, com uma atmosfera feliz, tendo a cerveja artesanal e o bem-estar como protagonistas. Boa bebida, boa comida, conforto, diversão, shows, tattoo e algumas novidades que vamos divulgar em breve”, finaliza a executiva.
Serviço
Mondial de La Bière Rio Data: de 5 a 9 de setembro;
Horário: Quarta e quinta das 16h à 00h; sexta e sábado das 14h à 00h; e domingo das 14h às 21h;
Local: Píer Mauá, Armazéns 2, 3 e 4, na Av. Rodrigues Alves, 10, Saúde, Rio de Janeiro;
Vendas: www.mondialdelabiererio.com.
A cerveja artesanal está ganhando ares de relíquia artística. Para comemorar a volta ao Museu de Arte de Cincinnati da obra Vegetação Rasteira com Duas Figuras, do pintor holandês Vincent van Gogh, a instituição norte-americana e a cervejaria artesanal local Listermann lançam no dia 21 de julho um rótulo especial com imagens da pintura.
A obra é a mais valiosa e famosa do acervo permanente do museu, e data de 1890. Nos últimos meses, com a mostra Van Gogh & Japan e um público de 750 mil pessoas, ela rodou por museus de Amsterdam, Hokkaido, Tokio e Kyoto.
A cerveja, por sua vez, é uma New England IPA com toques de laranja, limão, manga e lichia. Estará disponível em draft e caixas de quatro latas de 473ml – por US$16 na taproom da cervejaria e nas lojas e restaurantes do museu.
“É quase impossível acreditar que temos essa oportunidade maravilhosa de ter uma obra de um dos maiores mestres da história da arte em nossas latas”, disse Jared Lewinski, mestre cervejeiro da Listermann, ao site The Full Pint.
Esta, no entanto, é a segunda vez que a cervejaria artesanal toma carona na agenda do museu. Em março, uma New England Red IPA foi produzida no embalo da exposição de estátuas de guerreiros de terracota chineses.
A Listerman publicou em suas rede sociais um vídeo da produção. Em ambas as parceiras, a cervejaria doa 10% dos lucros ao museu.
A crescente tendência das cervejas artesanais em lata ganhou uma nova aliada no mercado brasileiro. Trata-se do Conjunto Blocado Automático Linear para Latas RZ RER-LA-F 4/4/1 GA-PV, uma enchedora que promete produzir até mil latas por hora.
Lançado pela Zegla Indústria de Máquinas para Bebidas, o equipamento tem a vantagem de ser compacto e foi pensado justamente para auxiliar essa nova tendência do mercado, segundo conta Cássio Cusin, supervisor regional de vendas da empresa.
Conjunto Blocado Automático Linear para Latas
“A cerveja artesanal em lata é a nova tendência no Brasil e está cada dia mais presente no mercado. Então, a cervejaria vai poder acompanhar esse movimento com um equipamento confiável, compacto e eficiente”, afirma o supervisor com exclusividade ao Guia da Cerveja.
O equipamento traz também entre suas vantagens, segundo acrescenta Cusin, a segurança no envase. Permite, ainda, produzir mil latas de 269 ml e 355 ml por hora – e 750 de 473 ml.
“É uma solução para envase seguro de cerveja em latas. Produz 1.000 latas por hora, além de ser uma máquina compacta que oferece tempo de resposta para atender o mercado”, completa o supervisor da Zegla.
Outras funcionalidades do conjunto blocado são o rinser linear com quatro pinças pegadoras de latas, tanque construído em aço inox com controle automático de nível através de boia e quatro válvulas de enchimento isobarométricas, especialmente desenhadas para enchimento de latas com cerveja e sistema de pré-evacuação de ar por varredura de CO2.
Embora o malte brasileiro tenha tanta qualidade quanto qualquer outro estrangeiro, a produção de cevada sofre com questões internas que dinamitam a oportunidade de praticamente dobrar a sua capacidade. É o que garante Euclydes Minella, pesquisador da Embrapa Trigo e uma das principais referências nacionais no cultivo de grãos cervejeiros.
Em entrevista ao Guia da Cerveja, Minella revela os problemas dessa improdutividade. “Como o negócio é totalmente privado e concentrado, o aumento da capacidade industrial depende de pesados investimentos na construção de novas plantas”, aponta.
O especialista fala com a experiência de quem trabalha há décadas com o tema. Pesquisador da Embrapa Trigo desde 1975, período em que gerou e transferiu conhecimentos e tecnologias na área de agronomia e melhoramento genético de cereais de inverno, com ênfase em cevada, Minella cursou doutorado na Cornell University, nos Estados Unidos, onde estabeleceu a base genética da tolerância ao alumínio tóxico em cevada, fator limitante à expansão e à produção da espécie em regiões de solos ácidos.
E, com base nessa experiência, o pesquisador avalia também a queda na produção de cevada em 2017 e os seus impactos ao mercado brasileiro. Fala, também, sobre o sonho de produzir o lúpulo nacional. E garante: é possível, sim, embora estejamos distantes.
Confira, a seguir, a entrevista completa com Euclydes Minella, pesquisador da Embrapa Trigo.
Qual a qualidade atual do malte brasileiro? Temos o mesmo nível de malteação e de qualidade de grãos do que os principais países desse mercado? A qualidade do malte saindo das maltarias brasileiras é tão boa quanto a dos maltes importados com os quais temos que competir para acessar o mercado cervejeiro nacional. Certamente, para atingir esta qualidade, nossas maltarias aplicam a mesma tecnologia dos exportadores que importam cevada de qualidade competitiva. O malte comercializado tem que atender as especificações dos cervejeiros, que em geral seguem padrões internacionais.
Quais os principais entraves na produção nacional de malte/grãos e o que tem sido feito para destravá-los? Na produção de malte existe espaço para praticamente dobrar a capacidade atual. Como o negócio é totalmente privado e concentrado, o aumento da capacidade industrial depende de pesados investimentos na construção de novas plantas e da competitividade para concorrer com o custo-benefício de outras alternativas de negócios. A expansão tem ficado apenas com os fabricantes atuais, sem a participação de novos investidores.
Embora a área cultivada de cevada no Brasil tenha aumentado quase 30% entre 2016 e 2017, a produção caiu 24,5%. O que explica a discrepância entre esses números? Trata-se do efeito de condições adversas de clima para a cevada, frequentes na região de concentração da produção (Região Sul). A safra de 2016 foi excelente, mas a de 2017 foi abaixo da produtividade média esperada.
Como essa queda afetou o mercado cervejeiro? Na verdade, a produção interna de cevada não afeta o mercado cervejeiro, uma vez que a indústria tem como suprir a queda aumentando a importação. A queda de produção afeta sim os produtores, que poderão amargar prejuízos em anos desfavoráveis.
E como essa queda pode ser enfrentada? Uma maneira de acelerar o aumento da capacidade de malteação seria o incentivo a investidores independentes da indústria de cerveja, como cooperativas, e outros investidores do agronegócio.
O que é preciso para produzir um lúpulo brasileiro em larga escala? É preciso adaptar as condições de solo e clima de um país de clima tropical/subtropical, menos favoráveis do que as do clima temperado, onde a maior parte do lúpulo é produzido.
É possível hoje sonhar com o cultivo desse lúpulo nacional? Baseado nas experiências de produção em andamento em várias regiões do país, principalmente pelo segmento da cerveja artesanal, acredito, sim, ser possível produzir lúpulo internamente. Entretanto, produções extensivas vão demorar muito para se consolidar, devido à falta de pesquisa com a espécie por aqui. Praticamente inexiste pesquisas fora do setor privado.
Cerveja se tornou algo sério no Brasil. Tão sério que, nos últimos anos, em meio ao crescimento da oferta de artesanais, a bebida mais consumida nacionalmente deixou a mesa de bar e foi parar na sala de aula das principais universidades do país. E, nesse sentido, poucas iniciativas foram tão significativas quanto à criação do Laboratório da Cerveja, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Criada em julho de 2015 sob a coordenação do professor Dr. Carlos Augusto Rosa e integrada pelas doutoras em microbiologia Beatriz Borelli e Luciana Brandão, a iniciativa é um projeto de extensão executado pelo Laboratório de Taxonomia, Biodiversidade e Biotecnologia de Fungos localizado no Instituto de Ciências Biológicas da UFMG. Tem, entre suas funções, oferecer apoio ao cervejeiro local.
As doutoras Luciana Brandão e Beatriz Borelli
“O nosso objetivo é dar suporte técnico e científico aos produtores de cervejas artesanais por meio de serviços voltados para a microbiologia envolvida na produção de cervejas”, resumem as doutoras Beatriz Borelli e Luciana Brandão, que integram o Laboratório de Taxonomia, Biodiversidade e Biotecnologia de Fungos.
A ideia de criar o Laboratório da Cerveja surgiu da própria percepção de expansão do mercado de cervejas especiais em Minas Gerais – e da observação de que não existiam serviços voltados para garantir a qualidade microbiológica da bebida.
“As atividades do Laboratório da Cerveja iniciaram em julho de 2015, quando começamos a aprofundar os estudos sobre produção, fermentação e micro-organismos envolvidos nas cervejas e também sobre o controle de qualidade microbiológico na produção de cervejas”, contam.
Em julho de 2016, então, o projeto realizou o primeiro trabalho de controle de qualidade microbiológico em uma cervejaria de Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte e importante polo cervejeiro de Minas Gerais.
Vários produtores, então, foram entrando no radar do laboratório. “Esses contatos foram extremamente importantes para conhecer a demanda das cervejarias, difundir a importância do controle de qualidade, expandir nossa carta de serviços e também expandir o número de cervejarias atendidas.”
A atuação do laboratório O projeto da UFMG é voltado totalmente para melhorar a “safra” do cervejeiro. Ao identificar a presença de alguma alteração sensorial na bebida, ou mesmo se quiser manter um padrão de qualidade em seus rótulos, o produtor só precisa entrar em contato por e-mail ou telefone e informar as suas necessidades.
Brandão e Borelli contam que, feito esse primeiro contato, é realizada uma visita técnica, “onde é avaliada a estrutura física da cervejaria e identificados pontos críticos importantes a serem monitorados antes ou após o processo de sanitização da cervejaria (CIP)”.
A cervejaria também pode optar por avaliar apenas o produto final como a cerveja na garrafa, pasteurizada ou não, o chope, a cerveja em fermentação ou a maturação. “Além disso, o fermento (re)utilizado também pode ser analisado quanto à presença de contaminantes e à viabilidade para novas utilizações. Matérias primas como água e malte também podem ser encaminhadas para análises microbiológicas”, explicam.
Depois de recolhido o material, o laboratório faz as análises microbiológicas para detecção e identificação de micro-organismos contaminantes, como bactérias e leveduras selvagens, que podem prejudicar a qualidade sensorial da bebida. Todos os meios e técnicas utilizados estão de acordo com os protocolos internacionais da American Society of Brewing Chemists (ASBC) e European Brewing Convention (EBC).
Além de proporcionar um apoio ao controle de qualidade, o laboratório também oferece um curso mensal de Produção de Cerveja Artesanal para iniciantes. As matrículas e outras informações estão disponibilizadas no site da Fundep (www.fundep.ufmg.br).
A literatura constrói, a rotina destrói. E, nesse ínterim povoado pela angústia inesgotável, o zero absoluto da essência, a bebida alcoólica surge como fonte primária de abastecimento de algo que, de maneira imprudentemente genérica, poderíamos definir como sentido. Que não seja essa uma ideia-síntese. Mas, quem sabe, que funcione como mínima imagem para definir o russo, esse russo sempre atrelado aos mujiques e aos revolucionários, às doses de vodca e ao Dostoiévski.
Eis aqui, porém, o problema real. Se já soa desgastado determinar qualquer povo sem recair em um descartável clichê, mais difícil ainda parece ser a definição de uma gente marcada por dois componentes tão grandiosos quanto inconcebíveis: o álcool e a literatura. Dois componentes, aliás, que se tornaram irmãmente indissociáveis.
“Primeira coisa: existem estereótipos – a pontualidade inglesa, por exemplo – e a bebedeira russa é um deles. Como no Brasil, onde se diz que tudo é carnaval e futebol, e nada mais. Antes, é preciso ter isso em mente”, aponta Elena Vássina, pesquisadora russa formada na Faculdade de Letras da Universidade Estatal de Moscou Lomonóssov (MGU) e professora de Letras Russas da Universidade de São Paulo (USP). “A bebida está presente na literatura russa. Sempre, desde Púchkin.”
Por mais que tenha seu traço estereotipado, a simbiótica relação entre álcool e literatura russa também é apontada como inevitável por Irineu Franco Perpetuo, jornalista e tradutor de importantes obras russas para o português, como O mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov, e Vida e Destino, de Vassíli Grossman.
“Associar Rússia e alcoolismo parece reforçar estereótipos, mas, se a língua é espelho da cultura, há muitas palavras específicas para isso em russo”, explica o tradutor. Zapói, por exemplo, define uma bebedeira que dura dias. “Ou sobutýlnki, companheiro de pândega, cuja raiz é justamente a palavra butýlka – garrafa.”
Há, ainda, um outro termo emblemático: vytrezvítel, uma espécie de delegacia para cura de ressacas. Foi criada antes da Revolução de 1917 e sobreviveu ao fim da URSS – o último vytrezvítel da Rússia foi fechado em 2006. Esse “estabelecimento” foi tema de uma novela escrita pelo dramaturgo Vassíli Chukchin (1929-1974), E de manhã eles acordaram, de 1973, e adaptada para o cinema em 2003, segundo Perpetuo.
“Na literatura (russa), o álcool me parece uma presença tão ou mais forte quanto o duelo – já que os duelos ficaram no século XIX, e o consumo de bebidas alcoólicas segue firme nos séculos XX e XXI – seja como vício, seja como celebração”, acrescenta o tradutor, remetendo a um trecho de Diário de um Escritor, de Dostoiévski:
O russo bêbado gosta de beber por desgosto e de chorar. Quando cai na farra, não celebra, apenas provoca desordens. Sem exceção, vai se lembrar de uma ofensa qualquer e passar um reproche no ofensor, com este presente ou não.
A cerveja “ocidental”
Embora tenha participação bem menos canônica na formação histórica e literária da Rússia, a cerveja possui uma pequena influência em algumas obras. Professora da USP, Vássina conta que a bebida apareceu no país durante o início do século 18, com Pedro, o Grande, um dos mais importantes czares russos.
“Ele ocidentalizou a Rússia, abriu a janela para a Europa e fundou São Petersburgo. Como trabalhou na Alemanha, na Holanda, ele trouxe o hábito de beber cerveja. Começou a servir na corte, principalmente a cerveja produzida por ingleses e alemães”, comenta a professora russa.
E é justamente com esse caráter “ocidental” que a cerveja aparecerá em Oblómov, escrito por Ivan Gontcharóv e publicado pela primeira vez em 1859. Retrato de uma aristocracia decadente e ociosa, uma antítese das então fabulosas promessas de progresso materializadas pela técnica e pela ciência, Oblómov é um sujeito que passa boa parte do tempo em casa dedicando-se, quase exclusivamente, com raras exceções, a comer e beber.
Sem disposição até para fazer as próprias compras, o personagem ordena seus pedidos para Zakhar, o seu estabanado criado. E, entre os itens geralmente solicitados, está a cerveja preta. “A cerveja não era aristocrática, mas a classe alta bebia. Não era uma bebida russa. Então, é a imagem dessa cerveja preta mesmo, uma cerveja inglesa, alemã. Da ocidentalização da Rússia”, explica Vássina.
A cerveja também será coadjuvante em Inveja, de Iuri Oliécha, publicado já no período soviético, em 1927. Focado nas estripulias de Nikolai Kavaliérov, um anti-herói dubiamente burguês e reticente com a revolução, o livro constrói com maestria um ambiente dominado pela ambiguidade. Tanto a perspectiva sobre os personagens quanto à leitura “sociológica” vão mudando com o andamento da narrativa. É uma obra essencialmente moderna, com amplas interpretações.
Poema visual de Prigov: O que há na cerveja
Situação idêntica ocorre com a bebida. Em sua vida desregrada, Kavaliérov vive em bares e, quase sempre, mais até do que vodca, opta pela cerveja. Como elucida Vássina, “a cerveja se torna uma bebida barata e popular na época soviética”, algo bem retratado em Inveja. Ao mesmo tempo, a bebida parece sintetizar um mea culpa de Oliécha, autor que reconheceu sua similaridade com Kavaliérov: enquanto os revolucionários trabalham na construção da URSS, Kavaliérov está mais concentrado na cerveja.
Mais decisiva será a participação da bebida em um poema de Dmitry Prigov, escrito já no fim do período soviético, quando a cerveja cai de vez no gosto popular. “Ele fez um poema visual em máquina de escrever, antes de existirem os computadores, creio que em 1984, 1985. Prigov preenchia todo o papel A4 com uma frase latina muito conhecida: ‘In vino veritas’. Era um triangulo que diminuía até o final da página e, no fim, tinha: ‘O que há na cerveja’. É um poema visual.”
Púchkin, Napoleão e a champagne
Se autores como Dostoiévski, Tolstói, Tchecov, Gogol e Gorki se tornaram mais célebres ao longo das décadas, ao menos no que se concerne à fama ocidental, a literatura russa deve todas as suas bases a um nome menos cultuado por aqui: Aleksandr Púchkin (1799-1837). É nele, também, onde estão as bases “alcoólicas” que inspirarão outros escritores.
Duas bebidas são essenciais em importantes livros de Púchkin, em especial o romance em versos Eugênio Oneguin, considerado por muitos como a sua obra-prima. Trata-se da champagne e do vinho. São, aliás, dois “presentes” legados pela França após Napoleão perder a guerra para a Rússia, segundo relata a professora da USP.
“Púchkin é o início da literatura russa, o diálogo com todas as obras que vêm depois. E ele fala muito de champagne porque, depois da guerra contra Napoleão, ela se torna a bebida predileta dos aristocratas russos. Depois, fica até popular”, detalha Vássina. “Como a Rússia venceu Napoleão, foi uma parte da contribuição. Teve que pagar durante 30 anos, a champagne e o conhaque. Então, isso vai estar na literatura russa, em Púchkin.”
Casa-museu Púchkin na Rua Arbat, ícone da boemia moscovita
A abordagem do escritor é aguda e reflete um caráter indissociável da cultura local. Como se, desde a pedra fundamental, a literatura russa enfrentasse a questão do estereótipo: se as duas bebidas são associadas a uma ascendência glamorosa na França, quase sovina, em Púchkin elas refletem exatamente o oposto.
“Púchkin fala de Veuve Clicquot, entre outros, e dos vinhos franceses. Fala muito de bebida, pois era impossível ocorrer um jantar russo sem o acompanhamento de vinho francês ou de champanhe. Na Rússia bebe-se bem mais champagne do que na França. É um estereótipo: dizem que francês é econômico, e o russo o contrário. A gente não tem limite, gasta tudo. Tem um caráter generoso. Então, vai encontrar muito champagne na vida. Tanto a cara, como a francesa, como algumas excelentes produzidas na Crimeia.”
Também em Guerra e Paz, de Tolstói, o vinho e a champagne têm importante participação. Irineu Franco Perpetuo, que está trabalhando na tradução da obra, relata que recentemente verteu uma passagem sobre um almoço, realizado em honra de um personagem histórico, o príncipe Bagration. E, aqui, as bebidas vão retratar um caráter quase complementar ao relatado por Vássina: os excessos.
“A refeição é fartamente regada a bebidas – vinho e champanhe, especialmente -, e aos brindes exaltados e prolixos que são de hábito na Rússia”, conta o tradutor. “Uma coisa que me ensinaram quando estudante do idioma é que os russos não costumam bebericar – eles esvaziam o conteúdo do copo de uma vez. Nessa cena do romance, para demonstrar que as taças foram esvaziadas, os personagens jogam-nas no chão. E não estamos falando de mujiques russos, mas sim da fina flor da aristocracia do país, reunida no Clube Inglês.”
Já na literatura soviética o vinho francês perderá espaço e dará lugar ao georgiano. É uma bebida mais doce e, sobretudo, o que parece reforçar a sua influência, adorada por Stalin. “Foi um culto de beber vinho georgiano. Tem vários escritores contemporâneos e soviéticos que bebem – e os personagens também”, afirma Vássina.
Vodca
Por mais que a cerveja, o vinho, a champagne e mesmo o licor – outra bebida fundamental na formação do país – tenham participação ora coadjuvante, ora decisiva na história literária russa, ainda resta toda uma margem lamacenta que levará rumo à fonte desse abismo humano, social, moral, ético, que parecem sempre nos sinalizar os Púchkins, os Tolstóis, os Tchecovs, os Dostoiévskis, os Turguênievs, os Leskovs, os Bunins, etc., etc., etc.
Contra o estereótipo desgastado, contra esse tipo irrevogável de essência esvaziada, resta-nos a vodca. A vodca e, claro, uma dose de literatura. Pois é na união entre essas entidades tão óbvias – e ao mesmo tempo tão sublimes – que parece possível descortinar uma dualidade fundamental e preencher o vácuo de monotonia combatido de frente pelo Id, essa estrutura inconsciente que Freud só pode ter desvendado ao analisar um russo.
De um lado, é evidente, essa relação aponta para um dos mais tenebrosos aspectos russos: o alcoolismo. Doença que não apenas vai inspirar dezenas de obras, como fomentar uma série de “debates” literários. “Em Crime e Castigo, por exemplo, o pai da Marmeladov é alcoólatra e Dostoiévski escreve isso muito detalhadamente. Tudo está ligado à destruição trágica desse pequeno funcionário público. Deixa viúva, filho. Ele é alcoólatra, possui uma doença”, lembra Vássina.
Tolstói, por sua vez, dedicou parte de sua vida para combater a doença. “Ele tem várias obras contra o alcoolismo, contra esses hábitos, como os contos e as novelas”, diz a professora. “Ele faz campanha contra o alcoolismo do povo, é algo que passa por toda a obra dele. A família dele até bebia, vinho sempre foi servido. Mas uma coisa era beber cerveja, vinho, vodca. E a outra é o alcoolismo.”
Nada, evidentemente, é tão simples. Se reflete a nossa pulsão de morte com um impacto avassalador, a vodca também vai destruir qualquer leitura estereotipada de que, bem, as coisas são o que são. O cultuado verso de Maiakóvski, lembrado por Irineu Perpetuo, dá o tom preciso do contraponto:
Melhor morrer de vodca do que de tédio
Eis aí, talvez, um dos pontos centrais da literatura russa: a vodca como referência de um povo que, movido também por um instinto irrefreável de coletividade, de abundância, de generosidade, utiliza todas as armas possíveis para lutar contra essa monotonia, esse tédio que se reproduz como tradução de existência.
“O tema da vodca é bem importante e está sempre presente”, pontua Vássina. “Mas também, em comparação, quando vamos falar de vodca, de bebida e de literatura, é interessante pensar como a bebida é sempre pensada pelo lado coletivo – e nunca individual. As pessoas sempre bebem juntas. Esse é o ponto. Tanto que as drogas praticamente não estão presentes na literatura russa, porque é algo solitário.”
O alcoolismo, então, segundo arremata a professora, vem da necessidade quase primordial dos russos se unirem para enfrentar o tédio. “Isso está ligado com o clima de inverno, com os camponeses. Não tinha nada para fazer nos séculos anteriores, porque o camponês não trabalhava no inverno. Lógico que eles começaram a beber muito.”
Tanto o tradutor quanto a professora são unânimes em apontar a mais icônica obra abordando o alcoolismo: Moscou-Petuchkí, de Venedikt Erofêiev. O livro, que ainda não saiu no Brasil, narra a viagem de um intelectual alcoólatra em um trem de subúrbio, entre as cidades de Moscou e Petuchkí.
“É uma viagem de trem e uma descrição de bebedeira”, detalha Vássina. “A obra, para nós, é como uma Odisseia. Foi escrita no início dos anos 1960, é muito importante”. Seu autor, complementa a professora, morreu com apenas 51 anos. “Faleceu de alcoolismo. Câncer de garganta.”
Nesse abismo substancial em que o sentido cotidianamente nos escapa, é fundamental lembrar de um último escritor. “Não há como não mencionar Serguei Dovlátov (1941-1990), mestre da ironia, do humor e do entrelaçamento entre ‘real’ e ficcional”, aponta Perpetuo. Tema de um filme recentemente premiado no Festival de Berlim, Dovlatov, de Aleksei German Jr, o autor teve seu romance Parque Cultural traduzido aqui em 2017. Nele, escreve:
“Para os outros, a vodca é domingo. Para mim, são dias de semana monótonos… Ora desintoxicação, ora xadrez, dissidência pura… A esposa, claro, está descontente. Vamos arranjar uma vaca, diz ela… Ou uma criança… Desde que não beba. Mas, por enquanto, eu me abstenho. Quer dizer, sigo bebendo…”
Sigamos, então, uma última vez. Essência trágica de um povo devorado pelos seus excessos ou resistência irônica de uma gente que sabe rir do ocaso? Como Dovlátov, nos abstenhamos – de respostas. Como se houvesse respostas. Se a rotina monótona nos carrega dia após dia para o fim, ao lado do abismo existe sempre um copo de vodca. E, já no breu, quando até a garrafa se turvar, ainda sobrará essa réstia sem estereótipo e imortal dos Púchkins, dos Tolstóis, dos Tchecovs, dos Dostoiévskis, dos Turguênievs, dos Leskovs, dos Bunins, etc., etc., etc.