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5 cervejarias da Amazônia que você precisa conhecer

Em 5 de setembro de 1850, D. Pedro II assinava a lei que criava a província do Amazonas — um decreto de gabinete, tinta e papel, para dar nome oficial a um território que já fervilhava de vida havia milênios. Cerca de 160 anos depois, em 2007, essa data virou o Dia da Amazônia (Lei nº 11.621), justamente para lembrar que o maior patrimônio natural do planeta continua precisando ser defendido todo santo dia, não só no papel.

Por lá — já há provas de sobra — os povos originários fermentavam frutas e vegetais há muitos séculos. Mas a cerveja, nos padrões europeus como conhecemos hoje, chegou em navios vindos da Europa e do Sul do país. Hoje, felizmente, já existem cervejarias da Amazônia na região. Porém, são muito poucas se comparadas às demais regiões do país.

Nesse Dia da Amazônia, que tal conhecer cinco delas para experimentar em algum momento? Quem sabe, numa próxima viagem ou no supermercado.

Cervejarias da Amazônia em números

Segundo o Anuário da Cerveja 2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a região Norte responde por apenas 44 das 1.954 cervejarias registradas no Brasil em 2025 — 2,3% do total. Em volume, a conta é ainda mais modesta: dos mais de 15,6 bilhões de litros de cerveja declarados no país naquele ano, o Norte produziu pouco mais de 215,6 milhões de litros, apenas 1,4% do total nacional — a única região que não chega à casa do bilhão de litros.

E tem um recorde a mais, esse pelo lado invertido: o Amazonas é, isoladamente, o estado com a menor densidade cervejeira do Brasil, com uma cervejaria para mais de 1 milhão de habitantes, contra uma média nacional de uma cervejaria para cada 108 mil habitantes, aproximadamente. No emprego direto do setor, a região soma 1.502 postos de trabalho (3,63% do país), sendo 883 só no Pará e 531 no Amazonas — os dois estados que concentram boa parte das cervejarias da Amazônia que você vai conhecer agora. 

E, olhando estado por estado, o contraste chama a atenção: o Pará, onde ficam quatro das cinco cervejarias da Amazônia desta lista, soma 22 cervejarias registradas no estado; o Amazonas, que compartilha o nome com a própria floresta e é a casa da Rio Negro, tem só quatro.

Ou seja: fazer cerveja na Amazônia nunca foi (e ainda não é) o caminho mais óbvio do mapa cervejeiro brasileiro. Envolve trazer malte e lúpulo de milhares de quilômetros de distância, distribuir por rio e rodovia em uma logística que poucos estados enfrentam, e competir com grandes marcas nacionais. Por isso mesmo, cada um dos rótulos abaixo carrega um pouco de teimosia — e de identidade regional — a mais. Vamos a eles.

Amazon Beer: a pioneira

Entre as cervejarias da Amazônia, a Amazon Beer é pioneira, tendo sido fundada em 2000 (Crédito: Divulgação)
Entre as cervejarias da Amazônia, a Amazon Beer é pioneira, tendo sido fundada em 2000 (Crédito: Divulgação)

A Amazon Beer nasceu em maio de 2000, em Belém (PA), dentro do complexo turístico Estação das Docas, pelas mãos do empresário Arlindo Guimarães. Não é força de expressão dizer que ela é uma relíquia: foi uma das primeiras cervejarias artesanais do Brasil e, à época, a única em toda a região Norte.

O diferencial, que até hoje é a cara da marca, foi apostar onde poucos tinham ousado: usar frutas, raízes e especiarias amazônicas nas receitas, num momento em que muitas das poucas microcervejarias brasileiras ainda imitavam a estética e o sabor da tradição alemã. Açaí, taperebá, bacuri, a raiz de priprioca e a semente de cumaru viraram matéria-prima ao lado do malte — um trabalho de bastidores do próprio Guimarães em parceria com o mestre cervejeiro Reynaldo Fogagnolli. A identidade visual, com um macaco estendendo a mão para uma fruta, foi assinada pelo renomado designer americano Randy Mosher.

Os rótulos batizados de Amazon Forest (Pilsen) e Amazon River (Lager) abriram o catálogo, que se ramificou em receitas mais autorais. É o caso da Açaí Stout — eleita a Melhor Cerveja do Brasil no Festival Brasileiro da Cerveja de 2014 — e da Bacuri, medalha de ouro na mesma competição em 2013. A cervejaria também já foi eleita a melhor do país pela revista “Prazeres da Mesa”, em 2012, e chegou a colaborar com nomes internacionais como Pete Slosberg, Fal Allen e Sean Paxton na Saison Puxuri.

Mais de duas décadas depois, a Amazon Beer segue operando no mesmo endereço na Estação das Docas, num modelo de brewpub que virou parada obrigatória para quem visita Belém — e segue sendo citada como a cervejaria da Amazônia que abriu caminho para toda uma escola brasileira de cerveja com ingrediente nacional.

Cerpa: o símbolo

Exemplo na indústria cervejeira, Cervejaria Cerpa tem caldeiras de biomassa que trabalham com caroços de açaí (Crédito: Reprodução / Site Cerpa)
Exemplo na indústria cervejeira, Cervejaria Cerpa tem caldeiras de biomassa que trabalham com caroços de açaí (Crédito: Reprodução / Site Cerpa)

Se a Amazon Beer é a pioneira do artesanal, a Cerpa é a matriarca industrial das cervejarias da Amazônia. Fundada em 1966 pelo imigrante alemão Konrad Karl Seibel, que viu nas águas da Baía do Guajará, em Belém, condições ideais para fabricar cerveja nos trópicos, a marca virou rapidamente a “cerveja oficial do Pará” — chegando a 65% de participação de mercado no estado em 2003, num tempo em que era praticamente a única indústria cervejeira local.

Hoje, sob o comando de Jorge Kowalski, CEO desde 2024, a Cerpa vive o que o próprio executivo chama de “ponto de inflexão”: fatura R$ 300 milhões por ano, mantém fábrica própria em Belém com capacidade para 1 milhão de hectolitros anuais — modernizada em 2015 — e ainda concentra 70% do seu volume na região Norte.

O portfólio, com mais de 22 rótulos, vai da linha premium Cerpa Export à tradicional Tijuca, queridinha das garrafas retornáveis, passando pela Kroland, de inspiração alemã, até marcas de entrada como Draf e Nevada. Entre os movimentos recentes estão o acordo de distribuição nacional com o Sistema Coca-Cola para tentar dobrar a receita até 2030 e um produto fora da cerveja — a água em lata Mapura, lançada durante a COP30 com narrativa amazônica —, além de uma parceria mais antiga, de 2020, com a Cervejaria Cidade Imperial para produção sob contrato na planta de Belém.

Aos 60 anos, a Cerpa segue sendo, de longe, a maior estrutura industrial cervejeira nascida — e sediada — na Amazônia.

Caribeña: capital amazônico

Cerveja na COP30: embalagem da Caribeña ilustrada por selo da COP30. (Imagem: Reprodução/Instagram)
Cerveja na COP30: embalagem da Caribeña ilustrada por selo da COP30. (Imagem: Reprodução/Instagram)

A Caribeña é fabricada pela INBEPA (Indústria de Bebidas Paraense), fundada em maio de 2020 no Distrito Industrial de Icoaraci, em Belém, com capital inteiramente regional — um detalhe que a própria empresa faz questão de destacar como diferencial num setor historicamente dependente de investimento de fora da região. O primeiro rótulo, batizado justamente de Caribeña, só chegou ao mercado em 2023, uma cerveja puro malte tipo Munich apresentada oficialmente durante o concurso Rainha das Rainhas daquele ano, em Belém. Em pouco tempo de estrada, a Caribeña já roda pelo Pará, Roraima, Amapá e Maranhão, com produção declarada de 16 mil hectolitros em 2023.

Em 2024, veio o segundo rótulo, a Sibéria, e o ingresso no Sindicerv (Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja) — tornando-se, segundo a própria entidade, a primeira indústria cervejeira do Norte e do Nordeste brasileiros a integrar o grupo, ao lado de nomes como Ambev e Heineken. O plano de expansão da empresa mira, inclusive, mercados fora do Brasil: Colômbia, Peru e Venezuela aparecem no radar, aproveitando a proximidade geográfica da região amazônica com o Caribe e os países vizinhos da América do Sul.

Rio Negro: artesanal de Manaus

A Cervejaria Rio Negro nasceu da parceria entre o empreendedor Adelino da Silva e o mestre cervejeiro José Pereira Lima, que idealizaram o projeto em 2011 em Manaus (AM). A estrutura fabril só ficou pronta em setembro de 2015, a produção começou em abril de 2016 e a primeira venda — feita no próprio bar da fábrica, o Shopping do Chope — aconteceu em 3 de setembro daquele ano, data que a cervejaria adotou como aniversário oficial (e que, coincidentemente, cai bem na semana do Dia da Amazônia).

A imprensa local já a aponta como a maior artesanal entre as cervejarias da Amazônia na região de Manaus. Seus rótulos — batizados de Boiúna (Stout), Patrice (Belgian Blond Ale), Yaci (Pale Ale), Yahu (Pilsen), Muyrá (Pilsen Premium), Cherokee (American Wheat com manga), S’á (trigo claro), Toho (trigo escuro) e Tembetá (Amber Lager) — homenageiam, em sua maioria, personagens e lendas da mitologia indígena amazônica, com rótulos de cores vibrantes que são quase um cartão de visitas da cultura regional.

Em 2022, a cervejaria contava com 19 funcionários, produção mensal entre 60 mil e 100 mil litros e presença em cerca de 80 pontos de venda em Manaus — número que já havia chegado a 130 antes da pandemia. Além de produzir os próprios rótulos, a Rio Negro também abre a fábrica para “cervejarias ciganas” locais, funcionando como uma espécie de incubadora para novos cervejeiros amazonenses.

Cabôca: o resgate

Fechando a lista das cervejarias da Amazônia, a Cabôca é talvez a mais recente aposta local em unir cerveja, turismo e identidade cultural num só endereço. Instalada num casarão histórico restaurado no Boulevard Castilhos França, em frente à Estação das Docas — mesmo ponto turístico onde nasceu a Amazon Beer —, a cervejaria é fruto de um projeto que levou cerca de sete anos para sair do papel. Foi iniciado por volta de 2016 pelo empresário e sommelier de cerveja Ricardo Augusto Lobo Gluck Paul, cervejeiro caseiro desde 2013, ao lado dos sócios Deivison Costa, Luis Eduardo Onishi, Paulo André e Paulo Vítor Silva de Freitas.

O projeto recebeu financiamento de R$ 5,2 milhões do Fundo Constitucional de Financiamento do Norte (FNO), via Banco da Amazônia, e teve a reforma do casarão assinada pelo renomado arquiteto paraense Paulo Chaves — o mesmo responsável pela própria Estação das Docas, e que viu a Cabôca ser inaugurada, em setembro de 2020, como um de seus últimos trabalhos concluídos.

Mais do que o endereço bonito, o nome da cervejaria carrega uma declaração de intenções: “Cabôca” vem de “cabocla”, termo usado para quem vive ou vem do interior amazônico e que, segundo os próprios sócios, carregou por décadas um tom pejorativo — sobretudo depois que Belém se viu como a “Paris dos trópicos” na época áurea da borracha. 

A proposta da marca é resgatar essa identidade como algo de que se orgulhar. Na receita, a casa segue a cartilha clássica alemã — malte, lúpulo, levedura e água —, com um cardápio de rótulos que começou com oito opções e já rendeu colaborações como a Guajará Cyclon, uma IPA feita ao lado da paulistana Dogma. Em 2021, a fábrica operava com capacidade para 80 mil litros mensais.

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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