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Sob o Viaduto Santa Tereza, a 2BlackBeer faz da cerveja uma fonte de verba para a cultura preta de BH

Thiago André dos Santos e Iane Freitas, da 2BlackBeer, atravessaram a pandemia com a ajuda de amigos e hoje repassam R$ 1 por litro a rodas de break, forró e eventos do centro

Antes de existir a 2BlackBeer, havia um sonho compartilhado por Thiago André dos Santos e Iane Freitas. Ele havia encontrado na cerveja artesanal uma possibilidade de profissão. Ela era professora. Os dois queriam abrir um negócio próprio, um lugar onde pudessem reunir trabalho, identidade preta e cultura.

Encontraram esse lugar em 2019, debaixo do Viaduto Santa Tereza, no centro de Belo Horizonte. O endereço já fazia parte da história cultural da cidade, frequentado por artistas, skatistas, dançarinos e integrantes do movimento hip-hop. A proposta do casal era somar-se a essa cena e aproximar a cerveja artesanal de pessoas que raramente se viam representadas nesse mercado.

A 2BlackBeer virou ponto de encontro de música, dança e exposições, e a cerveja ganhou uma função própria. A cada litro vendido de O Viaduto Nunca Mais Foi o Mesmo, uma Session Hazy IPA com goiaba, R$ 1 vai para a arte e a cultura no viaduto: até dezembro de 2023, eram R$ 5.500, segundo a Revista Canjerê. Mas manter o espaço nunca dependeu só do chope: ao longo de sete anos, o casal contou também com editais públicos e com amigos que se mobilizaram quando a pandemia deixou as portas fechadas por meses.

O primeiro contato de Thiago com a atividade cervejeira, em 2017, veio por meio de um curso de vendedor técnico de cervejas artesanais oferecido pelo Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). A formação abriu caminho para um estágio na Rhara, cervejaria artesanal de Belo Horizonte que produzia seus próprios rótulos e comercializava chope diretamente ao consumidor.

Foi ali que Thiago passou a conhecer diferentes etapas da produção. “Entrei como estagiário e saí como mestre cervejeiro”, conta. Depois, buscou outras especializações para aprofundar os conhecimentos adquiridos.

Iane também trabalhou na Rhara, cuidando da área administrativa. A experiência aproximou o casal de diferentes aspectos do negócio cervejeiro e ajudou a dar forma ao desejo de empreender.

A ideia ganhou contorno a partir de algo que ambos consideravam importante: abrir o mercado de cerveja artesanal a quem, historicamente, teve pouco acesso a ele.

“Queríamos mostrar que a cerveja artesanal também poderia fazer parte da nossa realidade, da nossa cultura e dos nossos espaços de convivência”, explica Thiago.

Um viaduto que já tinha suas próprias histórias

O Viaduto Santa Tereza ocupa um lugar particular na vida cultural de Belo Horizonte. Seu entorno é uma referência para o hip-hop mineiro, especialmente pelas batalhas de MCs da Família de Rua, coletivo que as organiza desde 2007.

Essa importância ganhou eco nacional em março de 2024: na abertura da turnê de despedida de AmarElo, em Belo Horizonte, o rapper Emicida exibiu no telão um vídeo que citava os duelos de MCs e o Viaduto Santa Tereza.

As batalhas de rima, os encontros de skatistas e outras manifestações artísticas já faziam parte da vida do local muito antes da chegada da 2BlackBeer. Thiago faz questão de reconhecer essa trajetória anterior.

“Nunca tivemos a intenção de nos apropriar dessa história. Pelo contrário, queríamos contribuir para fortalecer aquilo que já existia.”

A cervejaria passou a receber e apoiar rodas de break, apresentações de DJs, batalhas de rima, shows, saraus e exposições de arte urbana. A programação reuniu artistas locais, nacionais e internacionais, ampliando as relações construídas em torno da ocupação cultural do centro da cidade.

A estrutura também cresceu. O negócio começou com uma loja e hoje ocupa três espaços: um dedicado ao atendimento e ao chope, outro às apresentações de DJs e à galeria de arte, e um terceiro à gastronomia.

Na galeria, foram realizadas sete exposições em aproximadamente um ano e meio, entre elas a do coletivo audiovisual Visão de Cria.

Thiago, entretanto, destaca uma transformação que não aparece nas dimensões do estabelecimento ou na quantidade de eventos realizados.

“Construímos relações de amizade com pessoas em situação de rua que já ocupavam o território; elas participam das nossas atividades e fazem parte dessa convivência.”

Segundo ele, moradores também passaram a frequentar a casa para conhecer exposições, ouvir música, dançar e participar de rodas de conversa.

Oito meses de portas fechadas e uma rede de solidariedade

Iane Freitas e Thiago André dos Santos, da 2BlackBeer (Crédito: Arquivo Pessoal)
Iane Freitas e Thiago André dos Santos, da 2BlackBeer (Crédito: Arquivo Pessoal)

Pouco antes da pandemia de Covid-19, Thiago e Iane haviam alugado a segunda loja da 2BlackBeer. O que deveria representar uma nova etapa de crescimento acabou coincidindo com um dos períodos mais difíceis da história do empreendimento.

O mestre cervejeiro conta que a casa ficou oito meses completamente fechada. Não havia vendas, nem mesmo por delivery. Aluguel, condomínio e outras despesas continuavam chegando.

Com a mobilização de Alexandre de Sena, DJ, amigo e apoiador do projeto, foi organizada uma vaquinha que arrecadou aproximadamente 45% da meta, conta Thiago. Outra ajuda veio de um amigo do casal, que comprou cerca de 180 litros de chope em growlers, distribuídos por cidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte e de outras regiões de Minas Gerais. Ele também contribuiu financeiramente.

“Essa solidariedade foi decisiva para que atravessássemos aquele período sem fechar definitivamente as portas”, recorda Thiago.

A cerveja da 2BlackBeer que conta a história do viaduto

Mesmo com tanta programação cultural, a cerveja continua no centro do projeto.

O principal rótulo próprio da 2BlackBeer é O Viaduto Nunca Mais Foi o Mesmo, desenvolvido em colaboração com a Pedrosa Craft, cervejaria de Belo Horizonte. A receita nasceu de uma aproximação iniciada durante a formação de Thiago como sommelier pela Escola Mineira de Sommelieria.

Ele conta que estudou com uma bolsa concedida por uma incentivadora da inclusão de pessoas pretas no mercado cervejeiro. Durante o curso, conheceu Lucas, ligado à Pedrosa Craft, e seu pai, Sodemir, que também participou da formação.

Das conversas surgiu a ideia de criar uma cerveja em homenagem ao território onde a 2BlackBeer havia se instalado.

O nome faz referência às transformações vividas sob o Viaduto Santa Tereza. É dessa cerveja que sai o R$ 1 por litro destinado ao incentivo à arte e à cultura no local.

Os recursos já ajudaram a financiar rodas de break, a compra de equipamentos para o Ponto Nordeste, grupo responsável por encontros de forró às quartas-feiras no viaduto, e o pagamento de alvarás para eventos culturais.

“Isso demonstra que a cerveja também pode ser uma ferramenta de investimento cultural”, afirma Thiago.

A casa trabalha ainda com rótulos de cervejarias parceiras. Entre eles está a Negona, uma Catharina Sour, estilo brasileiro de cerveja ácida, feita com frutas vermelhas, em homenagem à artista LGBTQIA+ Negona Dance, de Belo Horizonte. Também há uma Pilsen da Cervejaria Vinil, de Nova Lima. O cardápio inclui ainda uma limonada gaseificada de produção própria.

Para o futuro, Thiago e Iane pretendem ampliar o portfólio com cervejas que façam referência a outros espaços importantes para a memória e a cultura de Belo Horizonte.

Na 2BlackBeer, a cultura também chega à mesa

Cerveja Viaduto Nunca Mais Foi o Mesmo, uma Session Hazy IPA com goiaba, R$ 1 vai para a arte e a cultura no viaduto (Crédito: Divulgação)
Cerveja Viaduto Nunca Mais Foi o Mesmo, uma Session Hazy IPA com goiaba, R$ 1 vai para a arte e a cultura no viaduto (Crédito: Divulgação)

Neste ano, a 2BlackBeer ampliou sua programação com o projeto 2Black Cultural – A Rua Vive, realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte.

A iniciativa ajudou a fortalecer a galeria de arte e a criar novas oportunidades para artistas e produtores culturais. A gastronomia também ganhou espaço, com a abertura da cozinha da 2BlackBeer e a realização de encontros com convidados ligados à culinária afro-brasileira.

Entre as novidades está a chegada de uma receita que faz parte da história familiar de Thiago.

Ele conta que o tio, Dimas Lúcio, foi dono de um bar em Rio Acima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde preparava um tradicional Angu Baiano. O prato chegou a vender de 300 a 400 porções às segundas-feiras.

Agora, a receita encontrou um novo endereço sob o Viaduto Santa Tereza. Em 24 de outubro, Dimas levou o angu à programação do A Rua Vive. De acordo com o sobrinho, ele passou a participar também de uma programação gastronômica às terças-feiras, enquanto o casal trabalha para estruturar o funcionamento regular da cozinha, com perspectiva de atendimento de sexta a domingo.

O sonho de viver do próprio trabalho

Quando fala sobre o futuro da 2BlackBeer, Thiago não começa pelos novos rótulos ou pela ampliação dos espaços. Sua principal preocupação é conseguir viver do trabalho que construiu com Iane, mantendo as atividades culturais e remunerando as pessoas envolvidas no projeto.

“Nosso maior sonho é alcançar sustentabilidade financeira para viver do nosso trabalho com dignidade. Não queremos apenas crescer em tamanho. Queremos pagar as contas com tranquilidade, remunerar os profissionais, investir na estrutura e continuar promovendo atividades culturais gratuitas.”

Para seguir com os projetos, ele considera fundamentais os editais e as políticas públicas de incentivo à cultura.

Ao falar sobre o que deseja preservar nessa trajetória, Thiago retorna à ideia que levou os dois a abrir o negócio: “Para nós, a cerveja nunca foi apenas uma bebida. Ela foi o caminho que encontramos para realizar um sonho, fortalecer nossa identidade e contribuir para transformar o território onde escolhemos construir nossa história.”

Marcelo Tárraga
Marcelo Tárraga
Marcelo Tárraga é jornalista, comunicador e estrategista de content marketing B2B. Formado pela Faculdade Cásper Líbero, tem MBA em Gestão de Marketing Digital e formação em empreendedorismo e Startup Education pelo Founder Institute. Ao longo da carreira, atuou em jornalismo, agências e empresas de tecnologia, em organizações como TV Globo, VML/Y&R e Meta. É Diretor de Marketing Digital do Guia da Cerveja.
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