O St. Patrick’s Day, comemorado todo dia 17 de março, é uma grande festa. Mas você sabe o que está comemorando? Muitos dizem que é uma festa cervejeira, mas não existe cerveja na história do padroeiro da Irlanda. Tem leprechaun, barbas ruivas, potes de ouro e tudo é verde. Até o chope é verde! — uma invenção americana, e não irlandesa.
O que nasceu como um feriado religioso tornou-se um símbolo global do orgulho irlandês, contagiando até quem não possui raízes na Ilha da Esmeralda. Então, que tal desfazer alguns mitos e conhecer um pouco mais sobre a festa?
1 – Não há cerveja na história de São Patrício
Na verdade, sabe-se muito pouco sobre a vida de São Patrício. Nascido na Grã-Bretanha romana e sequestrado por piratas, ele teria sido escravizado na Irlanda. Fugiu de lá, mas retornou para propagar o cristianismo em uma cultura até então predominantemente pagã. Dizem que ele utilizava o trevo de três folhas (shamrock) para explicar a Santíssima Trindade. Mas mesmo essa informação é contestada por historiadores.
Não se sabe a data de nascimento, mas é certo que faleceu em 17 de março de 462 d.C. Por isso, esse dia foi escolhido para a festa em sua homenagem que, no início, era uma data estritamente religiosa. Só se torna feriado na Irlanda em 1903. Curiosamente, a lei exigia que os pubs permanecessem fechados durante o feriado, dificultando o consumo de álcool na data dedicada ao padroeiro.
Não há nenhuma menção à cerveja em sua história. Mas há uma lenda — dessas que não sabemos se é bem verdade — de que ele, em seu leito de morte, teria dito que não queria ninguém triste e teria pedido para que brindassem sua passagem com whisky.
2 – Beber cerveja é parte da cultura irlandesa
A associação com a bebida é uma construção cultural e comercial recente feita inicialmente pela comunidade irlandesa nos Estados Unidos. Os desfiles de St. Patrick’s Day (em inglês, chamados de parades) tiveram início em Nova York em 1792. Nesse contexto, os imigrantes e seus descendentes sentiram a necessidade de reafirmar sua identidade cultural. E a data passou a ser um pretexto para comemorar o orgulho de ser irlandês.
Todos os símbolos e o estilo de vida passaram a estar simbolicamente presentes na festa, da cor verde até a bebida mais querida dos irlandeses: a cerveja!
Na Irlanda, a liberação da venda de bebidas alcoólicas e a abertura dos pubs durante o feriado só ocorreram após a década de 1960. Mas foi apenas a partir de 1997 que o governo passou a explorar a data como uma ferramenta de marketing e identidade nacional, transformando o dia em um festival internacional de consumo de cerveja.
3 – A cerveja verde do St. Patrick’s Day é americana
O registro mais famoso atribui a invenção da cerveja verde ao médico irlandês-americano Thomas H. Curtin, que em 1914 adicionou gotas de corante azul — originalmente destinado a tecidos — à cerveja amarela, criando o visual vibrante para uma festa de clube.
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A moda demorou décadas para cruzar o oceano. Há registros de que barris de cerveja verde chegaram a Dublin em 1985 vindos dos EUA. No entanto, a brincadeira não se firmou e é vista na Irlanda como algo “para turistas”. Os irlandeses locais, em geral, preferem manter as cores naturais de suas bebidas tradicionais.
Até hoje a cerveja verde de São Patrício é feita com corante — hoje, de cor verde e alimentício, claro! Uma brincadeira pontual, sendo que a própria legislação brasileira da bebida não permite esse tipo de intervenção na bebida.
4 – Estilos irlandeses são os preferidos
O estilo Irish Dry Stout é o grande ícone das celebrações locais na Irlanda. Surgido no século 19 como uma evolução da Brown Porter, o estilo ganhou identidade própria quando passou a utilizar o malte torrado. Esse tipo de matéria-prima tinha acabado de surgir por meio de evoluções tecnológicas recentes.
Uma das histórias que surgiram para explicar o sucesso diz que o estilo também teria surgido da necessidade de baixar custos. O malte torrado era caro por ser sobretaxado por impostos. Cervejarias locais então passaram a usar cevada torrada não malteada para fugir dos encargos, resultando em uma cerveja escura, leve e com notas picantes que conquistou o paladar nacional. Mas muitos especialistas contestam essa versão.
Durante as paradas e festivais de St. Patrick’s Day, o consumo de Stouts é quase obrigatório para celebrar a herança cultural, com festivais que incluem música, dança e artes valorizando as tradições da ilha.
5 – Marcas irlandesas são exaltadas
Embora a Guinness seja a soberana absoluta e o maior símbolo do país, ela divide as prateleiras com o mercado de cerveja de massa. Curiosamente, a preferência da população jovem no cotidiano recai sobre as refrescantes American Lagers – uma tendência que vem mudando recentemente, já que a Guinness vem reconsquistando espaço.
A cena de microcervejarias locais também é forte, explorando as tradições cervejeiras e buscando seu espaço entre as grandes cervejarias e as produtoras tradicionais.


