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Primeira mulher na presidência-executiva do Sindicerv quer abrir espaço para outras na indústria da cerveja

Helena Araújo diz que o discurso sobre diversidade precisa virar oportunidade concreta de ascensão profissional e fala das prioridades da gestão

Helena Romeiro de Araújo, primeira mulher na presidência-executiva do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv), vê no cargo a responsabilidade de “mostrar que mulheres podem e devem estar à frente de instituições relevantes”.

Araújo assumiu o posto em 26 de outubro, como o Guia da Cerveja noticiou na ocasião, e é a segunda pessoa a ocupá-lo: a entidade criou a função no início de 2023, e o primeiro titular, Márcio Maciel, saiu em setembro.

Com mais de 15 anos em relações institucionais e governamentais, a área que faz a ponte entre empresas e poder público, ela comandou esse trabalho na MBRF, grupo que reúne BRF e Marfrig, de 2019 a 2025. Também integra o Conselho de Advocacy do Grupo Mulheres do Brasil.

Na entrevista a seguir, ela fala do que ainda trava a ascensão feminina nas empresas, das mudanças no consumo e das prioridades da gestão. As 12 associadas da entidade, entre elas Ambev e Heineken, respondem juntas por mais de 80% da cerveja produzida no país, segundo o sindicato.

A primeira prioridade é a previsibilidade regulatória e tributária, mesma pauta que o setor levou ao governo eleito. Os números de cervejarias que ela cita vêm do Anuário da Cerveja, publicado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Você é a primeira mulher no cargo. O que isso representa para você e para as mulheres na liderança da indústria da cerveja?

Essa conquista tem um significado muito especial para mim, tanto no âmbito pessoal quanto profissional. Sempre me dediquei às pautas feministas e acredito que precisamos ampliar cada vez mais a presença de mulheres nos espaços de decisão, em todos os setores da economia.

Ao longo da minha trajetória, aprendi muito com outras mulheres e tive a oportunidade de contar com líderes que abriram caminhos e ajudaram a tornar essa conquista possível. Reconheço a importância dessas referências e o impacto que elas tiveram na minha formação.

Espero também poder contribuir para abrir portas para outras mulheres. Ocupar essa posição é uma conquista, mas também uma responsabilidade: a de mostrar que mulheres podem e devem estar à frente de instituições relevantes, liderando agendas estratégicas e contribuindo para o desenvolvimento dos setores em que atuam.

Quais são hoje os principais desafios para ampliar a presença de mulheres em cargos de comando na indústria brasileira, especialmente em setores de predominância masculina, como na cerveja?

Um dos principais desafios ainda é transformar o discurso sobre diversidade em oportunidades concretas de crescimento e ascensão profissional. Isso passa por rever barreiras culturais, combater vieses inconscientes e garantir que as mulheres tenham acesso às mesmas oportunidades de desenvolvimento, visibilidade e participação nos processos decisórios.

Também precisamos avançar na construção de ambientes de trabalho mais inclusivos, que reconheçam diferentes trajetórias e permitam conciliar as responsabilidades profissionais e pessoais sem que isso represente uma desvantagem para as mulheres. A equidade precisa estar presente não apenas na entrada no mercado de trabalho, mas em toda a jornada profissional, especialmente nos caminhos que levam aos cargos de liderança.

Outro ponto fundamental é ampliar a presença de mulheres em setores tradicionalmente masculinos, como parte da indústria brasileira, e fortalecer as redes de apoio, a mentoria e o patrocínio profissional. Quando uma mulher chega a uma posição de liderança, ela também pode ajudar a criar oportunidades para outras.

Acredito que essa transformação depende de um compromisso efetivo das empresas e das instituições. Diversidade não é apenas uma questão de representatividade: é também uma forma de fortalecer a qualidade das decisões, ampliar perspectivas e construir organizações mais preparadas para os desafios do futuro.

Sua carreira foi construída nas relações institucionais e governamentais. O que a levou ao Sindicerv?

Ao longo da minha carreira, tive a oportunidade de atuar em setores de grande porte e altamente regulados, sempre com uma atuação muito próxima à gestão de grandes contratos e a temas estratégicos para os negócios. Essa experiência me trouxe uma visão ampla sobre a importância do diálogo entre empresas, poder público e sociedade.

O setor cervejeiro me despertou um interesse especial justamente pela complexidade e pela relevância de sua cadeia produtiva, que gera empregos, movimenta a economia e tem uma contribuição importante para o PIB brasileiro.

Assumir a presidência do Sindicerv é uma oportunidade de contribuir com essa agenda, fortalecer a representatividade do setor e trabalhar para que a indústria cervejeira continue evoluindo de forma responsável e competitiva.

Os hábitos de consumo de cerveja estão mudando. Como você vê esse momento para o setor?

A indústria cervejeira brasileira vive um momento de transformação e amadurecimento. O principal movimento que observamos hoje não é uma mudança na relevância da cerveja para o consumidor, mas uma evolução na forma como ele se relaciona com a categoria. O consumidor continua tendo a cerveja em seu repertório, porém está mais aberto a diferentes estilos, produtos, ocasiões e experiências de consumo.

Esse cenário amplia as oportunidades para o setor. Vemos um mercado cada vez mais diverso, marcado pela ampliação das escolhas, pela inovação e pela evolução dos portfólios. A indústria tem demonstrado capacidade de acompanhar essas transformações, desenvolvendo produtos para diferentes perfis de consumidores e momentos de consumo.

Mais do que analisar números isolados, é importante observar as mudanças estruturais que estão em curso. O que os dados mostram é um setor dinâmico, que investe, inova e se adapta continuamente às novas demandas da sociedade e do mercado. A cerveja segue profundamente conectada à cultura brasileira e aos momentos de convivência, enquanto a indústria evolui para atender um consumidor cada vez mais plural.

Quais serão as prioridades da sua gestão no Sindicerv e que legado quer deixar?

Uma das prioridades é trabalhar por previsibilidade regulatória e tributária. A cadeia cervejeira representa mais de 2% do PIB nacional e gera cerca de 2,5 milhões de empregos, com presença em todos os estados. Regras claras e equilibradas são fundamentais para dar segurança aos investimentos, estimular a inovação e preservar a competitividade e os empregos do setor.

A segunda é dar mais visibilidade à capilaridade da indústria. Em 2025, o Brasil chegou a 1.954 cervejarias, distribuídas por 794 municípios. Essa presença movimenta economias locais, gera empregos, impulsiona o turismo cervejeiro e valoriza a cultura brasileira.

A terceira é conduzir o Sindicerv nesta etapa de consolidação do setor, com transparência e visão de longo prazo. O Anuário da Cerveja [relatório anual do Ministério da Agricultura e Pecuária] é uma ferramenta importante para ampliar o conhecimento sobre a indústria, acompanhar suas transformações e apoiar o debate sobre inovação e desenvolvimento.

Quero deixar como legado um Sindicerv cada vez mais preparado para dialogar sobre os desafios do setor com responsabilidade e perspectiva de longo prazo — uma entidade que ajude a mostrar a evolução da cerveja no Brasil e sua contribuição para a economia, a cultura e a vida dos brasileiros.

Marcelo Tárraga
Marcelo Tárraga
Marcelo Tárraga é jornalista, comunicador e estrategista de content marketing B2B. Formado pela Faculdade Cásper Líbero, tem MBA em Gestão de Marketing Digital e formação em empreendedorismo e Startup Education pelo Founder Institute. Ao longo da carreira, atuou em jornalismo, agências e empresas de tecnologia, em organizações como TV Globo, VML/Y&R e Meta. É Diretor de Marketing Digital do Guia da Cerveja.
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