Aos 18 anos, Renê dos Santos Pinto quase desistiu. Tinha saído da cidade natal, Guareí, município de 15 mil habitantes no interior de São Paulo, para estudar em Sorocaba. E o dinheiro do seguro-desemprego que o sustentava enquanto cursava a faculdade estava no fim. Numa visita à sua família, falou com o Ari, antigo patrão, dono da farmácia onde trabalhava desde muito novo, pedindo para voltar. A resposta que ouviu mudou o resto da história: “Não, você não vai voltar. Você tem que estudar. Você tem potencial para mais do que isso. Segue teu caminho”.
Renê seguiu. Passou por uma oficina lavando peças de máquina e entrou na área de logística — onde ficaria por quase 20 anos, em empresas como a Libra e a Case New Holland. Nessa última, conheceu um colega chamado Célio Ongaro Jr. E só décadas depois, já em Santos, no litoral do estado, entenderia que aquela recusa em voltar para casa tinha sido o primeiro de vários riscos que havia tomado e que sustentariam a Cervejaria Everbrew, que agora comemora dez anos de existência.
“Tem um ditado que fala que, se você tem 70% de certeza, abraça e vai. Você nunca vai ter 100%. Negócio com zero risco não existe”, conta.
A partir deste sábado (29) tem festa. E há muito o que comemorar. A Everbrew brilha em tempos de crise. Foi assim na pandemia do coronavírus em 2020, quando a empresa surpreendeu e cresceu. E está sendo assim agora, com um cenário desafiador. A empresa cresceu dois dígitos no ano passado. O segredo? A gestão do negócio.
Uma marca que nasceu como hobby e virou negócio
A Cervejaria Everbrew foi fundada oficialmente em 2016 por Renê e Célio, mas a história começou antes, em 2012, quando Célio comprou as primeiras panelas e passou a produzir cerveja em casa. Renê, que trazia rótulos belgas na mala em viagens a trabalho, foi quem apresentou aquelas cervejas diferentes ao amigo — e quem, mais tarde, transformaria o hobby em plano de negócio. “Quem produziu, quem desenvolveu, foi o Célio. Mérito dele integral”, resume Renê. “Eu fui o propagador da ideia de transformar aquilo num negócio.”
A dupla começou como cervejaria cigana, terceirizando a produção em plantas com capacidade ociosa — modelo que permitiu à Everbrew se especializar em cervejas de perfil intenso e aromático, como as New England IPAs, sem o peso de um investimento fixo. Funcionou: em poucos anos, a marca saltou de dois para mais de dez rótulos e ganhou nome suficiente para abrir, em 2018, um brewpub próprio no Canal 4, em Santos, que segue em operação até hoje.
Mas o próprio sucesso trouxe um problema. Por volta de 2019, o volume de produção da Everbrew já rivalizava com o de uma fábrica de porte médio, com cerca de 20 mil litros por mês — grande demais para o modelo cigano. “Eu falava para o Célio: a gente tá chegando num tamanho que, se rompesse um contrato, a gente não teria mais para onde ir”, conta Renê. O temor não era hipotético: pouco depois, uma das fábricas parceiras foi comprada por um grupo maior e parou de produzir para terceiros. “A gente teria esse problema que já tinha previsto lá atrás.”
A decisão de virar fábrica — em plena pandemia

Em 2020, ano da pandemia, a dupla começou a comprar equipamentos para montar sua própria planta, uma decisão que, segundo Renê, não fazia todo sentido financeiro imediato, mas era necessária para a perpetuidade do negócio. “Olhando matematicamente, não era tão lógico. Mas para o negócio continuar existindo, tinha uma necessidade”, diz.
Com o isolamento social, o consumo doméstico de cerveja disparou, e a Everbrew usou análise de dados para identificar regiões com maior potencial de compra direta ao consumidor, direcionando tráfego pago para lugares onde não havia distribuição via bares. Com essa e outras ações, a Cervejaria Everbrew cresceu 30% naquele ano. Hoje, ela ainda tem exportações recorrentes para a Europa. “Quando você acha que o negócio vai complicar tudo, de repente vê uma luz e o contrário acontece”, resume o cervejeiro.
Mas o timing para a fábrica não era o ideal. Mesmo assim, as obras avançaram no pós-pandemia, com a fábrica entrando em operação em janeiro de 2022, dentro do Mercado Municipal de Santos, após a Everbrew vencer a licitação da prefeitura para ocupar o espaço. Para financiar parte da construção, a empresa lançou em abril de 2021 uma campanha de financiamento coletivo, que reverteu os aportes do público em créditos de consumo — o embrião do que se tornaria o Everclub, hoje uma espécie de carteira digital em que o cliente compra créditos (as “evercoins”) sem prazo de validade. Área tocada pela funcionária Letícia Massullo.
O investimento total, estimado inicialmente em R$ 3 milhões, fechou em R$ 4 milhões. E o momento mais tenso, segundo Renê, não foi decidir construir. Nem largar o emprego fixo no início de 2021 para se dedicar à cervejaria — deu um frio na barriga, mas ele estava seguro, conta. Foi esperar a licença ambiental sair a tempo de cumprir a promessa feita a quem havia investido no crowdfunding. “Isso me tirava o sono, porque você tem uma responsabilidade com quem acreditou no seu projeto.” A licença saiu em 26 de dezembro daquele ano. “A gente comemorou muito.”
Foi também com a fábrica própria que a Everbrew lançou a linha Evertreze — batizada em homenagem ao DDD de Santos —, voltada a produtos de entrada com preço competitivo, algo inviável no modelo cigano por causa do custo da embalagem. Hoje a empresa mantém produção média de 60 mil litros por mês, tem um parque de quase 2 mil barris de inox e um portfólio que já passou de 200 rótulos lançados.
Cervejaria Everbrew não é (só) sobre cerveja boa

O mercado da cerveja artesanal no Brasil é composto em grande parte de cervejeiros apaixonados pela profissão e pela cerveja. Mas isso tem um lado bom e outro ruim. A paixão traz propósito, criatividade e ousadia. Por outro lado, muito poucos se lançam realmente preparados para o desafio de ter um negócio próprio e administrar uma empresa.
Renê reconhece isso como o diferencial da própria trajetória. Formado em Projetos Mecânicos pela Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec), com MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e um programa de desenvolvimento executivo pela Fundação Dom Cabral, ele soma duas décadas de experiência corporativa em logística e centros de distribuição antes de se dedicar à cervejaria em tempo integral. Célio, formado em Administração e Comércio Exterior pela Uniso, com MBA em Gestão Empresarial na FGV, também soma aos conhecimentos técnicos de cerveja — é sommelier e mestre cervejeiro — uma bagagem de gestão.
“A gente sempre tentava passar isso para quem estava começando: você montou uma precificação do seu produto? Sabe onde quer se posicionar?”, conta Renê. Para ele, o erro mais comum entre cervejeiros é confundir faturamento com lucro. “Tem gente que se encanta em vender 100, 200 mil litros, mas o custo é alto, o lucro é baixo. No fim do dia, você tomou risco e não sobrou nada — e qualquer soluço quebra o negócio.”
Esse cuidado se traduz em decisões concretas: a Cervejaria Everbrew nunca trabalhou alavancada, evita empréstimos bancários diante do custo do crédito no Brasil e prioriza reinvestimento constante. Mesmo durante a fase mais dura da construção da fábrica, Renê optou por não retirar salário da empresa para preservar o caixa — uma escolha que só fez sentido, segundo ele, porque havia planejamento por trás. Foi também assim que a empresa manteve, segundo o próprio Renê, um crescimento de 10% a 12% ao ano mesmo em meio a cenários desafiadores do último ano no Brasil e nos Estados Unidos — o mesmo padrão de “crescer apesar da crise” que a empresa já havia repetido durante a pandemia.

Há também uma camada mais discreta de gestão que aparece nos bastidores: o controle rigoroso de ativos como os barris, tarefa hoje puxada pela funcionária Karla Nazareth. Heitor Tozzi, que entrou como garçom no brewpub há quase nove anos e hoje é executivo de vendas, ajuda a cobrar os barris dos clientes. “É um ativo caro. Isso acaba corroendo muito a margem quando ninguém controla”, diz Heitor. Rigor que se estende à cultura interna da empresa: além das reuniões semanais de alinhamento entre Renê (comercial e marketing), Célio (produção) e Aline, esposa de Renê, que cuida da parte financeira e tributária, o time também compartilha rodas de truco — uma tradição interna que, segundo a equipe, ajuda a manter a integração mesmo com Renê hoje morando fora do país.
Do Brasil para a Flórida, sem soltar as rédeas
Em maio de 2024, Renê se mudou com a família para a Flórida, nos Estados Unidos — decisão que ele descreve como “tudo ou nada”: vendeu casa e carro no Brasil, tirou os filhos da escola no meio do ciclo escolar e passou a gerir a operação brasileira à distância. O processo de green card o impediu de voltar ao Brasil por dois anos e quatro meses, período em que aprendeu, em suas palavras, “a delegar de verdade” — apoiado em Célio, que segue à frente da produção em Santos, e em uma equipe que ele descreve, sem meias palavras, como o motivo pelo qual a gestão remota foi possível. “A gente combina meta e resultado. Como cada um chega lá, cada um tem seu método. O mais importante é o resultado.”
Nos Estados Unidos, a empresa chegou a operar um brewpub próprio em Orlando, vendido em 2025. O plano agora é produzir de forma terceirizada na Flórida a partir do próximo ano, com foco em cervejas extremas e usando um parceiro que já tem canal de distribuição consolidado no mercado americano.
No Brasil, para os próximos meses, a Everbrew prepara o lançamento de uma linha sem glúten e uma versão de baixo teor alcoólico da linha Evertreze — reforço de uma aposta que já rendeu a Little Juicy, uma New England IPA com 1% de álcool lançada recentemente.
As festas de 10 anos da Cervejaria Everbrew

Para quem quiser comemorar com a Cervejaria Everbrew, já vai ter festa neste fim de semana. Neste sábado (29) acontece o “Esquenta 10 Anos” no Everpub do Canal 4, em Santos, a partir das 17h30, com as bandas Music Box e Tom Cremon Trio e entrada a R$ 15.
A festa oficial acontece em 5 de dezembro, no Mercado Municipal de Santos, com seis horas de duração — abertura para convidados VIP ao meio-dia e para o público geral a partir das 13h —, música ao vivo e open bar com mais de 20 torneiras.
A fábrica também integra a Rota da Cerveja Artesanal de Santos, com visitas guiadas mensais organizadas pela Secretaria de Turismo da cidade; a partir de 2027, a Everbrew pretende retomar encontros trimestrais abertos ao público no próprio Mercado Municipal, recém-revitalizado.
Serviço:
- O que: Esquenta até o osso | Everbrew 10 anos
- Quando: sábado (29/08) a partir das 17h30
- Onde: EverPub Santos (Av. Siqueira Campos, 351, Embaré – Santos)
- Atrações: Music Box (19h) e Ton Cremon Trio (21h30)
- Entrada: R$ 15


