Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) estão prontos para viabilizar a cadeia produtiva do lúpulo no Brasil, com o objetivo de dar escala à produção nacional. O que falta, agora, são recursos financeiros para tirar o projeto do papel e atrair investimentos que podem reverter milhões em arrecadação de impostos. Isso abre a oportunidade para cidades brasileiras que queiram se colocar em uma posição estratégica para se tornar referência na produção nacional.
Quem lidera a iniciativa é Amanda Xavier, coordenadora do Centro Avançado em Sustentabilidade, Ecossistemas Locais e Governança (Casulo) do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) – um dos maiores centros de ensino e pesquisa em Engenharia da América Latina.
Segundo os pesquisadores, o lúpulo representa uma das maiores oportunidades ainda não exploradas do agronegócio nacional. A demanda anual de lúpulo no país gira em torno de R$ 500 milhões, segundo estudos prospectivos liderados por Amanda. Para atender a esse volume, seria necessário produzir 6.421 toneladas (o equivalente a 1.712 hectares plantados). O Brasil, no entanto, produz apenas 90 toneladas, o que atende somente 1,4% da demanda. O restante, 98,6%, é suprido por lúpulo importado.
O projeto para o lúpulo no Brasil
A Coppe estruturou o projeto para mudar esse cenário e atender às exigências comerciais das grandes cervejarias. O modelo inclui horticultura de precisão com uso de inteligência artificial; secagem com eficiência energética; peletização com padrão internacional; e extração voltada tanto para a indústria cervejeira quanto para os setores de fitoterápicos e etanol verde.
“Já chegamos a um estágio bem avançado da pesquisa para o cultivo do lúpulo, agora falta o pontapé para a implementação da escala industrial. Temos muitos cultivos no Brasil a ponto de saber o que e como plantar, além das técnicas de manejo”, afirma Amanda Xavier. “A gente está com uma cadeia bem montada. Estamos com a faca, o queijo e a goiabada na mesa. Mas quem vai cortar isso, a gente ainda não sabe”, brinca.
O gargalo da peletização
Para que as flores de lúpulo cheguem aos tanques das indústrias, o beneficiamento precisa ser rigorosamente padronizado. Atualmente, muitos produtores brasileiros secam a planta de forma rústica ou adaptam secadoras de café, mas o processo envolve calor excessivo, o que queima compostos aromáticos essenciais.
A solução desenhada pela universidade é a instalação de uma planta industrial de secagem ecológica e peletização a frio.
“Hoje, o nosso maior gargalo no Brasil é a peletização. Por falta dela, as grandes cervejeiras não compram em escala do produtor nacional. Além disso, o processo exige rastreabilidade, qualidade constante e previsibilidade”, diz Amanda.
Para garantir esse padrão, a equipe defende um modelo de governança inspirado em cooperativas americanas, como a Yakima Chief. Nesse formato, o cultivo fica com os fazendeiros, mas o beneficiamento e a negociação comercial são centralizados para garantir um padrão de qualidade.
Inovação no campo e o trunfo das três safras ao ano
A pesquisa também propõe alternativas para os altos custos de produção. Iniciar uma lavoura de lúpulo no Brasil exige hoje um investimento de quase R$ 200 mil por hectare. Como a planta depende de muitas horas de luz, os agricultores recorrem à iluminação artificial (lâmpadas de LED) durante a noite. O resultado é que a conta de energia elétrica acaba se tornando um grande empecilho para otimizar os lucros.
A saída proposta pela Coppe vem da aplicação de fitormônios, técnica inspirada no cultivo de uvas que permitiu a cultura no Vale do São Francisco, entre Pernambuco e a Bahia.
A ideia é reduzir a necessidade de suplementação luminosa com hormônios vegetais, diz Amanda.
Sem essa dependência, o país se torna extremamente competitivo, conseguindo até três safras por ano, enquanto potências globais, como Alemanha e EUA, colhem apenas uma vez ao ano por causa de seus invernos rigorosos.
Modelo de negócio e impacto milionário
Montar a infraestrutura de processamento exige capital. Um único maquinário industrial de grande capacidade para peletização custa entre três e cinco milhões de reais. Mas os estudos de viabilidade econômica do Casulo/Coppe apontam retorno rápido e consistente.
A proposta de negócio prevê que o município-sede da unidade industrial entre como sócio, explorando o potencial turístico da rota do lúpulo e o pagamento de 1% sobre o faturamento como royalties.
Em um cenário projetado com um investimento público de R$ 50 milhões, diluído em três anos, seria possível processar colheitas de 330 hectares. A estrutura geraria uma receita de R$ 260 milhões ao ano, além de 220 empregos diretos, 2,6 mil indiretos e R$ 161 milhões em impostos. A produção renderia insumo suficiente para 470 milhões de litros de cerveja.
A projeção de comercialização indica que a unidade industrial teria capacidade de produzir cerca de 1,2 mil toneladas de pellets ao ano. Com o quilo a R$ 120, o faturamento bateria R$ 148,5 milhões. A produção de extrato de lúpulo, vendido a R$ 2 mil o quilo, adicionaria outros R$ 11,9 milhões ao caixa anual.

O modelo ainda prevê segurança econômica ao diversificar os clientes, estruturando fornecimento de extratos de lúpulo como bactericida natural para usinas de etanol, indústrias farmacêuticas e nutrição animal.
A demanda por insumo nacional de qualidade já é comprovada. Segundo Amanda, o laboratório recebe solicitações internacionais de 60 toneladas anuais e guarda cartas de intenção de compra assinadas por gigantes do mercado de bebidas.
Com a cadeia de produção estruturada, resta saber qual será a cidade que vai abraçar a iniciativa e se tornar a primeira produtora industrial de lúpulo do Brasil.


