back to top
InícioNotíciasIndústriaParaná bate recorde área plantada com cevada e Brasil pode ter produção...

Paraná bate recorde área plantada com cevada e Brasil pode ter produção histórica em 2026

Área paranaense superou expectativas e chegou a 129 mil hectares. Estado, responsável por creca de 80% da produção, espera colher 550 mil toneladas. Brasil deve superar o recorde de 2025

O Brasil está longe de plantar toda a cevada de que precisa para dar conta dos mais de 15 bilhões de litros de cerveja que fabrica anualmente — o terceiro maior fabricante da bebida do mundo. Mas o país deu mais um passo em direção à autossuficiência. O Paraná, maior produtor brasileiro desse tipo de grão, bateu recorde de área plantada na primeira quinzena de agosto, com 129 mil hectares. A expectativa é de uma produção também histórica, com cerca de 550 mil toneladas, segundo dados do Departamento de Economia Rural (Deral) divulgados pela Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab) do Paraná.

O Brasil como um todo bateu o recorde de produção de cevada em 2025, com 606,6 mil toneladas ao todo — superando a previsão inicial de 516,5 mil. Com o novo impulso paranaense, 2026 pode superar esse número. A previsão da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é de 614,9 mil toneladas, um crescimento de 1,4% em relação ao ano anterior.

Paraná no topo do ranking da cevada

A área plantada com cevada no Paraná em 2026 superou as expectativas de cerca de 118 mil hectares e representa um crescimento de 24,4% em relação aos 104 mil hectares do ano anterior.

Com esse aumento e a diminuição no plantio no Rio Grande do Sul — que teve queda de 35,4% em relação à produção passada, saindo de 31,4 para 20,3 mil hectares —, o Paraná aumentou a sua participação de 74,5% para 84% no total brasileiro, também segundo dados da Conab. E se manteve como maior produtor nacional.

Gráfico: Guia da Cerveja, com informações do boletim da Safra de Grãos do Conar.

Por questões climáticas, a cevada é cultivada principalmente na região Sul, com pequena participação do estado de São Paulo.

“A produção concentra-se na região mais fria do estado. Sobretudo nos Regionais de Ponta Grossa e Guarapuava, que detêm 57,5 mil e 47,5 mil hectares, respectivamente. Embora Ponta Grossa concentre a maior área, a região de Guarapuava tende a registrar uma produção maior devido à sua superior aptidão climática”, explica o engenheiro agrônomo Carlos Hugo Godinho no boletim da Seab de 13 de agosto.

Na colheita, a Conab prevê que o Paraná deve responder por 88,1% da produção nacional este ano, atingindo sozinho 542 mil toneladas. A concretização das projeções dos órgãos estaduais e federais, é claro, depende ainda das condições climáticas em um ano de um El Niño muito forte, segundo as previsões dos meteorologistas.

O fenômeno aumenta o risco de alto volume de chuvas na região Sul. O que pode prejudicar a colheita, feita de setembro a novembro, e afetar a qualidade dos grãos.

Cevada ficou mais atraente

O motivo para o aumento está relacionado com a cerveja. É verdade que a produção da bebida sofreu uma queda de volume de aproximadamente 8% em 2025, segundo o Anuário da Cerveja 2026 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). No entanto, a demanda por cevada está aquecida por um déficit histórico e novos investimentos no setor de cevada e malte.

Um deles é a criação da Maltaria Campos Gerais, localizada entre Ponta Grossa e Carambeí, no Paraná, que passou a funcionar em junho de 2024. Ela é considerada a maior maltaria já construída no mundo em uma única etapa, com capacidade para produzir 240 mil toneladas de malte por ano. E projeta tornar-se a maior da América Latina após futuras expansões.

Além disso, Agrária Malte, em Entre Rios, no município de Guarapuava, já deu início à reforma e modernização de sua maltaria, com a construção de mais uma torre e todo um novo projeto voltado à produção de maltes especiais. Um investimento de aproximadamente R$ 1,1 bilhão.

Isso aumentou a demanda e o preço, fazendo com que a cevada se tornasse mais atraente para os produtores. Em janeiro de 2025, a saca de cevada registrou média de preço de R$ 84,93, chegando a R$ 92,08 em fevereiro. Segundo Godinho, o aumento de área plantada no Paraná no momento também é influenciado pela venda garantida. Apesar da safra recorde de 2025, todo o volume foi absorvido pelas maltarias.

“Estas indústrias fomentam a produção, garantindo a compra futura, ainda que seja necessário que se atendam rigorosos padrões de qualidade para aquisição. Caso repita as boas produtividades de 2025, podem ser produzidas mais de meio milhão de toneladas. O que ajudaria a diminuir as importações brasileiras, realizadas por estas mesmas indústrias”, explica no boletim de 26 de março.

Demanda histórica

A demanda por cevada para abastecer as cervejarias brasileiras é muito maior do que uma eventual queda no volume de produção, como ocorreu em 2025. Dados apresentados por Jeferson Caus, superintendente de Negócios da Cooperativa Agrária Agroindustrial, durante o painel “A Indústria da cerveja no Brasil: investimentos, tecnologias e o futuro pelo campo”, no Congresso “Do Grão ao Gole” em setembro do ano passado dão a dimensão da necessidade.

Para dar conta da produção anual de cerveja, o Brasil precisaria de 1.933.950 toneladas de malte. O volume produzido em 2024 foi de 955 mil toneladas, ou seja, apenas a metade. Há um déficit de 978,95 mil toneladas do produto, que é a cevada beneficiada pelo processo de malteação nas maltarias.

De cevada, importamos 922,5 mil toneladas em 2024, correspondendo a 77,31% da necessidade nacional.

O aumento da capacidade de malteação no Brasil com os novos investimentos tem impulsionado, inclusive, um aumento na importação de cevada. Em 2025 foram 933 mil toneladas, segundo Godinho. Com o Paraná respondendo por 58% desse total. “Consequentemente, as importações de malte de cevada recuaram. Em relação ao pico de 1,42 milhão de toneladas em 2021, o volume registrou uma queda de 28% em 2025, fechando em 1,03 milhão de toneladas”, diz.

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
NOTÍCIAS RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui