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Consumo de cerveja nos lares segue alto mesmo com fim de restrições e inflação

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O consumo de cerveja nos lares foi um costume que se intensificou durante o auge da pandemia do coronavírus e se mantém resiliente. De acordo com dados de levantamento da empresa de pesquisa de mercado Euromonitor, 41,6% das vendas de cerveja se deram no off-trade no ano passado.  

O estudo, realizado a pedido do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv), aponta que, em 2021, foram comercializados 5,9 bilhões de litros de cerveja em pontos de venda como supermercados, hipermercados, mercearias, entre outros que não são especializados em consumo no próprio ambiente. Já o on-trade, locais como bares e restaurantes, representou 58,4% ou 8,4 bilhões de litros de cerveja.

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A participação de 41,6% do off-trade na venda de cerveja em 2021 está acima do índice no período pré-pandemia. Em 2019, a participação de pontos de venda como supermercados, hipermercados e mercearias representava, aproximadamente, 38% do mercado.

A resiliência do off-trade mesmo em um cenário de redução das restrições de funcionamento de bares e restaurante se deu, especialmente, pela alta da venda de cerveja nos atacadões, onde a expansão ficou em 13% em 2021, assim como do e-commerce, com crescimento de 1,5% no ano passado.  

Essa continuidade do consumo de cerveja em níveis elevados nas residências em 2021 aconteceu mesmo em um cenário de inflação elevada da cerveja no off-trade. No ano passado, de acordo com os dados do IBGE, a inflação da cerveja no domicílio foi de 8,70%, contra os 4,82% do item fora do domicílio.

A dúvida, agora, é se o nível de consumo residencial, em 41,6%, se manterá ao longo de 2022, quando houve o encerramento de todas as medidas restritivas em função da pandemia, com a volta da realização de grandes eventos, como festivais musicais e a Oktoberfet em diversas cidades. Neste ano, inclusive, a inflação da cerveja no varejo segue mais alta do que a dos bares – 5,91% a 5,31% no período de janeiro a setembro.

“Devido à tradição cultural brasileira, é esperado que com a flexibilização das restrições da pandemia, no ano de 2022, o consumo retorne com mais força nos estabelecimentos de alimentação fora do lar, com a retomada de grandes eventos musicais, festas culturais e a Copa do Mundo, explica o superintendente do Sindicerv, Luiz Nicolaewsky.

De qualquer forma, o Euromonitor estima um salto de 8% no consumo de cerveja no Brasil em 2022. A venda deve subir dos 14,3 bilhões de litros de 2021 para 15,4 bilhões de litros neste ano.

Entrevista: Como a Ambev usa a tecnologia para definir estratégias do portfólio

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Líder do segmento cervejeiro no Brasil, a Ambev e suas lideranças têm adotado o discurso de que a empresa agora possui novas concorrentes, muito por sua atuação a partir de plataformas de tecnologia. Afinal, inovações recentes apresentadas pela companhia passam por esse ambiente e tornaram a sua atuação mais digitalizada, através de aplicativos como Bees e Zé Delivery, se aproximando dos seus parceiros no varejo e dos consumidores.

Assim, passou a ser se ver, também, como uma empresa de tecnologia que comercializa produtos, como, por exemplo, a Amazon e a Alibaba. Para confirmar essa nova postura, as vendas através de ambas as soluções não se resumem a bebidas do seu portfólio, com a oferta de outras opções, algo que vem atraindo parceiros relevantes, como o GPA, que no fim de junho anunciou acordo com a Ambev para disponibilizar seus produtos no Bees, a plataforma de tecnologia B2B da cervejaria.

Esse foco da Ambev, que estima terminar 2022 com um time de 5 mil profissionais de tecnologia em sua equipe, foi tema de entrevista do Guia com Eduardo Horai, vice-presidente de tecnologia da empresa, em conversa realizada durante o Tech & Cheers, encontro promovido em São Paulo para reunir o ecossistema de tecnologia da empresa.

Na entrevista, Horai também comentou sobre as transformações que a Ambev passou, impulsionadas pela pandemia do coronavírus, se refletindo em soluções que atendessem seus parceiros e consumidores. E relatou que a tecnologia tem influência direta em decisões envolvendo o portfólio da companhia.

De acordo com o vice-presidente de tecnologia da Ambev, as informações captadas através de aplicativos permitem, por exemplo, testes menos custosos, mais rápidos e assertivos, acelerando a definição de estratégias.

“O e-commerce nos ajuda a testar em escala menor. Posso pegar um lançamento e disponibilizar em uma região dentro do e-commerce. Com isso, você vê o que traz mais aderência, mais consumidor. E aí toma decisões”, diz.

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Confira os principais trechos da conversa do Guia com Eduardo Horai, vice-presidente de tecnologia da Ambev:

Como a pandemia impactou a área de tecnologia da Ambev? Quais foram as principais oportunidades e desafios?
A pandemia nos acelerou muito. Estávamos começando a falar do Bees, enquanto o Zé Delivery já tinha certa relevância. Quando veio a pandemia, tomamos a decisão de colocar todos os vendedores remotos. Quem ia ao ponto de venda tirar o pedido, passou a fazer de maneira remota. Depois, aceleramos a digitalização com o vendedor ensinando o PDV a instalar o app do Bees e a fazer o pedido. Sem a pandemia, esse processo teria demorado mais. Mas foi possível atender o PDV, que estava aberto, sem o vendedor ir lá. O segundo ponto envolve o Zé Delivery. Com o boom da pandemia, aliado com as lives, o Zé ajudou muito as pessoas a continuarem celebrando de alguma forma em casa. Ganhamos muito com a aceleração do e-commerce. Falando do mais difícil, foi a gestão interna dos times. Saltamos de pouco mais de mil pessoas (no time de tecnologia) para hoje ter 4,5 mil. E, no remoto, acaba não tendo a mesma proximidade. Até houve alguma perda de produtividade inicial, mas depois se recuperou. É mais difícil de se operar remotamente, especialmente quando se tem muita gente nova.

A expansão do Zé Delivery foi, em grande parte, provocada pela pandemia. Como a Ambev trabalha para mantê-la agora, quando não existem mais restrições?
Estamos em uma fase que chamamos em omnichalidade. Queremos que o Zé continue fazendo parte da vida das pessoas. E estamos preparando uma série de questões, como programas de fidelidade, conexão entre online e offline para que o Zé vá além do delivery. Estamos testando modelos, o app vai evoluir muito nos próximos meses.

Ao mesmo tempo em que a Ambev usa o Bees com os seus parceiros, ela continua tendo uma equipe comercial. Como se dá essa sinergia no momento de definição das estratégias?
É a parte boa de ter uma empresa que sabe fazer isso há muito tempo. Tem coisas que o algoritmo não prevê, mas a parte comercial conhece e consegue prever, como a demanda por um grande jogo. Então, as ferramentas digitais nos ajudam, alertam para ver se os pontos estão preparados. Conseguimos ser mais efetivos por ter as ferramentas digitais envolvendo parceiros e consumidores. Acaba sendo uma mistura de algoritmos com o conhecimento comercial.

Como a Copa do Mundo se insere nas estratégias da Ambev para seus aplicativos de tecnologia?
Estamos nos preparando, em questões de infraestrutura, de capacidade, tecnologia, preparando os pontos de venda. A Copa do Mundo será em um momento bem bacana, no meio do verão, terminando o ano. Será um momento de celebração e estaremos bem preparados, embora não possa dar maiores detalhes, até por ser ainda um período de preparação. Essa é a primeira Copa do Mundo com ferramentas digitais bem estabelecidas. Com elas, temos mais visibilidade sobre onde mais produtos estão sendo consumidos com uma granularidade muito menor. Quando você conecta isso, é possível que as ferramentas dialoguem, percebendo a necessidade de preparar estoque com antecedência em determinados pontos, por exemplo.

Por essa força da Ambev no e-commerce, já é conhecido o discurso do CEO Jean Jereissati de que as concorrentes da companhia agora são empresas de tecnologia, como a Amazon, por exemplo, porém com o diferencial de que vocês vendem cerveja. Como é isso para você?
É algo legal. Não somos só cerveja, mas também temos marcas muito inspiradoras, que estão há muito tempo conectadas com o brasileiro. Não somos só um e-commerce, temos que estar atentos às marcas, onde elas estão se posicionando como o consumidor está vendo cada uma, atrelando isso ao Zé Delivery. Tem discussões que nunca vi antes. Uma Amazon, um Mercado Livre vende qualquer coisa. O e-commerce nos ajuda a testar em escala menor. Posso pegar um lançamento e disponibilizar em uma região dentro do e-commerce. Com isso, você vê o que traz mais aderência, mais consumidor. E aí toma decisões. Isso, por exemplo, aconteceu com Modelo e Sptaten.

Então, essa possibilidade de testar produtos é a grande vantagem de contar com esses e-commerces?
É uma inovação que custa mais barato, pois você faz pequenos pilotos e pelo digital. É algo que nunca foi feito pelas empresas antes. Grandes e-commerces, como a Amazon, nasceram digitais e foram criando armazéns e hoje passaram a abrir lojas. Nós nascemos no físico e começamos a disputar espaço no digital. Em algum momento, há uma concorrência. E eles ajudam em todos os tipos de inovação, não só no líquido. É possível também ajudar em serviços.

Também no e-commerce, em sua visão, o que faz gigantes como o GPA se associarem com a Ambev para terem seus produtos disponibilizados no Bees?
Temos 1 milhão de clientes que acessam e gastam 27 minutos por semana no app. Tem pequenos varejistas com 70% do faturamento em cerveja que podem também comprar todos os produtos deles ali. Algo importante foi ter colocado o app no Brasil todo. Com um botão, mando uma mensagem para todos os clientes avisando de uma promoção de um parceiro. É uma força digital que faz, também, indústrias se associarem a nós.

Essa vantagem, de contar com uma grande carteira, já vem do período pré-Bees?
A gente fazia isso com as pessoas. Mas o vendedor tem um limite dos produtos que pode vender. No aplicativo, você pode ter 2 mil produtos. Consigo colocar um portfólio infinito à disposição do PDV, com uma escala que só o Bees pode ter. Também há um número limitado de bares que um vendedor pode atender, algo que não existe no app. Não à toa, estamos com um milhão de clientes, pela facilidade de se cadastrar. A tecnologia está destravando muita coisa.

Em clima alemão, Rota RJ realiza festival com novidades das marcas

O clima da Oktoberfest tem dominado o cenário cervejeiro nacional neste mês de outubro e na região serrana do Rio de Janeiro não é diferente. A Rota Cervejeira RJ também se inspirou na tradicional festa alemã para fomentar a cultura cervejeira e ampliar o contato do público com as marcas para realizar o Festival Cerveja das Montanhas edição Oktoberfest, que acontecerá no próximo fim de semana, de sexta-feira (14) até domingo (16), em Guapimirim.

Será, assim, a primeira festa cervejeira temática de Guapimirim, uma das 5 cidades das associadas à Rota Cervejeira RJ – as outras são Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo e Cachoeiras do Macacu –, que espera acolher turistas para suas atrações e, claro, a própria festividade, que deverá ficar marcada pela apresentação de algumas novidades pelas cervejarias.

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“Aproveitando que será em outubro, traremos um pouco da Oktoberfest para o festival, com roupas, músicas e gastronomia que são tão difundidas nessa época. A cidade de Guapimirim terá sua primeira festa cervejeira temática, onde o público da região vai estar presente em massa, assim como turistas da região poderão conhecer uma cidade encantadora”, diz Ana Cláudia Pampillon, coordenadora da Rota Cervejeira RJ.

O Festival Cerveja das Montanhas teve uma primeira edição em janeiro de 2020, em Nova Friburgo, depois encarando um hiato de tempo para a sua segunda realização por causa da pandemia. De volta, o evento ocorrerá na Praça da Cotia de Guapimirim e receberá 15 cervejarias componentes da Rota RJ. Serão mais de 50 rótulos diferentes disponíveis ao público, além de gastronomia, shows, ativações e workshops.

As marcas da Rota RJ serão distribuídas em estações individuais e padronizadas, estando munidas de quatro torneiras, sendo três delas com estilos de linha e uma com uma cerveja especialmente produzida para o festival.

Esse festival é a ocasião na qual o público tem o prazer de experimentar novas receitas e as cervejarias as definem de acordo com a aceitação do público. É uma troca muito interessante para ambas as partes

Ana Cláudia Pampillón, coordenadora da Rota RJ

A 2ª edição do festival terá entrada franca e uma programação voltada para toda a família, inclusive com área kids. Assim como na 1ª, em 2022 haverá um concurso informal, com a participação de influenciadores e consumidores ao longo dos três dias para escolher a melhor cerveja do evento. Além disso, haverá mini aulas gratuitas ao vivo sobre harmonizações, processos de produção e o universo cervejeiro.

“Terá muita cerveja boa, com mais de 50 torneiras com cervejas dos 5 municípios que compreendem a Rota Cervejeira, jogos cervejeiros, oficinas relacionadas a cerveja, bons shows em um local emoldurado pela Serra dos Órgãos”, conclui a coordenadora da Rota RJ.

Balcão do Jayro: Davi versus Golias

Balcão do Jayro: Davi versus Golias

Histórias e mitos sobre cultura cervejeira assim como a origem de pratos que tem grande representatividade no mundo gastronômico me encantam. Um ícone como Michael Jackson – o Beer Hunter, não o popstar – um dos pioneiros a escrever sobre cultura cervejeira de forma ampla, já foi contestado em alguns momentos. Tal qual no mundo da cerveja, no mundo da gastronomia existem diversas “verdades universais” que, por vezes, não se sustentam em fatos.

Como fio condutor para a coluna, pensei em gastronomia brasileira, o que invariavelmente me levou a pensar em feijoada. É um prato icônico, representante da gastronomia brasileira mundo afora – apesar de não estar tão presente assim na mesa do brasileiro, como bem destacou a jornalista e chef Larissa Januário em sua mesa no congresso “Cerveja é Gastronomia”, promovido pela Abracerva em parceria com o Sindicerv no final de junho/22.

Ao pesquisar sobre feijoada, me deparei com o livro “A culinária caipira da Paulistânia – a história e as receitas de um modo antigo de comer ”, de autoria do sociólogo Carlos Alberto Dória e do Chef Marcelo Côrrea Bastos, ambos estudiosos de Luiz da Câmara Cascudo e da alimentação no Brasil:

Diferentemente do que diz o folclore – que a feijoada nasceu nas senzalas, do aproveitamento das partes do porco desprezadas pelos senhores de engenho -, é evidente a origem ibérica do prato, semelhante a uma infinidade de comidas típicas de Portugal e da Espanha, cujos povos têm grande apreço pelas partes do porco tidas como menos nobres

A culinária caipira da Paulistânia – A história e as receitas de um modo antigo de comer, p. 237

Em pesquisa no livro “A história da Alimentação no Brasil”, de Luiz da Câmara Cascudo, cheguei em dado semelhante, de que a feijoada seria um sincretismo entre o guisado de feijão (ibérico) e a farinha (indígena).

Fiquei perplexo, não foi isso que aprendi na escola. Tentei contato com algumas pesquisadoras da cozinha diaspórica africana que, infelizmente, não retornaram a tempo. Consigo falar com Larissa Januário que, em resumo, me diz que o assunto é bem complexo, mas que os africanos escravizados quase não tinham acesso a carne, ainda mais os pertences (partes menos nobres), muito amados na Europa Ocidental. E que é muito difícil contestar Câmara Cascudo sendo ele a única fonte. Vale lembrar que, mesmo que documental, a história também é a narrativa contada pelos vencedores – leiam-se aqui dominadores, colonizadores etc.

No entanto, destaca Larissa que a origem do feijão não é europeia, que a feijoada como conhecemos hoje é algo relativamente novo, nasceu no Rio de Janeiro. E por último, tão importante quanto a maternidade do prato é que “sempre foram as mãos negras que moldaram os temperos porque elas cozinhavam”.

E o que pensamos em harmonização quando falamos de feijoada?

Não, feijoada não harmoniza com Witbier. Não “tecnicamente”. Quando pensamos em harmonização, o primeiro item a se considerar é o equilíbrio de forças, seguido pelo diálogo (semelhança, contraste, complementação, efeito de cancelamento etc.). Feijoada é um prato extremamente pesado, gorduroso, cheio de aromas e sabores defumados e condimentados. Em contraste, Witbier é uma cerveja leve, refrescante, bem carbonatada, com aromas cítricos e condimentados provenientes da casca de laranja, semente de coentro e subprodutos de fermentação. Para equilibrar potências em uma harmonização, lançamos mão de quatro elementos da cerveja – acidez, carbonatação, amargor e teor alcóolico. O que a Wit tem? Boa carbonatação e um sopro de acidez. Davi, aqui representado pela nobre Wit, seria engolido por Golias. Contraste de “Forte vs. Fraco” só funciona nas ficções. O mundo real é bem mais cruel. Contraste é doce equilibrando amargo, ácido equilibrando doce e por aí vai.

Uma Dubbel, uma Doppelbock, uma Rauchbier (Bock ou Weizenbock), cada qual com sua particularidade se encontram muito bem com a feijoada. 

Mas…

“Salta cerveja estupidamente gelada prum batalhão”, já dizia Chico Buarque em “Feijoada Completa”, música de 1978. A tríade feijoada, American Lager e caipirinha continua firme e forte. American Lager também não harmoniza tecnicamente com feijoada, tem menos intensidade e complexidade que um Wit.  Mas, culturalmente falando, é isso que majoritariamente se bebe em conjunto com a feijoada, afinal, o preparo é quase uma cerimônia ritualística, seu consumo é feito geralmente por um grande número de pessoas e, geralmente, por muitas horas. E não dá para beber Dubbel, Doppelbock ou qualquer outra cerveja mais alcóolica por muitas horas – falta “bebabilidade”, drinkability – sem ser derrubado. Eu, ao menos, não consigo. Há claro espaço aqui para “concessão técnica”. Portanto, seja feliz com seu “pilsão mainstream”, com uma Dubbel, com uma Rauch. Ou com uma Wit. Recorda-se da primeira coluna? O contexto é mais importante!

Saúde!


Jayro Neto é sommelier de cervejas e Mestre em Estilos, tendo sido campeão do Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas de 2019. É organizador de concursos da Acerva Paulista e juiz certificado pelo BJCP (Beer Judge Certification Program) com experiência nacional e internacional em concursos de cerveja. Também atua como conselheiro fiscal e tesoureiro da Abracerva.

Balcão do Baierle: O homem e as plantas

Balcão do Baierle: O homem e as plantas

O título deveria ser: “As plantas e os homens”, afinal, elas chegaram primeiro do que nós neste planeta. Mas, como humanos, sempre nos colocamos à frente das outras espécies que dividem o planeta conosco.

Essa relação entre nós e as plantas é milenar, e sem elas não estaríamos aqui, apesar de algumas teorias de que o homem só evoluiu em inteligência devido ao consumo de carne e de outras que apontam o consumo de cogumelos alucinógenos.

Polêmicas à parte, quero debater sobre a importância das plantas para o mundo atual e, principalmente, para o universo cervejeiro.

A cerveja é feita basicamente de quatro insumos, sendo dois deles de origem vegetal, o malte e o lúpulo. Agora você gostou mais das plantas, né?

Em relação ao lúpulo, o Brasil ainda não tem uma produção expressiva no mundo. Estamos engatinhando, mas somos bebês bem ativos e curiosos. E tenho certeza de que ainda iremos ocupar uma posição de destaque na produção mundial de lúpulos, principalmente nos cultivares de aroma.

Já quanto ao malte, o Brasil tem uma produção muito expressiva, pois aqui está localizada a maior maltaria da América Latina, e a sétima do mundo, a Agrária, localizada no município de Guarapuava, no Paraná.

As pessoas me perguntam bastante sobre malte, pois acham que é uma espécie de planta, quando, na verdade, a malteação é um processo de germinação em condições controladas que pode ser realizado em qualquer tipo de cereal. O malte de cevada é o mais conhecido e utilizado, mas temos malte de arroz, centeio, trigo etc.

E arrisco afirmar que todo mundo já fez malteação na vida, pois a grande maioria já realizou aquele processo de germinação do feijão em um copo com algodão e água nas primeiras séries escolares.

Isso mesmo, você já fez malte e nem sabia!

Essa relação do homem com as plantas não é muito pacífica, pois onde hoje cultivamos a cevada ou o lúpulo já existiu uma floresta! Não vou me aprofundar neste assunto, mas cabe a reflexão de que talvez as plantas nos vejam como inimigo, enquanto nós, pelo menos, a maioria como amigos! E se as plantas falassem, nossa relação com elas seria mais difícil, tenho certeza!

Hoje em dia sabemos que as plantas se comunicam entre si, através das raízes e das redes de fungos que as conectam. E além de se comunicarem, trocam nutrientes e carbono. Por exemplo, em uma floresta, as árvores maiores que dominam a parte superior trocam carbono por outros nutrientes com as plantas menos que ficam mais próximas ao solo. É algo incrível.  

Também sabemos que as plantas são capazes de sentir nossa energia. Foi realizado um experimento com vasos de plantas da mesma espécie vindas do mesmo local: um grupo recebeu elogios e foi tratado com amor pelos humanos; o outro grupo de plantas recebeu xingamentos e palavras de ódio. O resultado foi que nas plantas que receberam xingamentos secaram e morreram, enquanto as que receberam amor prosperaram! Pensando por este lado, as plantas são muito mais evoluídas que nós! Eu sempre converso com minhas meninas, que é como chamo minhas plantas de lúpulo, que são todas fêmeas, pois apenas as fêmeas são utilizadas na produção de cerveja. Corre lá e converse com suas plantinhas….

Existem plantas que também são capazes de ouvir! Isso mesmo! Em um outro experimento, foi colocado o som de abelhas em algumas plantas, enquanto nas outras não foi colocado nenhum som. O resultado foi que as plantas em que havia o som das abelhas ocorreu maior produção de néctar nas flores. Ou seja, elas ouviram as abelhas e produziram mais néctar para atraí-las. E, assim, se reproduziram e perpetuaram sua espécie.

No futuro, com as atuais técnicas de melhoramento genético, muita coisa vai acontecer. A técnica mais moderna hoje é chamada de CRISPR, em que conseguimos editar a genética das plantas e de outros organismos. Ou seja, recortar o DNA e editá-lo. Poderemos, um dia, por exemplo, recortar o DNA de um organismo que produz luz própria e introduzir este pedaço de DNA em uma planta, produzindo, assim, uma planta com capacidade de produzir luz! Louco, né? Dá até um pouco de medo… Na verdade, me dá bastante medo.

Agora, depois de tudo isso, tenho certeza de que você vai dar mais importância às plantas e a quem cuida delas, pois sem elas não teríamos cerveja! E são tantos estilos de cerveja graças a grande variedade de maltes e lúpulos existentes, em cada região, com seu terroir diferenciado!

Imagine o que pode acontecer no futuro. Por exemplo, uma planta de cevada com o gene do lúpulo que produz alfa ácidos, os compostos do lúpulo que conferem amargor à cerveja… Assim não precisaríamos mais cultivar duas plantas, e sim apenas uma!

Vou parar por aqui.

Uma última mensagem: valorize mais as plantas da sua casa. Se você não tem uma planta, compre uma. E valorize mais o agricultor que cultiva as plantas que precisamos. Sem ele, não teríamos comida, cerveja, vinho, cachaça etc. Não estaríamos aqui, neste planeta, vivendo da maneira como estamos!

Viva as plantas! Viva a cevada e o lúpulo!


Rodrigo Baierle é engenheiro agrônomo e especialista em genética de plantas e lúpulo. Atua como produtor de lúpulo na Lúpulos 1090, sendo consultor para produtores de lúpulo. É o idealizador do Festival Nacional da Colheita do Lúpulo.

Preço da cerveja sobe 3,39% em trimestre com deflação no Brasil

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Ao mesmo tempo em que o Brasil completou um trimestre de deflação, com a queda de 0,29% no IPCA em setembro, o preço da cerveja no domicílio, vendida em estabelecimentos como supermercados e redes varejistas, segue em alta, tendo subido 0,37% no nono mês de 2022. Assim, de acordo os dados divulgados pelo IBGE, a inflação do item segue acima dos 10% ao longo dos últimos 12 meses.

Mais do que isso, a cerveja continua com seus preços descolados do ritmo da inflação. No terceiro trimestre do ano, o item no domicílio tem elevação de 3,39%, impulsionado pela expressiva variação de 2,37% em agosto. Enquanto isso, o IPCA teve deflação de 1,33% no período, a maior registrada para um trimestre desde a criação do Plano Real em 1994.

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Também na contramão do índice oficial, a cerveja comprada fora do domicílio, em locais como bares e restaurantes, contabilizou alta média de 0,50% em setembro. Desta forma, no acumulado do ano, o preço já ficou 5,31% mais alto nesta mesma ocasião de consumo, enquanto o incremento para o varejo é de 5,91% no amontoado dos nove primeiros meses de 2022.

Nos últimos 12 meses, a cerveja no domicílio registra significativo aumento de 10,68% e de 5,64% fora dele. Neste mesmo período, a elevação do custo médio com outras bebidas alcoólicas em estabelecimentos como supermercados é de 15,50%, enquanto em locais como bares e restaurantes os preços saltaram apenas 0,43% ao longo de um ano.

Já a variação constatada para outras bebidas com álcool em setembro foi de alta de 1% no domicílio, enquanto fora de dele houve deflação de 1,2%. No acumulado do ano, há uma disparidade expressiva de acordo com as ocasiões de consumo, com o preço deste item saltando 15,74% nas redes varejistas e caindo 4,60% quando compradas em botequins e locais de alimentação fora do lar.

Item Alimentação e bebidas tem deflação maior do que a do IPCA
Entre os nove grupos de produtos e serviços pesquisados pelo IBGE, quatro registraram quedas de preço em setembro. E um deles foi o de alimentação e bebidas, com retração de 0,51%. O item se posicionou como o terceiro que mais colaborou para a deflação do IPCA, só ficando atrás de transportes, com recuo de 1,98%, e comunicação (-2,08%). O outro tópico com redução foi composto por artigos de residência (-0,3%).

“Os combustíveis e, principalmente, a gasolina têm um peso muito grande dentro do IPCA. Em julho, o efeito foi maior por conta da fixação da alíquota máxima de ICMS, mas, além disso, temos observado reduções no preço médio do combustível vendido para as distribuidoras, o que tem contribuído para a continuidade da queda dos preços”, diz o gerente da pesquisa do IBGE, Pedro Kislanov, se referindo à redução do valores da gasolina (-8,33%), do etanol (-12,43%), do óleo diesel (-4,57%) e do gás veicular (-0,23%) em setembro.

O representante do instituto também destaca que o item alimentação e bebidas registrou queda expressiva de custo depois de ter contabilizado elevação média de 0,24% em agosto. “Os alimentos vinham apresentando crescimento desde o começo do ano, inclusive altas fortes em março (2,42%) e abril (2,06%). Essa queda de setembro é a primeira desde novembro de 2021 (-0,04%)”, completa Kislanov.

Já a maior variação positiva registrada no mês passado foi do grupo vestuário, que subiu 1,77%, assim como já havia ocorrido em agosto, quando aumentou1,69% e liderou os produtos com alta.

Para realizar este seu último balanço do IPCA, o IBGE comparou os preços coletados no Brasil entre 30 de agosto a 28 de setembro (referência) com os valores vigentes de 29 de julho a 29 de agosto de 2022 (base).

Great American Beer Festival reúne 9.904 cervejas em retomada

O Great American Beer Festival (GABF) celebrou os 40 anos da sua primeira edição com a distribuição de 300 medalhas em Denver, palco do principal concurso cervejeiro dos Estados Unidos em 2022, promovido pela Brewers Association e que não havia acontecido em 2020 e 2021 por causa da crise sanitária. Os destaques entre as quase 10 mil cervejas inscritas acabaram sendo as marcas da Califórnia, a North Park Beer e, mais uma vez, as IPAs.

As IPAs continuaram predominando, como tem sido usual entre as participantes. Afinal, a American IPA foi o estilo com mais cervejas inscritas – 423. E acabou sendo uma marca de Denver, a Comrade Brewing, que levou a medalha de ouro mais disputada do festival, com a More Dodge Less RAM.

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O segundo estilo com mais inscritos foi uma derivação da IPA, reunindo 375 rótulos: a categoria Juicy ou Hazy IPA, sendo vencida pela californiana Flatland Brewing. Pilsen, com 233 participantes, Wheat Ale, com 209, e Märzen, com 207, foram os demais estilos que despertaram mais interesse das cervejarias no GABF de 2022.

De San Diego, a North Park Beer foi a marca com mais medalhas conquistadas: quatro, sendo um ouro, na categoria English India Pale Ale ou New Zealand India Pale Ale, uma prata e dois bronzes. Foi, também, a melhor cervejaria do GABF entre as que produzem entre 5.001 e 15 mil barris de cerveja por ano. Assim, fez parte do domínio das cervejarias da Califórnia, que faturaram 28 medalhas de ouro nesta edição do GABF.

O concurso apresentou, mais uma vez, números impressionantes. Em sua 36ª edição, reuniu 9,904 cervejas de 2.154 marcas, sendo que 301 fabricantes participaram pela primeira vez. Todos esses rótulos foram avaliados em 177 subestilos diferentes. Além disso, a disputa premiou 268 cervejarias, sendo 18 pela primeira vez.  

“Ano a ano, o Great American Beer Festival apresenta o melhor que os cervejeiros americanos têm a oferecer”, diz Chris Williams, diretor de competição do Great American Beer Festival. “Com 9.904 inscrições, a competição deste ano foi a mais disputada até hoje. Parabéns a todos os vencedores que demonstraram verdadeiramente por que os EUA são a melhor nação cervejeira do mundo.”

Realizado pela primeira vez desde o início da pandemia, o GABF teve a 36ª edição em 2022 e apresentou números que atestam a expansão das artesanais nos Estados Unidos, tanto que em 1982 foram 24 cervejarias participantes e 47 rótulos inscritos. Em 2022, rendeu estimados US$ 15,2 milhões para a economia de Denver ao reunir 40 mil amantes de cerveja em 3 dias de festival.

Grupo Petrópolis inicia venda de lúpulo peletizado e mira microcervejarias

O Grupo Petrópolis acelerou o processo de venda de parte da sua produção de lúpulo, cultivado em Teresópolis (RJ), ao anunciar o início da comercialização do insumo peletizado. A companhia explicou que o produto estará disponível através do seu e-commerce, o Bom de Beer. O público-alvo são cervejeiros caseiros e microcervejarias.

No site, o Grupo Petrópolis vai vender o lúpulo peletizado em packs embalados em atmosfera modificada (ao abrigo da luz e do oxigênio), das variedades Comet (50g e 500g), Cascade (50g e 500g), Chinook (50g), Triple Pear (50g) e Zeus (50g). Nesta segunda-feira (10), os preços eram de R$ 20 para as embalagens de 50g e de R$ 200 para as de 500g.

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O lúpulo produzido pelo Grupo Petrópolis passou por beneficiamento através de um maquinário especial desenvolvido em parceria com a empresa Forte Lúpulo. Nesse processo, o insumo cervejeiro é colhido, secado em estufa e triturado inteiro para virar pó, depois sendo prensado por uma máquina que o deixa no formato de pellets. Isto facilita a transferência dos compostos do lúpulo para o mosto cervejeiro na preparação da bebida.

“Demos mais um passo importante no aprendizado e ao introduzir com sucesso a peletização em nossa cadeia. A venda do nosso lúpulo nesse modelo é um avanço para indústria cervejeira local, já que estamos incentivando a produção nacional por meio do fácil acesso a um lúpulo de qualidade ‘made in Brazil’ com muito orgulho”, afirma Diego Gomes, diretor industrial do Grupo Petrópolis.

Ao anunciar a comercialização do lúpulo peletizado, a companhia destaca vantagens em comparação ao produto em flor. “Ele tem maior eficiência na utilização para obtenção de amargor, em torno de 10% a mais de IBUs do que a mesma variedade de lúpulo em flor, a matéria-prima neste formato oxida mais lentamente e pode ser armazenada por mais tempo. E por serem condensados, utiliza-se uma quantidade menor nas receitas em relação ao lúpulo em flor”, diz.

O Grupo Petrópolis começou a comercializar o seu lúpulo em flor em abril de 2021.  Desde então, vendia o produto nas variedades Cascade, Comet e Triple Pearl em pacotes de 100g, com armazenamento em atmosfera modificada para preservar ao máximo os aromas.

O Grupo Petrópolis iniciou a plantação de lúpulo em 2018, com 316 plantas cultivadas na sua fazenda em Teresópolis. Na ocasião, foram plantadas 10 espécies do insumo, para testar a adaptabilidade. Hoje, a plantação já conta com mais de 21 mil mudas, em mais de cinco hectares, com 15 cultivares diferentes. Ao todo, o projeto já recebeu R$ 5 milhões em investimentos.

Turismo cervejeiro demanda mais divulgação e melhorias viárias

Considerado o 11º maior mercado de turismo do mundo, de acordo com recente relatório do World Travel & Tourism Council, o Brasil pode impulsionar essa atividade pelas suas atrações. E elas devem incluir o turismo cervejeiro, que necessita, principalmente, de mais divulgação e melhor sinalização, além de melhorias na infraestrutura viária, de acordo com demandas apresentadas em mais uma reportagem da série especial do Guia para as eleições.

Na visão Ana Cláudia Pampillón, coordenadora da Rota Cervejeira RJ, o turismo cervejeiro precisa ser colocado em evidência, como os demais ramos da atividade, pelos governos. “O turismo cervejeiro não tem muita visibilidade no país porque não conta com muita divulgação. Então, achamos que a comunicação é fundamental para divulgar e fomentar o turismo cervejeiro”, avalia.

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Assim, ela espera que tanto os governantes vencedores das eleições em 2 de outubro como aqueles que disputarão o segundo turno em 30 de outubro dediquem mais atenção ao turismo cervejeiro, que não só gera importantes receitas para as marcas envolvidas como também para a economia das cidades e estados.

“É um assunto relevante, que pode remunerar e rentabilizar muito bem as cervejarias se elas trabalharem bem o turismo cervejeiro. Então, é de fundamental importância essa comunicação feita pelo poder público, que os estados e o próprio país divulguem mais o projeto do turismo cervejeiro. Percebemos que são sempre muito divulgados os turismos rural, de compras e de aventura, enquanto o cervejeiro é sempre deixado em um segundo plano”, completa.

Melhor sinalização para os caminhos turísticos
Para além do espaço de divulgação, o turismo cervejeiro também clama por uma melhor sinalização nas estradas e cidades. Um exemplo de inspiração, para Ana Cláudia, é o visto nas rodovias do Rio Grande do Sul, onde os turistas visitam as diversas vinícolas espalhadas pela Serra Gaúcha.

“No Rio Grande do Sul, existem as indicações para o turismo do vinho. E precisamos não apenas das placas marrons para indicar os destinos, mas também dos outdoors das concessionárias das estradas que possuem aqueles avisos luminosos com mensagens de atrativos desses locais pelos quais as pessoas passam. Elas precisam saber que ao longo deste caminho tem um outro ativo muito interessante, que é o turismo cervejeiro”, reforça.

Entendemos ser importante que os governos estaduais e federal tenham um olhar mais atento para a sinalização turística. Nós passamos por alguns circuitos e sabemos que a sinalização é aquele marrom (cor padrão para avisar sobre destinos de turismo nas localidades), dizendo que ali tem algum ativo turístico importante. Então, gostaríamos muito que tivesse essa sinalização indicando as principais localidades, apontando quais são as regiões boas para o turismo cervejeiro

Ana Cláudia Pampillón, coordenadora da Rota Cervejeira RJ

Melhores estradas para facilitar acesso
Outro fator visto como importante para o incremento do turismo cervejeiro é a melhoria das vias que são percorridas para a realização desses passeios. “Batemos muito na tecla da infraestrutura das estradas, que sejam boas, para que esse turismo seja mais bem aproveitado. E trabalhamos muito a questão do consumo consciente, que é o de que ‘se beber, não dirija’”, afirma a coordenadora da Rota RJ.

Ana Cláudia aponta que a situação ruim de diversas rodovias, com seus riscos, atrapalha o turismo cervejeiro, pois as pessoas desistem de viajar por não se sentirem seguras para transitar nestes percursos, sendo que muitas marcas ficam em pequenas localidades, onde há poucas opções de acesso.

“Muitas cervejarias ficam em localidades de difícil acesso, muitas vezes na zona rural, onde se consegue ir com um carro simples, mas há cervejarias em que os ônibus não conseguem chegar e às vezes até mesmo com uma van é difícil para os turistas acessarem o local”, alerta a coordenadora da Rota RJ.

Balcão do Profano Graal: História e curiosidades da principal festa cervejeira

Balcão do Profano Graal: Oktoberfest – História e curiosidades sobre a festa cervejeira mais famosa do mundo

Salve nobres,

Mais uma vez chegamos ao mês de outubro e, nesse ano, eu me dei conta de que ainda não falei aqui nessa coluna da festa cervejeira mais famosa do planeta: a Oktoberfest de Munique. Por ser a mais famosa, você certamente já deve ter ouvido essa história. Mas, mesmo assim, quem sabe eu não trago, nesse texto alguma informação nova, que você ainda não conheça. Então vamos lá!

A festa que se celebra todo ano em Munique teve origem na comemoração do casamento do príncipe herdeiro do então Reino da Baviera, Ludwig de Wittelsbach (1786-1868) e Theresa Carlota de Saxe-Hildburgo (1792-1854), ocorrido em 12 de outubro de 1810. Para celebrar o enlace entre as duas importantes casas dinásticas foi organizada uma grande festa de dois dias (13 e 14 de outubro) nos campos em frente à porta da cidade, que foram batizados em homenagem à noiva de Theresienwiese (“gramado de Theresa”). Exatamente no mesmo local em que ainda hoje se organiza a festa. Todos os habitantes de Munique foram convidados a participar da festa. Para isso, cerveja e comida grátis foram oferecidas em quatro locais diferentes da cidade. O encerramento e ao mesmo tempo ponto alto da festa era a corrida de cavalos que deveria ocorrer no Theresienwiese, com a presença da Família Real da Baviera. Lá, estalajadeiros do centro de Munique montaram barracas para a venda de comida e cerveja.

O enorme sucesso fez com que fosse marcada outra festa para outubro do ano seguinte, e assim começou a tradição. A partir de 1811, como forma de promover a agricultura e a economia da Baviera, foi adicionada à festa também uma feira agrícola. Em 1818 apareceu o primeiro carrossel e dois balanços. Origem do grande parque de diversões que é montado hoje em dia no espaço da festa. E no ano seguinte (1819), a população de Munique assumiu a responsabilidade pela organização da festa, fazendo com que se tornasse um evento anual: a Festa de Outubro. Apesar do nome, desde 1872 a festa tem seu início em meados de setembro, para aproveitar os dias mais longos e quentes do final do verão. E vai até o primeiro domingo de outubro.

Em 1885, a luz elétrica iluminou pela primeira vez as tendas da Oktoberfest. A esse respeito, as grandes tendas que hoje caracterizam o evento surgiram apenas a partir de 1896, quando Michael Schottenhamel mandou erguer o seu Bierburg (“cidade da cerveja”), com capacidade para 1.500 pessoas. Antes disso, as tavernas acomodavam no máximo 50 pessoas. O Bierburg foi projetado pelo arquiteto Gabriel von Siedl, que era sobrinho de Gabriel Sedlmayr (1811-1891) proprietário da cervejaria Spaten e inventor do estilo Munich Helles. E, por isso, a cerveja vendida no Bierburg era a da Spaten. Nas 14 grandes tendas e as 21 pequenas tendas da festa só podem ser comercializadas cervejas das seis grandes cervejarias de Munique: Augustiner, Hacker-Pschorr, Löwenbrau, Paulaner, Spaten e Hofbräu. Já no século XX, esse veto às cervejas de fora da cidade já levantou protestos do príncipe Luitpold, bisneto do último rei da Baviera, e proprietário da cervejaria König Ludwig, produzida em parte no seu Castelo de Kaltenberg, ao sul de Munique. Ele fez várias tentativas de colocar sua própria cerveja na Oktoberfest. Porém, embora ele fosse da família real da Baviera, as regras se mantiveram firmes e suas queixas foram em vão.

Em 1950 foi introduzida a tradicional cerimônia de abertura do festival, em que o Prefeito de Munique abre o primeiro barril, falando a frase: “O’ Zapft is!”. Algo como “Que a festa comece!”. E apenas em 1960 as corridas de cavalos deixaram de ser realizadas e a festa se transformou em um enorme festival, tal como a conhecemos hoje. Além das cervejarias, é montado um parque de diversões, com roda gigante, montanha russa, etc. O programa da festa inclui desfile de carroças de cerveja, desfiles de trajes típicos, concertos de bandas e apresentação de danças folclóricas, entre outras atrações. A festa é frequentada por seis milhões de visitantes de todo o mundo.

Desde o seu início, a festa deixou de ser realizada 26 vezes: Entre 1813 e 1817, devido às guerra napoleônicas; em 1854 em razão de uma epidemia de cólera (epidemia que vitimou a Rainha Theresa); em 1866, quando os exércitos da Baviera estavam apoiando a Áustria na guerra contra a Prússia; em 1873, em mais um surto de cólera em Munique; entre 1914 e 1918, durante a I Guerra Mundial; em 1923 e 1924 devido à hiperinflação gerada pela derrota da Alemanha na I Guerra; de 1939 a 1945, durante a II Guerra Mundial; de 1946 a 1948, mais uma vez devido à situação econômica da Alemanha no imediato pós-guerra, foi substituída por um pequeno “Festival de Outono”; e, finalmente, em 2020 e 2021 devido à pandemia de Covid-19.

A Oktoberfest também já foi palco de um atentado terrorista. Em 26 de setembro de 1980, uma bomba de fabricação caseira, constituída por um extintor de incêndio com 1,39kg de dinamite, explodiu em uma lixeira de um banheiro perto da entrada principal. Treze pessoas faleceram, mais de 201 ficaram feridas, das quais 68 gravemente. A responsabilidade do atentado foi atribuída a Gundolf Köhler, um extremista de direita morto durante o atentado. A versão oficial é a de que ele teria agido sozinho. Mas essa tese é ainda hoje contestada. Foi o segundo ataque terrorista com vítimas fatais ocorrido na Alemanha, depois do atentado ocorrido durante os Jogos Olímpicos de 1972, também em Munique, organizado pelo grupo terrorista palestino Setembro Negro, em que 17 pessoas foram mortas.

Conrad Seidl chama a atenção para o aspecto político da festa. Diz ele que, “muitas vezes se esquece que a primeira Oktoberfest foi uma manifestação política para demonstrar a unidade nacional durante e após as guerras napoleônicas”. Na ocasião, o Reino da Baviera fazia parte do Império Napoleônico como um estado tampão entre a França e a Áustria. Tendo mudado de lado em 1813. Segundo o autor, esse caráter politico da Oktoberfest foi revivido outras vezes, como durante a unificação alemã na década de 1870, sob o regime nazista na década de 1930 (quando a bandeira com a suástica substituiu a bandeira bávara branca e azul) e após a reunificação alemã na década de 1990. Interpretação com a qual eu tendo a não concordar. Porque a Oktoberfest me parece estar muito mais intrinsecamente ligada à manutenção de uma identidade cultural bávara do que de uma identidade alemã.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

História da Oktoberfest. Oktoberfest.net – O guia internacional da Oktoberfest. Disponível em: História da Oktoberfest – Oktoberfest

Oktoberfest. Wikipedia – a enciclopédia livre. Disponível em: Oktoberfest – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

SEIDL, Conrad. Oktoberfest. In: OLIVER, Garret (ed.). The Oxford Companion to beer. New York: Oxford University Press, 2012, p. 813-815.

Reino da Baviera. Wikipedia – a enciclopédia livre. Disponível em: Reino da Baviera – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)


Sérgio Barra é carioca, historiador, sommelier e administra o perfil Profano Graal no Instagram e no Facebook, onde debate a cerveja e a História.