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“Nespresso” da cerveja permite impressão no chope e escolha de lúpulos

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A produção de café em cápsulas se tornou uma febre global há alguns anos através da Nespresso e, aos poucos, possibilidades semelhantes vêm chegando ao mercado da cerveja, oferecendo ao consumidor a chance de customizar a sua própria bebida, sem precisar ser um especialista em sua fabricação.

Uma das novidades que está sendo preparada para lançamento no mercado permite ao cliente escolher o lúpulo e personalizar a cerveja. É o Espresso Dry Hopping, desenvolvido pelo Bev Hack Lab, que tem inspiração nas cafeterias, podendo ser utilizado nos bares ou mesmo nas residências.

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Se trata de um dispositivo que permite ao consumidor solicitar ou mesmo selecionar o lúpulo que mais agrada seu paladar e ter o seu chope customizado com a adição na hora desse ingrediente. A solução pode ser, inclusive, acoplada em qualquer chopeira caseira padrão.

O projeto está em fase final de testes, com a patente já submetida, mas ainda não tem data para lançamento pelo Bev Hack Lab, braço do Centro de Inovação Tecnológica da Ambev, com foco na inovação e 100% experimental.

Impressão no chope
Também seguindo a lógica do Nespresso, começam a se popularizar no mercado máquinas que preparam bebidas personalizadas em questão de segundos e, inclusive, imprimem mensagens e imagens específicas nelas.

Na Espanha, isso vem sendo feito com a Ripple Maker II Pro, que acrescenta o desenho desejado à espuma da bebida. As ilustrações podem ser fotografias, desenhos e letras, com uma grande variedade de tonalidades. Isso é conseguido com o uso de cápsulas, que têm o mesmo design dos cartuchos de tinta clássicos integrados às impressoras. Pela tela principal, o usuário pode escolher a imagem que deseja colocar em cima de sua cerveja.

A tinta é comestível e tem base de extrato de repolho sem sabor, para aplicar os padrões de cores sem risco à saúde e sem alterar o sabor da bebida. E ela se ajusta ao pH do líquido. Além disso, leva apenas dez segundos para a conclusão da impressão.

Bar em casa
Já para quem quer tirar a cerveja da chopeira em casa como se faz no bar, a Ambev trouxe para o Brasil a PerfectDraft. Essa chopeira tem capacidade para até 6 litros e conta com a tecnologia Smart Pour, que permite servir da forma ideal a cada tirada, com a quantidade de espuma desejada pelo consumidor.

Com o aplicativo conectado à chopeira, é possível controlar a temperatura da cerveja, monitorar a espuma e frescor do barril, acessar os serviços da PerfectDraft, incluindo o suporte, e receber notificações quando a temperatura desejada for alcançada ou quando o barril estiver acabando – a máquina possui um indicador LED que mostra a quantidade de cerveja restante.

É possível adquirir os barris das marcas Stella Artois, Colorado Ribeirão, Budweiser, Patagonia Weisse, Patagonia Amber e Goose Island com a tecnologia.

“Uma das nossas missões é conseguir desenvolver soluções inteligentes que impactem a experiência dos nossos consumidores com as nossas marcas. A Inovação tem sido uma grande aliada nessa jornada e, no caso da PerfectDraft, não poderia ser diferente. Pensamos em trazer não só um produto que oferecesse uma experiência completa dentro de casa, mas que também promovesse a conexão entre as pessoas”, afirma Gustavo Castro, diretor de inovação da Ambev.

Balcão Beersenses: São Nicolau e a Lager mais potente do mundo

Rodrigo Sena Beersenses

Balcão Beersenses: São Nicolau e a Lager mais potente do mundo

O objetivo desse texto de fim de ano é contar uma linda história natalina. Mas essa não é uma história qualquer, é uma tremenda história, com fatos que aconteceram em diferentes partes do mundo, em diferentes épocas, e que foram unidos pela cerveja – ah, sempre a cerveja para unir histórias e deixar nossa vida melhor!

Vou começar com a história de Nicolau, que viveu no século IV na cidade portuária de Myra, que naquela época pertencia à Grécia, mas hoje é a cidade de Demre, na Turquia. Diz a história que ele nasceu em uma família muito rica e que depois da morte de seus pais se desapegou de tudo, dando dinheiro e assistência aos pobres, principalmente às crianças.

Em uma de suas boas ações, Nicolau evitou que um pai falido enviasse suas três filhas crianças à prostituição, jogando três sacos de moedas de ouro pela chaminé da casa da família. Os sacos caíram em cima das meias das moças, que estavam secando à beira da lareira.

Logo as histórias de bondade de Nicolau ganharam fama e cruzaram fronteiras. Por toda a Europa, os relatos sobre Nicolau começaram a ganhar forma de lenda, até que a Igreja Católica o canonizou, e ele se tornou São Nicolau.

Bom, o resto da história vocês já conhecem: São Nicolau virou base para a criação da imagem do Papai Noel, que recompensava crianças bondosas com sacos de presentes jogados pelas chaminés das casas. A figura do Papai Noel, inclusive, se parece muito fisicamente com a aparência de São Nicolau.

A cerveja e São Nicolau
Agora você pensa: mas e o que isso tem a ver com cerveja? Então vamos já ao link entre os dois mundos: em 1979, Albert Hürlimann, mestre-cervejeiro e grande referência mundial no estudo de leveduras, criou na sua cervejaria na Suíça, a receita de uma Lager potente, baseada nas Doppelbocks alemãs, mas com um processo de fermentação diferenciado, mais longo, por 10 meses, e deixando a cerveja mais seca do que as primas alemãs.

Essa cerveja chegou a incríveis 14% de álcool por volume (ABV), sendo conhecida como a Lager mais forte do mundo. Hürlimann produziu a cerveja no dia 6 de dezembro de 1979, dia de São Nicolau, e batizou sua criação de Samichlaus, que significa São Nicolau em um dialeto suíço-alemão.

A Samichlaus
Por 17 anos, a cervejaria Hürlimann produziu a Samichlaus somente no dia 6 de dezembro, tornando não só a cerveja rara por ser apenas feita uma vez por ano, mas também uma tradição natalina. Até que, em 1997, a cervejaria faliu. Por 3 anos a Samichlaus deixou de ser produzida.

Foi quando na virada do milênio, a Pivovar Eggenberg, uma histórica cervejaria da cidade de Graz, nos Alpes Austríacos, assumiu a receita da Samichlaus e retomou as brassagens conforme a tradição, sendo feita apenas no dia 6 de dezembro.

As origens da Eggenberg
Aqui vale a pena um parêntese para falar da rica história da Pivovar Eggenberg. É uma trajetória cheia de mudanças, altos e baixos, que remonta ao século XIV, quando a família Rosenberg produzia cervejas no castelo de Český Krumlov, na República Checa. Em 1625, os Rosenberg transferiram a produção para o castelo nos Alpes na Áustria e, em 1628, Hans Ulrich von Eggenberg assumiu a cervejaria, dentro do Castelo que ganhou o nome da família: Schloss Eggenberg.

Em 1717, com a morte do último representante masculino da família Eggenberg, aos 13 anos de idade, a família Schwarzenberg passou a controlar a cervejaria, mas manteve o nome, até em função do castelo onde estava localizada. É aí que começa a história de sucesso da empresa. A produção aumentou muito, chegando a 350 mil litros no final do século XIX.

Hasta la vista, baby!
Aliás, enquanto eu fazia minha pesquisa para esse texto, descobri que a cidade de Graz, que abriga a Pivovar Eggenber, é também a cidade onde nasceu o ator e político Arnold Schwarzenegger, famoso por interpretar o Exterminador do Futuro nas telas dos cinemas. Isso foi só uma curiosidade mesmo, nada a ver com a cerveja!

O encontro da Samichlaus e da Eggenberg
A cervejaria Eggenberg se especializou em produzir Lagers potentes. Por isso, a tradicional receita da Samichlaus caiu como uma luva para eles. Mas para conseguir reproduzir fielmente a mesma receita, a Eggenberg contou com a colaboração inicial dos cervejeiros da Hürlimann. Com isso, o rótulo passou a se chamar Samichlaus Classic, com o perfil sensorial igual ao da original, com uma explosão de notas sensoriais, que lembram geleias de frutas vermelhas, frutas pretas, mel e condimentos.

Com sua expertise em Lagers potentes, a Eggenberg criou uma segunda versão da Samichlaus, envelhecida em barris de carvalho, que anteriormente maturaram uísque e foram feitos com madeira da floresta de Wienerwald, que fica nos arredores de Viena. Essa é a Samichlaus Barrique, com os mesmos 14% ABV, mas com um perfil sensorial diferente da original, ganhando notas de baunilha, mais amadeiradas, vindas dos barris e do uísque.

Preciso ressaltar que, tecnicamente, não é nada fácil produzir Lagers potentes e complexas, como a Samichlaus. Produzir uma boa Lager requer muito mais rigidez no processo, maior disciplina e controle de qualidade. Não que para produzir Ales isso também não seja necessário, claro que é sim, mas é que se houver uma falha, por menor que seja, ela ficará muito clara e evidente em uma Lager, enquanto uma Ale pode às vezes encobrir pequenos “deslizes” da produção.

Outro fator que observo é a variedade de Lagers que a cervejaria produz. Muita gente pensa que Lager é um estilo, mas não é. Lager é uma família que contém diversos estilos.

Bom, eu espero que você tenha aproveitado essa inusitada história. Agora me dá licença que vou escrever minha cartinha para São Nicolau pedindo minha Samichlaus.


Rodrigo Sena, jornalista, sommelier de cervejas especializado em harmonizações, técnico cervejeiro, criador de conteúdo para o YouTube e o Instagram @beersenses.

Carlsberg compra cervejaria no Canadá e terá sua 1ª fábrica nas Américas

O Grupo Carlsberg terá produção própria na América do Norte, mais especificamente no Canadá. A companhia de origem dinamarquesa vai dar esse passo expansionista com a aquisição da Waterloo Brewing, através da compra de todas as ações ordinárias emitidas e em circulação da cervejaria da província de Ontario, no Canadá.

Na transação, a Carlsberg vai pagar 4 dólares canadenses (cerca de R$ 15,3, na cotação atual) por ação ou um valor patrimonial total de aproximadamente 144 milhões de dólares canadenses (R$ 550,6 milhões) no total, incluindo opções.

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Com a aquisição, a Carlsberg espera fortalecer a posição de mercado do grupo no Canadá, a partir da produção local. Além disso, acredita que poderá aproveitar a sinergia com as marcas da Waterloo. A avaliação do grupo é de que o portfólio internacional de cervejas e sidras da Carlsberg complementa o portfólio de cervejas locais e bebidas prontas da Waterloo.

Um dos maiores grupos cervejeiros do mundo, a Carlsberg ainda não contava com uma fábrica própria nas Américas, tendo sua atividade concentrada na Europa e na Ásia.  

“Uma das prioridades de nossa estratégia SAIL’27 é expandir nossos negócios em mercados atraentes onde somos pequenos hoje, como o Canadá. A aquisição da Waterloo Brewing melhora significativamente nossas perspectivas de crescimento no mercado canadense”, afirma o CEO do Grupo Carlsberg, Cees ‘t Hart.

Com a aquisição, a unidade produtiva da Waterloo na cidade de Kitchener, que já fabricava a sidra Somersby, da Carlsberg, desde 2020, também passará a fazer as bebidas de outras marcas do grupo.

A Carlsberg também aproveitou um momento de desvalorização da Waterloo para fechar essa aquisição. A ação da cervejaria canadense perdeu mais da metade do valor ao longo dos últimos 18 meses – chegou a estar cotada a 7,88 dólares canadenses e valia 3,55 dólares canadenses na véspera da negociação.

A Waterloo Brewing é a maior cervejaria de origem canadense na província de Ontario. Ela foi fundada em 1984 por Jim Brickman como Brick Brewing, sendo a primeira marca artesanal da região e, até por isso, considerada pioneira nesse movimento no Canadá.

Em 2019, a empresa mudou seu nome para Waterloo Brewing para se alinhar com as marcas Waterloo. Além disso, fabrica e comercializa sua popular marca Laker. Em 2011, a Waterloo comprou os direitos canadenses da Seagram Coolers e, em 2015, garantiu os direitos canadenses de LandShark e da Margaritaville .

“Desfrutamos de um relacionamento próximo com a Carlsberg e estamos entusiasmados por nos tornarmos parte de uma das maiores empresas cervejeiras do mundo. A Waterloo Brewing se encaixa perfeitamente na cultura forte e voltada para o propósito da Carlsberg, e nosso conselho de administração está confiante de que ingressar na Carlsberg é a melhor solução de longo prazo para nossos funcionários, parceiros, clientes, consumidores e comunidade”, diz George Croft, presidente e CEO da Waterloo.  

A expectativa é de que a transação seja concluída durante o primeiro semestre de 2023. “Essa excelente oportunidade ampliará nossos negócios no Canadá. Os portfólios de marcas são complementares. O fornecimento local garantirá a robustez do fornecimento a longo prazo e aumentará a flexibilidade comercial e a velocidade de lançamento de inovações no mercado, mudando radicalmente a maneira como operamos”, conclui o diretor-gerente da Carlsberg Canadá, Anders Rud Jørgensen.

Balcão do Profano Graal: As consequência da lei seca nos Estados Unidos

Balcão do Profano Graal: A lei seca nos Estados Unidos – As consequências do nobre experimento

Salve nobres,

No dia 5 de dezembro de 1933, o Congresso dos Estados Unidos da América aprovou a 21ª Emenda da Constituição norte-americana. Essa emenda revogava a 18ª Emenda, aprovada 13 anos antes e que ficou mais conhecida na história como a Lei Seca (1920-1933).

A Lei Seca proibia “o fabrico, venda ou transporte de licores embriagantes dentro dos Estados Unidos e de todos os territórios submetidos à sua jurisdição, bem como a sua importação para os mesmos”. Foi ratificada por 36 dos então 48 Estados norte-americanos em janeiro de 1919, com previsão de entrada em vigor um ano depois.

Foi fruto de uma grande campanha contra o consumo de bebidas alcóolicas, impulsionada por grupos religiosos (especialmente metodistas, batistas e luteranos). Ao lado de argumentos morais e religiosos, o consumo excessivo de bebidas alcóolicas, principalmente de destilados, era considerado prejudicial à saúde física e psicológica, estando relacionado a problemas de violência doméstica e perda de produtividade no trabalho. Os movimentos pró-temperança tiveram início ainda no final do século XVIII nos Estados Unidos, mas ganharam força no final do século XIX. E os seus ativistas se dividiam entre aqueles que defendiam uma moderação do consumo e aqueles que defendiam a sua proibição completa.

Quando foi ratificada a 18ª Emenda, 33 dos 48 estados americanos já estavam “secos”. Ou seja, já possuíam leis estaduais que reduziam em algum nível (ou até mesmo baniam completamente) o consumo de álcool. A Lei Seca veio só ratificar essa situação. Na prática, a 18ª Emenda, Junto com a Lei Volstead (batizada com o nome do congressista pró-temperança Andrew Volstead), que definia bebidas alcóolicas como todas aquelas com mais de 0,5% ABV, colocou na ilegalidade de uma hora para outra a quinta maior indústria do país.

Porém, depois de 13 anos, ficou claro às autoridades norte-americanas que o “nobre experimento”, como o definiu o Presidente Herbert Hoover (1929-1933), não havia dado os resultados esperados. A primeira dificuldade encontrada foi a sua fiscalização em todo o território nacional. O pequeno efetivo não conseguiu impedir o contrabando de bebidas, facilitado, ainda, pela conivência de agentes públicos de segurança, o que levou ao aumento da criminalidade. O mercado de bebidas contrabandeadas enriqueceu mafiosos. E seu controle era alvo de uma disputa entre grupos de gangsters que ficou marcada por confrontos violentos e assassinatos.

O álcool contrabandeado era vendido em bares clandestinos, que se multiplicaram. Os famosos Speakeasy (“falem baixo”, em tradução literal), que funcionavam no porão ou nos fundos de outros estabelecimentos de fachada e também eram controlados, muitas vezes, por mafiosos. Um agente da Lei Seca calculou que em 1926 havia 100.000 deles apenas em Nova York, contando com autoridades locais entre os seus clientes regulares. Assim, Al Capone (1899-1947), o mais famoso dos gangsters, tinha razão ao afirmar certa vez: “Eu dou ao público o que o público pede”.

Além disso, a lei continha uma série de exceções e isenções que foram aproveitadas por todos aqueles que pretendiam burlar a lei. Permitia, por exemplo, a fabricação e venda de alcoólicos para outros fins que não bebidas, como o seu uso em pesquisas científicas; o consumo de álcool sob prescrição médica; e também a fabricação caseira de até 200 galões por ano.

A Era da Proibição teve grande impacto sobre a indústria de bebidas. Segundo Silvia Limberger, das 1568 cervejarias existentes em 1910, apenas 756 voltaram à atividade em 1934. E Tiago Gomes da Silva afirma que o número de destilarias foi reduzido em 85%. Apesar disso, a Lei Seca acabou tendo o efeito oposto ao que os defensores da temperança pretendiam. Segundo Pete Brown, antes da Lei Seca, havia uma tendência constante de mudança do consumo de bebidas alcoólicas em direção à cerveja. Porém, como cerveja era muito mais difícil de produzir ilegalmente do que o gim, durante a proibição os destilados passaram a representar 75% de todo o álcool consumido nos Estados Unidos.

A partir de 1929, fatores como o aumento da violência entre gangsters e os gastos públicos para se tentar fazer cumprir a lei, impulsionaram a discussão sobre a possibilidade de revogar a 18ª Emenda. A pá de cal sobre os argumentos econômicos a favor da Lei Seca foi a Quebra da Bolsa de Nova York em outubro de 1929, que jogou os Estados Unidos no período conhecido como a Grande Depressão. Os argumentos econômicos então viraram a favor da legalização da bebida, que geraria mais empregos, movimentaria a economia e aumentaria a arrecadação de impostos. Em 1932, Franklin Roosevelt (1933-1945) concorreu à presidência com uma plataforma de revogação da proibição, vencendo a eleição em 42 dos 48 Estados e obtendo 57,4% do total de votos.

Se você já assistiu a alguma aula sobre história da cerveja, deve ter ouvido falar que a Lei Seca dos Estados Unidos foi a responsável pela disseminação das American Lagers. O argumento, repetido por Pete Brown entre outros, é o de que “uma geração que não conhecia nada além de refrigerantes rejeitou o amargor das cervejas de estilo bávaro, populares nos Estados Unidos antes da Lei Seca, exigindo algo mais doce”. Mas a Lei Seca só poderia ter impactado significativamente sobre os paladares norte-americanos se, de fato, tivesse acontecido uma drástica redução no consumo de bebidas alcóolicas, o que não parece ter sido o caso, pelo que vimos acima. Quem tinha o hábito de consumir bebidas alcóolicas antes de 1920, deu seu jeito para continuar consumindo durante os 13 anos seguintes. E mesmo quem não ainda tinha idade para consumir bebidas alcóolicas em 1920 não parece ter tido dificuldades para conseguir um destilado ilegal durante a vigência da proibição. Principalmente se os seus pais fossem adeptos de um golinho.

Os motivos para o domínio do mercado pelas American Lagers deve ser procurado em outro lugar. O cenário de crise econômica da Grande Depressão, obrigou as cervejarias sobreviventes à proibição a apostar na produção de cervejas mais baratas de se produzir e mais fáceis de se vender. Portanto, cervejas mais leves, que alcançassem um público maior. Enquanto a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) desestruturou a produção de insumos e destruiu cervejarias na Europa, jogando o Velho Continente também em um cenário de crise econômica, o que ajudou as American Lagers a dominarem o mercado de cervejas também do outro lado do Atlântico.

Para terminar com uma curiosidade interessante: movimentos “pró-temperança” existiram também no Brasil, na virada do século XIX para o XX.  Mas, como explica Teresa Cristina de Novaes Marques, aqui a cerveja foi tratada pelos defensores da temperança como um mal menor, diante de bebidas destiladas de maior teor alcóolico, como a cachaça. Dessa forma, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, aqui os movimentos pró-temperança podem ter colaborado para fazer da cerveja a bebida preferida dos brasileiros. 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BROWN, Pete. Prohibition. In: OLIVER, Garret (org.). The Oxford Companion to Beer. Oxford Universitary Press: New York, 2012, p. 864-870.

DOMINGUES, Joelza Ester. Revogação da Lei Seca nos Estados Unidos. Ensinar História. Disponível em:  Revogação da Lei Seca nos Estados Unidos (ensinarhistoria.com.br)

HARFORD, Tim. Por que a Lei Seca, que faz 100 anos, foi um fracasso retumbante nos EUA. BBC News Brasil. 17 de janeiro de 2020. Disponível em: Por que a Lei Seca, que faz 100 anos, foi um fracasso retumbante nos EUA – BBC News Brasil

Lei Seca nos Estados Unidos. Wikipedia – a Enciclopédia Livre. Disponível em: Lei Seca nos Estados Unidos – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

LIMBERGER, Silvia Cristina. Estudo geoeconômico do setor cervejeiros no Brasil: estruturas oligopólicas e empresas marginais. Tese de doutorado. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2016.

MARQUES, Teresa Cristina de Novaes. Cerveja e Aguardente sob o foco da temperança no Brasil, no início do século XX. Revista Eletrônica de História do Brasil. v.9, n.1, jan-jul 2007, p. 48-70. SILVA, Tiago Gomes da. Lei Seca, Institucionalismo e Federalismo. Anais do XVII Encontro de História da Anpuh-Rio – Entre o Local e o Global. Rio de Janeiro, 2016.


Sérgio Barra é carioca, historiador, sommelier e administra o perfil Profano Graal no Instagram e no Facebook, onde debate a cerveja e a História.

Tanoarias ampliam atuação e aumentam uso de madeiras nacionais

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As tanoarias vêm ampliando o uso de madeiras e recorrendo a opções nacionais na preparação de barris para a produção de cerveja e outras bebidas alcoólicas que contam com o processo de envelhecimento. Essa movimentação foi percebida, em 2022, pelo CEO da Tanoaria Agulhas Negras, Luis Claudio de Castro Nogueira.  

A ação de diversificação, inclusive, não tem se resumido ao uso de madeiras nacionais. De acordo com o relato do seu CEO, a Tanoaria Agulhas Negras vem, até mesmo, diversificado a sua área de atuação. Assim, aproveita os barris para, também, produzir móveis que atendam aos seus clientes.

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“Aqui, no caso da Tanoaria Agulhas Negras, estamos fabricando móveis, móveis de decoração, tudo a partir do barril. E começamos a investir também em madeiras nacionais, algo com o que não trabalhávamos. Hoje, contamos com um leque de madeiras, como jequitiba, amburana, bálsamo, cabreúva… São várias madeiras nacionais com as quais não trabalhávamos”, diz.

A aposta na diversidade, que inclui o maior uso de madeiras nacionais, faz parte da estratégia da Tanoaria Agulhas Negras, assim como de outras empresas do ramo, sendo adotada para ampliar a clientela e o alcance.

“Estamos tendo a necessidade de abrir o leque para manter o nosso faturamento. E eu tenho visto que as outras tanoarias estão na mesma luta: aumentando a diversidade de madeiras, tamanhos e barris”, detalha o CEO.

Essa movimentação da Tanoaria Agulhas Negras se dá por uma mudança de perspectiva para quem atua com madeiras. Ele explica que o abrandamento da pandemia do coronavírus também provocou uma redução na demanda pelos serviços das tanoarias, que tiveram seu auge durante o período de isolamento.

Naquele momento, de acordo com Nogueira, houve grande busca pelos serviços por pessoas que estavam isoladas. “A pandemia foi nosso melhor momento e nós chegamos a triplicar a quantidade de funcionários naquela época. Os proprietários dos alambiques foram para suas fazendas e lá começaram a fazer uma limpeza, uma reviravolta, aumentando a produção, melhorando o armazenamento e o envelhecimento”, diz.

Assim, passado esse boom, o CEO da Tanoaria Agulhas reconhece que o ano de 2022 foi bastante desafiador. “Esse ano surpreendentemente foi um ano muito calmo, muito parado. Poucas vendas, sendo que em anos anteriores tivemos recordes de venda”, afirma Nogueira. “A gente sentiu que esse ano foi um ano de muita expectativa e poucos negócios”, conclui.

Eventos em sequência pressionaram fornecedores da indústria cervejeira

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O ditado de que “tudo em excesso faz mal” pode ter sido confirmado no segundo semestre por representantes da indústria cervejeira. Com eleições em outubro e Copa do Mundo nos meses de novembro e dezembro, alguns fornecedores tiveram dificuldade em operar.

A constatação é de Bruno Lage, sócio-fundador da Label Sonic, empresa de rotulagem. Atuando diretamente junto a fornecedores de embalagens e cervejarias, ele avaliou que algumas empresas do segmento acabaram sendo afetadas em seu planejamento, assim como tiveram atenções divididas e perderam dias de trabalho.

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“Na hora de aproveitar, as atenções estavam dispersas, com a eleição sendo seguida pela Copa do Mundo. A Copa é, claro, uma oportunidade, mas é também um problema, porque muitas empresas não conseguem trabalhar no dia dos jogos da seleção. Além disso, tira a atenção da reta final do ano. É difícil, por exemplo, falar de Natal em meio à Copa do Mundo”, diz.  

O sócio da Label Sonic lembra que a disputa da Copa do Mundo no final do ano provocou paralisações na operação de algumas empresas da indústria cervejeira em um período do ano que é chave, em função dos preparativos para as festas de Natal e réveillon. Isso, inclusive, acabou por provocar atrasos em entregas e mesmo a impossibilidade de atender pedidos.

“Os fornecedores da indústria tiveram jornadas de trabalho prejudicadas. Isso causou acúmulo de pedidos, gargalos e atrasos. Soubemos lidar bem com isso na Label Sonic, mas senti que a demanda foi menor nessa época do ano por causa dessas particularidades”, explica Lage.

Atuando diretamente com a rotulagem de produtos, o sócio da Label Sonic também aponta que a intensa disputa política apresentou desafios para a comunicação por parte da indústria cervejeira. Assim, observa que várias marcas adotaram a cautela para evitar riscos.

“Hoje é preciso ter muito cuidado sobre como você faz a sua comunicação. Até a cor do Papai Noel é polêmica, assim como a camisa da seleção. Os riscos se tornaram grandes. Você acaba sendo tachado de alguma coisa e pode desagradar metade do público”, afirma.

Normalidade provoca otimismo
Na avaliação do sócio da Label Sonic, o ano de 2023 deve ser melhor, tanto para a sua empresa como para os demais atores da indústria cervejeira. E essa expectativa positiva é provocada por uma tendência de normalidade, sem os problemas provocados em 2020 e 2021 pela pandemia do coronavírus, além do acúmulo de eventos no segundo semestre de 2022.

“Será um ano de crescimento. Os problemas da pandemia ficaram para trás e não teremos esses eventos juntos como em 2022. Acaba sendo um ano de agenda mais cheia. Quero estar atento às movimentações de embalagens na indústria da cerveja. Elas não pararam, algumas vão se consolidar. E estaremos prontos para entregar boas soluções de embalagens para nossos clientes”, conclui o sócio da Label Sonic.

Guia na Copa: Conquista argentina consagra relação entre Messi e Budweiser

O histórico tricampeonato mundial conquistado no último domingo (18) pela seleção da Argentina ainda deve render muita celebração por parte de seus torcedores e certamente está sendo festejado por uma marca de cerveja. Trata-se da Budweiser, que patrocina o craque Lionel Messi, eleito o melhor jogador da Copa do Mundo.

A marca de origem norte-americana tem uma relação estreita com Messi, tanto que às vésperas do início do torneio no Catar lançou uma edição limitada que estampava uma imagem do argentino e seu punho erguido, celebrando a conquista da Copa América de 2021, sobre a seleção brasileira, no Maracanã.

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Mas esta não foi a principal ação da Budweiser envolvendo Messi – e nem mesmo a mais espirituosa. Em 2020, a marca apresentou a campanha “Be a King (seja um rei, em uma tradução livre): 20 anos, 1 clube, 644 gols”. O número faz referência a um recorde alcançado pelo argentino, o de atleta a marcar mais gols em jogos oficiais por um único clube – no caso do argentino, o Barcelona.

Além disso, a Budweiser produziu garrafas numeradas de 1 a 644, em referência aos gols Messi, e as destinou aos 159 goleiros que foram vazados pelo então jogador do Barcelona. Alguns deles, inclusive, entraram na brincadeira e posaram com as garrafas recebidas, como o italiano Buffon.

“Bud, obrigado pelas cervejas. Vou encarar isso como um elogio. Tivemos grandes batalhas ao longo dos anos! Parabéns por quebrar o recorde de 644, Messi. É realmente uma conquista inacreditável. Saúde”, publicou, à época, Buffon em seu perfil no Twitter.

Já após a classificação da Argentina para a final no Catar, a Budweiser iniciou outra ação de marketing: a marca promoverá um sorteio para pagar tatuagens de torcedores que prometeram eternizar Messi em seus corpos caso a seleção vencesse a Copa do Mundo, o que agora acabou se concretizando. Para isso, basta preencher um cadastro.

Assim, o triunfo da Argentina nos pênaltis, após o empate por 3 a 3 entre o tempo normal e a prorrogação com a França, também representa uma vitória para a Budweiser, que semanas antes enfrentou um contratempo no Catar: faltando dois dias para o início da competição, o governo local proibiu a venda de cerveja com álcool nos estádios da Copa. E isso quando a marca já armazenava milhares de latinhas em um depósito no país.

Restou, assim, à Budweiser vender a sua versão sem álcool dentro das arenas que receberam a 22ª edição do Mundial de seleções e o rótulo original na fan fest montada em Doha e único ambiente oficial da competição em que sua comercialização estava permitida.

Além disso, em uma ação de marketing, prometeu destinar o estoque que precisou ficar armazenado no Catar para o país campeão mundial. E, durante o período de realização da Copa, espalhou contêineres por diferentes lugares do mundo, incluindo a Argentina e o Brasil, em uma ativação da sua iniciativa.

Agora, então, a promessa deverá ser paga na Argentina. E ter o país sul-americano como destino certamente agrada muito mais a Budweiser, não só pela sua relação estreita com Messi, mas também pelo adversário na decisão da Copa.

Mbappé evita marca
Autor dos três gols da França na final e artilheiro do Mundial no Catar, Mbappé buscou dissociar sua figura da marca de cerveja durante a competição, inclusive escondendo o logo da Budweiser que estampa o troféu destinado ao jogador eleito o melhor de cada partida da competição.

O problema de Mbappé não é especificamente com a Budweiser, mas uma decisão do jogador de evitar realizar publicidade para marcas de bebidas alcoólicas e outros produtos pouco associados a uma vida saudável, como refrigerantes e marcas de fast food.

De qualquer forma, ninguém pode negar que a vitória da Argentina na decisão da Copa do Mundo, com o brilho do garoto-propaganda Messi, é melhor para a cervejaria em termos de estratégia de marketing.

BierHeld aproveita avanço tecnológico e retomada para ampliar atuação

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Visto como uma fase de retomada para o setor cervejeiro e das empresas que atuam diretamente nesse segmento, este ano ficará marcado como um período de volta do funcionamento sem restrições de bares e restaurantes, algo que se deu a partir do momento em que a crise sanitária amenizou. Mas algumas tendências da pandemia se mantiveram, como o avanço do uso dos recursos tecnológicos, que seguiu em alta. Isso, somado à recuperação do segmento, motivou o BierHeld a ampliar o foco de atuação das suas soluções ao longo de 2022.

“Para o setor, foi um ano de retomada, uma vez que no ano passado as cervejarias ainda sofreram bastante por conta da pandemia, que afetou a economia de forma geral, mas especificamente na parte de festas e eventos, que estão ligadas diretamente às vendas de bebidas”, diz Ewerton Miglioranza, sócio-fundador do BierHeld.

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Especialista em sistema de gestão para cervejarias, o BierHeld aproveitou o ano de 2022, visto como positivo, como uma oportunidade para expandir sua presença no mercado cervejeiro. Assim, também passou a atuar junto aos distribuidores, o que também é motivo para boas perspectivas já mirando 2023.

“Conseguimos abrir um novo mercado e estamos retomando investimentos na parte de automação para cervejarias e esperamos crescer ainda mais no próximo ano”, destaca o sócio-fundador do BierHeld.

A aceleração da busca por soluções digitais pelas companhias, inclusive as do setor cervejeiro, contribuiu para as empresas que atuam diretamente com recursos tecnológicos tivessem um ano favorável. “Dentro das dificuldades trazidas pelo ano anterior, foi um ano bom. Tivemos diversos clientes retomando suas atividades e clientes novos buscando iniciar suas operações”, afirma Miglioranza.

Expansão tecnológica
A última edição da Pesquisa Anual sobre o Mercado Brasileiro de TI e Uso nas Empresas, realizada pela Fundação Getúlio Vargas, apontou que o avanço do investimento das empresas em tecnologias da informação no Brasil tem sido notável. Tanto é que em 2021 a antecipação do processo de transformação digital foi o equivalente ao esperado para o período de até quatro anos.

De acordo com o levantamento, são, hoje, 447 milhões de dispositivos digitais (computador, notebook, tablet e smartphone) em uso no Brasil (corporativo e doméstico), com o domínio dos smartphones.

Seguindo tendência de digitalização e para auxiliar na retomada, o BierHeld, no segundo semestre deste ano, ampliou as opções de acesso ao seu sistema de gerenciamento, passando a disponibilizá-lo para telefones celulares, facilitando o rastreamento dos equipamentos.

Esse lançamento coincidiu com um momento tratado como o da virada para o setor de artesanais, com a retomada das atividades sem restrições. Dentro desse contexto de expectativa para reaquecimento do setor, é preciso ter ainda mais atenção ao controle de gastos e dos demais passos da operação, com o software do BierHeld sendo um importante auxílio, não só para as cervejarias, mas também para os distribuidores, novo foco da operação da empresa.

Artigo: Copa do Mundo e cervejas

*Por Gui Rossi

Essa é minha terceira Copa do Mundo enquanto sommelier e dono de bar. E em todas essas edições sempre gostei de trabalhar promoções e cervejas temáticas de acordo com os jogos das seleções principais. Ou pelo menos seleções de países com tradição cervejeira.

A ideia é bem simples: jogo da Inglaterra, ações com cervejas inglesas; jogo da Alemanha, ações com cervejas alemãs. E quando tem confronto direto fica ainda mais divertido.

E nessa toada sempre foi natural pensar em paralelos entre os principais estilos representativos das escolas clássicas e a maneira de cada seleção jogar, assim como com as características de seus principais jogadores.

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Afinal, é possível encontrar semelhanças entre meio-campistas habilidosos, como De Bruyne e Hazard, com um jogo versátil e muitas vezes complexo taticamente, e uma Blonde Ale ou Quadruppel da escola belga. E por falar nos Diabos Vermelhos, nada melhor que uma Duvel, clássico cervejeiro representante do estilo Strong Golden Ale: a aparência passa a impressão de ser fácil de beber, porém seu alto teor alcoólico muito bem escondido engana, a ponto até de eliminar a seleção canarinha em uma quarta de final como em 2018.

Podemos pensar na relação entre a operária seleção inglesa, de jogo simples e futebol de resultados, com as Porters originárias dos estivadores, diretas e retas, ou como diriam os bretões, “very straight forward”. É claro que sempre existem os medalhões como Harry Kane, o centroavante parrudo como uma Imperial Stout ou uma Barley Wine, e o garoto Phil Foden, destaque nessa copa com sua velocidade e inteligência, bem ao estilo das Bitters tradicionais, fáceis de beber em qualquer ocasião com aquela base de maltes “cookie like”, seus lúpulos florais e terrosos e baixo teor alcoólico. É pau para toda obra.

Como não falar da Alemanha e seu jeitão alemão de jogar, de obediência aos protocolos e muita competência na execução, e com capacidade de renovar seu quadro de jogadores com jovens prontos para fazer o que deles se espera? Em uma frase? Lei da Pureza. Tudo deve funcionar como uma máquina e vivenciamos isso com dores profundas em 2014.

É clássico como os estilos que representam essa escola tradicional e imortal de Pilsens, Helles e Lagers em geral. Assim como Franz Beckenbauer, Lothar Matthäus, Jürgen Klinsmann e Thomas Müller. Imortais. E não é tudo igual como alguns podem pensar: tem as Kolsh, fermentadas em temperaturas mais altas entregando notas frutadas sutis que lembram um Risling; as Weizen, feitas com uma proporção dominante de trigo e de alta fermentação; e as Gose, ácidas e salgadas. Mas que ninguém se engane pois até para isso tem regras rígidas e procedimentos seculares.

Mas nenhuma dessas esquadras chegou à final deste ano. Argentina e França vão decidir o Mundial neste domingo com seleções equilibradas, repletas de jogadores jovens e algumas figurinhas carimbadas mais experientes. São duas nações de pouca tradição no ramo e a preferência nacional de ambas no que diz respeito à cerveja talvez ainda seja a boa e velha Light Lager como uma Quilmes de litrão ou uma 1664, para matar a sede de um De Paul, que corre 10km por jogo, ou um Rabiot. E ainda tem o vinho, competindo nesse meio de campo embolado, com o status de grande produto nacional de exportação mundial.

Entretanto, novos projetos vêm surgindo nessas duas grandes nações. Na França, causa surpresa a quantidade de bares, brewpubs e cervejarias voltadas para o segmento artesanal, muitas inspiradas na vizinha escola belga e outras tantas nas americanas, além de muita cerveja pautada em acidez e frescor, talvez na esteira da expansão dos vinhos naturebas, excelentes lá por sinal. Mas ainda a única comparação possível é de Mbappé com um bom vinho francês: o rapaz só tem 23 anos e vai envelhecer bem demais.

Na Argentina, o mercado vem se desenvolvendo de forma muito diferente, com projetos pautados na maturação em barris e complexidade de microfaunas locais, do jeitinho que a gente gosta. Juguetes Perdidos, Klooster e Astor Birra exemplificam bem a pegada e entregam magia, assim como Lionel Messi, o grande maestro dessa orquestra argentina, que tem a maior chance de conquista do tri dos últimos anos en tu último tango.

Já para o Brasil faltou identidade. Faltou essa acidez gostosa das Catharina Sours que refrescam e entregam sabores nossos. Faltou levedura selvagem da Mantiqueira com aquela complexidade que vemos nas cervejas da Zalaz. Faltou o trabalho de conhecer a própria microfauna de suas barricas de madeiras nativas que a Cozalinda faz de maneira primorosa.

Hoje a cena cervejeira brasileira caminha para as cervejas de terroir, com identidade própria, respeito aos ingredientes locais, leveduras autóctones e uso de frutos e madeiras nativas. Vale citar aqui o projeto incrível da Manipueira, de caráter antropológico e que resgata tradições dos povos originários Se ainda não ouviu falar vale a pena pesquisar).

Faltou para a seleção canarinha o equilíbrio entre os craques da Premier League e outros campeonatos europeus como Vini Jr., Casimiro, Militão e Neymar, e os “ingredientes locais”, como Gabigols e Scarpas, que mereciam uma chance ou uma sequência, ou Pedro e Everton Ribeiro, convocados mas subaproveitados. Aí daria samba. Enfim, faltou Brasil.

Mas como não somos técnicos de futebol (ou somos todos técnicos como já disse alguém), o que importa é escolher quais as próximas garrafas de brasilidades que iremos abrir e compartilhar com os amigos durante os próximos 4 anos. Saúde que em 2026 o hexa vem!

*Gui Rossi é sommelier de cervejas, mestre em estilos, atual vencedor do Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas e proprietário do The Beer Market.

40 mi de litros migraram para cervejas especiais em 2022, estima CEO da CBCA

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Os passos são lentos, ainda dentro de um contexto em que muitos pequenos empresários não tiveram proteção em meio ao período mais grave da pandemia, mas o setor de cervejas artesanais avançou em 2022. E uma das estimativas é de que os consumidores foram responsáveis pela migração de 40 milhões de litros das principais marcas para as chamadas cervejas especiais.

A projeção foi apresentada ao Guia pelo CEO da Companhia Brasileira de Cerveja Artesanal (CBCA), Gustavo Barreira. Ele estima que o segmento de artesanais esteja se aproximando de uma participação de mercado de 3%. É, claro, pouco para as ambições de quem atua no segmento, mas também um indicativo de que há terreno a ser conquistado.

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“O mercado de cervejas especiais continua com sólido crescimento. Ainda não encerramos o ano, mas nossas projeções indicam que as especiais devem ganhar mais 0,3% ou 0,4% de participação no mercado total de cervejas no Brasil, se aproximando de 3% de participação. O número percentual parece pequeno, mas isso representa a migração de algo em torno de 40 milhões de litros dos produtos mainstream para as cervejas especiais”, afirma Barreira.

E a CBCA certamente tem a sua parcela de responsabilidade no aumento da participação das artesanais no mercado cervejeiro brasileiro. Afinal, fundada em outubro de 2018, quando da união entre Schornstein e Leuven, a companhia fez vários movimentos relevantes nos últimos meses.

Se em 2020 a CBCA já havia incorporado a Seasons, em 2022 ganhou um parceiro conhecido além do setor das cervejas, o Grupo Maubisa, fundado por Maurílio Biagi Filho, que se tornou investidor da companhia. E ainda passou a contar com mais uma marca e uma fábrica ao longo do ano.

Em junho, a CBCA anunciou uma fusão com a Startup Brewing, movimentou que a levou a passar a ter uma unidade produtiva em Itupeva (SP), se somando às de Pomerode (SC) e Piracicaba (SP), além de ter agregado a marca Unicorn.

Com tantas novidades, Barreira avaliou o ano como positivo para a CBCA, o que também se traduz em números, pois estima um crescimento de 60% da companhia na comparação com 2021.

Não foi, porém, um ano sem oscilações. E as principais, na visão do CEO da CBCA, se deram nos primeiros meses, ainda em função da pandemia, e no período eleitoral, por causa de incertezas advindas da disputa pelos votos.

“O ano de 2022 ainda foi de muita instabilidade, mas ainda assim conseguimos um crescimento importante. Nos primeiros meses, ainda houve impactos da pandemia, cancelamento de eventos e incertezas. Ao longo do ano, as perspectivas se tornaram mais otimistas com indicadores econômicos positivos criando um clima de maior estabilidade e disposição de novos investimentos, até chegarmos próximos das eleições, quando a polarização política trouxe novas instabilidades”, diz. “No final das contas, não recuamos e fizemos uma nova aquisição ainda no primeiro trimestre e mesmo com as dificuldades, crescemos 60% em relação a 2021”, conclui.