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Soluções, intercâmbio e brassagem feminina: como foi o congresso da Agrária

Uma parcela relevante e ativa da indústria cervejeira se encontrou na última semana, em Entre Rios, distrito de Guarapuava (PR). Foi lá onde a Agrária Malte realizou o Congresso Técnico Internacional, que, depois de duas edições online, voltou a acontecer de modo presencial, promovendo debates variados sobre produção da cerveja e seus ingredientes, assim como avaliações a respeito do mercado. Além disso, houve espaço para visitas às instalações da cooperativa e, de modo paralelo, para brassagem de uma bebida apenas com a participação de mulheres.

De acordo com os organizadores, cerca de 500 profissionais do encontro, um número recorde para as 13 edições do congresso, abarcando mais de 300 empresas atuantes dentro da indústria, com todos os perfis de cervejarias, das micro até as multinacionais presentes no mercado brasileiro.

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“O congresso foi uma oportunidade de desenvolvimento para quem participou, com a entrega de conhecimento técnico de qualidade. As pessoas chegaram com dúvidas e dores, mas saíram com soluções para melhorar os processos dentro das cervejarias. Os palestrantes estavam junto aos participantes esclarecendo dúvidas depois das suas apresentações. Com isso, o aprendizado acontecia em todos os momentos”, diz Alexandre Sierote, especialista de marketing da Agrária Malte.

Nos três dias de palestras, temas técnicos e vivenciados pelos profissionais na rotina das fábricas foram abordados, como turbidez, envelhecimento da cerveja, técnicas exóticas de mostura, biotransformação na produção, fermentação e formação de compostos sulfurosos, assim como se ressaltou a importância da segurança alimentar e a necessidade de adoção de cuidados para que ela seja cumprida.

Além disso, também houve espaço para relatos sobre novidades envolvendo ingredientes da cerveja, como programas de melhoramento de lúpulo e seu cultivo sustentável, assim como para a explanação de informações que influenciam nas decisões das companhias, como o impacto do mercado global sobre preços e acesso à cevada e ao malte.

Tendo apresentado a palestra “Filtrando cerveja sem perder a qualidade”, Lígia Marcondes, mestre cervejeira e professora da Universidade de Vassouras, no sul do estado do Rio de Janeiro, e da Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM), destaca a profundidade como os temas foram abordados no congresso. “Esse evento tem palestras de 1 hora e meia. Você só consegue passar conhecimento embasado com tempo. Temos tempo para falar, tirar dúvidas. É um detalhe que fez toda a diferença.”

Esse cuidado na abordagem de temas profundos também foi apontado como fundamental para o êxito do congresso por Carlos Ruiz, da HVG Lúpulos. “Temos um público muito heterogêneo, desde pessoas distantes da química da cerveja como outras com pós-doutorado nessa área. A ideia, então, é fazer com que seja compreensível para todos, para permitir que tirem mensagens para uso no dia a dia em suas cervejarias”, comenta.

Em uma novidade da edição de 2022 do Congresso Técnico Internacional, o encontro teve a realização de mesas redondas diárias. Elas abordaram os desafios atuais enfrentados no mercado cervejeiro e a cultura do lúpulo no país, além de relatos de histórias inspiradoras para quem empreende, relatadas por personagens icônicos do segmento.

“A ideia foi mostrar para o cervejeiro as razões para movimentos de mercado que estão acontecendo, colocando todos na mesma página. Tivemos preocupação em promover discussões amplas sobre temas do dia a dia, além de tocar as pessoas com boas histórias”, explica o especialista de marketing da Agrária.

Compartilhamento do conhecimento
Para além das palestras e debates, a interação, com a troca de conhecimentos, acabou sendo outra marca do Congresso Técnico, com parceiros e profissionais voltando a se encontrar após o hiato provocado pela pandemia do coronavírus, tendo a possibilidade de compartilhar experiências e buscar soluções.

“O congresso é uma forma de reencontrar, ter conversas nos stands e centro de convenções para falar das dúvidas sobre maltes e processos cervejeiros. Estamos disponíveis para falar com os clientes e responder aos questionamentos”, argumenta Alírio Caldeira, profissional da Weyermann, que realizou uma apresentação sobre metodologias de cálculo de cor e mosto da cerveja.

Foi, também, o que relatou Lígia. Ao mesmo tempo em que subiu ao palco para dar dicas sobre como filtrar uma cerveja, ela pôde adquirir conhecimento a partir da apresentação de outros palestrantes e de conversas que acrescentaram informações para a sua rotina profissional.

Vi explicações do que acontece na prática e tendências, como um kit de análise microbiológica que foi apresentado. Tem coisas novas que vi no congresso que vou levar para a minha vida profissional

Lígia Marcondes, mestre cervejeira e professora da Universidade de Vassouras

Para além do congresso
Em atividade paralela ao congresso, a semana em Guarapuava contou, ainda, com a brassagem de uma White IPA. Para isso, 12 cervejeiras se reuniram na Cervejaria Experimental da Agrária, onde fabricaram 250 litros da bebida, criada pela mestre cervejeira Ludmila Antoniazzi. A receita teve em sua composição os maltes Pilsen e de trigo da cooperativa.

No encontro, as profissionais compartilharam suas experiências dentro do setor cervejeiro, hoje predominantemente masculino, embora a presença feminina seja crescente – a organização do Congresso Técnico Internacional estima que ao menos 15% dos participantes da 13ª edição tenham sido mulheres.

“Estar em um local onde a maioria do público é masculino e poder conhecer essas mulheres fortes, que já lançaram cervejas muito reconhecidas pelo mercado, é algo muito inspirador”, diz a cervejeira Bruna Tristão.

A cerveja produzida por elas será comercializada na Festa da Cevada, que vai ocorrer em outubro, em Entre Rios, distrito de Guarapuava, onde está localizada a sede da Agrária. E o valor arrecadado vai ser revertido em produtos de higiene para mulheres em situação de vulnerabilidade.

Além disso, antes do início dos três dias de palestras e após seu término, a Agrária reservou a segunda (18) e a sexta-feira (22) para visitas técnicas à sua estrutura. Os participantes conheceram o Museu Histórico de Entre Rios, a Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária, a maltaria e a cervejaria experimental da companhia.

“Independentemente do congresso, a cooperativa gosta muito de compartilhar sua história e cultura. E nós vemos, nos eventos, uma demanda grande das pessoas querendo conhecer a estrutura da Agrária. Mostramos que tem muita ciência e história por trás das sacas de malte”, conclui Sierote.

Balcão do Profano Graal: Histórias de imigrantes – Os pioneiros da cerveja no Sul

Balcão do Profano Graal: Histórias de imigrantes – Os pioneiros da cerveja no Sul do Brasil

Nesta segunda-feira (25), se comemora o Dia da Imigração Alemã no Brasil, um país formado por imigrantes. E os imigrantes alemães estavam entre os primeiros a chegar ao país recém-independente, ainda em 1824. Como todo aquele que decide deixar para trás o seu país de origem, esses indivíduos eram atraídos pelas promessas de uma vida melhor, com prosperidade econômica e liberdade religiosa.

Os alemães formam o 4º maior contingente de imigrantes chegados ao Brasil, atrás apenas de italianos, portugueses e espanhóis. Foram cerca de 250 mil indivíduos que se mudaram para o País entre 1824 e 1969, sendo que, ao longo da primeira metade do século XIX, eles foram imigrantes quase exclusivos. A maior parte desse contingente foi se instalar nas províncias do Sul do País, onde o governo imperial, os governos provinciais ou mesmo companhias particulares de colonização estabeleceram colônias agrícolas, como as de São Leopoldo (RS), São Pedro de Alcântara, (SC) e Rio Negro (PR).

É inegável a importância desses indivíduos para a disseminação da produção de cerveja em território brasileiro. Um migrante pode até não carregar muitas malas consigo, mas ele levará sempre a sua bagagem cultural. E a produção e consumo de cerveja estão enraizados na cultura dos povos germânicos desde tempos imemoriais. Basta lembrar que o mais antigo vestígio arqueológico de produção de cerveja na Europa é uma ânfora datada do século VII a.C., encontrada em Kulmbach, na atual Baviera.

Por isso, como forma de homenagear os imigrantes alemães, nesse mês, quero falar da biografia de três desses pioneiros da cerveja no Sul do Brasil.

Começamos por George Heinrich Ritter (1822-1889), natural da cidade de Kempfeld, que chega ao Brasil em 1846, com 24 anos, acompanhado pelos pais e cinco irmãos. Nos anos iniciais, trabalhou como agricultor, mas depois de algum tempo abriu a primeira casa comercial de Linha Nova (RS). Ritter tinha aprendido o ofício de cervejeiro com seu tio Roth, na Francônia, e passou a produzir cerveja no sótão de casa para abastecer o seu negócio. E, em 1868, já como próspero negociante e líder comunitário local, fundou a sua cervejaria, a primeira da Província de Rio Grande do Sul.

Menos de um ano após chegar ao Brasil, George se casou com Elizabeth Fuchs (1827-1868), que conheceu ainda no navio que os trazia da Europa. Com ela, teve 9 filhos. Após a morte de Elizabeth se casou com Maria Margarethe Konrad (1828-1913), viúva do seu irmão Friedrich George Ritter (1822-1863), com quem teve mais dois filhos. Em 1883, com 61 anos, retornou para a Alemanha, com a esposa e os quatro filhos mais novos, deixando suas propriedades em Linha Nova aos cuidados dos filhos mais velhos.

Mas em 1889 resolveu voltar para o País onde fez sua vida, falecendo em Linha Nova em 13 de março daquele mesmo ano. Dois de seus filhos levaram adiante a tradição cervejeira da família, fundando importantes cervejarias no Rio Grande do Sul: Heinrich Ritter Filho (1848-1921), com a H. Ritter e Filhos, em Porto Alegre; e Karl Ritter (1853-1926), com a Cervejaria C. Ritter & Irmão, em Pelotas.

Natural de Nidau, na Suíça, o mestre cervejeiro Albretch Gabriel Schmalz, de 31 anos, sua esposa Margaretha Zenger Schmalz, de 32 anos, e seus cinco filhos receberam 1.750 francos de uma assembleia comunitária (espécie de organização política regional) e com esse dinheiro resolveram se transferir para o Brasil. Partiram do porto de Hamburgo em março de 1952 a bordo do navio Emma & Louise, e após 63 dias de viagem desembarcaram no porto de São Francisco do Sul (SC). A princípio, o plano de Schmalz era se instalar no Rio de Janeiro. Porém, chegou 15 dias atrasado ao porto e perdeu o navio. Sim, no século XIX, as pessoas não se atrasavam 15 minutos, mas 15 dias. A concepção de tempo era outra.

Sem conhecer a geografia local, imaginou que aportando no Sul seria mais fácil rumar depois para o Sudeste. Mas as dificuldades de locomoção existentes no Brasil de meados do século XIX foram logo sentidas e a família decidiu fixar raízes na região. Instalaram-se na Colônia Dona Francisca, fundada em 1849 pela companhia de colonização organizada pelo senador da cidade de Hamburgo Christian Matthias Schroeder, em terras pertencentes ao dote de casamento da princesa D. Francisca de Bragança (filha do imperador D. Pedro I) com o príncipe de Joinville, Francisco de Orleães (filho de Luís Filipe I, rei dos franceses de 1830 a 1848). Batizada em homenagem à princesa, pouco tempo depois a colônia mudaria de nome, passando a se chamar Joinville.

A família Schmalz adquiriu um lote na chamada Deustche Pikade, também conhecida como Matthias Strasse, que posteriormente virou rua Comandante Saturnino Mendonça e hoje é conhecida como rua Visconde de Taunay. Ali construiu sua casa e, com máquinas importadas da Suíça, aproveitando-se das águas do Ribeirão Mathias e utilizando o milho como insumo (na falta de cevada ou trigo), instalou a sua cervejaria, a primeira de Santa Catarina. Albretch Gabriel Schmalz faleceu apenas 10 anos depois, em 22 de dezembro de 1862. Sua esposa, com a ajuda dos filhos, passou a administrar a cervejaria até 1880, quando foi vendida. Sete anos depois, em 25 de maio, Margaretha morreu aos 67 anos.

Na Colônia Dona Francisca vivia também Johann Leitner, natural de Schwarz, no Tirol austríaco, chegado ao Brasil no navio Emma em 13 de janeiro de 1858, com 24 anos. Ainda em Joinville se casou com Marie Lenkt. O casal teve 8 filhos. Em 1868, mudaram-se para Curitiba, instalando-se na rua das Flores (atual rua XV de Novembro). Não se sabe muito sobre a vida de Leitner antes de chegar ao Brasil. Na lista de passageiros do seu navio foi registrado como “lavrador”, mas o jornal O Dezenove de Dezembro, na edição de 17 de abril de 1869, já o tratava como cervejeiro e com o seu nome “aportuguesado”: “Vinagre superior. Vende-se em casa do cervejeiro João Leitner – rua das Flores”. Naquele ano, então, já deveria estar em funcionamento a sua Fábrica de Cerveja Tivoli, a primeira de Curitiba. A boa aceitação da sua cerveja incentivou o surgimento de outras fábricas como as de Johnscher, Mensing, Weigang, Schulze, Fleischmann, Engelhart, Bengson e Iwersen.

Além da cervejaria, Leitner também abriu uma pensão na sua própria casa, segundo anúncio publicado no mesmo jornal O Dezenove de Dezembro em 1º de março de 1873: “Alugam-se três quartos com suas competentes alcovas, em casa do cervejeiro João Leitner podendo os alugadores tomar sua alimentação do mesmo dono da casa. Curitiba, 28 de Fevereiro de 1873”. O sucesso dos seus empreendimentos levou à abertura de um hotel já no ano seguinte:

“Ao hotel Leitner acaba de chegar um grande e variado sortimento de armarinho e modas, o que há de maior novidade e melhor gosto. Convida-se, pois, os Srs. negociantes e o respeitável público, que se dignem visitar este estabelecimento; porque tendo feito grande redução nos preços e sendo para liquidar, facilitará assim inteiramente as vendas”. (O Dezenove de Dezembro, 29 de abril de 1874)

Mas o empreendimento de Leitner no ramo hoteleiro não durou muito, pois o mesmo jornal anunciou a venda do hotel para Mostaert & Cia. em 12 de agosto de 1882. Johann Leitner morreu em 1891 e a fábrica passou para a responsabilidade de seus filhos Luiz e Julio. Eles deram continuidade ao trabalho de cervejeiro do pai, expandindo os negócios com a compra das instalações da fábrica de cerveja Johnscher & Irmão (falida em 1902), rebatizada de Cervejaria Tivoli e, depois, de Cervejaria Cruzeiro. 

Três homens, três origens diferentes, que partilhavam a mesma cultura germânica (ou quase), o mesmo amor pela cerveja e a mesma esperança de começar uma vida nova e próspera muito longe das suas regiões de origem. Apenas mais três imigrantes comuns entre outros 250 mil, mas que fizeram a diferença para a disseminação da cultura cervejeira no Brasil.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

A ousadia dos Schmalz. Swissinfo.ch. 27/12/2011. Disponível em: A ousadia dos Schmalz – SWI swissinfo.ch

ARQUIVO HISTÓRICO DE JOINVILLE. Listas de Imigrantes 1851-1902. Coleção Memória da Cidade Carlos Ficker. Prefeitura de Joinville, 1999.

COUTINHO, Carlos Alberto Tavares. Cervejaria Ritter 1 – Cervejaria Georg Heinrich Ritter. Cervisifilia: a história das antigas cervejarias. 28/09/2010. Disponível em: A História das Antigas Cervejarias: Cervejaria Ritter 1 – Cervejaria Georg Heinrich Ritter (cervisiafilia.blogspot.com)

COUTINHO, Carlos Alberto Tavares. Cervejaria Schmalz. Cervisifilia: a história das antigas cervejarias. 26/11/2011. Disponível em: A História das Antigas Cervejarias: Cervejaria Schmalz (cervisiafilia.blogspot.com)

COUTINHO, Carlos Alberto Tavares. Fábrica de cerveja João Leitner / João Leitner & Filhos / J. Leitner & Irmão / Luiz Leitner & Cia. / Tivoli / Cervejaria Cruzeiro / Viúva Luiz Leitner & Filhos. Cervisifilia: a história das antigas cervejarias. 22/04/2011. Disponível em: A História das Antigas Cervejarias: Fábrica de Cerveja João Leitner / João Leitner & Filhos / J. Leitner & Irmão / Luiz Leitner & Cia / Tivoli / Cervejaria Cruzeiro / Viuva Luiz Leitner & Filhos (cervisiafilia.blogspot.com)

DUARTE, Tiaraju Salini; LOURENÇO, William Martins; FONTANA, Guilherme. Origem, ascensão e decadência das cervejarias no Estado do Rio Grande do Sul: um recorte espaço-temporal do século XIX e XX. Caminhos de Geografia. Uberlândia – MG, v. 21, n 73, março 2020, p. 368-379.

GLASER, Niroá Zuleika Rotta Ribeiro. Famílias do velho mundo no comércio do Paraná. Curitiba: Editora Senac Paraná, 2011.

Imigração alemã no Brasil. Wikipedia: a enciclopédia livre. Disponível em: Imigração alemã no Brasil – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

KÖB, Edgar. Como a cerveja se tornou bebida brasileira: a história da indústria de cerveja no Brasil desde o início até 1930. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, 161 (409), 2000, p. 29-58.

SEYFERTH, Giralda. Imigração e colonização alemã no Brasil: uma revisão da bibliografia. Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais. Rio de Janeiro, vol. 25, 1988, p. 3-55.

SEYFERTH, Giralda. A dimensão cultural da imigração. Revista Brasileira de Ciências Sociais. V. 26, nº 77, Outubro 2011, p. 47-62.


Sérgio Barra é carioca, historiador, sommelier e administra o perfil Profano Graal no Instagram e no Facebook, onde debate a cerveja e a História.

Balcão Xirê Cervejeiro: 3 depoimentos sobre consumo e exclusão no setor

Balcão Xirê Cervejeiro: 3 depoimentos sobre consumo e exclusão no setor

Olá, seguidores/as e leitores/as do Guia da Cerveja, estou de volta ao balcão Xirê Cervejeiro e, desta vez, o consumir a cerveja é que conduzirá nossa conversa.

Nos últimos meses, o mercado cervejeiro estava em movimentação acerca das inovações tecnológicas voltadas aos insumos, ao fazer cervejas de qualidade – e isso é muito bom e positivo.

Mas, cada vez mais, ouvindo as pessoas, seja nas redes sociais ou em espaços dedicados a beber esse líquido que é paixão de muitos e muitas, a fala recorrente era de como o atendimento as aproximam ou afastam do consumo da cerveja.

Para quem me acompanha, sabe que sempre racializo todo e qualquer debate, e é necessário fazê-lo, sobretudo, em um país como o nosso, de maioria negra.

Optei nessa coluna em trazer sempre o olhar de pessoas racializadas para que elas mesmas pudessem utilizar a sua voz e dizer como é ser consumidor/a de cerveja, como elas se sentem nos espaços que frequentam. E fica aqui, desde já, para o mercado, atenção ao que eles e elas dizem.

Afinal, quando uma cervejaria contrata um/a cervejeiro/a, compra os melhores insumos, as melhores máquinas, desenvolve as melhores receitas, investe em marketing, logística, relações e estratégia, advogados/as, relações públicas, não é somente para colocar um medalha na estante do estabelecimento; é, sobretudo, para que a escolha cuidadosa do lúpulo, a correção bem feita na água, a seleção do melhor malte, da levedura ou da fruta a ser usada, que no decorrer do processo se transformará em uma deliciosa cerveja, é para que ela chegue às mãos das pessoas e que não vire somente uma fração monetária, a qual dará retorno para pagar fornecedores, colaboradores/as, o fisco e garantir algum lucro, sim; cerveja é arte, mas também é comércio e, para que as pessoas consumam, elas precisam sentir-se bem na seleção do produto, e isso, principalmente no campo das artesanais, tem feito com que consumidores/as sejam cada vez mais conscientes na escolha e de onde gastar seu dinheiro.

E, não só, ainda tem o fator de excludência que permeia o universo das artesanais. Somos um país continental e com múltiplas diversidades, e a cerveja também é múltipla e diversa, no entanto, esse diálogo que deveria ser natural não acontece, sobretudo porque se construiu no imaginário de quem faz ou, também, dos/as poucos/as que estão inseridos nesse nicho, que a cerveja artesanal é sinônimo de status e inacessibilidade. E o que deveria ser para todos e todas, fica restrito a uma bolha, a um espaço que só conversa entre si. Como fazer para sair desse espectro de seletividade e chegar ao copo das diversidades e multiplicidades de pessoas?

Não tenho a receita mágica, não existe um manual, mas há apontamentos trazidos pelos/as próprios consumidores/as, e penso que o melhor caminho é ouvi-los/as.

Nossa sociedade foi formada por séculos de colonização e ainda se carrega muito dessa política verticalizada, ou seja, de cima para baixo. A maioria pensa que sabe o que o/a consumidor/a de cervejas quer, mas nunca pergunta o que de fato quer, e não só, muitas empresas acreditam que a cerveja se vende sozinha, mas esquecem o fator humano. O produto irá se comunicar com pessoas e, mesmo sabendo que o tomar cervejas é sobre relações, essa ponte deve ser construída e com muito cuidado e respeito com aquele/a que irá consumir.

Como iniciei nossa conversa, recebo muito retorno de pessoas que me acompanham, falam o quanto passaram a ter uma relação com a cerveja, de como conseguem escolher um rótulo, como harmonizam suas cervejas com comidas, que nem sabiam que isso era possível, de perceberem que seu paladar evoluiu e como a atenção de determinados profissionais foram importantes para ampliar essa janela.

Dito isso, convidei três pessoas para falar sobre sua relação com a cerveja e, como vocês sabem, trago na íntegra o que elas escrevem. Aqui é uma conversa franca e sem filtro, horizontal, então vamos lá.

Nina Novaes, 40 anos, Salvador/BA, produtora audiovisual, consumidora e apreciadora de cerveja
“A cerveja artesanal passou a fazer parte de minha vida de uma forma natural e tranquila no ano pandêmico de 2020, para ser mais específica. Ano que se faz importante salientar a mudança comportamental dos brasileiros, seja pela necessidade de ficar em casa, seja pela falta do convívio social principalmente na vida de bares e botecos. Então, após me curar da Covid-19, perdi o paladar e a vontade de consumir as cervejas de prateleira vendidas em larga escala. Após conversar com uma sommelier negra, fui entendendo o universo e me sentindo segura, eu posso consumir, eu gosto, eu posso escolher sem ficar constrangida. Mas como obter conhecimento nos espaços que frequentava se a receptividade dos profissionais quando se trata de mulher e negra não era agradável? Sempre em tons irônicos ou de demonstrar um conhecimento que não me alcançava. Foi na reclusão pandêmica, estando em casa, que pude testar tons, sabores, cores, cheiros sem medo de ser julgada ou ridicularizada. Pronto, virei oficialmente consumidora de cerveja artesanal. O que mudou? Antes do fim do mundo, participava de eventos, buscava informações, mas sempre de forma tímida e insegura! Eu não relaxava e não havia prazer naqueles momentos por me preocupar com várias formas de julgamentos, como saber beber, falar da cerveja, entender, etc. Depois de me tornar uma pessoa segura, de conhecer outras pessoas pretas que consumiam e se reuniam virtualmente, aí o mundo ficou pequeno e cheio de possibilidades. Porém, é importante frisar que é um lugar de privilégio poder consumir alguns rótulos, pois a cerveja artesanal nunca foi de fácil acesso para a grande massa; ela sempre foi uma bebida elitizada e sempre houve um esforço de marketing para demarcar isso, assim como a vida toda achávamos que a origem da cerveja era alemã. Hoje consumo com prazer, com poder de escolha para o que estou sentindo no momento. Aprendi a cozinhar e a sentir experiências de sabores ao harmonizar com iguarias doces e salgadas. Outro recorte é que aqui em Salvador há dois fenômenos: quando você trabalha em botecos, ou você é o velho e tradicional garçom gente boa que só atende e sorri; ou você vai ser o sommelier ou o intendente cervejeiro, como gosto de chamar, que, ao atender o cliente branco, precisa demonstrar que entende menos e que a opinião dele ali não vale nada, ou fazer um esforço formal e técnico para provar a sua expertise no ramo. Quando esses intendentes pretos atendem outro preto, há uma linha de contato no olhar, depois um sorriso, e aquela felicidade em nos atender, em meio à tensão de ter que ficar atentos aos clientes brancos exigentes.

É, sim, tudo é um grande caos. Caso a gente não finja indiferença para tudo isso, enlouquece. O fato é que o nome cerveja artesanal já traz consigo um distanciamento popular. Agora também sabemos que a grande massa consome cervejas de prateleira, com valores que ultrapassam as ditas artesanais pela quantidade/volume consumida de forma recreativa exagerada. Mas por que temos que julgar o que é cerveja boa e de verdade quando sabemos que a melhor cerveja é aquela que cabe em nosso bolso, e que nos dá prazer em nosso lazer e vivências? Acredito que a rotulação da cerveja, e o marketing para público A/B/C, é o que torna a bebida não popular e não acessível. Ou seja, o vinho ele só é o vinho seco, tinto, suave, rose, de X região, etc , o que no popular é vinho caro, ou vinho barato, seja ele feito em processo em escala industrial ou artesanal. Para a cerveja, assim como o café, o que é distribuído em grande escala é uma espécie de mistura industrial e que, no final, a quantidade consumida enriquece a indústria cervejeira, e essa mesma indústria alimenta uma classe especifica com um produto melhor tratado e qualificado para o consumo.”

Thiago da Silva Oliveira, professor e escritor
“Beber uma cerveja feita por profissionais negros/as, primeiramente, me faz pensar em uma empresa que tem preocupação e compromisso com a diversidade. E que além do conteúdo, detalhes como rótulo, conceito e propaganda estão alinhados com o antirracismo. Em um mercado majoritariamente branco, é necessário buscar a equidade racial no país onde prevalecem mais pessoas negras. Acredito que trazer esse debate através da cerveja, que historicamente é uma bebida relacionada a encontros e diálogos, é uma ótima oportunidade. Hoje, eu quero ver mais cervejarias comandadas por pessoas negras. Isso não é só um detalhe, é um dos pontos principais para minhas escolhas do que consumir.”

Cléo Ramos, historiadora e produtora executiva
“Quando conheci a cerveja artesanal, minha percepção sobre cerveja mudou. Eu não gostava de cerveja, quase não bebia. Hoje sou uma consumidora frequente dessa bebida que agrega, socializa. Pesquisando sobre cheguei nos (nas) cervejeiros negros, então minha visão se ampliou e pude me senti incluída de verdade nesse meio que sempre foi elitizado, branco e masculino. Tenho acompanhando os debates em torno da produção e comercialização da cerveja artesanal e tenho ficando muito contente com o que vejo. Pessoas pretas produzindo, comercializando, consumindo um produto que é nosso. Digo isso porque descobri recentemente que a cerveja é africana e essa informação nos foi negada durante muito tempo – e ainda não é popularizada entre os nossos. Mas visualizo novos horizontes para esse mercado tão promissor que é o das cervejas artesanais, vejo o povo preto se apropriando dessa delícia de bebida e aproveitando ao máximo o que ela tem de bom, levando em conta as os limites do alcoolismo. que é muito sério.”

Ao receber os apontamentos de Nina, Thiago e Cléo, observei que suas falas se conectavam no que diz respeito ao acesso, a ter profissionais qualificados para auxiliá-los/as nas escolhas. E isso aponta ao nosso ponto de partida: a cerveja é um dos produtos mais magníficos que nossos ancestrais nos deixaram, mas é importante não nos esquecermos de que essa tecnologia ancestral, para existir, precisa conectar-se às pessoas. A cerveja só se faz em completo quando às mãos das pessoas.

Aline Silva, hospitality e mentora de hospitalidade, nos apontou que: “As pessoas podem frequentar certos lugares pelo status, pela boa gastronomia e pelo serviço, mas ela volta pela hospitalidade” (SILVA, 2022, p.203).

Cerveja é conexão, é ralação entre pessoas, é ponte de afeto, é o elo social entre várias comunidades. Ela não está restrita aos espaços cheio de pessoas iguais, como se fossem um bloco monolítico; cerveja é diversidade em todos os sentidos, cerveja não é elitista, ela deve abraçar todas as pessoas de forma natural e sem esnobismos. E, se o mercado realmente estiver disposto a conectar a cerveja às pessoas, precisa se colocar na posição de escuta, ouvir o que elas têm a dizer. Temos potencial para sermos imensos, basta não querer segregar. Estamos diante de uma geração que diz em alto e bom som: “se não me vejo, não compro”, então, que possamos cada vez mais, para além das máquinas, aprender a dialogar com as pessoas. Cerveja, diversidade e paridade também são tecnologias, tecnologias que aproximam o/a consumidor/a à cerveja e cerveja é, antes de tudo, vínculo.


Sara Araujo é graduada em Ciências Jurídicas, pela Instituição Toledo de Ensino (Bauru-SP), atuando na área de execução penal. É graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (PR), pós-graduanda em História da África e da Diáspora Atlântica pelo Instituto Pretos Novos do Rio de Janeiro, sommelière de Cervejas pela ESCM/Doemens Akademie e criadora e gestora do @negracervejassommelier.

O abraço partido: drama resulta em projeto para crianças com doenças

Fruto de uma iniciativa que foi inspirada em um drama familiar do seu idealizador, Gustavo Jorge, sócio-proprietário da Roquer Brewing Co., o recém-criado projeto Abraço Mágico chega para balançar o mercado cervejeiro. A ação tem o propósito de destinar parte do lucro com as vendas de várias cervejas, identificadas com um mesmo desenho de rótulo em comum, para instituições que realizam pesquisas e atendem crianças diagnosticadas com doenças sanguíneas. Hoje ele já conta com a adesão de 11 marcas e está unindo outros nomes em prol dessa causa nobre.

Gustavo Jorge, que também é sommelier de cerveja, apresentou essa novidade no último dia 5 de julho, menos de três meses depois de ter contato pela primeira vez com a Purpura Trombocitopênica Idiopática (PTI), uma das patologias do sangue que acometem crianças e adultos, assim como ocorre com a leucemia, o linfoma e outras enfermidades desta natureza.

Leia também – Cervejeiras se unem e lançam rótulo para celebrar respeito à visibilidade lésbica

E, para poder viabilizar essa ação solidária, o sócio-proprietário da Roquer Brewing Co., sediada em São Roque (SP), foi atrás de parceiros e agora continua em busca de outros, oferecendo como atrativo a participação neste projeto colaborativo no qual serão lançadas diversas cervejas, de estilo livre e receita própria de cada marca participante. Porém, com todas conectadas por meio de um rótulo padrão cuja arte traz um coração e o nome da campanha.

Além do lançamento destas bebidas, marcado para ocorrer a partir do dia 5 de setembro, o Abraço Mágico promete desenvolver outras ações, como a promoção de campanhas de doação de sangue e plaquetas, parte essencial dos tratamentos destas doenças, que são caros e dependem das doações às instituições para serem realizados em crianças atendidas por estas entidades.

Para saber mais detalhes sobre o andamento do projeto, o Guia entrevistou Gustavo Jorge, que celebra o fato de já ter conseguido fechar parceria com 11 marcas e revela os próximos passos almejados pela sua campanha, como, por exemplo, alcançar nos próximos meses a adesão de um total de 20 cervejarias.

“Eu penso que é um número que já seria bem bacana porque a ideia do projeto não é só destinar parte do valor das vendas, que já é uma ajuda muito significativa, mas fazer outras ações. Estamos desenhando uma ação aqui em São Roque para abastecer bancos de sangue da região, estamos em contato com as instituições, já fechamos com algumas e iremos divulgar a lista”, conta o sócio-proprietário da Roquer Brewing Co., para depois explicar que cada cervejaria poderá optar por ceder recursos a serem direcionados pela campanha ou buscar diretamente uma instituição que trate das crianças.

Um mesmo coração para todos, só diferenciado pelas cores
Gustavo Jorge também detalha como o seu projeto está disponilizando, gratuitamente aos participantes, a arte padronizada dos rótulos das cervejas que serão lançadas. Destaca, ainda, que há a opção da escolha de cores para o desenho do coração no qual é exibido o nome Abraço Mágico. O fato tornará mais fácil a identificação de cada marca que aderiu à campanha e ainda ajudará no gerenciamento destes produtos nos locais onde forem comercializados.

“Antes de lançar a ideia conversei com parceiros para ter o feedback e a impressão inicial. E isso foi muito importante, pois trabalhamos alguns pontos que foram trazidos da experiência de outros projetos semelhantes. Por exemplo, buscamos ter o padrão da arte, para dar unidade à ação. Mas, para ter uma diferenciação que vai ajudar a diferenciar cada cervejaria no ponto de venda, foi feito um estudo de cores. Cada cervejaria que adere ao projeto recebe um número e escolhe uma cor dentre as sugeridas”, destaca Gustavo.

E ele assegura que a Roquer Brewing Co. não está tendo “nenhum tipo de benefício” financeiro ao ceder a arte e ao criar o site do projeto, o roquer.com.br/abraco-magico, no qual as instruções para aderir à campanha são solicitadas com o preenchimento de um pequeno cadastro. As 11 cervejarias já inscritas são as seguintes: Avós, Brewto’s, Cerveja Calmaria, Curandeira, Dádiva, Lithos, Nkoz, Orbita, Salva, Samaúma e Thanks Brewing.

Clique aqui para conhecer o site do projeto

“Foi tudo desenvolvido por mim, que quis abraçar cada detalhe desse projeto, ter uma sensibilidade em cada ponto. Quando trabalhamos com terceiro setor é muito delicado essa questão de exposição e algumas pessoas entenderam errado que está se buscando um benefício próprio, mas temos de focar no propósito maior, que é quem vai ser beneficiado lá na ponta: as instituições que levam o cuidado para essas crianças”, completa o criador da campanha.

O drama que inspirou o projeto
Iniciado de forma promissora, o projeto Abraço Mágico foi criado tendo como fonte de inspiração um grande drama familiar vivido recentemente por Gustavo Jorge, que contou como acabou perdendo a sua filha Lala, de apenas 5 anos, menos de dois meses após a menina começar a apresentar manchas roxas na pele e ter recebido um diagnóstico inicial de  Purpura Trombocitopênica Idiopática (PTI), no dia 22 de abril. Nesta data, ela foi internada com urgência em um hospital de São Roque depois de exames detectarem que o seu sangue estava com apenas 3 mil plaquetas (o padrão normal é de 200 a 400 mil).

Lala foi transferida para uma unidade de saúde em Sorocaba, onde ficou internada, melhorou e ganhou alta ao atingir 74 mil plaquetas, em 2 de maio. E, no dia 5, este número subiu para mais de 400 mil e ela foi liberada até para retornar à escola. Porém, voltou a apresentar queda nos níveis deste índice sanguíneo, realizou outros tratamentos e exames, sendo que em um deles, no dia 27, sofreu convulsões e uma tomografia indicou um edema cerebral. Encaminhada para a UTI, ela teve morte encefálica em 5 de junho.

“Essa rotina do hospital e o contato com crianças em tratamento e as famílias me fizeram pensar em começar a desenhar o projeto. No processo do luto precisei buscar ações que me dessem força pra continuar sem a Lala filha, melhor amiga e companheira. Fazíamos tudo juntos. Então desenvolver o projeto em que eu conseguisse de alguma forma transformar a dor da perda em um propósito maior que ajudasse outras crianças é o que motivou a iniciar o Abraço Mágico”, revela Gustavo Jorge, que batizou a ação com o nome de uma prática carinhosa que tinha com a filha, agora homenageada.

“Abraço Mágico era o que eu fazia para minha filha, desde os primeiros passos, quando ela se machucava e eu dava um abraço. E fazia ela me apertar bem forte para a ‘magia’ acontecer e passar a dor dela para mim. Sempre funcionava. Agora podemos proporcionar um Abraço Mágico para outras crianças”, enfatiza Gustavo, que ainda lembrou de uma triste coincidência que motivou as datas do calendário do projeto.

“Ela fez a passagem dela em 5 de junho, o Dia Nacional da Cerveja. Por isso, o lançamento da campanha foi um mês depois e o lançamento das cervejas está previsto para o dia 5 de setembro”, revela. “É um legado para a Lala, que ficaria feliz com tudo isso. É o que me motiva hoje.”

Menu Degustação: Festival Tereza de Benguela, sustentabilidade na Rodada…

O mês de julho é marcado por datas simbólicas que têm servido de inspiração para uma intensa programação das cervejarias artesanais. O 1º Festival Tereza de Benguela Cervejeiras, por exemplo, aproveita a celebração do dia 25 de julho e destaca a importância da mulher negra no Brasil. Na data, celebra-se o Dia da Mulher Negra Latina-Americana e Caribenha e da líder quilombola Tereza de Benguela.

Já o Zé Delivery usou o Dia do Futebol, celebrado em 19 de julho, para oferecer descontos exclusivos no aplicativo. Por outro lado, o inverno continua inspirando a realização de eventos, como o 21º Festival de Inverno de Paranapiacaba, que terá a presença da Cervejaria Madalena. E, pensando em ações sustentáveis, a cervejaria Rodada criou um interessante sistema de tratamento de efluentes.

Confira essas e outras novidades do setor no Menu Degustação do Guia:

Festival Tereza de Benguela Cervejeiras
O 1º Festival Tereza de Benguela Cervejeiras contará a história de mulheres pretas do setor e suas conquistas. Também mostrará as múltiplas vozes que compõem a narrativa dentro de um ecossistema especialmente branco e heteronormativo, como o da cerveja. O projeto Tereza de Benguela foi desenvolvido por Danielle Lira, sócia-fundadora do Torneira Bar, por Daniele Souza, da Omi Odara, e pelas cervejeiras Adriana Santos, Cinara Gomes e  Sara Araújo. Com patrocínio da Spaten, o evento acontece no dia 23 de julho a partir das 14h, no Torneira Bar, na Vila Madalena (SP).

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Aceleradora 100+
Programa da Ambev, a Aceleradora 100+ anunciou os 20 negócios selecionados para a 4ª edição do programa de inovação aberta, voltada ao desenvolvimento de soluções sustentáveis e inovadoras. As startups agora partem para a etapa de Intensive Learning, processo com oito semanas de duração, em que os(as) empreendedores(as) passarão por workshops sobre temas relevantes para o desenvolvimento do negócio e refinamento das suas propostas de piloto. Após essa fase, haverá uma nova seleção, em que serão definidos os negócios que avançam para a etapa de implementação dos pilotos.

Sustentabilidade na Rodada
A cervejaria Rodada, de Luís Eduardo Magalhães (BA), tem investido em sustentabilidade. Em sua fábrica, a marca possui um sistema de tratamento constituído por um processo físico-químico, seguido de um processo biológico. Trata-se da ETE – Estação de Tratamento de Efluentes, em que os resíduos líquidos da cervejaria são tratados e usados para irrigação, permitindo seu lançamento no curso d’água de forma a reduzir o impacto ambiental gerado. E os resíduos orgânicos do malte são usados para tratamento de animais de pecuária. “A conscientização ambiental é possível com a percepção e entendimento do real valor do meio ambiente nas vidas das pessoas. O que para muitos é considerado lixo, para a empresa, os efluentes são utilizados diminuindo os riscos ambientais e, consequentemente, ajudando a sociedade”, conta Rui Gengnagel, sócio-presidente da cervejaria Rodada.

Festival de IPAs
O Porks vai fazer um festival especial só para as IPAs nos dias 20, 21 e 22 de julho. Quatro cervejarias foram convocadas para desfilar suas criações no tepping das três unidades em Belo Horizonte (BH). As cervejas serão a Syrena, da Verace, a Kashimir English, da Kud, a Melon Collie e a Diesel, da Capa Preta, e a Rancor, da Krug.

Festival com a Madalena
A Vila de Paranapiacaba, em Santo André, recebe neste fim de semana a 21ª edição do Festival de Inverno. Organizado pela Prefeitura de Santo André, o evento retorna após dois anos de interrupção por conta da pandemia da Covid-19 e acontece nos dias 23 e 24 de julho, das 10h às 20h. Entre as atrações, o público pode conferir apresentações musicais, de dança, teatro, literatura, shows itinerantes, exposições e, claro, muita cerveja, como é o caso da Madalena.

Zé Delivery
Para comemorar o Dia do Futebol, celebrado em 19 de julho, o Zé Delivery resolveu trazer durante toda a semana descontos e ofertas exclusivas para torcer em casa. Até o dia 24 de julho, o aplicativo estará com descontos, frete grátis e combos exclusivos. E, para reforçar esse time, os influenciadores do grupo Desimpedidos, Podpah, Rafa Kalimann e Jacques Vanier serão os encarregados de divulgar as promoções nas redes sociais.

Everbrew em evento da Unesco
A Everbrew marca presença na 14ª Conferência Anual da Rede de Cidades Criativas da Unesco, entre 21 e 24 de julho, em Santos. Com vasta programação cultural e gastronômica, o hub, que reúne representantes de diversos lugares do mundo, discute experiências e informações sobre cultura e economia criativa no contexto urbano. É a primeira vez que ele será realizado em uma cidade da América Latina.

Central da Cerveja
Além das garrafas e latas, a Central da Cerveja agora oferece a facilidade do cliente escolher barris de chope e receber na localidade que precisar. Para isso, basta se cadastrar no site e escolher o estilo desejado e a quantidade de litros necessária. Os itens como chopeira, extratora e cilindro de CO2 não acompanham o barril. O prazo de entrega pode variar dependendo da distância da cervejaria escolhida.

Museu da Cerveja
Latas, rótulos, canecas e maquinários: quem quiser ceder estes e outros itens pode fazer o cadastro online e oferecer suas peças ao Museu da Cerveja de Blumenau (SC), espaço que vai oportunizar ao público conhecer a história, as tradições e o conhecimento da cidade. Outras peças também podem ser cadastradas para avaliação através do site oficial. O Museu da Cerveja foi inaugurado em 1996 e, em 2021, foi concedido à iniciativa privada. O espaço será aberto ao público no segundo semestre de 2022, com reformas na estrutura anterior, ampliação de espaços e uma experiência de visitação completamente nova.

Das Bier no inverno
As cervejas, principalmente as artesanais, têm ganhado espaço à mesa durante o inverno. “É o momento ideal para o consumo de cervejas mais encorpadas e com um teor alcoólico mais acentuado, pois trazem aquecimento. Além disso, essas bebidas tendem a ser adocicadas e harmonizam com pratos salgados e doces mais gordurosos”, destaca Eduardo Rausch, mestre cervejeiro da Das Bier Cervejaria. Na cartela de produções da marca, dois rótulos se enquadram no estilo “me aqueça neste inverno”. Uma é a Stark Bier, uma Strong Scotch Ale com 8,3% de teor alcoólico e 38 IBUs. E a outra é a Stout, do estilo Foreign Extra Stout, com 8% de teor alcoólico e amargor de 33 IBUs.

Apoio para ida a concurso
A parceria firmada entre o Concurso Brasileiro de Cervejas (CBC) e o Brussels Beer Challenge, da Bélgica, toma forma com a criação de um hub oficial no Brasil, formado entre a Associação Blumenauense de Turismo, Eventos e Cultura (Ablutec) e a Father Estratégias Internacionais. Assim, para as cervejarias brasileiras interessadas em participar do evento europeu, foram criadas uma cartilha de orientações com as regras de envio das mostras. O prazo das entregas é até 19 de agosto, em endereços em Blumenau e São Paulo.

Fest Tour Everbrew
O Fest Tour Everbrew comemora o mês do rock em julho, com festa open bar regada a cerveja e petisco. Em sua quinta edição, o evento acontece no dia 30 de julho na fábrica da cervejaria, no antigo Mercado Municipal de Santos das 15h às 18h. Havará copo exclusivo para saborear os chopes à vontade, flash tattoo e som ao vivo com Ton Cremon e Bira Aguiar.

Só safra melhor ou menor demanda reduzirá pressão sobre cevada, diz especialista

A escassez de cevada e malte no mercado brasileiro de cervejas, algo que pressiona os preços dos insumos, só irá ser resolvida se fatores que possuem a influência direta da macroeconomia global, de conflitos geopolíticos e das condições meteorológicas se modificarem.

A avaliação foi apresentada por Alexandre Karkle, responsável pela originação de grãos e gestão de risco da Cooperativa Agrária, nesta quinta-feira (20), no último dos três dias do Congresso Técnico Internacional, promovido pela Agrária Malte, em Guarapuava (PR).

As influências macroeconômicas e meteorológicas são necessárias, pois, na avaliação de Karkle, os fundamentos da cevada e do malte estão em alta, só podendo se alterar caso as próximas safras sejam melhores ou que ocorra uma queda na demanda por esses insumos ou mesmo em caso de freio no consumo.

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Para ele, porém, os cenários aventados não parecem próximos de se tornarem realidade, lembrando que adversidades têm atrapalhado a safra da cevada em regiões importantes do mundo, como a Europa e a América do Norte. Por isso, em sua visão para aumentar a quantidade de cereal disponível, é necessário que não ocorram problemas que têm sido vistos nos últimos anos.

“O que precisa é não ter quebras de safra. A Europa está no terceiro ano de dificuldades na produção e precisa ter uma boa safra, assim como a Argentina e a Austrália, além da América do Norte. Ucrânia e Rússia também precisam se resolver e voltar para a economia global. Tendo isso, já ajudaria muito”, diz Karkle.

Não é, porém, o que tem acontecido, como lembra o especialista da Agrária Malte, apontando como a demanda vem sendo, rotineiramente, maior do que a produção de cevada.

Faz seis anos que a produção de grãos no mundo é menor do que o consumo. Isso explica o aumento dos preços dos alimentos. O mundo está consumindo o estoque do passado

Alexandre Karkle, especialista da Cooperativa Agrária

E o cenário não parece dos mais promissores no continente europeu, que tem sofrido, nas últimas semanas, com uma onda de calor. “A safra de primavera, que é a mais importante para nós, está pior do que se esperava na Europa, com menos produção do que em 2021. Porém, a qualidade está melhor do que nos dois anos anteriores.”

O especialista da Agrária Malte também não acredita em um cenário de recessão global, ao menos no curto prazo, ainda que a inflação e o conflito entre Rússia e Ucrânia estejam dificultando a realização de previsões.

“A conversa sobre recessão é recente. A economia mundial estava se recuperando, havia um cenário de consumo forte, o que está acontecendo na Europa, deve acontecer na Ásia, além do Brasil, no segundo semestre. Não vejo a demanda caindo no curto prazo”, aponta Karkle.

Alguns sinais trocados, porém, têm sido citados por analistas, que apontam a possibilidade de um freio na economia ocorrer diante do cenário de inflação global, o que vem levando bancos centrais a aumentarem as taxas de juros. E a estratégia para frear a alta de preços pode, também, causar queda do consumo.

Outro problema que pode ser provocado pela alta dos juros globais é a desvalorização do real, com investidores internacionais deixando de aplicar dinheiro em outra moeda no Brasil para aproveitarem os melhores rendimentos oferecidos pelo país. E o custo do dinheiro, assim, tenderá a aumentar para as empresas.

Mas fato é que o cenário global se tornou mais complicado com a invasão da Ucrânia pela Rússia no fim de fevereiro, o que provocou, de imediato, ondas inflacionárias, especialmente nos preços de commodities e nos valores dos fretes marítimos.

Até o início do conflito, 20% da cevada no mundo era produzida por Rússia e Ucrânia, países responsáveis por 30% da exportação. “Essa guerra está longe de acabar e pode continuar trazendo consequências para a nossa vida diária, através da inflação energética, de alimentos e de outras matérias-primas, afetando especialmente a Europa”, alerta Karkle.

Além disso, a guerra provocou alta dos preços da energia na Europa, o que afetou diretamente as maltarias, já pressionadas pelo crescimento da demanda. Afinal, em função da pandemia, não se formaram estoques no período mais crítico da pandemia. E a procura continua elevada, seja pela premiumização do mercado global de cervejas ou pelo recente aumento do consumo no continente europeu.

As maltarias estão, em geral, com utilização da capacidade acima de 90% na Europa Ocidental, Oceania, América do Norte e do Sul

Alexandre Karkle, especialista da Cooperativa Agrária

A boa notícia para quem produz cerveja, porém, pode ser a resiliência do consumo. Citando dados da crise do subprime, quando houve alta na margem de lucro das cervejarias em 2009 e 2010, ele avalia que o setor tende a resistir a novos desafios.

“A história recente indica que o consumo de cerveja tem se mostrado relativamente resistente às crises e à pressão inflacionária”, garante Karkle. “Para 2022 havia expectativa de forte recuperação, mas veio inflação e guerra. Ainda assim, o consumo não caiu de modo pesado.”

Outras abordagens
Além da palestra sobre o cenário global da cevada, do malte e da cerveja, o último dia de palestras do Congresso Técnico Internacional da Agrária Malte contou com abordagens que podem ser aplicadas pelos fabricantes da bebida no dia a dia, além de outras avaliações mercadológicas.

Em sua apresentação, Tom Shellhammer, da Lallemand, tratou do processo de biotransformação no processo cervejeiro. E, em outra palestra internacional no congresso da Agrária, Ben Souffriau, da AB Biotek, falou sobre fermentação e formação de compostos sulfurosos.

Os debates do Congresso Técnico Internacional foram encerrados com uma mesa redonda que teve as participações de Teresa Yoshiko, dos Lúpulos Ninkasi, Marcos Stefanes, presidente da Aprolúpulo, e de Carlos Ruiz, da HVG. Eles falaram sobre o cenário e as perspectivas para o lúpulo brasileiro, comparando o seu contexto com o cultivo no cenário europeu.

À espera da alta, cervejarias miram multinacionais, finanças e novos mercados

O segundo semestre, que certamente ficará marcado na sociedade pela realização de eleições no Brasil e da Copa do Mundo no Catar, traz otimismo para a indústria cervejeira, na expectativa de crescimento do mercado, também estimulado pela injeção de recursos na economia pelo governo federal. A expectativa positiva, porém, vem acompanhada de certo receio, pois a alta dos custos tem exibido resiliência, o que atemoriza as cervejarias artesanais, ainda tentando equilibrar as finanças. E, em busca por saídas, ainda avaliam investir em novos mercados.

O desafio da alta das despesas com a produção é conhecido, com as marcas mirando soluções, em um balanço entre preço ao consumidor, margem de lucro ameaçada e possibilidade de perda de mercado. Cautelosas e com as finanças ainda em recuperação dos efeitos da pandemia, algumas marcas optam por acompanhar movimentos de outras cervejarias.

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É, por exemplo, o caso da Ravache. Empresa do Grupo Refrigerantes Convenção, a marca afirma ter incorporado boa parte dos custos surgidos nos últimos anos, mas, em alguns casos, replica as altas nos preços definidos pelas grandes cervejarias, mesmo que elas concorram por públicos diferentes.

A gente não consegue repassar os custos. Hoje, por exemplo, estamos sofrendo com escassez e alta do CO2. Se for repassar tudo que se recebe de aumento, você está fora do mercado. O Grupo Convenção segue os passos das grandes cervejarias, mas absorve a maioria dos custos

Gustavo Assani, mestre-cervejeiro da Ravache

Os desafios econômicos e de mercado encarados pelas cervejarias foi o tema da mesa redonda que fechou a quarta-feira (20) na 13ª edição do Congresso Técnico Internacional da Agrária Malte, que acontece nesta semana em Guarapuava (PR).

Seguir as grandes cervejarias, aliás, não é passo dado apenas pela marca do Grupo Convenção. A NewAge Bebidas, que tem a Wienbier e a Pabst Blue Ribbon como destaques do seu portfólio, também admite acompanhar os movimentos de Ambev e Grupo Heineken. Porém, vê as gigantes com muito mais alternativas para lidar com os preços.

“Quando sabemos que a Ambev vai aumentar, também mexemos nos nossos preços. Mas se você observar, a Duplo Malte não muda de preço há anos”, diz, em tom bem-humorado, Fabio Violin, proprietário da NewAge.

Além disso, as cervejarias precisam lidar com a sempre difícil negociação de reajuste de preços com parceiros, seja de bares ou mesmo do varejo, enquanto buscam recuperar o poder de investimento e as finanças. É o que relata Rodrigo Veronese, mestre-cervejeiro da Leopoldina, que teve dificuldades para alterar os valores cobrados pelas cervejas na primeira metade do ano e, ainda assim, já estima uma nova alta, no segundo semestre.

“Passamos o aumento da tabela em fevereiro, mas houve pontos de venda que não aceitaram. Então, negociamos, com a nova tabela só sendo aprovada agora. Já precisaremos de um novo repasse no segundo semestre, porque a estrutura não consegue absorver a alta do preço do vidro – ou perderemos fluxo de caixa. Precisamos agregar valor ou a conta não fecha”, argumenta Veronese.

Diante das adversidades, para os especialistas, resta o recurso das cervejarias reverem seus custos de produção, com o intuito de unir manutenção da margem de lucro com um preço competitivo. “Tem formas de se fazer. É preciso reduzir o custo com algumas alternativas industriais, que às vezes não são tão conhecidas ou óbvias. A partir disso, você pode buscar subsidiar uma negociação de venda”, defende o consultor Rogério Wonrath.

Novo cenário e produtos?
Enquanto precisam equilibrar receitas e despesas, o setor cervejeiro aspira um segundo semestre alvissareiro, como argumenta Alexandre Karkle, especialista em cevada da Agrária Malte.

“O governo vai injetar R$ 220 bilhões na economia, direta ou indiretamente. Minha expectativa é de que isso venha para o mercado. E ainda tem Copa e eleições, com um clima relativamente quente. Lá fora, já se percebe um apetite grande por cerveja na Europa, pois as pessoas ficaram muito tempo entocadas em casa”, destaca Karkle.

O problema, contudo, pode estar logo à frente, pois a injeção de recursos pelo governo federal, com claro intuito eleitoreiro, deve cobrar seu preço em breve na macroeconomia. “Há uma brincadeira em que se diz que ano par é bom, já ano ímpar é ruim. Então, esse vai ser bom, mas o próximo será ruim, porque será preciso pagar esses R$ 220 bilhões”, alerta Fabio Violin, da NewAge.

Confira o Guia Talks com o diretor comercial da Agrária Malte

Na tentativa de encontrar saídas para a crise, intensificada durante a pandemia do coronavírus, algumas marcas artesanais buscaram se transformar em indústrias de bebidas, com a ampliação do portfólio. Opções como gin e ice são vistas como alternativas interessantes por alguns profissionais.

“Tem muita gente investindo alto no volume de ice em long necks em São Paulo”, relata Gustavo Assani, da Ravache. “Na NewAge, produzimos 35 SKUs de gin. Temos clientes que dobraram as vendas nessa categoria”, acrescenta Violin.

Há alertas, porém, sobre os riscos envolvidos na decisão de seguir tendências de mercado com características diferentes daquelas do Brasil, como a própria NewAge aprendeu na prática. “A experiência no Brasil é diferente. Enveredamos no hard seltzer antes da pandemia e só tivemos prejuízo. Não volto mais. Fico chateado por ter cometido um erro tão grande”, relata o executivo.

Assim, a lição para as cervejarias é a necessidade de ter a operação bem estruturada, antes de buscar novos saltos, sob risco de complicarem as finanças.

O que vejo é que dar tiros em vários produtos tem seus riscos, com, por exemplo, estocagem de matéria-prima e investimentos. É preciso estudar antes. Tem muita tarefa de casa para ser feita ainda, com investimentos na produção cervejeira. Uma nova bebida pode até atrapalhar

Rogério Wonrath, consultor

Após investir R$ 130 milhões, Ambev zera emissões de carbono de mais 3 unidades

A Ambev deu um importante passo em suas metas de sustentabilidade. Nesta terça-feira, a companhia anunciou que neutralizou as emissões de carbono em mais três de suas unidades: a Arosuco Aromas, em Manaus (AM), a Cervejaria Minas Gerais, em Juatuba (MG), e a Refrigerantes Curitibana, em Almirante Tamandaré (PR).

Dessa maneira, por ano, elas deixarão de emitir mais de 4.800 toneladas de gases de efeito estufa comparado com 2017.

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A companhia ainda informou que atingiu “mais da metade da meta para este ano, ainda no primeiro semestre”. A expectativa, agora, é de que mais quatro unidades da Ambev tenham as emissões de carbono neutralizadas até o fim de 2022.

Antes de completar a neutralização de carbono das três novas unidades, a Ambev anunciou no ano passado a sua primeira grande cervejaria e maltaria carbono neutro no Sul do Brasil. No início de 2022, por sua vez, a companhia zerou as emissões de carbono na unidade de Agudos, no interior de São Paulo, e na unidade de Cachoeiras de Macacu, no Rio de Janeiro.

Para alcançar tais resultados, a companhia investiu mais de R$ 130 milhões em tecnologia sustentável e limpa em suas operações nos últimos cinco anos. A estratégia faz parte de “um plano macro, com frentes voltadas para a ação climática, gestão de água, agricultura inteligente e embalagem circular”, conforme descreve a Ambev.

No caso específico das unidades de Arosuco Aromas, Cervejaria Minas Gerais e Refrigerantes Curitibana, todos os processos industriais foram aperfeiçoados, incluindo a instalação de motores e equipamentos de alta eficiência e recuperação térmica para reuso de energia e a otimização de modulação de programação para melhores cenários de eficiência de consumo.

“Estamos terminando o primeiro semestre de 2022 com mais da metade da nossa meta para este ano cumprida. Esse resultado é significativo e reflete os nossos compromissos com a sociedade e o meio ambiente, além dos nossos investimentos e empenho em firmar parcerias para avançarmos na utilização de energia limpa. Não vamos parar por aqui”, destaca Renata Van Der Weken, diretora de Meio Ambiente e Energia da Ambev.

Como filtrar cerveja sem perder a qualidade: confira um passo a passo

Filtrar ou não uma cerveja? A pergunta, que nem existia antes da eclosão da revolução provocada pelos rótulos artesanais, hoje levanta debates e, principalmente, preocupações em função do risco de se perder a qualidade do que está sendo fabricado por eventuais erros cometidos durante a realização do processo ou mesmo pelas suas características.

Fato, porém, é que a bebida filtrada tem seu espaço com o consumidor, tanto que os rótulos mais vendidos no mundo passam por esse processo, assim como parte do público não enxerga com bons olhos – ou saboreia – uma bebida mais turva. Se há uma demanda, assim, é preciso saber como filtrar uma cerveja.

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Para garantir que a bebida que sairá do filtro é de qualidade, o profissional que realiza esse processo em uma indústria precisa estar atento a uma série de fatores, sendo fundamental o conhecimento sobre a turbidez da bebida maturada, a quantidade das células em suspensão, a temperatura da cerveja, o controle do oxigênio e a dosagem do auxiliar filtrante.

Os cuidados com cada um desses fatores durante o ato de filtrar foi o tema da apresentação de Ligia Marcondes, mestre cervejeira e professora da Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM), nesta terça-feira (19), no primeiro de três dias de palestras e debates da 13ª edição do Congresso Técnico Internacional, promovida pela Agrária Malte, em Guarapuava (PR).

Passos da filtração
Uma cerveja tem diversas fontes de turbidez, sendo a principal delas as células de levedura. Em menor proporção, proteínas, polifenóis – quando combinados com as proteínas – e carboidratos também são responsáveis por essa condição, assim como, em alguns casos, o lúpulo, caso tenha sido feito o dry-hopping. Para saber o nível de turbidez provocado por esses fatores, recomenda-se a utilização de um turbidímetro – o equipamento é considerado essencial porque ter o conhecimento exato sobre a turbidez da bebida será fundamental para a tomada de decisões ao filtrar a cerveja.

E otimizar o processo também passa por realizá-lo com a cerveja na temperatura ideal. Ela seria muito próxima de 0ºC, mas é preciso adotar cuidados. “A cerveja deve ser filtrada em uma temperatura acima do ponto de congelamento. Quanto mais alcoólica, mais baixo o seu ponto de congelamento, o que pode provocar o risco de congelar até o filtro”, alerta Ligia.

Tudo, porém, é uma questão de ponderação. “O problema de filtrar a cerveja acima de 0ºC é que a proteína e o polifenol vão se encontrar depois”, acrescenta a mestre cervejeira e professora da ESCM.

Além disso, é preciso estar atento às células em suspensão, que dependem da temperatura utilizada, de preferência próxima de 0ºC, assim como do tempo de guarda fria. “O parâmetro para a cerveja centrifugada é abaixo de 10³ de células/ml. Já para não centrifugadas recomenda-se que seja menor ou igual a 10⁶ de células/ml.”

Mas nenhum fator preocupa mais quem faz a filtração do que a possibilidade de incorporação de oxigênio ao processo produtivo. Para evitar esse risco, três ações precisam ser adotadas: não puxar ar quando acabar a cerveja no tanque que está sendo filtrado; usar gás carbônico para contrapressão no tanque de recebimento de cerveja e no que está sendo filtrado; borbulhar e manter uma atmosfera de gás inerte no tanque de dosagem de terra.

Confira o Guia Talks com o diretor comercial da Agrária Malte

O tanque de dosagem, aliás, é o ponto que mais depende da interferência humana para o êxito – ou não – da filtração. Preparado com terra infusória ou com misturas que a levam em sua composição, o filtro deve conter duas pré-camadas. A primeira precisa ser encarada como uma camada de sustentação, para que a terra não passe depois, sendo a segunda, portanto, a primeira camada de filtração. “Somente a terra é capaz de retirar partículas menores do que as células de leveduras”, ensina Ligia.

E a gestão da dosagem é um dos desafios desse tipo de operação, pois como as partículas a serem retiradas têm tamanhos diversos, normalmente é utilizada uma mistura de terras com permeabilidades diferentes. Em geral, é um processo que depende da experiência de quem está realizando, mas, principalmente, de como está a cerveja, com a sua turbidez.

Caso a cerveja esteja saindo turva, é necessário fechar mais a camada filtrante com uma terra mais fina. Então, será preciso ficar atento à pressão. Se ela estiver turva já usando bastante terra fina, a pressão está normal ou baixa. Com isso, você precisará ter atenção à passagem da terra

Ligia Marcondes, mestre cervejeira e professora da ESCM

“Se a cerveja estiver límpida, mas a pressão estiver subindo muito rápido, talvez a proporção de terra fina esteja muito alta. Isso pode resultar na diminuição do ciclo de filtração”, conclui a especialista da ESCM, demonstrando como o ato de filtrar é repleto de detalhes com cada passo, sendo fundamental para assegurar a qualidade da cerveja.

Congresso da Agrária
Além da abordagem sobre como deve se filtrar a cerveja, o primeiro dos três dias de palestras do evento contou com outros conteúdos técnicos. Profissionais da HVG abordaram as novas variedades de lúpulos da Alemanha e sua sustentabilidade. Já especialistas da Agrária falaram sobre turbidez, além do desafio de manter o frescor da cerveja. Por sua vez, Frank Nohel, Homero Guercia, Francisco Iguti e Gustavo Miranda encerraram a programação contando histórias das suas trajetórias na indústria cervejeira.

Perda do poder de compra do público freia reajuste do preço da cerveja nos bares

A inflação a níveis elevados vem sendo uma dor de cabeça para o brasileiro, mas a cerveja, especialmente aquela consumida em bares e restaurantes, não é um dos itens a puxar essa alta. Pelo contrário, afinal, enquanto o IPCA, o índice oficial, medido pelo IBGE, terminou o primeiro semestre em 5,49%, a aceleração do preço da cerveja ficou em 2,31% no domicílio no mesmo período, sendo ainda menor, de 2%, fora do domicílio.  

Assim, a cerveja teve papel importante para ajudar bares e restaurantes a frear, em parte, a subida dos preços dos seus cardápios. Esse diagnóstico foi confirmado por líderes de entidades representativas do setor, que explicam, ao Guia, os motivos para os proprietários dos estabelecimentos não terem repassado todos os seus custos na composição do valor final dos produtos e serviços oferecidos.

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“Realmente, a cerveja tem dado importante contribuição para segurarmos os custos dos bares e restaurantes. Ela é responsável por 20% a 60% dos nossos custos, sendo 20% para os restaurantes e 60% para alguns bares”, ressalta Paulo Solmucci, presidente-executivo da Associação de Bares e Restaurantes (Abrasel).

Nos últimos 12 meses, o preço da cerveja nestes locais sofreu aumento de 4,51%, uma porcentagem bem inferior à inflação geral do período, de 11,89%. “Essa é uma das razões de o setor ter conseguido repassar só a metade da inflação média nos últimos 12 meses para o cardápio”, acrescenta Solmucci. “É uma boa notícia para quem gosta de tomar uma geladinha no bar”, completa.

A diferença chamativa entre a alta do IPCA e a inflação da cerveja, especialmente em bares e restaurantes, tem suas razões. De acordo com Fernando Blower, diretor-executivo da Associação Nacional de Restaurantes (ANR), a redução do poder de compra dos clientes motivou os proprietários dos estabelecimentos a segurar os aumentos.

“Há fatores internos e externos para isso. Internamente, tanto cervejarias quanto os próprios bares e restaurantes estão evitando repassar integralmente a inflação para o consumidor. A gente sabe que existe uma restrição de renda por parte da população e, portanto, simplesmente aumentar preços não pode ser a única solução. Você tem de mexer no mix, renegociar contratos e fazer outras coisas para não perder o cliente”, analisa Blower, admitindo também que é impossível deixar de acrescentar ao preço final uma fatia dos custos elevados dos produtos.

Uma avaliação parecida é apresentada pelo presidente da Abrasel. E Solmucci destaca ser mais fácil, em um momento de crise como o atual, que o repasse da alta dos custos produtivos aconteça no varejo, onde a elevação do preço da cerveja está em 8,41% nos últimos 12 meses, do que nos bares e restaurantes.

 “A renda do trabalhador caindo 8%, ainda que haja mais emprego, não permite os repasses. Seja para os restaurantes repassarem ao cardápio, seja para as cervejarias repassarem ao consumidor. Nos supermercados, os preços aumentam mais porque há menos margem (de lucro). Já os bares e restaurantes, que estão muito endividados, contam com essa correção menor. Neles, as empresas também têm maior margem. Ou seja, corrigir menos é possível e mais fácil do que no supermercado”, explica.

Para referendar as avaliações de Solmucci e Blower, uma pesquisa realizada pela Abrasel, que ouviu 1.689 empresários de bares e restaurantes de todo o Brasil, entre os dias 21 e 28 de junho, constatou que 74% destes estabelecimentos não conseguiram repassar os aumentos dos custos nos preços dos produtos e serviços. E a inflação foi citada como o principal obstáculo para a retomada do setor, sendo que 75% dos entrevistados que amargaram prejuízos com os seus negócios apontaram a elevação dos valores dos principais insumos (alimentos e bebidas) como um fator que contribuiu para os resultados financeiros negativos.

Freio na inflação?
Na avaliação do diretor-executivo da ANR, a dinâmica dos preços pode se alterar com a retomada da normalidade pré-pandêmica na sociedade. A perspectiva pode ser positiva especialmente para quem se alimenta fora de casa, pois esse foi um item de grande peso na inflação de junho, ficando em 1,26%.

“Você teve uma queda muito grande (de público) e depois um pico muito grande. E aí a inflação nasce disso. Agora você começa a ter um reequilíbrio, um arrefecimento desse aumento. Ou seja, continua aumentando, mas não na mesma gradação que aumentou nos últimos meses. E isso acontece mais com alimentos e bebidas do que com outros itens da receita que compõem a inflação, porque os alimentos e bebidas foram aqueles que tiveram o maior pico (de preços) no primeiro momento”, conclui Blower.