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Cervejaria Everbrew completa 10 anos, cresce dois dígitos e prova que gestão é tão importante quanto a cerveja

Enquanto o mercado cervejeiro enfrenta um momento desafiador no Brasil e nos Estados Unidos, a cervejaria de Santos (SP) soma sua segunda expansão em meio à adversidade. Por trás do número, uma sociedade que tratou a cerveja como negócio desde o primeiro dia — e comemora a década de existência com festas a partir deste fim de semana

Aos 18 anos, Renê dos Santos Pinto quase desistiu. Tinha saído da cidade natal, Guareí, município de 15 mil habitantes no interior de São Paulo, para estudar em Sorocaba. E o dinheiro do seguro-desemprego que o sustentava enquanto cursava a faculdade estava no fim. Numa visita à sua família, falou com o Ari, antigo patrão, dono da farmácia onde trabalhava desde muito novo, pedindo para voltar. A resposta que ouviu mudou o resto da história: “Não, você não vai voltar. Você tem que estudar. Você tem potencial para mais do que isso. Segue teu caminho”.

Renê seguiu. Passou por uma oficina lavando peças de máquina e entrou na área de logística — onde ficaria por quase 20 anos, em empresas como a Libra e a Case New Holland. Nessa última, conheceu um colega chamado Célio Ongaro Jr. E só décadas depois, já em Santos, no litoral do estado, entenderia que aquela recusa em voltar para casa tinha sido o primeiro de vários riscos que havia tomado e que sustentariam a Cervejaria Everbrew, que agora comemora dez anos de existência. 

“Tem um ditado que fala que, se você tem 70% de certeza, abraça e vai. Você nunca vai ter 100%. Negócio com zero risco não existe”, conta.  

A partir deste sábado (29) tem festa. E há muito o que comemorar. A Everbrew brilha em tempos de crise. Foi assim na pandemia do coronavírus em 2020, quando a empresa surpreendeu e cresceu. E está sendo assim agora, com um cenário desafiador. A empresa cresceu dois dígitos no ano passado. O segredo? A gestão do negócio.

Uma marca que nasceu como hobby e virou negócio

A Cervejaria Everbrew foi fundada oficialmente em 2016 por Renê e Célio, mas a história começou antes, em 2012, quando Célio comprou as primeiras panelas e passou a produzir cerveja em casa. Renê, que trazia rótulos belgas na mala em viagens a trabalho, foi quem apresentou aquelas cervejas diferentes ao amigo — e quem, mais tarde, transformaria o hobby em plano de negócio. “Quem produziu, quem desenvolveu, foi o Célio. Mérito dele integral”, resume Renê. “Eu fui o propagador da ideia de transformar aquilo num negócio.”

A dupla começou como cervejaria cigana, terceirizando a produção em plantas com capacidade ociosa — modelo que permitiu à Everbrew se especializar em cervejas de perfil intenso e aromático, como as New England IPAs, sem o peso de um investimento fixo. Funcionou: em poucos anos, a marca saltou de dois para mais de dez rótulos e ganhou nome suficiente para abrir, em 2018, um brewpub próprio no Canal 4, em Santos, que segue em operação até hoje.

Mas o próprio sucesso trouxe um problema. Por volta de 2019, o volume de produção da Everbrew já rivalizava com o de uma fábrica de porte médio, com cerca de 20 mil litros por mês — grande demais para o modelo cigano. “Eu falava para o Célio: a gente tá chegando num tamanho que, se rompesse um contrato, a gente não teria mais para onde ir”, conta Renê. O temor não era hipotético: pouco depois, uma das fábricas parceiras foi comprada por um grupo maior e parou de produzir para terceiros. “A gente teria esse problema que já tinha previsto lá atrás.”

A decisão de virar fábrica — em plena pandemia

Os sócios Renê dos Santos Pinto (esq.) e Célio Ongaro Jr. despachando o primeiro contêiner de exportação da Cervejaria Everbrew para o exterior (Crédito: Arquivo pessoal)
Os sócios Renê dos Santos Pinto (esq.) e Célio Ongaro Jr. despachando o primeiro contêiner de exportação da Cervejaria Everbrew para o exterior (Crédito: Arquivo pessoal)

Em 2020, ano da pandemia, a dupla começou a comprar equipamentos para montar sua própria planta, uma decisão que, segundo Renê, não fazia todo sentido financeiro imediato, mas era necessária para a perpetuidade do negócio. “Olhando matematicamente, não era tão lógico. Mas para o negócio continuar existindo, tinha uma necessidade”, diz.

Com o isolamento social, o consumo doméstico de cerveja disparou, e a Everbrew usou análise de dados para identificar regiões com maior potencial de compra direta ao consumidor, direcionando tráfego pago para lugares onde não havia distribuição via bares. Com essa e outras ações, a Cervejaria Everbrew cresceu 30% naquele ano. Hoje, ela ainda tem exportações recorrentes para a Europa. “Quando você acha que o negócio vai complicar tudo, de repente vê uma luz e o contrário acontece”, resume o cervejeiro.

Mas o timing para a fábrica não era o ideal. Mesmo assim, as obras avançaram no pós-pandemia, com a fábrica entrando em operação em janeiro de 2022, dentro do Mercado Municipal de Santos, após a Everbrew vencer a licitação da prefeitura para ocupar o espaço. Para financiar parte da construção, a empresa lançou em abril de 2021 uma campanha de financiamento coletivo, que reverteu os aportes do público em créditos de consumo — o embrião do que se tornaria o Everclub, hoje uma espécie de carteira digital em que o cliente compra créditos (as “evercoins”) sem prazo de validade. Área tocada pela funcionária Letícia Massullo.

O investimento total, estimado inicialmente em R$ 3 milhões, fechou em R$ 4 milhões. E o momento mais tenso, segundo Renê, não foi decidir construir. Nem largar o emprego fixo no início de 2021 para se dedicar à cervejaria — deu um frio na barriga, mas ele estava seguro, conta. Foi esperar a licença ambiental sair a tempo de cumprir a promessa feita a quem havia investido no crowdfunding. “Isso me tirava o sono, porque você tem uma responsabilidade com quem acreditou no seu projeto.” A licença saiu em 26 de dezembro daquele ano. “A gente comemorou muito.”

Foi também com a fábrica própria que a Everbrew lançou a linha Evertreze — batizada em homenagem ao DDD de Santos —, voltada a produtos de entrada com preço competitivo, algo inviável no modelo cigano por causa do custo da embalagem. Hoje a empresa mantém produção média de 60 mil litros por mês, tem um parque de quase 2 mil barris de inox e um portfólio que já passou de 200 rótulos lançados.

Cervejaria Everbrew não é (só) sobre cerveja boa

Parte do valor investido na fábrica da Cervejaria Everbrew veio de financiamento coletivo (Crédito: Arquivo pessoal.
Parte do valor investido na fábrica da Cervejaria Everbrew veio de financiamento coletivo (Crédito: Arquivo pessoal)

O mercado da cerveja artesanal no Brasil é composto em grande parte de cervejeiros apaixonados pela profissão e pela cerveja. Mas isso tem um lado bom e outro ruim. A paixão traz propósito, criatividade e ousadia. Por outro lado, muito poucos se lançam realmente preparados para o desafio de ter um negócio próprio e administrar uma empresa.

Renê reconhece isso como o diferencial da própria trajetória. Formado em Projetos Mecânicos pela Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec), com MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e um programa de desenvolvimento executivo pela Fundação Dom Cabral, ele soma duas décadas de experiência corporativa em logística e centros de distribuição antes de se dedicar à cervejaria em tempo integral. Célio, formado em Administração e Comércio Exterior pela Uniso, com MBA em Gestão Empresarial na FGV, também soma aos conhecimentos técnicos de cerveja — é sommelier e mestre cervejeiro — uma bagagem de gestão.

“A gente sempre tentava passar isso para quem estava começando: você montou uma precificação do seu produto? Sabe onde quer se posicionar?”, conta Renê. Para ele, o erro mais comum entre cervejeiros é confundir faturamento com lucro. “Tem gente que se encanta em vender 100, 200 mil litros, mas o custo é alto, o lucro é baixo. No fim do dia, você tomou risco e não sobrou nada — e qualquer soluço quebra o negócio.”

Esse cuidado se traduz em decisões concretas: a Cervejaria Everbrew nunca trabalhou alavancada, evita empréstimos bancários diante do custo do crédito no Brasil e prioriza reinvestimento constante. Mesmo durante a fase mais dura da construção da fábrica, Renê optou por não retirar salário da empresa para preservar o caixa — uma escolha que só fez sentido, segundo ele, porque havia planejamento por trás. Foi também assim que a empresa manteve, segundo o próprio Renê, um crescimento de 10% a 12% ao ano mesmo em meio a cenários desafiadores do último ano no Brasil e nos Estados Unidos — o mesmo padrão de “crescer apesar da crise” que a empresa já havia repetido durante a pandemia.

EverPub foi o primeiro ponto de venda próprio da marca em Santos e recebe esquenta da festa de 10 anos neste sábado (29) (Crédito: Arquivo pessoal)
EverPub foi o primeiro ponto de venda próprio da marca em Santos e recebe esquenta da festa de 10 anos neste sábado (29) (Crédito: Arquivo pessoal)

Há também uma camada mais discreta de gestão que aparece nos bastidores: o controle rigoroso de ativos como os barris, tarefa hoje puxada pela funcionária Karla Nazareth. Heitor Tozzi, que entrou como garçom no brewpub há quase nove anos e hoje é executivo de vendas, ajuda a cobrar os barris dos clientes. “É um ativo caro. Isso acaba corroendo muito a margem quando ninguém controla”, diz Heitor. Rigor que se estende à cultura interna da empresa: além das reuniões semanais de alinhamento entre Renê (comercial e marketing), Célio (produção) e Aline, esposa de Renê, que cuida da parte financeira e tributária, o time também compartilha rodas de truco — uma tradição interna que, segundo a equipe, ajuda a manter a integração mesmo com Renê hoje morando fora do país.

Do Brasil para a Flórida, sem soltar as rédeas

Em maio de 2024, Renê se mudou com a família para a Flórida, nos Estados Unidos — decisão que ele descreve como “tudo ou nada”: vendeu casa e carro no Brasil, tirou os filhos da escola no meio do ciclo escolar e passou a gerir a operação brasileira à distância. O processo de green card o impediu de voltar ao Brasil por dois anos e quatro meses, período em que aprendeu, em suas palavras, “a delegar de verdade” — apoiado em Célio, que segue à frente da produção em Santos, e em uma equipe que ele descreve, sem meias palavras, como o motivo pelo qual a gestão remota foi possível. “A gente combina meta e resultado. Como cada um chega lá, cada um tem seu método. O mais importante é o resultado.”

Nos Estados Unidos, a empresa chegou a operar um brewpub próprio em Orlando, vendido em 2025. O plano agora é produzir de forma terceirizada na Flórida a partir do próximo ano, com foco em cervejas extremas e usando um parceiro que já tem canal de distribuição consolidado no mercado americano.

No Brasil, para os próximos meses, a Everbrew prepara o lançamento de uma linha sem glúten e uma versão de baixo teor alcoólico da linha Evertreze — reforço de uma aposta que já rendeu a Little Juicy, uma New England IPA com 1% de álcool lançada recentemente.

As festas de 10 anos da Cervejaria Everbrew

Para quem quiser comemorar com a Cervejaria Everbrew, já vai ter festa neste fim de semana. Neste sábado (29) acontece o “Esquenta 10 Anos” no Everpub do Canal 4, em Santos, a partir das 17h30, com as bandas Music Box e Tom Cremon Trio e entrada a R$ 15.

A festa oficial acontece em 5 de dezembro, no Mercado Municipal de Santos, com seis horas de duração — abertura para convidados VIP ao meio-dia e para o público geral a partir das 13h —, música ao vivo e open bar com mais de 20 torneiras. 

A fábrica também integra a Rota da Cerveja Artesanal de Santos, com visitas guiadas mensais organizadas pela Secretaria de Turismo da cidade; a partir de 2027, a Everbrew pretende retomar encontros trimestrais abertos ao público no próprio Mercado Municipal, recém-revitalizado.

Serviço: 

  • O que: Esquenta até o osso | Everbrew 10 anos
  • Quando: sábado (29/08) a partir das 17h30
  • Onde: EverPub Santos (Av. Siqueira Campos, 351, Embaré – Santos)
  • Atrações: Music Box (19h) e Ton Cremon Trio (21h30)
  • Entrada: R$ 15
Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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