A Heineken voltou a vender mais cerveja no Brasil no terceiro trimestre de 2026 e, segundo a própria empresa, não está sozinha: o balanço divulgado nesta quarta-feira (28) afirma que o mercado de cerveja como um todo reagiu no país. A receita do grupo holandês por aqui avançou dois dígitos, entre 10% e 19%, e o volume subiu em torno de 5%, três meses depois de a companhia relatar recuo no primeiro semestre.
Os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam na mesma direção. A produção de bebidas alcoólicas no país subiu 8,7% em julho e 2,3% em agosto, sempre na comparação com o mesmo mês de 2025. O dado de setembro ainda não foi divulgado.
A reação, porém, parte de um chão rebaixado. Em julho de 2025, essa mesma produção tinha caído -15,2% e, em agosto, -11,8%. É como descer 15 degraus num ano e subir quase 9 no seguinte: a escada voltou a ser escalada, mas o ponto de partida ainda não foi alcançado. A cervejaria reconhece o efeito ao dizer que as Américas saíram da queda “sobre uma base de comparação mais fácil”.

Heineken no Brasil vira a curva em três meses
A virada fica clara na comparação com o balanço do primeiro semestre. Em agosto, a empresa havia informado que o mercado brasileiro de cerveja encolheu cerca de 5% de janeiro a junho e que o próprio volume recuou na mesma proporção, enquanto a receita subia pouco, na casa de um dígito. Agora, as duas curvas apontam para cima.
Quem puxou foram os nomes mais fortes do portfólio. Amstel e a marca Heineken avançaram dois dígitos no país, e o Brasil aparece à frente da expansão global da Amstel, ao lado de China e África do Sul. O relatório destaca ainda o fôlego da Heineken Ultimate, que teve o Brasil como primeiro mercado, em maio, com 3,5% de álcool, menos calorias e sem glúten, e da versão 0.0, sem álcool. A Sol Zero também contribuiu.
Receita sobe mais rápido que o copo
O faturamento cresceu bem mais que o volume, e o câmbio não explica a diferença: a variação orgânica informada pela companhia exclui o efeito da conversão do real para o euro. Parte da conta é preço. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) da cerveja comprada para consumo em casa subiu 4,82% em 12 meses até setembro, pouco acima da inflação geral, de 4,58%.
O resto tende a ser mix, termo do setor para a proporção de rótulos mais caros no que se vende. No agregado global, a empresa atribui o ganho por litro a preço e mix de marcas positivos. O balanço não abre essa conta para o Brasil, mas a distância entre receita e volume no país aponta para o mesmo lado.
E as cervejas caras são justamente o que mais cresce no mundo. O segmento premium, faixa de preço mais alto, avançou 11,5% no trimestre, quase cinco vezes o mainstream, as cervejas de preço médio e grande escala, que teve alta de 2,4%. As cinco marcas globais do grupo (Heineken, Amstel, Tiger, Birra Moretti e Desperados) cresceram juntas 9,9%, e o carro-chefe teve expansão de dois dígitos em 22 mercados, o Brasil entre eles. As cervejas de baixo teor alcoólico e sem álcool também passaram de 10% de alta.
Estreia de Rafael Oliveira no comando
No mundo, o grupo vendeu 76 milhões de hectolitros, o equivalente a 7,6 bilhões de litros, alta de 4,8%, com as quatro regiões no positivo e a Ásia na frente (17,3%). A receita líquida somou 8,09 bilhões de euros, avanço orgânico de 4,6%. A previsão de alta de 2% a 6% no lucro operacional de 2026 foi mantida.
Foi o resultado inaugural da gestão de Rafael Oliveira, brasileiro de 51 anos que assumiu em 1º de outubro como o primeiro executivo de fora recrutado para o cargo de CEO da companhia. Quando foi anunciado, em junho, ele prometeu acelerar a expansão da empresa. No comunicado desta quarta, elogiou o trimestre e fez um diagnóstico duro: “Temos bases sólidas, mas não estamos transformando isso em crescimento consistente, nem conquistando consumidores e clientes com a frequência que deveríamos”. Disse ainda que as primeiras semanas foram de escuta e que vai detalhar sua visão no balanço anual.
O documento não menciona a Copa do Mundo, que a Constellation Brands apontou como motor das vendas em bares nos Estados Unidos. O trimestre do grupo holandês, de julho a setembro, só pega a reta final do torneio. Nesta quinta-feira (29), a Ambev, maior cervejaria do país, divulga os números do mesmo período.


