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Miles Davis aos 100: como Bitches Brew saiu do jazz e foi parar na cerveja

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Miles Davis completaria 100 anos em 2026. Morto em 1991, o trompetista atravessou diferentes períodos do jazz, ajudou a mudar os rumos do gênero mais de uma vez e deixou uma obra que continua circulando muito além das fronteiras da música. Seu centenário vem sendo celebrado ao longo do ano com shows, exposições, novos lançamentos e projetos em diferentes áreas da cultura.

Um dos discos centrais para entender essa trajetória é Bitches Brew, lançado em 1970. A palavra brew, familiar a qualquer cervejeiro, pode designar tanto o ato de preparar uma bebida, como cerveja, café ou chá, quanto o resultado desse preparo. Décadas depois, o título ganharia uma interpretação bastante literal fora da música, com receitas criadas em homenagem ao trompetista nos Estados Unidos, Europa e Brasil.

A conexão mais conhecida veio em 2010. Para marcar os 40 anos de Bitches Brew, a americana Dogfish Head trabalhou com a Sony em uma cerveja que buscava traduzir parte daquele espírito para o copo: três partes de Imperial Stout combinadas a uma cerveja de mel produzida com gesho, planta tradicionalmente utilizada em bebidas fermentadas na Etiópia. A criação levou para o rótulo a arte de Mati Klarwein, a mesma que tornou a capa do álbum uma das imagens mais reconhecíveis da discografia de Miles Davis.

O projeto acabou registrado pelo Discovery Channel e virou o primeiro episódio de Brew Masters, série protagonizada por Sam Calagione, fundador da Dogfish Head. A equipe precisava desenvolver a receita, produzir e despachar 50 mil garrafas a tempo das comemorações.

No ano em que Miles Davis completaria um século, essa ligação com a cerveja serve como ponto de partida para revisitar Bitches Brew, o ambiente em que o disco surgiu, os músicos reunidos naquelas sessões e o legado de um artista cuja influência continuou encontrando novos públicos e outras formas de expressão.

Três dias depois de Woodstock

Miles já era uma figura central do jazz quando entrou no Studio B da Columbia Records, em Nova York, nos dias 19, 20 e 21 de agosto de 1969. Woodstock havia terminado naquela mesma semana.

O mundo da música popular mudava rapidamente. Rock, psicodelia, soul e funk ocupavam cada vez mais espaço entre uma geração que não necessariamente organizava sua escuta pelas fronteiras tradicionais dos gêneros. Miles prestava atenção a esses movimentos e também vinha transformando a própria música.

Meses antes, In a Silent Way já havia levado seu trabalho para um território mais elétrico. Em Bitches Brew, essa transformação ganhou outra escala.

Miles reuniu alguns dos músicos mais importantes daquela geração: Wayne Shorter no sax soprano, Bennie Maupin no clarone (clarinete baixo), John McLaughlin na guitarra, Chick Corea, Joe Zawinul e Larry Young nos teclados, Dave Holland e Harvey Brooks nos baixos, além de Jack DeJohnette, Lenny White e Billy Cobham na bateria e Don Alias, Juma Santos e Airto Moreira na percussão.

A formação fugia do conjunto convencional. Em determinados momentos havia dois baixos, vários teclados, baterias e percussionistas trabalhando simultaneamente sobre longos blocos de música, repetições e improvisações.

O produtor Teo Macero teve papel decisivo no resultado. As sessões conduzidas por Miles eram abertas e extensas, e parte da construção das faixas aconteceu posteriormente, com edição, cortes, repetições e montagem das gravações. O estúdio tornou-se, assim, mais um instrumento na elaboração do álbum.

O resultado chegou às lojas em 30 de março de 1970 como um disco duplo, com seis faixas: Pharaoh’s Dance, Bitches Brew, Spanish Key, John McLaughlin, Miles Runs the Voodoo Down e Sanctuary.

Era um trabalho exigente mesmo para quem já acompanhava Miles. Algumas faixas passavam dos 20 minutos e a estrutura estava distante das formas mais familiares do jazz daquele período.

Como Bitches Brew ganhou esse nome

Para quem vem do universo cervejeiro, brew é uma palavra cotidiana. O verbo to brew está ligado ao preparo de cerveja e também de bebidas como café e chá; como substantivo, brew pode designar a própria bebida ou preparação. Em inglês, a palavra também admite usos mais amplos relacionados a uma mistura ou combinação.

É tentador, portanto, associar o título à própria música do álbum, construída a partir do encontro entre diferentes músicos, instrumentos e influências. A história conhecida do nome, porém, não permite afirmar que Miles tenha pensado dessa forma.

Em 14 de novembro de 1969, meses antes do lançamento, Teo Macero enviou um memorando para seus superiores na Columbia. Miles havia telefonado dizendo que queria chamar o novo álbum de Bitches Brew. O produtor comunicou a escolha e pediu orientação.

O nome foi mantido, mas sua origem nunca ganhou uma explicação definitiva. Ao longo das décadas surgiram interpretações diferentes sobre o que Miles pretendia dizer, sem que uma delas tenha encerrado a discussão.

A Columbia também aprovou a pintura de Mati Klarwein para a capa. Nascido na Alemanha e conhecido por trabalhos que misturavam surrealismo, psicodelia e referências de diferentes culturas, o artista criou uma imagem de corpos, rostos, água, fogo e formas que se encontram e se transformam.

A capa se tornaria inseparável do álbum e uma das imagens mais reconhecidas da discografia de Miles.

A música também dividiu opiniões. Bitches Brew encontrou resistência entre parte do público e da crítica ligada ao jazz, enquanto alcançava ouvintes que não necessariamente acompanhavam o gênero. O álbum ultrapassou 100 mil cópias vendidas ainda em seus primeiros meses, desempenho incomum para um lançamento de jazz naquele período, e Miles Davis passou a aparecer com mais frequência em espaços compartilhados com artistas do rock.

Em 1971, Bitches Brew venceu o Grammy de Melhor Performance de Jazz por Grupo Grande ou Solista com Grupo Grande. Décadas depois, entraria para o Grammy Hall of Fame.

Sua influência também pode ser percebida nas carreiras que saíram daquelas sessões. Joe Zawinul e Wayne Shorter formariam o Weather Report. John McLaughlin criaria a Mahavishnu Orchestra. Chick Corea seguiria com o Return to Forever. Três projetos fundamentais para o desenvolvimento da fusão entre jazz e outras linguagens durante os anos 1970.

Por que Bitches Brew ainda importa

A liberdade concedida aos músicos durante as gravações é uma das características que ajudam a explicar a importância do álbum. Para o guitarrista e compositor Lupa Santiago, especialista em jazz, e apresentador da Rádio Eldorado, Miles Davis estava disposto a experimentar uma forma de criação menos dependente de estruturas previamente definidas, abrindo espaço para o improviso e para o encontro de diferentes linguagens musicais.

“Era um disco muito solto, pouca composição escrita, era mais improviso mesmo”, explica Santiago. “As músicas antes tinham mais formas, tinham mais contexto escrito. Essa daí tinha muito pouco contexto escrito. Era mais ‘vamos ver o que acontece ali na hora mesmo’.”

Na avaliação do músico, Bitches Brew representa um momento decisivo da passagem para o jazz fusion. Os instrumentos elétricos, as guitarras com distorção e a aproximação com a psicodelia e o rock apontavam para caminhos que seriam explorados por muitos dos próprios participantes das sessões. Miles percebia essas transformações e tinha uma capacidade particular de reunir instrumentistas preparados para experimentá-las.

Essa habilidade também ajuda a dimensionar sua influência sobre o jazz do século XX. Santiago lembra que o trompetista esteve associado a mudanças importantes do gênero e que muitos dos artistas que passaram por suas formações construíram trajetórias extraordinárias. Entre eles estão John Coltrane, Herbie Hancock, Chick Corea, Keith Jarrett, John McLaughlin e Jack DeJohnette.

“Ele tinha uma capacidade imensa de juntar as pessoas, de trazer os melhores músicos. Tanto que todo mundo que tocou com o Miles depois teve uma carreira muito sólida”, afirma.

Bitches Brew virou cerveja 40 anos depois

A homenagem da Dogfish Head, em 2010, foi além do uso do nome e da capa do álbum. A cervejaria procurou construir a referência também na receita.

A Bitches Brew combinava três partes de Imperial Stout com uma parte de cerveja de mel com gesho. A planta é utilizada há séculos na produção de bebidas fermentadas na Etiópia e entrou no projeto como parte das referências africanas buscadas pela Dogfish Head.

A arte de Mati Klarwein reapareceu no rótulo, autorizada para a edição comemorativa. Sam Calagione chegou a recomendar que a cerveja fosse servida em taça, fresca em vez de excessivamente gelada, enquanto o disco tocava. O lançamento ocorreu em 2010 dentro das comemorações pelos 40 anos de Bitches Brew.

O projeto ganhou ainda mais visibilidade com Brew Masters. O programa do Discovery acompanhava Calagione e sua equipe na criação de cervejas e escolheu justamente a Bitches Brew para o episódio de estreia.

Miles continuaria aparecendo em outros rótulos nos anos seguintes. Kind of Blue, provavelmente seu disco mais conhecido, inspirou cervejas de diferentes produtores. A americana Alesong Brewing & Blending lançou uma blonde ale maturada em carvalho francês e refermentada com blueberries com esse nome. A Jackie O’s Brewery usou a mesma referência em uma Imperial Chocolate Milk Stout.

Em 2026, ano do centenário de Miles, a inglesa DEYA Brewing Company produziu a Kind of Brew, uma Hazy Pale Ale criada em parceria com o Cheltenham Jazz Festival, que chegou à sua 30ª edição neste ano.

A referência também apareceu no Brasil. A Cervejaria Escafandrista, de São Paulo, já lançou sua própria Kind of Blue, levando a homenagem para a produção artesanal brasileira.

Os nomes escolhidos por cervejarias ao longo dos anos percorrem justamente alguns dos trabalhos mais conhecidos da carreira do trompetista. Kind of Blue, Bitches Brew e outras referências ao repertório mostram como a obra de Miles passou a integrar um vocabulário cultural reconhecível mesmo fora do jazz.

Um século de Miles Davis

Bitches Brew representa apenas uma parte de uma carreira que passou por diferentes momentos do jazz ao longo de quase cinco décadas.

Antes da experiência elétrica do final dos anos 1960 e dos anos 1970, Miles havia participado da efervescência do bebop, esteve entre os nomes associados à formação do cool jazz, trabalhou com Gil Evans em projetos orquestrais e gravou, em 1959, Kind of Blue, álbum que se tornou uma das principais portas de entrada para o jazz.

O centenário organizado pelo espólio de Miles em 2026 procura recuperar essa amplitude. A programação Miles Davis 100 reúne música, artes visuais, moda e outras áreas influenciadas pelo artista, enquanto instituições e festivais vêm dedicando concertos e projetos à sua obra ao longo do ano.

Miles morreu em 28 de setembro de 1991, aos 65 anos, deixando uma discografia que continua sendo descoberta por ouvintes que sequer eram nascidos quando ele tocou pela última vez.

Entre tantas portas possíveis para entrar nessa obra, Bitches Brew permanece como uma das mais desafiadoras. O título que causou dúvida dentro da Columbia em 1969 atravessou décadas, virou referência para músicos, artistas e também cervejeiros. Em 2026, quando Miles Davis completaria 100 anos, o disco continua oferecendo caminhos diferentes para quem decide entrar.

Do laboratório ao balcão, 10 influenciadores que explicam cerveja nas redes sociais

Cerveja é assunto de gente muito diferente. Química, direito, engenharia, jornalismo, cozinha e balcão de bar: cada uma dessas portas leva a um jeito distinto de entender a mesma bebida, e todas estão representadas entre os influenciadores de cerveja que explicam o assunto nas redes sociais. Em julho, o Guia da Cerveja fez uma primeira lista de indicações de ótimos creators da área. O limite de dez nomes deixou muita gente boa de fora. E que sorte a nossa ter tanta gente boa na área de cervejas para apontar.

Agora, a reportagem do Guia reuniu mais dez desses perfis para você seguir — todos com trajetória, formação ou certificação que sustentam o que publicam. Juntos, funcionam como um curso montado por conta própria, em que cada um ocupa uma cadeira diferente.

@saraaraujo_______

Baiana radicada em Maringá (PR), Sara Araújo é sommelière e assina no Guia da Cerveja a coluna Xirê Cervejeiro. No perfil dela, a bebida aparece ao lado de dois assuntos que raramente entram na roda cervejeira: a literatura e a luta antirracista. É também uma defensora declarada do livre conhecimento cervejeiro — a ideia de que informação sobre cerveja não pode ser privilégio de quem tem dinheiro para pagar por ela.

@cherutisomm

Quem quer ver análise sensorial na prática acompanha Rafael Cheruti, sommelier da cervejaria La Birra, em Caxias do Sul (RS). Ele é um dos influenciadores de cerveja de maior alcance nacional hoje, além de cervejeiro, mestre em estilos e especialista em off-flavors, os aromas e sabores indesejados que denunciam algum problema na cerveja. Em 2022, ficou entre os dez brasileiros aprovados para o Campeonato Mundial de Sommelier de Cerveja no 6º Campeonato Brasileiro, promovido pelo Instituto da Cerveja Brasil.

@horadogole

O Hora do Gole não é bem um perfil: é um hub de conteúdo, com site, podcast, newsletter, YouTube e TikTok, comandado por Edu Sena, que também assina a coluna Entre um Gole e Outro no Guia da Cerveja. A bandeira do projeto é a democratização do consumo e a presença de pessoas negras no mercado da cerveja, tema que ele leva para oficinas, projetos especiais e parcerias com grandes marcas de bebidas.

@quimica_cervejeira

Se a sua dúvida costuma começar com “por que”, siga Gabriela Lando. Química, doutora em Ciência dos Materiais, sommelière e juíza certificada pelo BJCP — o programa americano que credencia os jurados de concursos cervejeiros —, ela usa o perfil para mostrar a ciência que está atrás da bebida, com foco em química, processo e qualidade. Fora das redes, dá aulas, presta consultoria e traduz material técnico do setor.

@cerveja_facil

Fazer cerveja em casa dá menos medo com Leandro Oliveira por perto. No Cerveja Fácil, que ele mantém no YouTube e em site próprio, o processo aparece desmontado em passo a passo, receitas e gambiarras que funcionam. É um dos influenciadores de cerveja da área de homebrew (produção de cerveja em casa) de maior alcance. Para quem quer ir além do vídeo, há cursos e kits.

@cervejeirauai

Explicar o universo cervejeiro sem complicar é a proposta declarada de Déborah Arduini, jornalista e sommelière que produz conteúdo desde 2017 e assina o blog Cervejeira,uai!. Estilos, copos, história da bebida e casas para beber bem são os temas da casa. Em 2026, ela ficou em terceiro lugar na categoria Sommelier Revelação do Prêmio Conexão Sommelier Brasil.

@doutorbreja

Veterano do YouTube cervejeiro, Alexandre Bleed toca o Doutor Breja desde junho de 2015, quando o canal nasceu com dois amigos — hoje ele está sozinho na condução, com mais de 470 vídeos publicados e 60 mil inscritos. A receita pouco mudou desde então: degustação às cegas, harmonização, notícias do mercado e muita explicação de estilo em tom de conversa de bar, além dos cursos online que oferece.

@mauriciogrille

Para quem se interessa pelo lado de dentro da fábrica, o nome da lista é Maurício Grille. Engenheiro eletricista e tecnólogo em produção cervejeira, ele atua desde 2014 como consultor e responsável técnico de cervejarias — o profissional que assina pelo processo quando a produção precisa funcionar de verdade. Também é sommelier com a certificação Certified Beer Server do Cicerone, primeiro nível do programa internacional de qualificação em cerveja, e cursa pós-graduação em Engenharia de Bioprocessos.

@bomdemalte

Felipe Lopes se apresenta como sommelier de cervejas “moldado no bar”, e o conteúdo do Bom de Malte não desmente: são vídeos curtos que respondem às dúvidas que nascem no balcão, do que fazer quando a garrafa congela ao que significa aquele rótulo anunciando zero açúcar. E não é só conversa: ele tem o Certified Beer Server do Cicerone no currículo.

@advogadocervejeiro

Sim, existe direito cervejeiro, e ele dá pano para manga. André Lopes é advogado gaúcho formado pela UFRGS, sommelier de cervejas e diretor jurídico da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva). Desde 2016, publica artigos sobre os temas jurídicos que tiram o sono de quem produz, de rótulo a contrato, e hoje assina a coluna Advogado Cervejeiro no Guia da Cerveja. Na advocacia, tem escritório em sociedade com Vinícius Verdi.

Extra: @guiadacerveja

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Preço da cerveja sobe só 0,03% em setembro e fica longe do IPCA de 0,82%

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A cerveja comprada para beber em casa subiu apenas 0,03% em setembro, mês em que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do país, acelerou para 0,82%. A alta da bebida ficou 0,79 ponto porcentual abaixo do índice geral, a maior folga desde abril. Foi a terceira alta seguida no preço da cerveja, depois de 0,76% em julho e 0,83% em agosto, mas desta vez quase imperceptível. Os números são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Nas fábricas, a produção de bebidas alcoólicas cresceu 2,3% em agosto, na comparação com o mesmo mês de 2025, enquanto a indústria como um todo recuou -1,2%.

Inflação e preço da cerveja

Enquanto a feira pesava no bolso, a bebida ficou de fora da conta. O grupo Alimentação e bebidas subiu 0,83% em setembro, depois de três quedas seguidas, e a comida comprada para consumo em casa, 0,96%. O IBGE atribui a alta sobretudo ao tomate (37,76%), à batata-inglesa, à cebola, ao arroz e às carnes.

O que empurrou o índice geral, porém, foi a conta de luz. Com o fim do Bônus de Itaipu, crédito aplicado nas faturas emitidas em agosto, a energia elétrica residencial subiu 7,98% e respondeu sozinha por 0,32 ponto porcentual do IPCA de setembro.

Fora de casa, o ritmo também foi lento: no bar e no restaurante, a cerveja subiu 0,16%, um terço da alta da alimentação fora do domicílio (0,48%), que acelerou com o preço da refeição.

No acumulado do ano, a cerveja para consumo em casa sobe menos que a inflação. De janeiro a setembro, a alta é de 2,53%, contra 3,95% do IPCA geral.

Quem subiu mais foi o vizinho de gôndola. O refrigerante e a água mineral, que o IBGE mede juntos, ficaram 0,27% mais caros no domicílio e 0,28% fora dele em setembro. No ano, a dupla acumula 4,75% em casa, quase o dobro da cerveja.

Em 12 meses, o retrato muda, por causa das altas do fim de 2025. A cerveja no domicílio acumula 4,82%, acima do teto da meta de inflação, que é de 3% com tolerância até 4,5%. O próprio IPCA geral voltou a passar do teto, com 4,58%.

Já a cerveja fora de casa segue na contramão. Acumula 3,85% em 12 meses e, nessa comparação, fica abaixo da inflação geral desde maio de 2025.

O próximo teste vem em outubro. Em todos os anos desde 2020, a cerveja no domicílio subiu nesse mês, com altas entre 0,75% e 1,80%.

Tabela 1 — Variação de preços, setembro de 2026

Geral, grupo, subgrupo, item e subitemMensal (%)12 meses (%)
Índice geral+0,82%+4,58%
Alimentação e bebidas+0,83%+4,66%
Alimentação no domicílio+0,96%+4,21%
Cerveja (no domicílio)+0,03%+4,82%
Refrigerante e água mineral (no domicílio)+0,27%+5,24%
Alimentação fora do domicílio+0,48%+5,79%
Cerveja (fora do domicílio)+0,16%+3,85%
Refrigerante e água mineral (fora do domicílio)+0,28%+5,16%

Fonte: IBGE, IPCA (Tabela 7060 do Sidra).

Preço da cerveja nas áreas pesquisadas

O mapa ficou dividido em setembro. Das 15 capitais e regiões metropolitanas com série calculada, dez registraram alta no preço da cerveja e cinco, queda. Rio Branco (AC) não tem série de cerveja no domicílio.

As maiores altas vieram do Norte e do Nordeste: São Luís (+1,21%), Belém (+1,09%) e Fortaleza (+0,77%). Na outra ponta, a bebida ficou mais barata em Belo Horizonte (-1,33%), na Grande Vitória (-1,02%) e em Salvador (-0,69%).

Em 12 meses, Goiânia lidera, com 8,26%, seguida de Curitiba (+7,98%) e Belém (+7,75%). Salvador (+0,94%) tem a menor alta acumulada, à frente de Belo Horizonte (+1,73%) e Porto Alegre (+1,81%). Nove das 15 capitais passam de 4,5% no período.

Tabela 2 — Cerveja no domicílio por área, setembro de 2026

CapitalMensal (%)Acumulada 12 meses (%)
São Luís (MA)+1,21%+4,66%
Belém (PA)+1,09%+7,75%
Fortaleza (CE)+0,77%+3,95%
Brasília (DF)+0,68%+4,59%
São Paulo (SP)+0,42%+5,26%
Porto Alegre (RS)+0,29%+1,81%
Goiânia (GO)+0,26%+8,26%
Campo Grande (MS)+0,19%+7,50%
Rio de Janeiro (RJ)+0,08%+6,99%
Aracaju (SE)+0,03%+5,33%
Curitiba (PR)-0,10%+7,98%
Recife (PE)-0,46%+2,31%
Salvador (BA)-0,69%+0,94%
Grande Vitória (ES)-1,02%+1,86%
Belo Horizonte (MG)-1,33%+1,73%
Rio Branco (AC)––
Brasil+0,03%+4,82%

Fonte: IBGE, IPCA (Tabela 7060 do Sidra). Rio Branco não tem série de cerveja no domicílio.

Produção industrial

A produção de bebidas alcoólicas, segmento que tem a cerveja como carro-chefe, cresceu 2,3% em agosto sobre o mesmo mês do ano passado, segundo a Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF). As bebidas não alcoólicas, como refrigerantes e águas, avançaram 6,4%.

Esse crescimento, porém, vem depois de um tombo. Em agosto de 2025, a produção de alcoólicas tinha caído -11,8%. A alta de 2,3% agora recupera só uma pequena parte dessa perda. É como descer 12 degraus e subir 2: ainda falta muito para voltar ao ponto de partida.

Na conta de 12 meses, as fábricas de alcoólicas produziram o mesmo volume do período anterior (0,0%), depois de mais de um ano no vermelho. O crescimento recente só repôs o que tinha caído. No mesmo período, as não alcoólicas acumulam alta de 1,7%, e a indústria geral, de 0,6%.

O IBGE revisou o dado de julho: a alta das alcoólicas, publicada antes como 6,8%, passou para 8,7%.

Tabela 3 — Produção industrial, agosto de 2026

Grupos e classesVariação interanual (%)12 meses (%)
Indústria geral-1,2%+0,6%
Bebidas alcoólicas+2,3%0,0%
Bebidas não alcoólicas+6,4%+1,7%

Fonte: IBGE, PIM-PF (tabelas 8885 e 8888 do Sidra). Variação interanual: agosto de 2026 frente a agosto de 2025.

Produção industrial por estado

A fabricação de bebidas cresceu em oito dos 13 estados com série calculada pelo IBGE. Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Norte e Santa Catarina não têm dados para a atividade. No recorte por estado, o IBGE não separa as bebidas alcoólicas das não alcoólicas.

O Amazonas liderou, com alta de 28,8%, seguido de Minas Gerais (+11,6%) e Paraná (+11,0%). As quedas mais fortes foram em Goiás (-8,4%), na Bahia (-4,3%) e em São Paulo (-2,3%).

O relatório regional do IBGE mostra onde a cerveja fez diferença. Em cinco estados, ela foi a locomotiva das bebidas em agosto: “cervejas e chope” aparecem como o produto que mais puxou a produção para cima em Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro e Maranhão. No Amazonas, a alta veio sobretudo do xarope para refrigerantes, e a cerveja contribuiu em menor escala. Em São Paulo, o maior peso negativo foi do refrigerante, mas a cerveja também recuou.

Em 12 meses, seis estados seguem com saldo positivo, liderados pelo Rio Grande do Sul (+13,2%) e por Minas Gerais (+9,2%). Rio de Janeiro e Paraná cresceram em agosto, mas ainda acumulam queda no período: -0,1% e -3,4%, respectivamente.

Tabela 4 — Produção de bebidas por estado, agosto de 2026

EstadoInteranual (%)12 meses (%)
Brasil+4,4%+0,8%
Amazonas+28,8%+4,6%
Minas Gerais+11,6%+9,2%
Paraná+11,0%-3,4%
Pernambuco+8,5%+0,4%
Mato Grosso+6,9%+1,3%
Rio de Janeiro+6,9%-0,1%
Maranhão+2,7%+3,3%
Rio Grande do Sul+1,7%+13,2%
Pará-1,2%-4,9%
Ceará-1,5%-6,0%
São Paulo-2,3%-2,2%
Bahia-4,3%-5,0%
Goiás-8,4%-5,7%
Sem série calculadaEspírito Santo, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Norte e Santa Catarina

Fonte: IBGE, PIM-PF Regional (Tabela 8888 do Sidra), atividade “Fabricação de bebidas”. O recorte por estado não separa bebidas alcoólicas e não alcoólicas.

Rio Grande do Sul abre renegociação de dívidas de ICMS para cervejarias

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Fabricantes e atacadistas de cerveja do Rio Grande do Sul podem renegociar dívidas de ICMS pelo Refaz Cervejarias desde esta terça-feira (13). Os juros e as multas podem cair até 95%. A adesão vai até 30 de novembro.

O programa chega ao segundo estado com mais cervejarias do país. São 325 estabelecimentos registrados, atrás apenas de São Paulo, de acordo com o Anuário da Cerveja 2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). A medida atende a um pedido da Associação Gaúcha de Microcervejarias (AGM).

O peso do setor também aparece na proporção. O Rio Grande do Sul tem uma cervejaria para cada 34.554 habitantes, a segunda maior densidade do Brasil, atrás de Santa Catarina.

Segundo a AGM, o estado soma ainda mais de 500 cervejarias ciganas, marcas sem fábrica própria que produzem em equipamentos de terceiros. A associação diz que o setor gaúcho gera mais de 75 mil empregos diretos e indiretos.

Desconto nos juros, não no imposto

O Refaz Cervejarias vale para dívidas de ICMS, o imposto estadual sobre a circulação de mercadorias, vencidas até 31 de dezembro de 2025. Entram também débitos cobrados na Justiça. Podem aderir empresas cuja atividade principal é fabricar cerveja e chope ou vender cerveja, chope e refrigerante no atacado.

O desconto não alcança o imposto em si. A lógica é a de quem renegocia uma fatura de cartão atrasada: o valor da compra continua devido, e o que encolhe são os juros e as multas acumulados. O corte máximo, de 95%, fica para quem paga à vista. Quanto mais longo o parcelamento, menor o abatimento.

A adesão tem um preço. Ao entrar no programa, a empresa confessa a dívida de forma irrevogável e desiste de contestá-la no fisco ou na Justiça.

Uma autorização que, por ora, só o RS tem

O Refaz nasceu de meses de conversa entre a AGM e a Receita Estadual. A associação levou ao fisco as dificuldades do setor e propostas de regras. Em nota, o presidente da AGM, Matheus Andrade, disse que a entidade conseguiu “transformar uma demanda concreta das cervejarias em uma medida que pode contribuir para a regularização das empresas”.

Para criar o programa, o governo gaúcho precisou de autorização do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), que reúne os secretários de Fazenda de todo o país. Pela Lei Complementar 24, de 1975, nenhum estado pode perdoar juros e multas de ICMS sozinho, e a aprovação tem de ser unânime.

A autorização veio em julho, no Convênio ICMS 84/26, e o decreto do governo gaúcho saiu no fim de setembro. O texto também vale para óticas e joalherias, mas só no Rio Grande do Sul.

Como aderir ao Refaz Cervejarias

O pedido é feito pela internet, no Portal e-CAC da Receita Estadual, inclusive por empresas que já encerraram a inscrição estadual. As regras de adesão e a página do programa tiram as dúvidas.

Refaz Cervejarias: desconto em juros e multas por modalidade

ModalidadeParcelasDesconto
À vistaParcela única95%
ParcelamentoAté 6090%
ParcelamentoDe 61 a 12080%
Recuperação judicial ou cooperativa em liquidaçãoDe 121 a 18080%

Fonte: Decreto nº 58.988/2026, do governo do Rio Grande do Sul. O pagamento à vista ou da primeira parcela vence em 30 de novembro de 2026.

O pagamento à vista ou da primeira parcela vence em 30 de novembro. Parcelamentos antigos podem migrar para o programa.

Alguns casos têm prazo mais curto, até 13 de novembro. É o de quem quer incluir uma dívida que o fisco ainda não cobrou: antes, precisa confessá-la por conta própria, na chamada denúncia espontânea.

O benefício pode cair no meio do caminho. Três meses seguidos sem pagar a parcela integral cancelam o parcelamento, e o saldo volta a ser cobrado sem os descontos.

Copa do Mundo levou a cerveja para o bar e tirou da gôndola, mostra balanço da Constellation Brands

A Copa do Mundo de 2026 vendeu cerveja — só não onde a indústria esperava. A Constellation Brands, dona de Corona e Modelo nos Estados Unidos (EUA), publicou na terça-feira passada (6) o balanço do trimestre encerrado em 31 de agosto com o primeiro corte por canal depois do torneio: a venda para bares e restaurantes cresceu 6,6%, enquanto a venda para supermercados e lojas caiu -1,5%. Como nove de cada dez caixas da companhia saem pelo segundo caminho, o saldo foi uma queda de -0,6%. 

Os números gerais do trimestre vieram acima do esperado. A receita líquida consolidada subiu 6%, para US$ 2,63 bilhões, e o lucro por ação em base comparável avançou 3%, para US$ 3,74 — os analistas ouvidos pela LSEG projetavam US$ 2,54 bilhões e US$ 3,56, segundo a Reuters. A cerveja responde por 94% dessa receita; o resto vem de vinhos e destilados, que cresceram 17%, para US$ 159,4 milhões.

No mesmo período, a Constellation Brands foi a que mais ganhou participação na cerveja americana. Nos canais acompanhados pela Circana, consultoria de dados de consumo, a divisão de cerveja foi a número 1 em ganho de participação tanto em valor quanto em volume, com mais de 0,8 ponto porcentual na categoria total — aceleração de mais de 0,2 ponto sobre o trimestre anterior. São dela 5 das 15 marcas que mais ganharam participação no país. No entanto, a projeção para o ano fiscal inteiro ficou apenas entre queda de 1% e alta de 1%.

Os números da Constellation Brands, que produz e distribui a Corona nos EUA, apesar da marca ser da AB Inbev globalmente, são os primeiros do período da Copa do Mundo a virem a público entre as grandes cervejarias. Heineken e AB InBev vão divulgar seus balanços na última semana do mês, nos dias 28 e 29 de outubro, respectivamente.

A diferença entre encher a despensa e jantar

Além disso, o balanço chama a atenção pela movimentação de cerveja. Dois números do mesmo contam histórias opostas, e distingui-los é a chave para ler qualquer resultado de cervejaria grande. O embarque — o que sai da fábrica para o distribuidor — subiu 5,5%, de 117,4 milhões para 123,9 milhões de caixas, equivalente a uma alta de 1 bilhão para 1,06 bilhão de litros. Já as depletions, que o relatório define como “os embarques dos distribuidores americanos dos nossos produtos para clientes do varejo, com base em dados de terceiros”, caíram -0,6%. É a diferença entre encher a despensa e efetivamente consumir o jantar.

A explicação da empresa para o descasamento é legítima. “De forma consistente com a sazonalidade do ano anterior, embarcamos um pouco mais caixas do que foram consumidas no trimestre, porque os distribuidores pediram mercadoria para recompor os dias de estoque em patamares mais saudáveis”, diz o comentário de CEO e CFO que acompanha o balanço. A companhia saiu do ano fiscal anterior com estoque abaixo da média e passou o primeiro semestre recompondo. 

Na Constellation Brands, a Copa foi ótima para o bar

O motivo da queda está nomeado no relatório, e não é macroeconomia. “As depletions caíram -0,6% porque a atividade no off-premise em torno da Copa do Mundo ficou abaixo das expectativas do setor em junho e julho”, escreve a empresa — off-premise é o jargão do setor para o que se compra para levar embora, de supermercado a loja de bebidas, em oposição ao on-premise, consumido no próprio ponto de venda. A festa em casa não aconteceu na escala prevista.

No bar, aconteceu. O on-premise cresceu 6,6%, puxado pela Copa, por mais torneiras instaladas e por ativação de marca — Modelo Especial e Pacifico ficaram em terceiro e quinto lugar entre as marcas que mais ganharam participação em chope no país. O problema é a aritmética dos pesos: o canal que cresceu responde por 11% do volume da companhia; o que caiu, por 89%. Entre os cinco maiores estados, Califórnia e Nova York superaram a média, e Texas e Flórida ficaram atrás.

A Reuters leu o trimestre pelo agregado e registrou que o negócio de cerveja se beneficiou dos grandes eventos esportivos do ano, Copa e finais da NBA. As duas leituras não se excluem: o torneio movimentou consumo, só o deslocou para o canal menor.

Além disso, ganhar participação nesse ambiente exigiu investimento em marketing e despesas administrativas, o que teve um custo. A margem operacional da divisão de cerveja caiu 1,6 ponto porcentual, para 39%. O marketing ficou em cerca de 10% da receita líquida no trimestre e deve passar de 11% no trimestre seguinte, para bancar programação em beisebol e futebol universitário.

Preço não compensou. Ficou praticamente estável, com reajustes aplicados de forma seletiva, mercado a mercado, “dado o quadro de consumo mais fraco”. Como disse o diretor financeiro Garth Hankinson à CNBC, “é muito mais barato manter seu consumidor do que tentar reconquistá-lo”.

Heineken e AB InBev abrem as contas em duas semanas

Mesmo que comparações de uma operação específica e premium da Constellation Brands com grandes multinacionais não sejam diretamente possíveis, o balanço pode ser visto como uma prévia dos efeitos da Copa do Mundo sobre a indústria cervejeira. A Heineken publica a atualização do terceiro trimestre em 28 de outubro e a AB InBev reporta no dia 29. As duas atravessaram a mesma Copa e operam no Brasil pelas duas maiores cervejarias do país — a Ambev, que produz Corona no Rio de Janeiro, e o Grupo Heineken.

E há no mesmo pacote um detalhe que diz para onde as apostas da Constellation Brands começam a apontar. Dias antes do balanço, ela anunciou a compra da SpikedAde, bebida pronta para beber (RTD, na sigla em inglês) à base de vodca, sem açúcar, 100 calorias e sem gás, por 75 milhões de dólares à vista e mais até 278 milhões de dólares em cinco anos, conforme o desempenho.

A marca não vai para a divisão de destilados. Vai para a Divisão de Cerveja, com distribuição alinhada à rede de atacadistas do grupo — a mesma estrutura que acabou de vender menos no supermercado passa a carregar uma vodca com sabor de isotônico.

Artigo – Entre barris, cervejas e tradição: uma Odisseia pelo Toer de Geuze 2026

Há viagens que a gente faz para conhecer lugares. Outras, para conhecer sabores. E há aquelas em que, depois de alguns dias, percebemos que estamos conhecendo uma cultura inteira através de um copo. Minha viagem à Bélgica para o Toer de Geuze 2026 foi exatamente assim. E justamente no ano em que o reconhecimento da cultura cervejeira belga como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade por parte da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) completa uma década.

Durante dois dias, percorri parte do Pajottenland e do Vale do Senne, na região onde a tradição da Lambic e da Gueuze está profundamente ligada ao território. Foram nove produtores visitados, dezenas de impressões, muitos copos, comida, música, barris, gente de toda parte e, acima de tudo, uma percepção cada vez mais clara de que, por ali, cerveja não é apenas bebida. É patrimônio, memória, trabalho e uma forma de reunir pessoas.

O Toer de Geuze é organizado pelo Conselho Superior para Cervejas Lambic Artesanais (Horal, na sigla em flamenco), entidade sem fins lucrativos que reúne produtores de Lambic e Gueuze. A primeira edição aconteceu em 19 de outubro de 1997, quando seis produtores abriram suas portas ao público. Desde então, o evento passou a acontecer a cada dois anos e se transformou em uma das grandes celebrações da cultura cervejeira da região. Em 2026, a 15ª edição aconteceu nos dias 9 e 10 de maio e reuniu 14 produtores. A entrada nas cervejarias e Gueuzeries participantes foi gratuita.

Os 14 participantes foram Boon, De Cam, De Troch, Den Herberg, Eylenbosch, Hanssens, Kestemont, Lambiek Fabriek, Lindemans, Mort Subite, Oud Beersel, Sako, Tilquin e Timmermans. A Mort Subite abriu somente no domingo; os demais participantes receberam visitantes nos dois dias. 

Mas havia uma maneira muito mais pessoal de registrar essa peregrinação cervejeira. Na entrada de cada produtor, recebíamos um pequeno passaporte. A cada nova parada, um carimbo oficial marcava que havíamos estado ali. No fim, aquele pedaço de papel já não era apenas uma lembrança: era o mapa físico da nossa viagem, uma espécie de diário de bordo feito de carimbos e várias folhas onde relatávamos as experiências sensoriais vividas em cada parada.

E foi assim que comecei minha odisseia.

Primeira parada do Toer de Geuze 2026: Lambiek Fabriek

Começamos pela Lambiek Fabriek. Logo de cara, a experiência já mostrava que o Toer de Geuze não seria uma simples sequência de visitas a produtores dessa família de cervejas.

A cervejaria ocupa um grande galpão, onde os barris chamam a atenção e ajudam a compor aquela paisagem que qualquer apaixonado por Lambic imagina quando pensa na produção tradicional da região. O sistema de degustação era bastante simples e eficiente: comprávamos fichas e depois as trocávamos por cervejas nos diferentes balcões espalhados pelo espaço.

Provamos cerca de seis rótulos. Entre eles estavam a BRETT ELLE a BLACK BELLE e a MALVAS ELLE . Mais do que simplesmente provar cervejas diferentes, a sensação era a de estar começando a entender o espírito daquele fim de semana: cada produtor havia criado sua própria maneira de receber o público, e nós íamos descobrindo essas diferenças de parada em parada.

O passaporte ganhou seu primeiro carimbo.

E a viagem estava apenas começando.

Oud Beersel: cerveja, comida e música

Deixamos a Lambiek Fabriek e seguimos para a Oud Beersel.

Ali, a experiência ganhou outra dimensão. Visitamos uma espécie de museu dentro da fábrica e conhecemos também o Barrel Room, entrando em contato mais próximo com a história e com os espaços onde a tradição cervejeira é preservada.

Mas foi do lado de fora que a memória ficou mais forte.

Nos fundos da fábrica havia um pomar onde a cerveja era servida em meio a uma verdadeira celebração. Havia comida típica, porco no rolete, sanduíches de carne de porco e um realejo tocando músicas. As pessoas se espalhavam pelo espaço, conversavam, bebiam e se divertiam.

Foi uma das primeiras vezes em que percebi que o Toer de Geuze era muito maior do que uma programação de visitas a cervejarias. Havia ali uma atmosfera de festa popular.

Música, cerveja e boa comida.

Era difícil imaginar uma combinação mais apropriada para aquele momento.

Eylenbosch: uma cervejaria com alma de fazenda

Da Oud Beersel seguimos para a Eylenbosch.

A atmosfera mudou completamente. Se algumas das paradas tinham um caráter mais industrial ou urbano, ali a impressão era de estar chegando a uma pequena propriedade rural.

A cervejaria tem um clima especial. Há currais com ovelhas, áreas verdes e um ambiente que lembra uma pequena fazenda. E havia ainda uma figura que rapidamente se transformava em uma das personagens daquele lugar: o Border Collie que funciona praticamente como mascote da produção.

O cachorro circulava entre os visitantes, como se fosse parte oficial da recepção. Em vez de apenas observar a movimentação, ele parecia fazer questão de participar dela.

As mesas eram compridas e comunitárias. Algumas ficavam dentro do galpão, próximas ao espaço da produção, enquanto outras estavam espalhadas pelo gramado. Havia também hambúrgueres artesanais sendo preparados para os visitantes.

Mais uma vez, a cerveja aparecia acompanhada de uma experiência de convivência.

Entre os rótulos provados, um me chamou particularmente a atenção: a Biet, uma Lambic com adição de beterraba.

Era uma daquelas experiências que ajudam a lembrar que, mesmo dentro de uma tradição tão antiga e rigorosa, ainda existe espaço para interpretação, criatividade e surpresa.

Mais um carimbo no passaporte.

Den Herberg e a cerveja no jardim

Da Eylenbosch fomos para a Den Herberg.

A chegada já era curiosa. O produtor fica no final de uma rua bastante apertada, e naquele dia a rua havia se transformado em um grande ponto de encontro. Havia mesas comunitárias ocupadas por muita gente, cervejas sendo consumidas e música ao fundo.

Em vez de simplesmente ficar no meio daquela movimentação, resolvemos sentar nos jardins de uma casa onde estavam sendo servidos vários rótulos da Den Herberg.

Ali provamos a Kriek Devil e a Gueuze Generous.

A Kriek trouxe aquela presença evidente de cerejas que eu esperava encontrar em uma cerveja desse perfil. Já a Gueuze apresentou uma acidez marcante, acompanhada daqueles aromas que reconheço como tão característicos das Lambics, associados à atuação da Brettanomyces.

Era interessante perceber como o ambiente também modificava a experiência. Não estávamos em uma sala de degustação silenciosa, analisando a cerveja de maneira isolada. Estávamos sentados em um jardim, cercados por pessoas, música e conversa.

A cerveja fazia parte daquele cenário.

E talvez essa seja uma das melhores maneiras de entender o Toer de Geuze.

Boon: outra escala, outra experiência

Da Den Herberg seguimos para a Boon.

A diferença era imediata.

A fábrica é muito maior, e o pátio da cervejaria havia sido transformado em um enorme espaço para receber os visitantes. Havia mesas, cadeiras, palco e muita gente circulando.

A música tinha papel importante. Bandas marciais se apresentavam ao longo do evento, com os músicos vestidos a caráter, em trajes de inspiração militar. O resultado era visualmente muito bonito e contribuía para aquela sensação de grande celebração coletiva.

Também havia uma praça de alimentação, com churrasco, hambúrgueres e espetinhos.

Mas a Boon oferecia ainda outro lado da experiência: tivemos a oportunidade de percorrer toda a linha de produção. Depois da visita, terminamos na loja da cervejaria, onde pudemos comprar algumas garrafas para levar para casa.

Era interessante observar como o mesmo evento conseguia comportar experiências tão diferentes. Em alguns lugares, a sensação era de visitar uma pequena propriedade familiar. Na Boon, havia uma estrutura muito maior, capaz de receber uma verdadeira multidão.

Mas o propósito permanecia o mesmo: abrir as portas e colocar o visitante em contato direto com a produção.

Gueuzerie Tilquin: cerveja ao ar livre

Da Boon seguimos para a Gueuzerie Tilquin.

A Tilquin também aproveitava muito bem sua área externa. Um grande toldo oferecia abrigo aos visitantes, enquanto quem preferisse podia permanecer ao ar livre.

Mais uma vez, a gastronomia ocupava espaço importante. Havia vários food trucks e uma grande oferta de comida de rua. Entre as opções estava novamente o porco no rolete, presença que já começava a parecer quase uma assinatura gastronômica daquele fim de semana.

A Tilquin também oferecia uma loja ampla, onde era possível comprar suas cervejas, além da oportunidade de conhecer a produção.

A própria organização oficial da cervejaria havia preparado uma programação especial para o Toer de Geuze 2026, incluindo visitas guiadas gratuitas, degustações no bar e lançamentos. Entre eles estavam novas Gueuzes e uma edição limitada de Gueuze com mel. 

Mais uma vez, a visita mostrava que o Toer de Geuze não se limita a mostrar ao público aquilo que normalmente fica escondido atrás das portas de uma cervejaria. Os produtores aproveitam o fim de semana para apresentar suas instalações, suas cervejas e também sua comunidade.

De Cam: tradição que continua viva

Da Tilquin fomos para a De Cam.

Essa foi uma das visitas que mais me marcaram pela relação com a história.

Fomos recebidos pelo próprio cervejeiro e proprietário. O local é muito bonito e agradável, e a produção ocupa as instalações de uma cervejaria centenária.

Há alguma coisa especial em beber uma cerveja em um espaço que carrega tantas décadas de história. As paredes, os ambientes e os equipamentos parecem contar histórias mesmo quando ninguém está falando.

A música também estava presente, com artistas locais se apresentando. A cervejaria conta ainda com um restaurante em suas instalações, reforçando aquela característica que havia se repetido ao longo da viagem: cerveja e comida convivendo de maneira natural.

Tivemos a oportunidade de visitar a sala de barris. Foi ali que a experiência ganhou outro caráter. O cervejeiro serviu Lambic em uma jarra, e pudemos provar a cerveja naquele ambiente cercado pelos próprios recipientes onde parte daquela história acontece.

Também compramos outras garrafas para continuar a degustação no local.

Foi uma visita em que a cervejaria deixou de ser apenas um lugar de produção e passou a parecer quase uma extensão da própria história da Gueuze.

Kestemont: uma pequena aldeia e sabores da região

Da De Cam seguimos para a Kestemont.

A produtora fica em uma pequena aldeia e também apresenta aquele aspecto antigo que eu já começava a associar às cervejarias da região.

Ali havia uma espécie de bar para receber os visitantes, com a possibilidade de permanecer tanto na área interna quanto na externa. Havia também food trucks, mais uma vez reforçando a presença da comida como parte importante do Toer de Geuze.

Provamos dois rótulos: Harbarber e Bluebass.

Dessa vez, a degustação veio acompanhada de uma tábua de frios, uma linguiça artesanal produzida na região e queijo também feito localmente.

Foi uma combinação que me fez pensar em como a cerveja pode funcionar como uma espécie de retrato de um território. Não era apenas uma bebida produzida ali. A experiência também envolvia os alimentos, as pessoas e os ingredientes da região.

A Lambic e a Gueuze estavam sendo apresentadas dentro do próprio contexto cultural em que existem.

E o passaporte ganhava mais um carimbo.

Timmermans: diante do coolship

Nossa última parada foi a Timmermans.

E talvez não pudesse haver encerramento mais adequado.

Na Timmermans fizemos uma visita completa pelo processo produtivo. Tivemos a oportunidade de ver de perto o coolship, aquele enorme tanque aberto característico da produção tradicional de Lambic.

Ver aquele equipamento cheio de mosto, exposto ao ambiente, foi uma das imagens mais marcantes de toda a viagem. Ali estava, diante dos meus olhos, uma das etapas mais fascinantes da produção de cervejas de fermentação espontânea: o mosto entrando em contato com o ambiente e com a microbiota que participa do processo que dará à Lambic seu caráter tão particular.

Depois de tantas conversas sobre barris, fermentação e tradição, estar diante do coolship tornava tudo mais concreto.

Também degustamos vários rótulos da cervejaria.

A Timmermans tinha ainda um bar enorme e muito bonito, além de uma espécie de museu. E porque nenhuma viagem cervejeira na Bélgica parece completa sem alguma boa comida pelo caminho, terminei a visita com um hambúrguer delicioso preparado por um dos food trucks.

Foi uma maneira bastante apropriada de encerrar o percurso: cerveja, história, técnica e comida no mesmo lugar.

Mais do que um roteiro de cervejarias

Quando comecei aquela viagem, imaginava que o Toer de Geuze seria, essencialmente, uma oportunidade de visitar produtores de Lambic e Gueuze e isso era evidente; era também muito mais. Em cada parada, encontrei uma maneira diferente de celebrar a cerveja.

O que mais me impressionou foi justamente essa diversidade.

A Lambic pode ser extremamente técnica, pode ser complexa, mas nunca perdeu o caráter convivial, celebrada em meio à música, comida, famílias, amigos e visitantes vindos de diferentes lugares.

Isso diz muito sobre a força da tradição.

O último carimbo

No fim da viagem, olhei para o meu passaporte do Toer de Geuze. Cada carimbo correspondia a uma cervejaria, mas também a uma memória.

Saí de lá com garrafas na mala, um passaporte cheio de carimbos e uma coleção de lembranças que dificilmente caberia em qualquer mala.


Angelo Nunes é sommelier de cervejas e dono do perfil Caçador de Cerveja no Instagram.


* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.

Cerveja e política: da regulamentação histórica às dinâmicas geopolíticas e do Brasil contemporâneo

A história da cerveja se confunde com a própria história da organização social, da arrecadação tributária e do poder político. Longe de ser apenas uma bebida de consumo recreativo, a cerveja consolidou-se ao longo dos séculos como uma commodity agrícola estratégica, uma fonte essencial de receitas públicas e um objeto recorrente de controle sanitário, moral e protecionista. Das corporações de ofício medievais às complexas disputas antitruste do século 21, a regulamentação da cerveja reflete prioridades de governos que buscam equilibrar saúde pública, segurança alimentar, arrecadação de impostos ou, por vezes, satisfazer certos grupos e seus códigos morais e valores.

São fartos os exemplos de intervenção estatal documentados ao longo da história da cerveja.

Lei da Pureza (Reinheitsgebot): a cerveja como ferramenta de poder

Em 23 de abril de 1516, na cidade de Ingolstadt, o Duque Guilherme IV da Baviera e seu irmão Ludwig X promulgaram o Reinheitsgebot, conhecido historicamente como a Lei da Pureza da Cerveja. O decreto fixou formalmente que os únicos ingredientes permitidos para a fabricação da cerveja no Ducado da Baviera seriam a água, o malte de cevada e o lúpulo — a levedura, enquanto agente microbiológico da fermentação, ainda não era conhecida pela ciência da época. Embora frequentemente celebrada sob o prisma da proteção à qualidade oferecida ao consumidor, a motivação central do decreto era profundamente política e econômica.

Do ponto de vista da segurança alimentar e do controle inflacionário, a lei buscava reservar integralmente os cereais nobres — o trigo e o centeio — para a panificação, prevenindo crises de fome e a alta desenfreada do preço do pão entre as populações urbanas. Além disso, o decreto representou um golpe político e financeiro contra os monastérios católicos e famílias nobres rivais (como a casa dos Degenberg), que detinham o monopólio da produção de cervejas de trigo e da comercialização do gruit (uma mistura proprietária de ervas e especiarias utilizada para aromatizar e conservar a cerveja). Ao impor obrigatoriamente o uso do lúpulo, o Duque fortaleceu o controle da nobreza feudal sobre as matérias-primas e instituiu o tabelamento direto dos preços por litro em pfennigs. O Reinheitsgebot permaneceu como norma regional bávara por séculos, sendo estendido obrigatoriamente a toda a Alemanha unificada apenas em 1906, como condição prévia imposta pela Baviera para a integração nacional do Império Alemão.

Lei Seca nos Estados Unidos: quando proibir a cerveja deu poder aos gângsters

No século 20, a maior intervenção proibitiva sobre o setor de bebidas alcoólicas ocorreu nos Estados Unidos durante o período conhecido como a Proibição ou Prohibition. Sob intensa pressão política e moral de movimentos de temperança, liderados por entidades como a Anti-Saloon League e a Woman’s Christian Temperance Union, o Congresso norte-americano aprovou, e os estados ratificaram, a 18ª Emenda à Constituição. A proibição foi regulamentada pela Lei Volstead (Volstead Act) e entrou em vigor em 17 de janeiro de 1920, banindo em território nacional a fabricação, o transporte, a venda e a importação de qualquer bebida com teor alcoólico superior a 0,5%.

Os efeitos pragmáticos da Lei Seca foram diametralmente opostos aos objetivos morais declarados. Em vez de erradicar a violência e a pobreza, a proibição provocou o fechamento em massa de cervejarias legais e transferiu o controle do mercado para organizações criminosas e gângsters como Al Capone, em Chicago. A distribuição ilegal migrou para os subterrâneos em bares clandestinos (speakeasies), acompanhada pelo aumento vertiginoso da corrupção policial e do crime organizado. Com a eclosão da Grande Depressão em 1929, os custos econômicos da lei tornaram-se insustentáveis: o governo federal perdia bilhões de dólares em receitas tributárias não recolhidas, enquanto a fiscalização consumia recursos escassos. Argumentando que a legalização geraria milhares de empregos industriais e restabeleceria a arrecadação fiscal do Estado, o presidente Franklin D. Roosevelt impulsionou a aprovação da 21ª Emenda Constitucional, que revogou oficialmente a Lei Seca em 1933.

Guerra, tarifas e impostos: a regulamentação da cerveja no tabuleiro global

A globalização e a interconexão das cadeias de suprimento transformaram a cerveja em uma indústria altamente vulnerável a choques geopolíticos, disputas tarifárias e reformas regulatórias internacionais nas Américas e na Europa.

A eclosão do conflito armado entre Rússia e Ucrânia em fevereiro de 2022 desestabilizou o mercado agrícola e energético global. Juntas, Rússia e Ucrânia eram responsáveis por aproximadamente 30% das exportações mundiais de cevada (sendo a Rússia produtora de 13% e a Ucrânia de 5% do volume global). Embora parcela expressiva do grão do Leste Europeu se destinasse à alimentação animal, a interrupção das rotas do Mar Negro inflacionou as cotações internacionais da cevada cervejeira na Europa em mais de 50% nos meses subsequentes.

Paralelamente, a crise energética na Europa — desencadeada por sanções e pela redução no fornecimento de gás natural russo — elevou os custos das etapas de maltagem (intensivas em calor) e de embalagens, como o enlatamento em alumínio e a fabricação de garrafas de vidro. O custo total de produção da cerveja registrou altas estimadas em cerca de 15% apenas pelos impactos energéticos e logísticos. No plano corporativo, grandes conglomerados europeus como Heineken e Carlsberg enfrentaram perdas patrimoniais de centenas de milhões de euros ao anunciar a saída completa e o repasse de ativos na Rússia sob forte pressão política de governos ocidentais.

No continente americano, as relações comerciais do setor são profundamente afetadas por reajustes tarifários e blocos de integração. Sob o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA), que substituiu o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta), a indústria cervejeira do México consolidou o país como o maior fornecedor externo de cerveja para os Estados Unidos. Diante da imposição de novas tarifas norte-americanas sobre produtos sem origem comprovada, as cervejarias mexicanas adequaram rapidamente suas cadeias de suprimento, fazendo a utilização do regime de preferências tarifárias do USMCA saltar de 44,8% para quase 90%, garantindo isenção tarifária em exportações que ultrapassam 40 bilhões de dólares.

Em contrapartida, as exportações de cerveja da União Europeia para os EUA continuam sofrendo o impacto de tarifas de 15% sobre o produto final e de até 50% sobre derivados de alumínio, elevando o custo de cervejas enlatadas e mobilizando entidades globais, como a Brewers of Europe, na defesa de acordos de tarifa zero (zero-for-zero). Além disso, na Europa persistem discrepâncias fiscais acentuadas: enquanto a Alemanha aplica a alíquota mínima comunitária sobre o imposto de consumo (excise duty), países como Finlândia e Irlanda cobram impostos até 20 vezes maiores. Escócia, Irlanda e País de Gales adotaram ainda o Preço Mínimo por Unidade (MUP – Minimum Unit Pricing), fixando um piso por grama de álcool para desencorajar o consumo de cervejas de baixo custo em supermercados.

Do CADE ao Simples Nacional: como o Estado brasileiro regulou a cerveja

Já no Brasil, com a redemocratização em 1985 e a abertura econômica nos anos 1990, o mercado brasileiro de cervejas passou por uma profunda modernização institucional. A atuação do Estado brasileiro migrou do controle pontual de preços para a defesa da concorrência, a regulação sanitária dos ingredientes, a prevenção de acidentes de trânsito e o incentivo ao empreendedorismo por meio de reformas tributárias.

Em 1º de julho de 1999, as centenárias e históricas rivais Companhia Cervejaria Brahma e Companhia Antarctica Paulista anunciaram a criação da Companhia de Bebidas das Américas (Ambev). A fusão criou a terceira maior cervejaria do mundo e colocou sob o controle de uma única empresa nacional cerca de 70% da produção brasileira de cervejas e 40% do mercado de refrigerantes.

O negócio levou os presidentes das empresas a despacharem diretamente com o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, e deflagrou um dos julgamentos mais emblemáticos da história do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). Os defensores da fusão argumentavam que a criação da Ambev era indispensável para projetar uma multinacional brasileira capaz de competir na futura Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e no Mercosul. Após intensa disputa com concorrentes e pareceres do Ministério da Fazenda, o CADE aprovou a fusão em março de 2000, impondo condicionantes rigorosas: a obrigatoriedade de alienação da marca Bavaria, a venda de cinco fábricas regionais e a abertura de suas redes de distribuição exclusivas.

A regulação técnica da produção de cerveja no Brasil é exercida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Com a promulgação do Decreto nº 6.871, de 4 de junho de 2009 (que regulamentou a Lei de Bebidas nº 8.918/1994), fixou-se a permissão para a substituição de até 45% do malte de cevada por adjuntos cervejeiros — como o milho e o arroz — em relação ao extrato primitivo. Essa flexibilização regulatória permitiu às grandes cervejarias industriais otimizar custos de produção utilizando insumos agrícolas abundantes no mercado interno.

Contudo, em decorrência de pressões de associações de consumidores e do crescimento da cultura artesanal, atualizações normativas posteriores (como o Decreto nº 9.902/2019 e instruções normativas do MAPA) passaram a exigir maior transparência e clareza na rotulagem, obrigando à discriminação expressa de cereais não maltados e adjuntos nos rótulos comerciais.

No âmbito da saúde pública e da segurança viária, o marco legislativo mais incisivo foi a aprovação da Lei nº 11.705, de 19 de junho de 2008, popularmente denominada Lei Seca. A legislação alterou o Código de Trânsito Brasileiro e estabeleceu a política de “tolerância zero” para o consumo de álcool por condutores de veículos automotores, eliminando os limites de dosagem anteriormente admitidos. A Lei Seca transformou radicalmente a dinâmica de consumo fora do lar (on-trade) em bares e restaurantes de todo o país. O setor cervejeiro respondeu com a readequação de suas estratégias de marketing, fortes investimentos na conscientização sobre o motorista da rodada e a expansão massiva da categoria de cervejas sem álcool (com teor alcoólico de 0,0%), que passou a ocupar papel estratégico no portfólio das cervejarias.

A partir de 2010, o Brasil vivenciou a expansão do segmento de cervejas artesanais e independentes. No entanto, as pequenas cervejarias enfrentavam elevadas barreiras fiscais ao serem submetidas ao mesmo regime tributário das multinacionais. A virada institucional ocorreu com a sanção da Lei Complementar nº 155, de 27 de outubro de 2016. A lei incluiu formalmente as microcervejarias e pequenas vinícolas no regime favorecido do Simples Nacional a partir de 1º de janeiro de 2018. A simplificação da arrecadação e a redução da carga tributária efetiva permitiram a interiorização e o surgimento de centenas de novas cervejarias artesanais pelo país, gerando empregos locais e diversificando a oferta de estilos ao consumidor final.

Imposto Seletivo: o que está previsto para a cerveja a partir de 2027

O mais recente capítulo da relação entre cerveja e política no Brasil materializou-se na aprovação da Reforma Tributária do Consumo, instituída pela Emenda Constitucional nº 132, de dezembro de 2023, e regulamentada pela Lei Complementar nº 214, de janeiro de 2025.

A reforma criou o Imposto Seletivo (IS), apelidado de “Imposto do Pecado”, de competência federal. O tributo possui caráter estritamente extrafiscal, visando desestimular o consumo de bens e serviços prejudiciais à saúde humana ou ao meio ambiente, grupo no qual as bebidas alcoólicas foram explicitamente incluídas. O Imposto Seletivo incidirá de forma monofásica (em uma única etapa da cadeia, como na produção ou importação) e integrará a base de cálculo do novo IVA Dual, formado pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS, federal) e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS, estadual e municipal).

Durante as negociações no Congresso Nacional, a indústria cervejeira e entidades setoriais defenderam com sucesso que a alíquota do Imposto Seletivo fosse calibrada de forma progressiva com base no teor alcoólico do produto, garantindo que bebidas de menor graduação (como a cerveja) não recebam a mesma carga tributária de destilados de alto teor. Adicionalmente, estabeleceram-se proteções para que microcervejarias do Simples Nacional não sejam desproporcionalmente oneradas. A cobrança efetiva do novo tributo está prevista para iniciar em 2027, após o período de testes normativos em 2026.

A análise da trajetória da cerveja demonstra que a bebida jamais esteve dissociada das decisões de Estado. Desde o decreto de pureza na Baviera renascentista até os complexos arranjos do direito concorrencial e tributário contemporâneo, a regulação da cerveja reflete prioridades governamentais que oscilam entre a proteção da saúde pública, a arrecadação fiscal, o incentivo ao desenvolvimento agrícola e a geopolítica do comércio internacional.

No Brasil, a consolidação de um mercado maduro e diversificado após a redemocratização explicita essa relação simbiótica: as decisões do CADE moldaram gigantes mundiais, a legislação sanitária e viária redefiniu os produtos e comportamentos de consumo, e as reformas tributárias continuam a calibrar o equilíbrio entre grandes multinacionais e produtores artesanais. À medida que o setor enfrenta desafios globais de sustentabilidade e novas exigências fiscais, a cerveja permanecerá no centro dos debates políticos e econômicos nacionais e internacionais.

Saúde!

Referências

  • BRASIL. Decreto nº 6.871, de 4 de junho de 2009. Regulamenta a Lei nº 8.918, de 14 de julho de 1994, que dispõe sobre a padronização, a classificação, o registro, a inspeção e a fiscalização de bebidas. Brasília, DF: Presidência da República, 2009.
  • BRASIL. Emenda Constitucional nº 132, de 20 de dezembro de 2023. Altera o Sistema Tributário Nacional. Brasília, DF: Presidência da República, 2023.
  • BRASIL. Lei nº 11.705, de 19 de junho de 2008. Altera a Lei nº 9.503/1997 (Código de Trânsito Brasileiro). Brasília, DF: Presidência da República, 2008.
  • BRASIL. Lei Complementar nº 155, de 27 de outubro de 2016. Altera a Lei Complementar nº 123/2006 (Estatuto da Microempresa). Brasília, DF: Presidência da República, 2016.
  • BRASIL. Lei Complementar nº 214, de 16 de janeiro de 2025. Institui o Imposto Seletivo, a CBS e o IBS. Brasília, DF: Presidência da República, 2025.
  • BREWERS OF EUROPE. Brewers call for tariff-free trade after EU-US joint statement. Bruxelas: The Brewers of Europe, 2025.
  • FOLHA DE S.PAULO. Brahma e Antarctica fazem megafusão e criam a Ambev. São Paulo, 02 jul. 1999.
  • MEXICO BUSINESS NEWS. Mexican Exports Double USMCA Utilization Amid New US Tariffs. Cidade do México, 2025.
  • PEOPLES GAZETTE. Heineken, Carlsberg exit Russia over Ukraine’s invasion. Abuja, 2022.
  • RABOBANK KNOWLEDGE. Beer and the Russia-Ukraine Conflict. Utrecht: RaboResearch, 2022.
  • TAX FOUNDATION. Beer Taxes in Europe, 2026: Excise Duty on Beer. Washington, DC: Tax Foundation, 2026.
  • WIKIPÉDIA. Lei Seca nos Estados Unidos. Wikipédia, a enciclopédia livre, 2026.
  • WIKIPÉDIA. Reinheitsgebot. Wikipédia, a enciclopédia livre, 2026.
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO Europe). No Place for Cheap Alcohol: The Potential Value of Minimum Pricing For Protecting Lives. Copenhagen: WHO Regional Office for Europe, 2022.

Jayro Neto é somelelê, CFO, auxiliar administrativo e sócio da Cozalinda. É sommelier de cervejas desde 2015, campeão do Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas de 2019. Também atua como diretor financeiro da Abracerva desde 2022, é juiz BJCP Certified e coautor do livro Guia da Sommelieria Brasileira.


* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.

Menu Degustação: Trilha Cervejaria celebra 10 anos com a Farra dos 10

A Trilha Cervejaria, fundada em 2016 por Daniel Bekeierman e Beto Tempel, chega aos 10 anos com mais de 600 receitas desenvolvidas, bares em Perdizes, Pinheiros, Itaim, Higienópolis e Barra Funda (Rua Cônego Vicente Miguel Marino, 390). É nesse endereço que acontece a Farra dos 10, festa de aniversário marcada para 7 de novembro, das 13h às 20h. “Chegar aos 10 anos traz um sentimento intenso de realização”, diz Bekeierman.

A programação reúne torneiras com os rótulos da casa, um bar de cervejas envelhecidas em barril com raridades da adega e 15 cervejarias convidadas, entre elas Cosa Linda, Koala, Everbrew, Kaslash e Dude. Na comida, estão confirmados Sushi Vaz com Nori Vaz, Pinguina, Jiquitaia, Rima Queijaria e as pizzas da Fermentaria, da própria Trilha; os drinques são do Pina, por Gabriel Szklo. Membros do Trilha Barrel Club, clube de assinatura dedicado aos rótulos de guarda, entram ao meio-dia, uma hora antes do público.

O convite do primeiro lote custa R$ 300 e inclui um copo exclusivo e 20 vales, trocados por doses de 100 ml ou 300 ml, conforme a bebida; a comida é paga à parte. Os convites são vendidos na loja on-line da cervejaria; não há garantia de venda na porta. Mais informações estão no perfil da Trilha Cervejaria no Instagram.

Confira também neste Menu Degustação

Heineken 0.0 leva campanha de fãs à Fórmula 1

A Heineken 0.0 lançou no Brasil um novo filme de Fãs Têm Mais Amigos (Fans Have More Friends), plataforma global de patrocínios da Heineken criada em 2026 que reúne futebol, Fórmula 1 e música. Assinado pela agência LePub, o filme usa as pistas da Fórmula 1 como cenário para mostrar como a paixão compartilhada pelo esporte vira amizade. A campanha chega com a aproximação do Grande Prêmio de São Paulo, que a marca segue patrocinando com o Heineken Village, espaço montado a 30 metros da pista. No Brasil, a Heineken 0.0 está ligada à categoria há seis anos, desde que chegou ao país.

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Diogo Moreira fala à Estrella Galicia 0,0 após primeiro pódio na MotoGP

O piloto brasileiro Diogo Moreira, patrocinado há vários anos pela Estrella Galicia 0,0, versão sem álcool da cervejaria espanhola, deu entrevista à marca depois de conquistar seu primeiro pódio na MotoGP: o segundo lugar na corrida Sprint do Grande Prêmio do Japão, em sua temporada de estreia na categoria. “Acho que fiz um clique mentalmente. Agora estou acreditando e acredito que posso brigar com os melhores”, disse. Moreira contou ainda que Marc Márquez, a quem chama de referência, “se alegrou mais com o meu pódio do que com o dele”.

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Brahma passa a patrocinar Palmeiras e Bahia

A Brahma, da Ambev, anunciou na quinta-feira (8), dia do jogo entre Palmeiras e Bahia pelo Brasileirão, que os dois clubes entram na Sociedade Anônima da Brahma (S.A.B.), plataforma criada em 2025 que repassa aos times parte do valor das compras feitas no Zé Delivery. O torcedor escolhe o clube do coração no aplicativo, e 10% de cada pedido de produtos Brahma vão para o time; na Brahma 0,0%, o repasse dobra para 20%. Palmeiras e Bahia se juntam a outros 29 clubes, que já receberam mais de R$ 27 milhões. Para a marca, é a volta do patrocínio ao Bahia e a estreia com o Palmeiras.

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Stella Pure Gold chega ao barril e à Festa do Masp

A Ambev lançou a Stella Pure Gold Draft, versão em barril da cerveja sem glúten e com menos calorias da Stella Artois, que estreia em restaurantes selecionados, como Le Freak e Fresta, em São Paulo, e Aprazível e Malta Leblon, no Rio de Janeiro. A receita é a mesma da garrafa de 600 ml, lançada em março; segundo a marca, o serviço em barril deixa a espuma mais cremosa e persistente. A Pure Gold também teve bar próprio, pelo segundo ano consecutivo, na Festa do Masp 2026, noite beneficente do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) realizada na quarta-feira (7) para arrecadar fundos para a programação anual do museu; a ação segue a estratégia da Stella de se associar a plataformas de arte, como Casa Cor, ArtRio e Inhotim. No segundo trimestre de 2026, o portfólio Wellness da Ambev cresceu mais de 60% sobre o mesmo período do ano anterior, e a Pure Gold avançou 180% no trimestre. Para Camila Fischmann, diretora de marketing da Stella, o resultado “mostra como o segmento wellness vem ganhando relevância”.

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Mondial de la Bière reúne 250 cervejarias no Rio

O Mondial de la Bière chega à 14ª edição brasileira de 29 de outubro a 1º de novembro, no Píer Mauá, no Rio de Janeiro, com cerca de 1.500 rótulos de 250 cervejarias. O destaque internacional é uma cerveja exclusiva da Brooklyn Brewery, de Nova York (Estados Unidos), criada com o mestre-cervejeiro Garrett Oliver para esta edição. Entre as 15 cervejarias que prepararam novidades estão a Hocus Pocus, que relança a New England Double IPA Overdrive, e a Ferdinander, com a Brazilian Strong Ale Essa Cana, feita com 20% de caldo de cana. Na última edição, segundo a organização, o festival recebeu cerca de 40 mil visitantes e movimentou aproximadamente R$ 35 milhões na economia do Rio. Os ingressos são vendidos pela Ingresse.

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Flying Fish sorteia festa em castelo na Romênia

A Flying Fish, cerveja com limão da Ambev, está na reta final da promoção que sorteia dois consumidores, cada um com um acompanhante, para uma festa em 7 de novembro no Castelo de Bran, na Transilvânia (Romênia), associado à lenda de Drácula, com show do duo brasileiro Dubdogz. Para concorrer, é preciso comprar produtos participantes e cadastrar o cupom fiscal no site da promoção até 29 de outubro. Também são distribuídos mais de 2 mil prêmios, como minicâmeras, cervejeiras e vouchers do Zé Delivery.

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Oktoberfest de Igrejinha reúne Eisenbahn e cervejarias locais

A 37ª Oktoberfest de Igrejinha (RS), que vai de 9 a 18 de outubro no Parque de Eventos Almiro Grings, espera superar 200 mil visitantes. Tocada por mais de 3,5 mil voluntários, a festa já destinou mais de R$ 37 milhões a entidades locais desde sua criação. São 20 bares com 370 torneiras, e a Eisenbahn, do Grupo Heineken, é o chope oficial, com o Pilsen a R$ 16 e os especiais a R$ 18, mesmo preço das cervejarias locais Old Castle e Stier. O Pilsen sai em dobro, pelo mesmo valor, às sextas-feiras e aos sábados, das 21h30 às 22h30, e aos domingos, das 15h30 às 16h30. A novidade é a Bierhalle, montada no antigo ginásio do parque, com chope servido em copo de vidro e cardápio germânico assinado por Rodrigo Fagundes; no total, são mais de 50 operações de comida, com pratos de R$ 10 a R$ 110. Os ingressos estão no site oficial da festa.

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Confraria da Cerveja entroniza 50 confrades em Portugal

A Confraria da Cerveja, entidade portuguesa sem fins lucrativos criada em 2003 para divulgar a cultura cervejeira, entronizou 50 novos confrades em 1º de outubro, numa cerimônia que reuniu cerca de 200 convidados no Convento de Mafra (Portugal). Entre os novos confrades de honra estão o presidente da Câmara Municipal de Mafra, Hugo Moreira Luís, e a secretária-geral da The Brewers of Europe, Julia Leferman; a confraria soma mais de 1.100 membros. Ao defender a cerveja como ponto de encontro, a grã-mestre Teresa Apolónia disse que “estar ligados não é o mesmo que estar juntos”. Segundo dados do setor citados pela entidade, a cerveja responde por cerca de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) português e sustenta mais de 170 mil empregos diretos, indiretos e induzidos.

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Crystal Beer homenageia cidades históricas mineiras em latas

A Crystal Beer, do Grupo Petrópolis, lançou em Minas Gerais uma edição limitada de latas de 350 ml e 473 ml com ilustrações inspiradas em cidades históricas como Ouro Preto (MG), Tiradentes (MG) e Mariana (MG); ao todo, serão 5,7 milhões de unidades. A ação faz parte do Acelera Minas, estratégia do grupo para ampliar a presença de suas marcas no Estado, onde fica sua maior fábrica, em Uberaba (MG). Segundo a empresa, a Crystal cresceu 27% em volume no primeiro semestre, na comparação com o mesmo período de 2025.

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Proibida busca voltar ao grupo das mais vendidas

Lançada em 2008, a Proibida quer voltar a figurar entre as cervejas mais lembradas e mais vendidas do País, apoiada em investimentos em fábricas, marketing, qualidade e distribuição. A linha atual tem quatro rótulos: Pilsen, com 4,7% de teor alcoólico e lúpulo alemão Hallertau Tradition; Puro Malte, também com 4,7%; Puro Malte Extra, topo da linha, com 5,1% e vendida em garrafa de 600 ml; e Malzbier, com 4,5%. A distribuição da marca é feita pelo Grupo Notória.

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Blumendorf recebe intercâmbio cultural Alemanha-Brasil

O Complexo Blumendorf, em Nova Hartz (RS), que tem cervejaria de produção própria, recebe em 31 de outubro o espetáculo Intercâmbio Cultural Alemanha & Brasil. A partir das 14h, com shows às 16h, a programação reúne a banda Die Bagage, da Renânia-Palatinado, na Alemanha, grupos de dança folclórica, coral e camerata da região e a personagem Herta, do ator Betinho Klein. Os ingressos antecipados custam R$ 20, mais taxas e a doação de 1 quilo de alimento não perecível, e são vendidos pela plataforma TKTR; no dia, saem por R$ 30. Parte da renda e os alimentos arrecadados vão para instituições sociais da região.

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Oktoberfest Summit inclui entrada na festa de Blumenau

O ingresso da segunda edição do Oktoberfest Summit, encontro sobre os bastidores da festa de Blumenau (SC), de 20 a 22 de outubro, passa a dar direito à entrada gratuita em todos os 19 dias da 41ª Oktoberfest Blumenau, realizada de 7 a 25 de outubro. Voltado a gestores públicos, organizadores de eventos, patrocinadores e empreendedores, o evento terá festa de abertura no Spaten Tisch, novo espaço do Parque Vila Germânica, e área reservada para o desfile de 21 de outubro. As inscrições custam R$ 880 no segundo lote, válido até 17 de outubro, e são feitas no site do evento.

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Hofbräuhaus BH e Krug Bier lançam Festbiers

Duas cervejarias de Minas Gerais lançaram sazonais do estilo Festbier, típico das festas de outubro na Alemanha. Em Belo Horizonte (MG), a Hofbräuhaus BH, primeira unidade da casa de Munique (Alemanha) na América Latina, passou a servir a Hofbräu Oktoberfest, edição limitada de cor dourada, com 6,3% de teor alcoólico e 26 unidades de amargor (IBU), e prepara uma semana de programação temática de 20 a 25 de outubro. Já a Krug Bier, que completou 29 anos em setembro, lançou a edição 2026 da Krug Oktoberfest, cerveja puro malte de cor acobreada, com 5,5% de álcool e 25 IBU, em garrafas de 600 ml. “A Krug faz aniversário no final de setembro, bem no começo da Oktoberfest”, afirma Alexandre Bruzzi, um dos sócios.

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Monka abre a fábrica para Rocktoberfest

A Monka Cervejaria abre sua fábrica em Belo Horizonte (MG) em 17 de outubro, a partir das 12h, para a Rocktoberfest Monka, festa que combina a tradição germânica com o rock. O chope sai direto dos tanques, a partir de R$ 15 o copo de 400 ml, e o palco recebe as bandas Rockfield e Big Ones, além do DJ Love. A programação inclui jogos cervejeiros e espaço para crianças. Os ingressos são vendidos pela Sympla.

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Rota Cervejeira de Piracicaba lança portal de reservas

A Rota Cervejeira de Piracicaba (SP) lançou seu novo portal, com sistema integrado de reservas, divulgação das fábricas parceiras e roteiros bate-volta por polos como Brotas (SP), Santos (SP) e São Roque (SP). O site foi viabilizado pelo SebraeTec, programa que une Sebrae e Senai e subsidia até 70% do custo de consultorias tecnológicas para pequenos negócios. Criada em dezembro de 2023, a rota já levou mais de 500 passageiros. O próximo passeio, em 17 de outubro, sai às 10h e dura três horas, com paradas na Peixe Para, na Cevada Pura, a mais antiga cervejaria da cidade, e na recém-inaugurada Sexto Sentido; o valor é de R$ 150 por pessoa, com uma taça em cada parada.

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Ruera recebe o Beco Sem Saída às quintas

A Ruera, em Barão Geraldo, Campinas (SP), passa a receber toda quinta-feira o Beco Sem Saída, noite com cerveja, drinques, comidas e música do DJ Duh, com entrada gratuita. Das 17h às 20h, o chope de 450 ml sai pelo preço do de 300 ml, e o DJ assume o som às 19h. Parceiro de longa data de Emicida, Duh integrou a equipe de AmarElo, álbum que deu ao rapper o Grammy Latino de 2020 na categoria de melhor álbum de rock ou música alternativa em língua portuguesa.

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Cerveja sem glúten mais que quintuplica em um ano

O volume declarado de cerveja sem glúten no Brasil passou de 71,1 milhões de litros em 2024 para 367,9 milhões em 2025, alta de 417,68%, segundo o Anuário da Cerveja 2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Entre as empresas que apostam na categoria está a Salva, de Bom Retiro do Sul (RS), que desde 2025 produz todas as suas cervejas sem glúten, com a adição de uma enzima em uma etapa intermediária da produção para decompor a proteína. “Nosso desafio foi incorporar a enzima ao processo sem descaracterizar as receitas”, afirma João Giovanella, CEO da cervejaria. No Brasil Beer Cup 2026, a Salva conquistou 43 medalhas, ocupou as três posições do pódio na categoria de cervejas sem glúten e repetiu o título de melhor cervejaria de grande porte do Brasil.

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Heineken Masters reúne 100 bares em disputa

Cem bares de 13 Estados e do Distrito Federal participam do Heineken Masters 2026, programa do Grupo Heineken que treina e avalia as equipes no serviço do chope da marca. O público pode votar por um QR Code disponível nas mesas, uma vez por semana em cada estabelecimento, até 30 de novembro, e os dez bares com melhor desempenho serão reconhecidos em dezembro. O treinamento segue os cinco passos do Ritual Star Quality, metodologia global da marca que vai do copo limpo e gelado ao colarinho na altura do “ombro” da estrela do copo. A lista dos participantes está no Guia Heineken, plataforma da empresa.

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Heineken aposta na 0.0 para ampliar ocasiões de consumo

A Heineken quer levar a versão 0.0 para além das ocasiões em que é preciso evitar o álcool. Segundo a empresa, a zero álcool, líder de seu segmento em dados da Kantar referentes ao acumulado até setembro de 2025, ganhou peso na estratégia da marca: a Heineken original segue nas ocasiões tradicionais, e a 0.0 entra em outros momentos da rotina, como o esporte, o bem-estar ou encontros em que a pessoa simplesmente prefere não tomar álcool. Para Bruna Rosato, gerente de marketing da Heineken 0.0 no Brasil, as duas versões “cumprem papéis complementares”. A aposta inclui a campanha global 0.0 Reasons Needed, que questiona a pressão social sobre quem decide não beber.

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Ambev reforça portfólio zero álcool em duas frentes

A Ambev deu espaço às cervejas sem álcool em duas ações recentes. Em 3 de outubro, a Skol foi a cerveja oficial da edição paulistana do Churrasquinho do Menos é Mais, na Arena Anhembi, em São Paulo, e ofereceu degustação da nova Skol Zero Zero, sem álcool e sem açúcar, parte do portfólio que a companhia chama de Wellness, formado por cervejas de baixa caloria, sem glúten ou zero álcool. Para Fernando Gama, diretor de marketing da Skol, o Churrasquinho “é um evento em que a cerveja, que é símbolo de celebração, faz parte da experiência”. Já a Academia da Cerveja, espaço de conhecimento e cultura cervejeira da empresa, divulgou cinco recomendações de consumo equilibrado, entre elas a técnica “zebra”, que alterna cervejas tradicionais com versões zero, como Corona Cero, Bud Zero e Brahma 0,0%, a harmonização com comida e a hidratação com água entre os copos.

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Brewine Leopoldina leva Italian Grape Ales à ProWine

A Famiglia Valduga programou para a ProWine 2026, feira realizada de terça-feira (6) a quinta-feira (8) no Expo Center Norte, em São Paulo, a apresentação da Brewine Leopoldina, sua marca de cervejas artesanais. O portfólio vai da Pilsner Extra à Russian Imperial Stout e inclui Italian Grape Ales, feitas com mosto de uvas como Moscato, Chardonnay, Pinot Noir e Riesling Renano. O grupo também levaria à feira dois lançamentos: o Ponto Nero Spritz Limonero, bebida pronta para beber com 5% de teor alcoólico, e o Mundvs Chile 2022, primeiro de uma série de 12 vinhos de 12 países.

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Do tabu de 33 jogos do Remo à Germano Pilsen: as histórias que uniram futebol e cerveja

Uma cerveja feita com três maltes e três lúpulos para lembrar 33 clássicos sem derrota para o maior rival. Uma German Pilsen rebatizada de Germano Pilsen por causa do estádio do clube. Mil garrafas de uma edição comemorativa que desapareceram em 48 horas. E, mais recentemente, torcedores convidados a contar suas próprias memórias para colocá-las no rótulo da cerveja do time. A relação entre cerveja e futebol no Brasil produziu histórias que vão bem além da marca estampada em uma placa de publicidade. Passam por cervejas criadas por torcedores, rivalidades transformadas em receitas, clubes centenários associados a pequenas cervejarias de suas cidades, latas que viraram objetos de coleção e projetos em que até os dois lados de um clássico acabaram atendidos pelo mesmo fabricante.

Essa proximidade é antiga. No começo do século 20, quando o futebol ainda se organizava no país, a Companhia Antarctica Paulista mantinha em São Paulo uma área de lazer com jardins, restaurantes, choperia e campos. O Parque Antarctica recebeu em 1902 uma partida do primeiro Campeonato Paulista e acabaria ligado definitivamente à história do Palestra Itália, atual Palmeiras.

Mais de um século depois, a cerveja continua encontrando maneiras diferentes de entrar na cultura do futebol. Algumas dessas histórias duraram uma temporada; outras se estenderam por anos. Há projetos lançados em 2026 e outros que desapareceram, mas deixaram casos bons demais para sumirem junto com o rótulo.

Quando o escudo foi parar na lata

A ideia de comprar uma cerveja com o escudo do clube não nasceu com a expansão das cervejarias artesanais.

Em meados dos anos 1990, milhões de latas com símbolos de grandes times brasileiros chegaram ao mercado em uma operação curiosa: a própria cerveja era produzida e envasada nos Estados Unidos, pela American Specialty Brewing, e importada pronta para o Brasil. Em 1996, uma nova remessa previa 9,6 milhões de latas, com investimento de US$ 4 milhões. Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Flamengo, Fluminense, Botafogo, Vasco e Bahia estavam entre os clubes estampados nas embalagens.

Anos depois, as grandes cervejarias explorariam de maneira muito mais ampla essa proximidade entre embalagem e torcida. Em 2013, a Brahma lançou uma coleção de “latas torcedoras” com escudos de 17 clubes brasileiros, distribuídas em versões de 350 e 473 ml.

A relação também apareceu em projetos menos convencionais. Antes da Copa do Mundo de 2014, a marca chegou a cultivar cevada na Granja Comary, centro de treinamento da seleção brasileira em Teresópolis, para produzir uma edição especial de 2.014 garrafas numeradas. Em 2026, a Brahma prometeu cerveja de graça caso a seleção conquistasse o hexa.

O futebol já não estava apenas na publicidade da cerveja. Podia estar na embalagem, na origem de um ingrediente ou no motivo para criar uma edição que o torcedor guardaria depois de beber. Nas cervejarias artesanais, essa relação ganharia outra escala e, muitas vezes, histórias bem mais locais.

Remogelada: três maltes, três lúpulos e 33 jogos sem perder para o Paysandu

A Remogelada começou longe de qualquer departamento de marketing.

Em 2015, Bruno Fernandez, torcedor do Clube do Remo, de Belém (PA), produzia cerveja artesanal para beber com amigos antes dos jogos. A experiência cresceu entre outros remistas até chegar ao próprio clube, que decidiu transformar a ideia em produto oficial.

O contrato anunciado na época tinha duração de cinco anos e previa royalties para o Remo. Mas o detalhe que transformou a cerveja em uma história especialmente futebolística estava dentro da receita.

A Remogelada utilizava três tipos de malte e três tipos de lúpulo. O “3 + 3” fazia referência a uma sequência que entrou para a história do Re-Pa: entre 1993 e 1997, o Remo passou 33 clássicos consecutivos sem perder para o Paysandu. A rivalidade havia virado fórmula de cerveja.

O contrato original já chegou ao fim. Ainda assim, a história mostra algo que se repetiria em outros projetos pelo país: quando a cerveja nasce dentro da própria torcida, detalhes que poderiam parecer pequenos para quem está de fora ganham significado no nome, no rótulo e até na receita.

Operário: a German Pilsen que virou Germano Pilsen

Em 2017, quando o Operário, de Ponta Grossa (PR), disputava a final da Série D do Campeonato Brasileiro, integrantes do Grupo Gestor, que administrava o futebol, criaram uma cerveja artesanal para acompanhar aquele momento.

A associação de torcedores já mantinha uma relação incomum com a memória do clube: havia participado da criação do escudo utilizado pelo Operário e mantinha um acervo dedicado à história alvinegra.

Para a cerveja, o Fantasma (apelido do clube) virou Ghost Beer. E a brincadeira continuou no estilo: a German Pilsen foi apresentada como Germano Pilsen, referência ao Estádio Germano Krüger. O rótulo trazia ainda uma imagem aérea do estádio.

A relação do clube com a produção cervejeira local ainda teria outro capítulo. Em 2022, o Operário fechou parceria com a também ponta-grossense Steudel para lançar a Vila Oficinas Lager, cerveja oficial que destinava parte do valor das vendas ao clube.

No Criciúma, a torcida assina o rótulo

Garrafa de 600 ml da cerveja do Criciúma E.C., produzida pela Lohn Bier, com rótulo amarelo e preto

Algumas dessas histórias continuam sendo escritas. Em 2026, o Criciúma renovou até o fim do ano sua parceria de licenciamento com a catarinense Lohn Bier, iniciada em 2021.

Para celebrar os 79 anos do clube, a cervejaria abriu espaço para que os torcedores contassem qual título mais os representava e qual era sua relação pessoal com aquela conquista. As histórias selecionadas chegaram à embalagem e 12 torcedores tiveram suas assinaturas incorporadas ao rótulo comemorativo.

Villa Nova e Vinil: clube e cervejaria dividem Nova Lima

Em 2026, o Villa Nova, clube centenário de Nova Lima, em Minas Gerais, ganhou a cerveja Leão do Bonfim, Pilsen artesanal produzida pela também nova-limense Cerveja Vinil.

A cerveja foi apresentada no Estádio Castor Cifuentes e desenvolvida com elementos ligados ao Villa e à cidade. O leão, as cores do clube, referências visuais de Nova Lima e expressões utilizadas pelos torcedores aparecem em sua identidade.

A bebida também foi pensada para circular onde essa relação acontece: jogos no estádio, bares, restaurantes e distribuidores da região.

Ceará e Fortaleza na mesma cervejaria

Cerveja e futebol: Cervejaria Turatti fechou parceria com times de futebol do Ceará para desenvolver rótulos exclusivos e se aproximar das torcidas (Foto: Divulgação)
Cerveja e futebol: Cervejaria Turatti fechou parceria com times de futebol do Ceará para desenvolver rótulos exclusivos e se aproximar das torcidas (Foto: Divulgação)

Em Fortaleza, uma mesma cervejaria encontrou espaço dos dois lados de uma das maiores rivalidades do futebol nordestino.

A Turatti passou a produzir em 2025 rótulos licenciados de Ceará e Fortaleza. Cada clube ganhou sua própria cerveja, com identidade visual específica.

O projeto também tentou enfrentar um fenômeno comum às edições de clubes: a garrafa que o torcedor compra para guardar, mas não volta a consumir. Em entrevista ao Guia da Cerveja, a Turatti contou que reposicionou o preço dos produtos para ampliar o consumo e que o volume dos rótulos licenciados havia triplicado.

Goiás e Colombina: uma parceria com sotaque local

Um dos mais queridos da torcida, chope verde do Goiás EC, está à venda no estádio e é produzido pela Cervejaria Colombina (Créditos: Twitter/Goiás EC)
Um dos mais queridos da torcida, chope verde do Goiás EC, está à venda no estádio e é produzido pela Cervejaria Colombina (Créditos: Twitter/Goiás EC)

Em junho de 2025, a Cervejaria Colombina tornou-se patrocinadora do Goiás Esporte Clube e passou a abastecer os bares do Estádio Hailé Pinheiro, a Serrinha. A parceria segue ativa em 2026, com venda de cerveja e chope nos jogos, promoções e ações com a torcida.

A aproximação tem um componente regional forte. Criada em 2014 como a primeira linha de cervejas artesanais produzida no Estado de Goiás, a Colombina construiu sua identidade em torno do Cerrado e de ingredientes locais.

A relação com o clube também ganhou produtos próprios. Em 2026, a cervejaria atualizou o rótulo da cerveja do Goiás com um símbolo histórico do time e criou um kit presenteável com garrafa e taça personalizada, acomodadas em uma caixa cuja arte remete a um campo de futebol e à memória esmeraldina. Em partidas importantes, o pré-jogo chegou a ter período de chope liberado para a torcida — a cerveja deixou de ficar restrita à marca no uniforme para aparecer também na experiência de estádio.

Botafogo-SP: mil garrafas em 48 horas

Em 2018, ano do centenário do Botafogo de Ribeirão Preto, a Walfänger criou uma German Pilsner comemorativa para o clube. As primeiras mil garrafas esgotaram em 48 horas e um segundo lote, também de mil unidades, foi colocado à venda.

A parceria avançou no ano seguinte. Em 2019, a Walfänger inaugurou dentro do estádio Santa Cruz o Seo Tibério Futebol Bar, com vista para o gramado. Um mês depois da abertura, o espaço já havia recebido cerca de 7 mil pessoas.

Ribeirão Preto oferecia um cenário particularmente apropriado para a experiência. A cidade construiu uma história própria ligada à cerveja e ao chope e tem no Botafogo um de seus principais símbolos esportivos. A edição comemorativa e o bar colocaram essas duas tradições no mesmo espaço.

Coritiba e Internacional: títulos que viraram cerveja

Em 2015, nos 30 anos do título brasileiro do Coritiba, torcedores criaram a CoritIPA Hop. As primeiras 85 unidades participaram de uma ação relacionada ao ano da conquista de 1985. A ideia havia surgido em conversas entre torcedores apaixonados por cerveja em um bar diante do Couto Pereira.

No Rio Grande do Sul, uma cerveja lançada em 2014 homenageou o Internacional campeão brasileiro invicto de 1979. A referência precisou ser construída sem o uso oficial da marca do clube, que mantinha contrato comercial com uma grande cervejaria.

São projetos muito diferentes. Alguns nasceram de contratos de licenciamento, outros de patrocínios ou de cervejarias instaladas na mesma cidade dos clubes. E houve aqueles que começaram simplesmente porque um grupo de torcedores queria beber uma cerveja própria antes da partida.

Em mais de um século, mudaram os clubes, as cervejarias, as embalagens e a dimensão comercial do futebol. A vontade do torcedor de carregar suas histórias para fora do estádio permaneceu.

Às vezes elas aparecem em uma camisa, uma bandeira ou uma música de arquibancada. Em outras, cabem em uma garrafa na qual três maltes e três lúpulos são suficientes para lembrar que, durante 33 jogos, o maior rival não conseguiu vencer.

Falta de gás carbônico nos EUA empurra cervejarias para tecnologia projetada para Marte

Em 2021, a Maine Beer Company, de Freeport, região Nordeste dos Estados Unidos (EUA), recebeu do fornecedor o aviso que nenhuma cervejaria quer ouvir: não havia mais gás carbônico para entregar. “Havia o risco da nossa cerveja envelhecer nos tanques”, contou Dave Love, gerente de sustentabilidade da empresa americana, ao site da NASA. Sem o gás não se engarrafa, não se enche barril e não se passa cerveja pela centrífuga — dava para produzir, não para vender. A solução que ela comprou tinha sido projetada para outro planeta, e por um motivo bem terreno: com o dióxido de carbono caro e incerto nos Estados Unidos, ficou mais barato capturar o que a própria fermentação solta do que comprá-lo no mercado.

A crise não passou. Em agosto, Chuck Skypeck, diretor de projetos técnicos de cervejaria da Brewers Association, entidade que representa os produtores artesanais independentes americanos, escreveu que as interrupções recentes no sudeste do país “expuseram a fragilidade do fornecimento de CO₂ de grau de bebida na América do Norte”. Quem compra o gás por lá convive com força maior, entrega fora de hora, cota de fornecedor e preço em disparada. O setor já enfrentou a crise de lata, de malte e de frete. Faltava a do gás.

Uma fábrica de gás carbônico que compra gás carbônico

Ninguém que faz cerveja é pego de surpresa pelo gás da fermentação. É o mesmo princípio do pão: a levedura come açúcar e devolve álcool e dióxido de carbono, e é esse gás que faz a massa crescer. Na cervejaria, ele é exatamente o que vai ser preciso depois, para carbonatar a bebida, purgar tanques e envasar.

Mas o gás sai do fermentador impuro, misturado ao ar que estava no tanque e em pressão baixa. Para virar CO₂ de cilindro, precisa ser lavado, comprimido e liquefeito — uma cadeia de equipamentos que, segundo a consultoria cervejeira First Key, só se paga a partir de 50 mil barris por ano. É por isso que as grandes recuperam o próprio gás há décadas e as pequenas, não. “Elas não têm capacidade de liquefazer o dióxido de carbono que sai dos fermentadores para colocar na cerveja”, resume Robert Zubrin, engenheiro aeroespacial, presidente da Pioneer Energy e fundador da Mars Society.

O resultado é uma conta que sempre pareceu inevitável: a microcervejaria manda para o céu o gás que acabou de fazer e paga pelo gás que o caminhão traz. O equivalente a deixar a chuva cair no ralo e comprar água mineral para regar o jardim.

Em Marte não existe posto de gasolina

Foi essa ausência de posto de gasolina no planeta vermelho que criou a tecnologia. Nos anos 1990, Zubrin trabalhou com a equipe de ISRU do Johnson Space Center, em Houston — sigla inglesa para utilização de recursos locais. Em vez de levar combustível da Terra, a missão o fabrica lá. E a matéria-prima está no ar, já que a atmosfera marciana é mais de 95% dióxido de carbono.

Duas peças desse projeto chegaram à cervejaria. Uma é a autonomia, porque nem em Marte nem numa cervejaria pequena existe alguém de plantão para operar a máquina. A outra são os leitos dessecantes, que tiram a água do gás. “Os fermentadores das cervejarias têm água dentro, e você tem de manter essa água fora do dióxido de carbono, ou ela congela nas linhas e bloqueia tudo”, explica Zubrin. Em Marte, a mesma peça secaria o oxigênio e o metano antes de armazená-los.

A conta que saiu da faixa

A proposta original era uma economia modesta. O sistema recupera cerca de cinco toneladas de gás carbônico por mês, o bastante para uma produção de até 60 mil barris por ano — justamente a faixa que ficava abaixo do piso das plantas industriais. Quando a NASA divulgou os números, em 2016, o gás custava de US$ 200 a US$ 300 a tonelada nos Estados Unidos, e o equipamento se pagava em dois anos.

Seis anos depois, essa faixa de preço foi superada de tal forma que virou piada. Katie Stinchon, diretora-executiva do Massachusetts Brewers Guild, contou ao site americano Good Beer Hunting, em 2022, que cervejarias do estado foram cotadas a US$ 1,20 a libra de dióxido de carbono, quando o normal girava em 11 centavos — de cerca de US$ 220 para US$ 2,4 mil a tonelada. “Normalmente se paga uns US$ 150 de CO₂ para carbonatar e envasar uma cerveja. Imagine ir para US$ 750, US$ 850 nessa mesma cerveja. É insustentável”, disse na época Matt Malloy, dono da Dorchester Brewing, de Boston.

A máquina também não é bala de prata. A Austin Beerworks, uma das primeiras a instalar, em 2018, cobre de 10% a 15% do dióxido de carbono que consome, e não mais do que isso por falta de gente para operar o equipamento. “É uma tecnologia incrível e eu realmente acredito que seja o futuro do nosso setor”, disse Adam DeBower, cofundador da cervejaria. “Mas integrar isso na cervejaria de todo mundo neste momento simplesmente não é possível.” Os sistemas custavam a partir de US$ 90 mil.

A trajetória do invento diz algo sobre o tamanho que o assunto ganhou. Licenciada pela Earthly Labs em 2016 e vendida à Chart Industries em 2021, a tecnologia foi junto quando a Chart passou para a Baker Hughes, em negócio de US$ 13,6 bilhões fechado em julho deste ano. E deixou de ser só economia de insumo: a Brewers Association informa que conseguiu no ano passado equiparar o reúso de dióxido de carbono ao sequestro de carbono na legislação tributária americana.

No Brasil, recuperar o CO₂ da fermentação é rotina nas grandes e raridade nas artesanais, que seguem ventilando o próprio gás e comprando o de fora. As duas contas que empurraram os americanos para esse equipamento são conhecidas de qualquer cervejaria brasileira de porte médio: depender de um fornecedor só e ver o preço subir sem aviso. Fechar o ciclo aqui resolveria as duas de uma vez — e para isso não precisa de Marte.