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Experiência e foco: Rodrigo Sawamura é o 4º melhor sommelier do mundo

O Brasil alcançou mais um resultado de destaque no meio cervejeiro mundial: o sommelier Rodrigo Sawamura, 46 anos, conquistou o quarto lugar no Campeonato Mundial de Sommelier de Cerveja (World Cup of Beer Sommeliers) de 2025, realizado em setembro durante a Drinktec em Munique, na Alemanha. Com isso, ele se tornou o único sommelier das Américas a ter três finais de Campeonato Mundial no currículo. O especialista, que também teve a segunda maior nota técnica, superou mais de 90 participantes de 18 países. Além disso, a delegação brasileira foi considerada este ano a segunda melhor do evento.

“O campeonato reforçou que concentração, foco e dedicação influenciam diretamente no resultado”, afirmou Rodrigo Sawamura em entrevista ao Guia da Cerveja. Mas para entender o grande feito, é preciso destacar a dinâmica do campeonato, que é dividido em etapas eliminatórias de altíssima precisão. 

A fase classificatória exigiu que os sommeliers passassem por três provas: identificação de dez estilos de cerveja e dez defeitos (off-flavors) em testes cegos — com cada acerto valendo dez pontos —, além de uma prova teórica. Os dez melhores avançaram para a semifinal, uma etapa de duelos individuais onde os participantes descreviam, às cegas, as características sensoriais de uma cerveja desconhecida.

Já a prova final ia além dos conhecimentos cervejeiros: era preciso também dominar a técnica da oratória. Nesta etapa, os participantes precisavam fazer uma apresentação de serviço completo de uma cerveja sorteada na hora, exigindo do competidor conhecimento aprofundado sobre a história do estilo e da cervejaria, características sensoriais, sugestões de harmonização e oportunidades de consumo para um corpo de jurados e plateia. 

Foi dentro deste nível de exigência e superando todos os desafios que Rodrigo Sawamura colocou o Brasil em destaque.

Confira, abaixo, a entrevista completa.

Estar em um Campeonato Mundial coloca à prova toda a sua trajetória profissional, e deve passar um filme na sua cabeça. Como foi a formação e a preparação para atingir este nível de desempenho?

Tudo começou em 2013, com o curso de sommelier de cervejas. Ali, eu adotei a estratégia de continuar estudando para conseguir me inserir no universo cervejeiro. A partir de 2015, obtive resultados importantes nos campeonatos, como o terceiro lugar no Campeonato Brasileiro daquele ano, que me projetou para o mundo da cerveja. Em 2016, eu fui campeão brasileiro. Em 2017 eu me classifiquei para o Mundial e, naquela edição, fiquei em terceiro lugar.

E aí eu quase me aposentei porque, nesse momento, em 2017, eu já era professor e estava atuando dentro do programa de formação da DOEMENS no Brasil, onde fiquei até 2019. Como já havia entrado para o mercado da cerveja, decidi parar de disputar os campeonatos.

Mas eis que em 2025 a Estrella Galícia da Espanha [onde Sawamura atuava como gerente de cultura cervejeira da marca no Brasil] me incentivou a me inscrever de novo. 

Como sua atuação como sommelier e como professor pode ter impactado no resultado?

Essa consistência de contato com o mundo da cerveja, não só de participar de outras etapas do Mundial e do Brasileiro, mas principalmente a experiência de 100% dando aula entre 2016 e 2019, ajudou demais a consolidar conhecimento. Eu sempre digo que a biblioteca sensorial é diretamente proporcional à exposição. Além disso, a experiência anterior de dinâmica das provas ajuda a entender o que é preciso aprimorar.

Como foi ver o Brasil alcançar o segundo lugar como equipe, considerando sua dedicação ao crescimento da cultura cervejeira no país?

Para mim, isso foi sensacional, ainda mais considerando o nosso cenário e a forma como nos preparamos. Olhamos para outras equipes e elas são “equipes de verdade”, com rotina de treinamento, investimento e estrutura. 

No Brasil, não temos um time que se reúne constantemente. A gente foi lá na raça, individualmente, e obtivemos a segunda maior nota geral, desbancando países que têm esse apoio. 

Foi algo extraordinário. Fazer parte desse time que foi o segundo melhor do Campeonato como um todo foi fantástico. É um feito gigantesco. Fico com o desabafo de que faltou repercussão desse feito no Brasil, que poderia ser um gatilho para a gente se organizar e pleitear mais apoio.

Rodrigo Sawamura se tornou o único sommelier de cervejas das Américas a disputar a final do Campeonato Mundial três vezes (Holger Rauner / YONTEX GmbH & Co KG-2)
Rodrigo Sawamura se tornou o único sommelier de cervejas das Américas a disputar a final do Campeonato Mundial três vezes (Holger Rauner / YONTEX GmbH & Co KG-2)

Quais são as provas mais difíceis no Campeonato?

Para mim, e por já ter ficado em duas finais do Campeonato Mundial, o nível de pressão que eu tinha colocado na minha participação foi muito grande. Então, todas as etapas foram realmente desafiadoras, mas sem dúvida nenhuma a de off-flavors e a prova final são as mais difíceis. 

Em off-flavors, a dificuldade é que a gente, aqui no Brasil, não tem muito acesso ao material usado no Campeonato Mundial. Isso é um fator que dificulta um pouquinho nosso treinamento. Até dava para comprar, mas tinha toda aquela questão de investimento alto, prazo de recebimento extenso, então não era simples. E este foi um grande ponto. 

E depois, na última prova, o nível de tensão é muito grande — pelo menos para mim, que não sou um exímio apresentador. Confesso que não é simples. Fazer essas apresentações, controlar tempo de fala, ter clareza na comunicação, ter esse jogo de cintura para contornar algumas situações que podem fugir do controle… São muitas variáveis para contornar e, ainda assim, entregar um belíssimo trabalho para conseguir encantar os jurados, obter uma excelente nota e conseguir resultados espetaculares na prova final. 

Eu fiz muito treino de estilos aqui no Brasil e uma semana antes, eu fui para Espanha me encontrar com o time da Espanha, que também participaria do Campeonato Mundial —, e a gente fez três dias de treinamentos bem intensos de estilos e off-flavors, antes de fazer a prova.

Ao viver a experiência deste campeonato, houve algum aprendizado ou desafio que mudou a forma como você vê a profissão de sommelier?

O campeonato reforçou que concentração, foco e dedicação influenciam diretamente no resultado. Destaco a importância da inteligência emocional. Minha terceira participação foi a que eu estava mais focado, tranquilo e com mais controle emocional. Essa parte psicológica é crucial, principalmente nas provas de análise às cegas. 

Fica também a lição de que nem tudo está sob nosso controle e que se permitir errar é importante. Saí arrasado da prova final por conta de episódios que tiraram minha concentração, o que pode ter me tirado do pódio. Hoje, no entanto, consigo enxergar “o copo meio cheio”: fiz parte da segunda melhor equipe, tive a segunda maior nota técnica e sou o único sommelier das Américas a ter três finais de Campeonato Mundial.

Que mensagem pessoal e profissional você gostaria de deixar para os sommeliers brasileiros que acompanham sua trajetória e sonham em se tornar o próximo Rodrigo Sawamura e, quem sabe, levar o Brasil para o topo mundial?

Para atingir estes resultados, é preciso treino, não tem como fugir da exposição. Você precisa se expor às provas técnicas e às oportunidades de apresentação em público [para poder se sair bem nas provas de apresentação de serviço]. 

Essa rotina e frequência vão te entregar a segurança para o melhor resultado possível. Se dediquem a buscar conhecimento, se desenvolver tecnicamente e a praticar com uma certa frequência, porque a consistência faz toda a diferença. A margem para erro é mínima.

Dedicação, frequência, exposição e muito controle emocional são os grandes pilares que constroem um bom resultado em competições internacionais como essa.

Fux pede vista e julgamento do Sicobe é suspenso no STF

O ministro Luiz Fux fez um pedido de vista no sábado (18) durante a sessão de julgamento do Sicobe na Primeira Turma do STF. A sessão pode determinar ou não a volta do Sistema de Controle de Produção de Bebidas. Com isso, o julgamento fica suspenso por 90 dias.

O pedido veio logo após o voto de Alexandre de Moraes contra a retomada do sistema. Moraes seguiu o relator Cristiano Zanin, que já havia se manifestado no início da sessão virtual, que começou na sexta-feira (17) e iria até dia 24 de outubro. Ainda faltam votar o próprio Luiz Fux, o ministro Flávio Dino e a ministra Carmem Lúcia.

Com o placar em 2 a 0, basta apenas mais um voto contrário para formar maioria no entendimento que o Sicobe não deve ser retomado.

Entenda o julgamento do Sicobe no STF

Em específico, o que está em jogo no julgamento é se Receita Federal tinha competência para determinar a suspensão do Sicobe por meio de ato administrativo. A análise do caso é uma resposta a uma decisão do Tribunal de Contas da União (TCU). O órgão avaliou, em 2024, que a Receita não teria esta competência, e determinou o retorno do Sicobe para reforçar a fiscalização.

A Receita Federal recorreu, via Advocacia-Geral da União (AGU), com um mandado de segurança para suspender os efeitos da decisão do TCU. O pedido foi acatado e a decisão do TCU foi suspensa em caráter liminar pelo ministro do STF Cristiano Zanin, em abril deste ano.

Em sua decisão, Zanin argumentou que a Receita poderia, sim, suspender a operação do Sicobe. E que a volta do sistema poderia criar um benefício tributário sem previsão orçamentária, o que violaria a Lei de Responsabilidade Fiscal. Este impacto é estimado pela AGU em cerca de R$ 1,8 bilhão em renúncia fiscal via concessão de créditos de PIS/Cofins por unidade de bebida.

É possível acompanhar os votos da Primeira Turma relacionados ao Mandado de Segurança (MS) 40235, relativo ao Sicobe, por meio do site do STF. Para isso, basta entrar no Portal de Sessões de Julgamento Virtuais, clicar em “Ver Processos” da Primeira Turma e procurar por MS 40235.

Sicobe e a crise do metanol

A crise do metanol despertou críticas à fiscalização na produção de bebidas alcoólicas e, consequentemente, trouxe à tona o debate sobre a volta do Sicobe. No entanto, de acordo com a Receita Federal, o Sicobe não poderia identificar adulterações de bebidas alcoólicas.

Em nota publicada em seu site, a Receita afirma que o “controle de destilados, como vodka, gin, whisky etc. é usualmente feito pela utilização de selos, que não têm relação, nem se confunde com o Sicobe. O Sicobe controlava, preponderantemente, refrigerantes e cervejas”, diz a entidade.

Além disso, o Ministério da Fazenda também emitiu nota rechaçando a correlação entre os crimes de adulteração de bebidas e a extinção do Sicobe. Segundo a pasta, “os equipamentos e aparelhos instalados nos estabelecimentos envasadores de cervejas, refrigerantes e águas permitiam à Receita saber a quantidade de produtos fabricados pelos fabricantes”, não havendo, portanto “verificação alguma de qualidade dos produtos por meio do Sicobe, nem qualquer tipo de lacre na embalagem”.

A Fazenda reforça que a “finalidade era exclusivamente fiscalização tributária, não da qualidade do produto ou impedir adulteração posterior”.

Outro ponto nesta discussão é que as investigações indicam que as adulterações recentes nos destilados ocorreram em fábricas clandestinas, que não estariam sujeitas à fiscalização do Sicobe.

Os impactos de uma possível volta do Sicobe na indústria da cerveja seriam grandes, já que o sistema é caro. Estimativa da LA Consutores (R$ 1,2 bilhão) diz que o custo da reativação deve ser de três vezes o valor possivelmente arrecadado com a sonegação de impostos federais (R$ 453 milhões).

Lúpulo brasileiro: 7 curiosidades sobre a matéria-prima nacional

O lúpulo brasileiro não é mais uma promessa. É uma realidade. Na temporada 2022/2023, foram produzidos 88 mil quilos, segundo pesquisa anual da Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo). São 114 produtores e um total de 111,18 hectares cultivados. Mesmo assim, ainda é muito pouco perto da necessidade de um país que é o terceiro maior produtor de cerveja do mundo, com mais de 15 bilhões de litros por ano e tem cerca de 2 mil fábricas.

Atualmente, embora a indústria cervejeira ainda seja dependente da importação do produto, as plantações nacionais seguem se desenvolvendo para fornecer o lúpulo brasileiro, especialmente para as cervejarias artesanais. Um ótimo começo para uma onda que começou apenas em 2005 – o país já teve outras tentativas de cultivo nos séculos 19 e 20.

Por aqui, os produtores de lúpulo tiveram que adaptar a cultura da planta, natural de climas frios e cultivada tradicionalmente entre as latitudes 35° e 55° do globo terrestre. Sabe-se que essa trepadeira é muito dependente de tempo de luz solar e que o Brasil oferece menos que o necessáiro. Portanto, os produtores tiveram que aprender a suplementar as plantações com luz artificial, por exemplo.

Esses e outros ajustes curiosos que estão sendo realizados pelos pioneiros do lúpulo nacional foram tema de uma conversa entre a reportagem do Guia da Cerveja com Daniel Leal, vice-presidente da Aprolúpulo. O dirigente contou curiosidades que farão você apreciar e vaorizar ainda mais a matéria-prima nacional – que já começa a aparecer em algumas cervejas artesanais.

Suplementação com luz artificial

O lúpulo é uma planta originária do Hemisfério Norte, onde os dias são mais longos e, portanto, há maior quantidade de exposição à luz. No Brasil, para compensar os dias mais curtos, é necessária a suplementação luminosa. Isso porque o lúpulo precisa acumular muitas horas de sol para fotossíntese e energia, e o encurtamento do dia funciona como um gatilho para a planta parar de vegetar e começar a produzir as inflorescências (cones de lúpulo). 

Enganando a planta com LED

A suplementação luminosa não precisa ser feita com lâmpadas específicas como as usadas para plantações indoor. Descobriu-se que lâmpadas LED com potência específica podem “enganar” a planta, fazendo-a acreditar que o dia continua longo, atrasando o florescimento. Essas lâmpadas são mais baratas e consomem menos energia do que as lâmpadas fotossintetizantes.

Maior ciclo produtivo

Antes da suplementação luminosa, a produtividade do lúpulo no Brasil era menor, pois a planta não acumulava horas de luminosidade suficientes e não tinha o “gatilho” para florescer. Agora, a suplementação luminosa alonga o ciclo de produção, o que significa ter mais de uma safra por ano. Ela permite controlar o desenvolvimento da planta e atingir um nível de produtividade economicamente viável a cada safra.

Amor à cerveja leva guia a produção do lúpulo brasileiro

Muitos produtores são amantes da cerveja, mas enfrentam dificuldades nos processos agrícolas ou na comercialização. Produtores com experiência agrícola podem ter sucesso na produção, mas dificuldade na venda. O novo segmento e o mercado cervejeiro estão também se adaptando a essa nova realizadae e ao novo produto.

Produtor faz-tudo

No Brasil, as plantações de lúpulo, geralmente, são pequenas propriedades, de 1 mil a 2 mil metros quadrados, com viabilidade comercial a partir de meio hectare. Existem algumas produções maiores (4 a 7 hectares), mas são poucas. Por isso, o produtor de lúpulo no Brasil é altamente verticalizado, plantando, beneficiando, industrializando, criando marca e vendendo. Isso gera altos custos e limita novos investimentos.

Alto valor agregado por hectare

O lúpulo tem alto valor agregado em comparação com outras culturas, permitindo um retorno interessante em pequenas áreas. No entanto, a produtividade é variável devido a fatores de risco (suplementação luminosa, doenças, pragas) e a falta de domínio total do manejo.

Recomendado para a diversificação

O lúpulo é uma cultura interessante para diversificar a atividade econômica da propriedade, mas não é recomendado como investimento único devido aos riscos e variabilidade. Uma realidade que será mudada em breve, se depender da força de vontade dos produdores de lúpulo brasileiro.

Até quando as cervejarias serão reféns dos Conselhos Profissionais?

Nos últimos anos, o mercado cervejeiro brasileiro tem enfrentado desafios que vão além da produção, comercialização e inovação. Entre esses obstáculos, um em especial tem causado indignação e apreensão entre microcervejarias: a atuação dos conselhos profissionais, especialmente CREA e CRQ, que insistem em fiscalizar e autuar empresas com base em interpretações questionáveis da legislação.

A recente decisão da 7ª Vara Cível Federal de São Paulo, favorável à Abracerva, é emblemática. A Justiça reconheceu que a atuação de microcervejarias não configura atividade privativa da engenharia e, portanto, não justifica a obrigatoriedade de registro junto ao CREA nem a contratação de engenheiros como responsáveis técnicos. A sentença anulou multas, autos de infração e afastou a pretensão do conselho de vincular essas empresas a uma estrutura regulatória que simplesmente não se aplica à sua realidade produtiva.

A produção de cerveja, embora complexa, não deve ser tratada como uma atividade que exige, necessariamente, um engenheiro responsável. Especialmente quando a Lei 6.839/1980 estabelece que a exigência de registro em conselho depende da atividade-fim da empresa. Para o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), que de fato regula o setor de bebidas, o que se exige é a comprovação de responsabilidade técnica. Mas não há imposição de que esta responsabilidade recaia exclusivamente sobre engenheiros ou químicos. Tanto é que há biólogos, técnicos industriais e farmacêuticos como responsáveis técnicos de cervejarias.

Essa divergência interpretativa vem servindo de escudo para autuações indevidas e cobranças ilegítimas. É extremamente comum que conselhos profissionais exijam registro de pessoa jurídica e a cobrança de anuidade com base apenas na presença do CNAE de fabricação de cervejas nos registros da empresa, mesmo sem qualquer inspeção ou averiguação concreta das funções exercidas.

Solução para o caso dos Conselhos Profissionais

Felizmente, há sinais de avanço. Existe atualmente a expectativa de que o MAPA venha a dispensar a exigência da ART (anotação de responsabilidade técnica) exclusivamente para fins de comprovação da responsabilidade técnica. Seria adotado em seu lugar um modelo mais flexível e coerente com a realidade do setor. Ele seria baseado em declaração de responsabilidade técnica e/ou contrato com o profissional. Desde que este esteja regularmente inscrito como pessoa física em seu respectivo conselho.

Essa possível mudança traria alívio e racionalidade. Afinal, o objetivo da regulação é proteger a qualidade e a segurança do produto, e não criar barreiras desnecessárias ao empreendedorismo. Sobretudo em um setor onde a criatividade, a inovação e a independência são marcas registradas.

Essa medida certamente não resolverá todos os problemas das cervejarias com os conselhos profissionais. Mas permitirá que as novas empresas obtenham o registro de estabelecimento sem precisar recorrer aos conselhos para a emissão da ART do responsável técnico. É justamente nesse momento — da emissão da ART — que os conselhos impõem o registro da cervejaria como pessoa jurídica, um vínculo que não pode ser cancelado administrativamente e que gera cobranças de anuidades indefinidamente.

É chegada a hora de os conselhos deixarem de agir com fins exclusivamente arrecadatórios e, ao mesmo tempo, deixarem de manter o setor cervejeiro artesanal refém de cobranças e fiscalizações abusivas. O reconhecimento jurídico da ilegalidade dessas autuações é um passo relevante, mas não pode ser isolado. Precisa vir acompanhado de mudanças administrativas e de um posicionamento claro do poder público em favor da razoabilidade e da segurança jurídica.

Enquanto isso, as cervejarias devem se manter vigilantes, organizadas e, sempre que necessário, recorrer ao Judiciário para garantir seus direitos. E que esse brinde à liberdade empresarial não fique apenas no copo. Mas se transforme em um ambiente mais justo, seguro e desburocratizado para quem produz, inova e investe no mercado cervejeiro brasileiro.

André Lopes é advogado, sócio do escritório Lopes Verdi Advogados e criadores Advogado Cervejeiro.

Menu Degustação: Programa Fermenta 2025 abre votação popular

O Programa Fermenta, iniciativa da Ambev voltada ao fortalecimento do ecossistema cervejeiro, abriu a votação popular que definirá os vencedores da edição 2025. Nove projetos finalistas disputam apoio financeiro de até R$ 25 mil cada, com propostas que valorizam a história da cerveja, incentivam o consumo responsável e estimulam boas práticas no setor.

O público pode participar acessando o site do Prosas e registrando seu voto até o dia 20 de outubro. Cada pessoa pode votar apenas uma vez, utilizando seu e-mail. Os projetos mais votados serão selecionados para receber o prêmio e dar continuidade às suas iniciativas em prol da cultura cervejeira no Brasil.

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Abracerva encerra road show com congresso em São Paulo

A Abracerva realizou na sexta (17), na Academia da Cerveja, em São Paulo, uma edição especial do Congresso Cerveja Brasil. O evento marcou o encerramento do road show Conexão Cerveja Brasil 2025, que passou pelas cinco regiões do país levando capacitação e integração ao setor. A programação teve palestras sobre gestão, marketing e tendências, além de um workshop de off flavors conduzido por Mariana Maranho, da Globalfood, com degustação guiada para profissionais da área.

O congresso foi realizado logo após o julgamento final da 5ª Copa Cerveja Brasil, concurso oficial da Abracerva, cujos vencedores foram anunciados no dia 23 de outubro. A competição reuniu as cervejas medalhistas das etapas regionais e garantiu às campeãs nacionais vagas no World Beer Cup 2026, nos Estados Unidos. O Conexão Cerveja Brasil contou com patrocínio de Globalfood, Hop France, Sebrae e Lallemand, e apoio da Academia da Cerveja e da Abralatas.

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Os melhores do Great American Beer Festival 2025

O Great American Beer Festival 2025 premiou 273 cervejarias e cidrarias com 347 medalhas, reconhecendo os melhores rótulos dos Estados Unidos. Realizado em Denver e promovido pela Brewers Association, o concurso avaliou 8.315 inscrições de todos os 50 estados e Washington D.C., julgadas por 250 especialistas ao longo de sete dias. Esta foi a 39ª edição do evento, que também incluiu categorias especiais para sidras e uma nova categoria temporária chamada Vera Hop.

Entre os destaques, Fat Head’s Brewery (Ohio), UPP Liquids (Oregon) e Westbound & Down Brewing Co. (Colorado) foram as mais premiadas. As categorias mais concorridas foram Juicy/Hazy IPA, West Coast IPA e Festbier, reforçando a diversidade e o vigor da produção cervejeira americana. Segundo Chris Williams, diretor da competição, o festival continua a ser “o grande palco da inovação e da excelência” das cervejarias do país.

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Heineken lança festival sem line-up revelado

A Heineken promoveu o inédito “No Line-Up Festival” no dia 25 de outubro, na Barra Funda (SP), com mais de 15 atrações nacionais e internacionais que só foram reveladas durante o evento. Os ingressos gratuitos puderam ser resgatados no Hei App. Com curadoria de Lúcio Ribeiro e Felipe Hirsch, o festival buscou incentivar a descoberta musical e experiências autênticas, integrando a plataforma Green Your City. A ação reforçou a relação da marca com a música e seu compromisso com sustentabilidade e inovação.

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Stella Artois celebra volta do tênis à Costa do Sauípe

Após 13 anos, o tênis voltou à Costa do Sauípe com o torneio ATP Challenger 125 entre 19 e 26 de outubro, e Stella Artois marcou o retorno com um cálice especial feito com areia das praias locais, em homenagem ao bicampeonato de Guga Kuerten na região. O projeto foi criado com a artista Elvira Schuartz e simboliza a ligação da marca com o tênis, esporte que a Stella também patrocina em torneios como Wimbledon e Roland Garros. No Brasil, o destaque foi a Stella Artois Pure Gold, versão sem glúten e com menos calorias, presente nas ativações do evento.

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Oktoberfest de Igrejinha começa com shows e tradição

A 36ª Oktoberfest de Igrejinha começou nesta sexta (17) e foi até 26 de outubro, com expectativa de reunir 200 mil visitantes no Parque de Eventos Almiro Grings. O evento, considerado a maior festa comunitária do país, teve mais de 70 atrações, entre elas Lauana Prado, Zé Neto & Cristiano, Israel & Rodolffo, Nenhum de Nós e Menos é Mais. Todo o lucro foi revertido para entidades da região. A festa trouxe novidades como chopeiras automatizadas, novo espaço de convivência e áreas inclusivas.

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Oktoberfest Summit estreia com sucesso

A primeira edição do Oktoberfest Summit reuniu cerca de 500 participantes em Blumenau, entre 13 e 15 de outubro, superando as expectativas da organização. O evento trouxe painéis e palestras sobre gestão, turismo, marketing e operação da maior festa alemã das Américas, além de visitas técnicas ao Parque Vila Germânica. Com apoio da Exame, o Summit já tem nova edição confirmada para 2026, prometendo ampliar o debate sobre o legado da Oktoberfest.

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Ambev promove consumo responsável na Oktoberfest de Blumenau

Durante a Oktoberfest de Blumenau 2025, a Ambev reforçou sua campanha de consumo responsável com a ação “Open Água”, que ofereceu água ultrafiltrada gratuita em parceria com a Veolia nos pavilhões Blumenau e Munique e nos bares do Camarote Spaten. Em sua terceira edição, a iniciativa incentivou o público a intercalar o consumo de cerveja com água, promovendo moderação e reduzindo o uso de garrafas plásticas e copos descartáveis no Parque Vila Germânica. A ação fez parte da agenda “Brinde à Moderação”, que também incluiu o Dia de Responsa e atividades na Academia da Cerveja com foco em conscientização e consumo equilibrado.

O Guia da Cerveja elaborou um material especial sobre como organizar eventos de cerveja com representantes do Summit. Você pode ler aqui.

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Dádiva leva projeto feminino à Feira do Sebrae

A Cervejaria Dádiva participou da Feira do Sebrae, de 15 a 18 de outubro, no estande “São Paulo de Destinos e Sabores”, representando o projeto “Criado por Elas, Liderado por Elas” ao lado da Japas Cervejaria. A iniciativa, lançada em março, reúne 28 cervejarias fundadas e lideradas por mulheres para ampliar visibilidade e oportunidades de negócios. A fundadora da Dádiva, Luiza Tolosa, também ministrou palestra no sábado (18), às 18h20, sobre empreendedorismo feminino e inovação.

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Krug Bier lança sua Oktoberfest sazonal

A Krug Bier lançou sua cerveja sazonal Oktoberfest, uma festbier com 5,5% de teor alcoólico e 25 IBU, equilibrando o amargor dos lúpulos nobres alemães com o dulçor dos maltes caramelo. A novidade chegou em outubro, mês em que a cervejaria celebrou 28 anos. Pioneira entre as artesanais de Minas Gerais, a Krug mantém viva a tradição germânica com toque mineiro e segue expandindo o portfólio, que inclui sucessos como a German Pils e a Krug Light.

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Hilton Morumbi realiza Beer Fest com chopp em dobro

Durante todo o mês de outubro, o Hilton São Paulo Morumbi realizou o “Hilton Beer Fest”, com chopp Brahma e Stella Artois em dobro no Canvas Bar, de segunda a domingo, das 17h às 19h. O evento celebrou o mês da cerveja com happy hour animado, petiscos harmonizados e DJs de quinta a sábado. O bar ainda contou com o maior telão fixo de hotel em São Paulo para transmissões esportivas.

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Rock e chope na Monka Rocktoberfest

A Monka Cervejaria realizou de 17 a 19 de outubro, em Belo Horizonte, o Monka Rocktoberfest — evento que misturou tradição alemã, rock e cerveja artesanal. A programação incluiu shows de bandas como Cash, Velotrol e Made in 80, almoço típico, torneios de Masskrugstemmen e chope em metro, além de open bar nos dois primeiros dias. O festival ocorreu em espaço coberto, no bairro Olhos D’Água, com ingressos disponíveis pelo Sympla (https://www.sympla.com.br/evento/monka-rocktoberfest/3106895).

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Sicobe vira tema de julgamento no STF; custo de religamento seria o triplo da sonegação

O Sistema de Controle de Produção de Bebidas (Sicobe) vai voltar ao debate do Supremo Tribunal Federal (STF) a partir desta sexta-feira (17). A Primeira Turma deverá analisar de forma online, até 24 de outubro, se o sistema deve voltar a operar após ser extinto em 2016. No entanto, o custo de religamento do sistema seria o triplo do potencial de arrecadação com impostos federais sonegados no setor cervejeiro, segundo estudo da LCA Consultores publicado na Folha de São Paulo na quinta-feira (16). E os impactos seriam ainda maiores se considerados os demais fatores, como os desafios tecnológicos.

Para o Sindicerv (Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja), existem alternativas mais modernas e eficazes que poderiam fortalecer a fiscalização e o controle tributário sem a necessidade de reinstalar um sistema físico nas linhas de produção. 

Em relação à adulteração das bebidas, as medidas mais efetivas seriam controlar rigorosamente a comercialização e uso do metanol, aumentar as penalidades para os crimes de falsificação, intensificar a fiscalização em pontos de venda e a eliminação de garrafas que poderiam ser usadas de forma ilegal. 

“Políticas de reciclagem e logística reversa, aliadas ao uso de tecnologias, também podem contribuir para ampliar a rastreabilidade e a transparência da cadeia produtiva”, diz Márcio Maciel, presidente-executivo do Sindicerv.

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A análise do caso ocorre em meio à crise do metanol, em que pessoas foram intoxicadas e levadas à morte devido à presença da substância em bebidas destiladas. Até quarta-feira (15), o balanço do Ministério da Saúde apontava 41 casos comprovados de intoxicação por metanol, e oito mortes confirmadas. Outros 107 casos seguiam em investigação. O estado de São Paulo concentrava 60,8% das notificações.

Impacto na indústria da cerveja

De acordo com o estudo da LCA Consultores encomendado pelo Sindicerv, somente no setor cervejeiro, o custo para religar o Sicobe seria de R$ 1,2 bilhão. E o potencial de arrecadação de tributos federais sonegados seria de apenas R$ 453 milhões.

De acordo com Maciel, o Sindicerv defende o controle efetivo da produção de bebidas, mas não vê benefícios na volta do sistema antigo. “A experiência com o Sicobe mostrou alto custo, baixa aderência tecnológica e pouca efetividade para o problema central, que é a adulteração e sonegação fora de fábrica”, disse.

Para ele, a retomada do sistema traria desafios técnicos, operacionais e econômicos. “A adaptação das linhas de produção exigiria ajustes físicos e tecnológicos complexos, especialmente em plantas com grande variedade de embalagens e processos automatizados”, avalia.

O custo exato varia de acordo com o porte e a complexidade da linha de produção de cada fábrica. Segundo Maciel, em 2016 o impacto total foi de R$ 2 bilhões no setor. Mas na época eram apenas 496 cervejarias no país. Atualmente são mais de 1,9 mil.

“A gente já paga muitos impostos, e a volta do Sicobe traria custos extras, que não conseguimos arcar”

Gilberto Tarantino, presidente da Abracerva (Associação Brasileira da Cerveja Artesanal)

Segundo Gilberto Tarantino, presidente da Abracerva (Associação Brasileira da Cerveja Artesanal), o setor é favorável ao controle tributário e está aberto para discutir com as autoridades sugestões alternativas. No entanto, a associação é contra a volta do Sicobe, devido ao impacto dos custos extras à produção. “A gente já paga muitos impostos, e a volta do Sicobe traria custos extras, que não conseguimos arcar”, diz.

“Ouvimos relatos, na época, de custos em torno de R$ 0,03 a R$ 0,05 por unidade, mas hoje, reajustando os valores, estimamos um custo de R$ 0,10 por unidade”, afirma.

Segundo Tarantino, a crise do metanol também impactou o setor cervejeiro, porque as pessoas estão saindo menos de casa. “A crise do metanol atingiu diretamente os bares, restaurantes, e alguns pontos de venda, como supermercados, mercadinhos e adegas. O mercado todo sofre. O pessoal fala que está havendo uma troca do destilado pela cerveja. Mas as pessoas estão saindo menos de casa. Então, ninguém ganha em uma situação como essa”, afirma.

O que está em debate no STF

A Primeira Turma do STF deve avaliar, agora, se a Receita Federal tinha competência para determinar a suspensão do Sicobe por meio de ato administrativo. A análise do caso é uma resposta a uma decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) que, em 2024, avaliou que a Receita não teria esta competência, e determinou o retorno do Sicobe para reforçar a fiscalização. 

A Receita Federal recorreu, via Advocacia-Geral da União (AGU), com um mandado de segurança para suspender os efeitos da decisão do TCU. O pedido foi acatado e a decisão do TCU foi suspensa em caráter liminar pelo ministro do STF Cristiano Zanin, em abril deste ano.  

Em sua decisão, Zanin argumentou que a Receita poderia, sim, suspender a operação do Sicobe, e que a volta do sistema poderia criar um benefício tributário sem previsão orçamentária, o que violaria a Lei de Responsabilidade Fiscal. Este impacto é estimado pela AGU em cerca de R$ 1,8 bilhão em renúncia fiscal via concessão de créditos de PIS/Cofins por unidade de bebida.

Agora, a Primeira Turma do STF – composta por outros quatro ministros, além de Zanin, que a preside – decide se o TCU tem autoridade para restabelecer o sistema sem aval do Executivo.

É possível acompanhar os votos da Primeira Turma relacionados ao Mandado de Segurança (MS) 40235, relativo ao Sicobe, por meio do site do STF. Para isso, basta entrar no Portal de Sessões de Julgamento Virtuais, clicar em “Ver Processos” da Primeira Turma e procurar por MS 40235.

O que é o Sicobe

Leitor do selo Sicobe, sistema extinto em 2016(Imagem: Reprodução/YouTube/Sicpa Brasil)

O Sicobe era usado nas indústrias para quantificar a produção de cervejas, refrigerantes e águas envasadas, e previa a concessão de créditos de PIS/Cofins por unidade de bebida. O mecanismo era instalado pela Casa da Moeda, sob supervisão da Receita Federal. 

Segundo a Agência Brasil, o Sicobe foi desativado sob o argumento de que a Casa da Moeda estaria desenvolvendo um projeto para substituir o sistema, por um custo menor. A agência cita ainda que, de acordo com a Receita, foi feita uma avaliação em 2015 sobre a eficácia do sistema. Naquela época, o Ministério da Fazenda instaurou uma comissão especial que concluiu que o Sicobe era inadequado, recomendando a descontinuidade. 

Sicobe e a crise do metanol 

A crise do metanol despertou críticas à fiscalização na produção de bebidas alcoólicas e, consequentemente, trouxe à tona o debate sobre a volta do Sicobe. No entanto, de acordo com a Receita Federal, o Sicobe não poderia identificar adulterações de bebidas alcoólicas. Em nota publicada em seu site, a Receita afirma que o “controle de destilados, como vodka, gin, whisky etc. é usualmente feito pela utilização de selos, que não têm relação, nem se confunde com o Sicobe. O Sicobe controlava, preponderantemente, refrigerantes e cervejas”, diz a entidade.

Além disso, o Ministério da Fazenda também emitiu nota rechaçando a correlação entre os crimes de adulteração de bebidas e a extinção do Sicobe. Segundo a pasta, “os equipamentos e aparelhos instalados nos estabelecimentos envasadores de cervejas, refrigerantes e águas permitiam à Receita saber a quantidade de produtos fabricados pelos fabricantes”, não havendo, portanto “verificação alguma de qualidade dos produtos por meio do Sicobe, nem qualquer tipo de lacre na embalagem”. 

A Fazenda reforça que a “finalidade era exclusivamente fiscalização tributária, não da qualidade do produto ou impedir adulteração posterior”.

Outro ponto nesta discussão é que as investigações indicam que as adulterações recentes nos destilados ocorreram em fábricas clandestinas, que não estariam sujeitas à fiscalização do Sicobe.

Os problemas do Sicobe

Selo Sicobe impresso em lata de cerveja; sistema foi extinto em 2016 (Imagem: Reprodução/YouTube/Sicpa Brasil)

Segundo o advogado tributarista Marcos Moraes, operações da Receita Federal ligadas à Casa da Moeda apontavam suspeitas de fraudes no Sicobe. Além disso, na época, havia questionamentos sobre os custos com aquisição e manutenção dos equipamentos, além de debates sobre a eficiência e os limites do sistema, já que ele não inspecionava a qualidade do produto, mas sim volumes de produção. 

Outro ponto é o impacto operacional nas indústrias, o que era um entrave, com exigências técnicas difíceis de serem contornadas no dia a dia de produção.

Moraes explica que o sistema funcionava como se fosse uma grande caixa com um túnel, que ficava acoplada à linha de produção. Por ali passavam as latas ou garrafas que eram identificadas por meio de uma impressão no formato de pequenos pontos – como se fosse um QR code retangular. 

Este mecanismo tinha que ficar conectado à internet 24 horas por dia, 7 dias por semana, segundo Moraes, mesmo que a linha de produção estivesse inoperante – o que gerava custos de manutenção.

E, caso o sistema parasse de funcionar devido à queda de energia ou de internet, a Receita Federal era notificada e o produtor teria que justificar o motivo desta desativação. “Era como manter um fiscal dentro da fábrica, tendo que alimentar o sistema com informações para justificar qualquer pausa na operação”, afirma Moraes. Neste vídeo de 2016, é possível conhecer como funcionava o mecanismo do Sicobe.

Segundo o Sindicerv, o Sicobe operava como um arranjo de hardwares e tinta invisível, com câmeras/sensores e contadores em pontos da produção, operado por empresa contratada pelo governo. 

“O objetivo era identificar precisamente volumes produzidos e confrontar com a escrituração fiscal. Na prática, exigia intervenção física, paradas e manutenção; não era um “dosador eletrônico” que cobrava imposto automaticamente: o tributo sempre decorre da escrituração fiscal e das notas eletrônicas. Também não analisava a composição das bebidas; então, não era um sistema desenhado para evitar falsificações ou adulterações. Era obrigatório para bebidas frias e voluntário para bebidas destiladas”, afirma Maciel.

Agora, explica Maciel, o setor opera com autodeclaração auditável e rastros digitais oficiais – como Nota Fiscal Eletrônica (NF-e), Escrituração Fiscal Digital (EFD) ICMS/IPI, SPED, Bloco K (antigo Livro de Registro), controles de estoque/insumos, frete e saída, que são ferramentas interligadas que formam um ecossistema de rastreabilidade digital e controle fiscal em tempo real.

“Essas bases são cruzadas pelas administrações tributárias, permitindo malhas de inconsistência, auditorias dirigidas e fiscalização em campo. Para qualidade e segurança, seguimos normas sanitárias e programas internos robustos, auditados por órgãos competentes. Com essas ferramentas, a arrecadação aumentou”, diz.

Como fazer bons eventos de cerveja? Confira as dicas de especialistas

O mercado mudou. Hoje cervejarias não são mais apenas fábricas. Para melhorar o faturamento, elas são cada vez mais sendo também pontos de venda, e-commerce e produtoras de eventos. E os eventos de cerveja são ótimas oportunidades de apresentar os produtos e fidelizar consumidores por meio de um ambiente que promove a interação social e o prazer da degustação da bebida. Ou seja, uma verdadeira experiência. Por isso, eles se consolidam como ferramentas cruciais para o desenvolvimento do mercado, a educação do consumidor e a construção de comunidades, segundo especialistas.

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Importância

“A principal dica é entender que um evento cervejeiro vai muito além da bebida: ele precisa oferecer uma experiência completa. Isso inclui pensar no ambiente, na gastronomia, na música, nas ativações e até na identidade visual”, afirma Guilherme Guenther, diretor-geral do Parque Vila Germânica, onde é feita a Oktoberfest Blumenau (SC), que completa 40 anos em 2025.

Gulherme é um dos 30 especialistas que estiveram presentes na primeira edição do Oktoberfest Summit, encontro sobre a arte de organizar grandes eventos e novo braço da maior Oktoberfest da América Latina. Ele ocorreu de 13 a 15 de outubro e além de muito conhecimento, a iniciativa revelou parte dos segredos do megaevento. 

E, para que tudo ocorra no planejado, é preciso montar uma logística bem planejada, segundo Guenther. Desde a seleção dos fornecedores até a estrutura de atendimento ao público. “Também destacamos a importância de parcerias estratégicas — tanto com marcas de cerveja quanto com setores complementares, como gastronomia, turismo e cultura, fortalecendo o evento e amplia o alcance”, diz.

O mesmo vale para eventos de cerveja artesanal. Segundo Rafa Moschetta, que organiza desde 2012 o IPA Day Brasil e desde 2019 o IPA Day São Paulo, é preciso pensar no evento cervejeiro como uma ferramenta de transformação do mercado, criação de demanda e educação do consumidor.

Hoje as cervejarias não são somente fábricas e sim pontos de venda e até produtoras de eventos (Marcos Weiske / IPA Day São Paulo)
Hoje as cervejarias não são somente fábricas e sim pontos de venda e até produtoras de eventos (Marcos Weiske / IPA Day São Paulo)

“É uma ferramenta que consegue usar o entretenimento para apresentar, no caso do Festival IPA Day, por exemplo, os estilos e subestilos, formar consumidores de IPAs e educá-los sobre o valor do produto. Construímos uma comunidade. E continuamos trabalhando para também apresentar cerveja artesanal para um consumidor que não tem o hábito de consumir cerveja artesanal para fomentar a cultura do artesanal como um produto do dia a dia e não de indulgência”, afirma.

5 dicas para um bons eventos de cerveja

Foco na experiência completa

Segundo Guilherme Guenther, bons eventos de cerveja devem proporcionar uma experiência completa. O que inclui pensar no ambiente, na gastronomia, na música, nas ativações e na identidade visual.

Para Moschetta, o evento é uma oportunidade para a marca contar uma história por meio da música, da gastronomia, da estética e do conceito do projeto, amplificando seu ponto de contato com o consumidor. “Um evento bem elaborado é um instrumento potente de branding e construção de comunidade”, diz.

Trabalhe com profissionais qualificados

Rafa Moschetta destaca a importância de fechar parcerias e contratar profissionais qualificados para que o amadorismo não estrague toda a experiência dos eventos de cerveja. Ele afirma que se a organização do evento em si não é uma expertise da cervejaria que deseja promovê-lo, o ideal é contratar profissionais qualificados para organizar a estrutura e dar apoio. “Contratar agências ou especialistas torna a entrega muito mais confortável. E de nível mais alto, visto que o desafio de tocar uma cervejaria já é grande”, diz.

Para a operação de chope deste ano, a Oktoberfest de Blumenau conta com o serviço da Netbar Operações de Bar e Eventos, dos sócios Rafael Almeida e Jonathan Benkendorff. De acordo com Jonathan, a operação é complexa, envolvendo quase 1 mil pessoas para garantir que a cerveja seja servida gelada para todos. “Diferentemente de festivais com bebidas em lata ou garrafa, o chope exige uma operação robusta e mecanizada, com equipamentos especializados, como torneiras, bandejas coletoras, barris, cilindos de dióxido de carbono, etc.”, explica em entrevista ao Guia da Cerveja durante a Oktoberfest. A Netbar é responsável por 90% da entrega de chope do festival.

Planeje a logística rigorosamente

O planejamento da logística do evento deve incluir desde a seleção dos fornecedores até a estrutura de atendimento ao público. Guenther afirma que é preciso pensar em todos os passos para que detalhes não virem transtorno. Além disso, é importante firmar parcerias estratégicas com marcas de cerveja e setores complementares, como gastronomia, turismo e cultura, fortalecendo o evento. Para Moschetta, a organização exige detalhes como tempos e movimentos do fluxo com fornecedores, como entregas e estoques, além da experiência da venda e pós-venda, ressaltando a complexidade da organização em si.

Jonathan Benkendorff conta que em termos de operações e logísticas, a Oktoberfest de Blumenau é muito complexa. A Netbar opera 14 bares de chope e atende mais de 22 estabelecimentos, incluindo outras cervejarias, restaurantes, camarotes e eventos promocionais.

Para abastecer muitos dos bares, a empresa opera com tanques estacionários com capacidade de três a oito mil litros (um total de 52 mil litros de capacidade), o que facilita a logística por evitar trocas de barris de chope durante o evento. Esses tanques são abastecidos por caminhões-tanque que vem diretamente da fábrica da Ambev de Lages (RS) semanalmente, durante a noite, no contraturno do evento.

Barris também são utilizados em bares sem tanques fixos e para cervejas artesanais. Segundo Jonathan, o maior desafio é prever a presença e o consumo do público. “Diferente de uma lata de cerveja ou de uma garrafa, a gente não a gente precisa ter uma previsibilidade. Eu não consigo sair daqui ir no mercado e comprar mais cerveja. Então a gente tem essa expectativa de público, expectativa de consumo, imaginar o que vai acontecer dentro do evento”, explica.

Fique de olho na hospitalidade e segurança

Organizar um evento é uma grande responsabilidade, afirma Moschetta, porque “você está convidando o consumidor para dentro da sua casa”, diz. “A maneira como se organiza a casa, principalmente na questão da hospitalidade, constrói a percepção da marca, que pode ser boa ou ruim”, destaca. Por isso, evitar imprevistos é uma saída para a experiência ser positiva.

Guilherme Guenther reforça que o evento cervejeiro precisa garantir que o público se sinta “bem acolhido e em um ambiente confiável”. Para ele, investir em hospitalidade e atendimento de qualidade faz toda a diferença para as pessoas quererem voltar.

Use eventos de cerveja para construir marca e comunidade

O evento é uma ferramenta poderosa de relacionamento e desenvolvimento de mercado. Para Rafa Moschetta, eles auxiliam a marca a construir conceito e branding através de pilares e experiências. “Um evento é a maneira mais fácil e natural de se conectar com o consumidor, construir comunidade e fazer com que as pessoas se identifiquem genuinamente com a marca”, diz.

Guilherme Guenther afirma que investir na experiência pode ser um motor de desenvolvimento econômico e turístico. E fortalecer o setor cervejeiro como um todo, além de preservar a autenticidade e a essência da cervejaria.

O risco de fugir do controle

As principais lições da vida nem sempre vem de acertos, mas também de erros. Rafa Moschetta, que foi gerente de marketing da cervejaria Colorado, relembra a experiência de organizar um evento cervejeiro que atraiu um público maior do que o esperado.

“Fizemos um Saint Patrick’s Day que saiu do nosso controle. Em 2012 ou 2013, o Saint Patrick’s ainda não tinha o apelo atual e recebemos um público muito maior que o previsto. Era um evento gratuito e a gente não estava preparado para atender aquele público, deu muita fila e a experiência foi ruim”, conta.

Nesse caso, explica Rafa, ele exercia simultaneamente o papel de organizador do evento e gerente de marketing de uma cervejaria que era patrocina master do evento. “Como head de marketing entendi que, de alguma maneira, o evento poderia refletir negativamente na cervejaria. Então, a partir daquele momento, tive uma preocupação muito maior sempre que ofereço uma cota de patrocínio. É preciso que a experiência seja a melhor porque do mesmo jeito que a marca empresta sua credibilidade para o evento, o evento reforça e valoriza atributos ou prejudica a marca se a experiência for ruim”, explica.

“Quando você organiza o seu próprio evento, vai ser surpreendido com a quantidade, a complexidade. São detalhes de tempos e movimentos, de fornecedores, de controle de fluxo, a experiência da venda, da troca dos ingressos, ou um saque pós-venda, o atendimento pós-venda do ingresso. Então, se o pré e o pós já exigem esforços, a organização do evento em si pode ser ainda mais trabalhosa”, afirma.

Inflação da cerveja de setembro cai e produção industrial tem recuperação

Dois dos principais índices de mercado relacionados à cerveja tiveram melhoras, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Porém as boas notícias são apenas parciais. A inflação da cerveja fechou em 0,64% em setembro, contra 1% no mês de agosto — maior índice registrado nos últimos 22 meses. No entanto, ela permanece acima do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que fechou o mês em 0,48%. Já a produção industrial de Bebidas Alcoólicas de agosto ficou em -11,8% frente ao mesmo mês do ano anterior, uma melhora em relação à julho (-15,4%).

Segundo analistas do Bradesco BBI em relatório liberado no fim de setembro, publicado no InfoMoney, o setor cervejeiro conseguiu sustentar o aumento de preços realizados no primeiro trimestre pela Ambev e em julho pela Heineken — o que deu origem a índices maiores que a inflação da cerveja medida pelo IPCA. No entanto, do lado do consumo, a leitura dos especialistas é mais pessimista, indicando uma demanda mais fraca e, logo, uma produção industrial de bebidas em queda em relação ao ano passado.

Os analistas afirmam que aparentemente o setor cervejeiro parece estar tendo uma troca direta entre preços mais altos e volumes menores consumidos. E isso levanta dúvidas sobre a capacidade dele manter o atual equilíbrio nos próximos meses.

Inflação da cerveja

A inflação da cerveja de 0,64% em setembro representa uma desaceleração em relação ao aumento de agosto, que foi de 1%, índice bastante alto, sendo o maior em quase dois anos. No acumulado do ano, de janeiro a setembro, a inflação da cerveja chega a 3,66%. Nos últimos 12 meses, o indicador está em 4,89%. 

IPCASetembro (%)Janeiro a setembro (%)Set/2024 a Set/2025 (%)
Índice geral0,483,645,17
Alimentação e bebidas-0,262,676,61
Alimentação no domicílio-0,411,665,99
Cerveja0,643,664,89
Outras bebidas alcoólicas-2,04-1,07-1,61
Alimentação fora do domicílio0,115,368,24
Cerveja0,442,654,64
Outras bebidas alcoólicas-0,035,356,18
Fonte: IBGE

Os números altos estão na contramão do próprio grupo que a bebida está inserida. Alimentação e Bebidas teve leve aceleração, mas continua deflacionário em -0,26%. O Índice vinha registrando quedas sucessivas desde abril, mas fechou o mês de agosto com baixa de -0,46%.

Os dados do IBGE apontam que a cerveja subiu menos fora de casa. No subgrupo Alimentação fora do domicílio, o índice geral ficou em 0,11%, enquanto os preços da cerveja subiram 0,44%, terceira alta consecutiva.

set/24out/24nov/24dez/24jan/25fev/25mar/25abr/25mai/25jun/25jul/25ago/25set/25
IPCA0,440,560,390,520,161,310,560,430,260,240,26-0,110,48
Alimentação e bebidas0,51,061,551,180,960,71,170,820,17-0,18-0,27-0,46-0,26
Alimentação no domicílio0,561,221,811,171,070,791,310,830,02-0,43-0,69-0,83-0,41
Cerveja0,370,980,85-0,640,49-0,290,370,480,110,360,4510,64
Alimentação fora do domicílio0,340,650,881,190,670,470,770,80,580,460,870,50,11
Cerveja0,110,890,790,24-0,091,070,170,610,11-0,170,060,420,44
Fonte: IBGE

Inflação da cerveja por cidade

Nas capitais, a inflação da cerveja ficou maior no Rio de Janeiro, com alta de 2,87%, seguida por São Luís (1,76%), Salvador (1,22%), Campo Grande (1,11%) e Belém (1,08%). Belo Horizonte e Recife tiveram baixas de -0,68% e -0,65%, respectivamente.

No subitem Alimentação fora de casa, a inflação da cerveja foi maior em Curitiba (1,68%), Porto Alegre (1,33%), São Paulo (0,94%), Rio branco (0,86%) e Brasília (0,84%).

As maiores baixas ficaram em Belo Horizonte (-1,56%), Campo Grande (-1,28%), Goiânia (-0,64%), e Rio de Janeiro (-0,21%).

Produção industrial de bebidas

A produção industrial de Bebidas Alcoólicas de agosto, mês mais recente a ser pesquisado pela PIM-PF (Pesquisa Industrial Mensal — Produção Física) do IBGE, apontou uma queda menor se comparada ao registrado em julho, mas ainda assim o percentual permanece elevado. 

O índice caiu -11,8% em relação a agosto de 2024 na série que já considera ajustes sazonais. Em julho, a queda havia sido de -15,4% sobre o mesmo mês do ano anterior. Em 2025, a queda acumulada de janeiro a agosto foi de 4,6%. Já nos últimos 12 meses, o recuo foi de 4,3%.

Na comparação com as bebidas não-alcoólicas, houve avanço de 3,1% na produção industrial de agosto em relação ao mesmo mês do ano anterior. O acumulado do ano ficou com queda de 0,9%, e nos últimos 12 meses, o recuo foi de 2,1%.

Se comparado ao mesmo mês do ano anterior, o setor industrial brasileiro teve redução de 0,7% em agosto de 2025. Houve quedas em 9 dos 18 locais pesquisados, com recuos mais acentuados no Mato Grosso (-12,8%), Maranhão (-11,4%) e Amazonas (-9,3%). O setor de bebidas, em geral, acumulou queda de 4,9% no mesmo período.

No entanto, se comparados a julho de 2025, os números de agosto representam um crescimento na produção industrial nacional de 0,8%, também na série com ajuste sazonal. Assim, 9 dos 15 locais pesquisados pelo IBGE acompanharam esse movimento positivo. As altas foram no Pará (5,4%), Bahia (4,9%) e Paraná (4,2%) tiveram os maiores avanços e Amazonas (-7,4%), Pernambuco (-3,5%) e Rio de Janeiro (-1,9%) as maiores quedas.

Drinktec mostra as principais tendências da cerveja no mundo; muitas estão no Brasil

A Drinktec 2025, edição deste ano da principal feira mundial para a indústria de bebidas e alimentos líquidos, reuniu cerca de 60 mil pessoas de 160 países entre 15 e 19 de setembro em Munique, na Alemanha. Mais de 1,1 mil expositores de 68 nações trouxeram as principais novidades em equipamentos, matérias-primas, tecnologias e inovações dos fornecedores da indústria de bebidas e da cerveja num espaço de  73 mil metros quadrados do Trade Fair Center Messe München.

E muitas tendências da cerveja aparecem por lá, acompanhando movimentos mundiais ou sendo precursoras do que pode acontecer nos próximos anos. Nesta edição, o Guia da Cerveja contou com a colaboração do presidente-executivo do Sindicerv, Márcio Maciel, que visitou a Drinktec 2025 e apontou quais são essas tendências.

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A equipe do Guia também entrevistou especialistas aqui no Brasil, que mostraram em suas análises que algumas dessas tendências da cerveja já são realidades aqui no país. E muitas delas já são aplicadas na cerveja artesanal. E isso apesar da situação singular do mercado brasileiro. “Hoje, mais do que expansão, o movimento é de reorganização: menos aberturas, mais ajustes internos e racionalização de portfólio”, enfatiza a sommelière e consultora Bia Amorim.

“O que acontece atualmente é que ‘as abóboras estão se encaixando no caminhão’. Então, você vê cervejarias encerrando, cervejarias enxugando operações e investindo principalmente em produtos mais padronizados com menos lançamentos”, lembra Carlo Bressiani é o Diretor Geral da Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM).

Cerveja sem álcool

Liquidrome, uma das novidades da Drinktec 2025, teve até Health Bar (Holger Rauner / YONTEX GmbH Co. KG)
Liquidrome, uma das novidades da Drinktec 2025, teve até Health Bar (Holger Rauner / YONTEX GmbH Co. KG)

Sem dúvida, um dos grandes focos da Drinktec 2025 foi a saudabilidade e, no setor cervejeiro, a cerveja zero e sem álcool. Uma das novidades desta edição foi o Liquidrome, uma área interativa de networking e debates que teve até um Health Bar. O ponto oferecia degustações de inovações focadas em saúde.

“Uma grande tendência é a cerveja zero, como deixar ela mais eficiente, mais rápida e mais barata de ser produzida”, conta Márcio. E dentro dessa área, foram apresentados equipamentos capazes de produzi-las em menos tempo e até soluções inventivas e simples, como extratos de malte prontos que podem ser misturados com água (e não tem álcool).

A cerveja sem álcool já é uma realidade bastante palpável no Brasil, tendo crescido 537% em 2024, segundo o Anuário da Cerveja do Mapa. “Mais que uma tendência global, no Brasil esse segmento já reflete um comportamento de consumo ligado a bem-estar, moderação e conveniência”, analisa Bia Amorim. “As artesanais têm entendido esse mercado com cerveja sem álcool diferentes. Não adianta trazer uma Lager sem álcool, né?”, conta Carlo Bressiani.

Saborização

Entre os flavorizantes, estão até mesmo matérias-primas, como lúpulo e maltes flavorizados (Holger Rauner / YONTEX GmbH Co. KG)

Outro movimento que chamou atenção do presidente-executivo do Sindicerv foi que muitas empresas estão oferecendo formas de saborizar as bebidas. “E aí vai desde concentrados para dar sabor até lúpulos e, principalmente, maltes modificados para flavorizarem a cerveja. Então, você vai ter cerveja com gosto de baunilha, manga, coco e muito mais. Vi muito forte o pessoal falando que isso é o próximo caminho para a cerveja”, conta.

No mercado nacional, ainda não há tantos flavorizantes assim, até porque o Brasil é muito rico em frutas e outros ingredientes que trazem sabor e são largamente utilizados. Aqui Bia Amorim vê um bom avanço do lúpulo brasileiro.”O desenvolvimento da cadeia produtiva nacional começa a gerar impacto real na formulação de futuro e no discurso de marcas, com mais cervejarias explorando terroir e frescor como diferenciais. A presença de lúpulo local tende a crescer, não só como narrativa de brasilidade, mas como estratégia para mitigar custos e volatilidade cambial”, diz.

Clean Label

Drinktec é a principal feira mundial para a indústria de bebidas e alimentos líquidos (Holger Rauner / YONTEX GmbH Co. KG)

Ainda dentro do grande grupo da saudabilidade, a tendência do Clean Label também esteve presente na Drinktec 2025. Uma bebida leva esse título quando não tem aditivos químicos, mesmo os permitidos pela legislação. São antioxidantes, estabilizantes de espuma, acidulantes e outros que facilitam processos e estendem a vida útil das bebidas, mas que, em geral, não são bem-vistos pelo consumidor.

Até pode parecer algo contraditório, diz Márcio, ter a tendência de flavorizantes junto com Clean Label, mas não é. “O pessoal quer ingredientes mais naturais. E esses saborizantes, quando possível, sempre feitos de coisas naturais também”, conta.

O conceito de Clean Label já é aplicado no Brasil há algum tempo em muitos produtos das grandes cervejarias. E é algo comum no universo da cerveja artesanal. No entanto, pouca gente utiliza o conceito como diferencial competitivo no mercado.

Isso vai de encontro com a análise de Carlo Bressiani sobre o maior cuidado com o produto, já que no cenário brasileiro há uma clara diminuição do portfólio e lançamentos das cervejarias, que tem focado mais nos produtos com maior venda e receita. “Nesses produtos, as cervejarias trabalhem muito bem a questão do da melhoria da qualidade, do controle de custo e do aumento de produtividade. Ficaram menos produtos e esses produtos estão sendo melhor estudados pelas cervejarias em vários sentidos”, diz.

Packing mais sustentável e digitalização

Embalagens mais sustentáveis foram tendência no evento (Holger Rauner / YONTEX GmbH Co. KG)

Esse aumento de eficiência, fazer mais com menos, também está presente no setor de embalagem para cerveja, conta Márcio Maciel, até por conta de ser uma prática mais sustentável — um dos grandes temas da Drinktec este ano.  “A gente viu muita coisa sobre packaging também. Embalagens sustentáveis, com eficiência energética. É produzir de maneira a não gastar tantos recursos e maior e com maior eficiência”, aponta Márcio Maciel. 

O conceito de sustentabilidade no Brasil já é bastante explorado pelas grandes cervejarias, mas um tanto incipiente para a maior parte das cervejarias artesanais. Mas trata-se de uma tendência que deve crescer nos próximos anos.

Outra tendência que deve crescer nos próximos anos pelo que a Drinktec 2025 mostrou é a digitalização dos processos de produção, muitas vezes com uso de recursos de Inteligência Artificial. Em depoimento no site oficial da Drinktec, Richard Clemens, diretor administrativo da VDMA Food Processing and Packaging Machinery Association, reforçou o sucesso do digital. “Houve um interesse particularmente forte em sistemas circulares inteligentes, bem como em tecnologias digitais e baseadas em IA”.

Para Reimar Gutte, vice-presidente senior da BU EMEA Liquid & Powder Technologies, “a Drinktec 2025 mostrou-se novamente como a plataforma onde a indústria discute suas principais prioridades: ganhos de eficiência, digitalização e soluções sustentáveis”. 

Digitalização é tendência que deve crescer nos próximos anos (Holger Rauner / YONTEX GmbH Co. KG)

Cenário nacional

Após anos de crescimento do setor cervejeiro em velocidade acelerada, o ritmo diminuiu no pós-pandemia. E isso está exigiu adaptação das empresas do setor e gerou fechamentos. Hoje a situação está se acomodando, segundo os especialistas consultados. Nesse atual cenário do Brasil, as cervejarias estão buscando ser mais eficazes, eficientes e efetivas na produção.

Com isso, é fácil de perceber que a quantidade de lançamentos de novos produtos das cervejarias artesanais caiu. E aumentou o foco nos produtos de maior giro. Inclusive nas Lagers. “Com o mercado mais racional, Lagers continuam sendo o ‘core’ de receita. A simplicidade sensorial e a alta aceitação popular fazem desses estilos um porto seguro, inclusive para rótulos especiais que buscam maior penetração. No mercado artesanal também é uma tendência, com alguma sofisticação na escolha dos lúpulos e no olhar dedicado à fermentação”, analisa Bia Amorim.

Carlo Bressiani sintetiza que o momento vivido pelas cervejarias é de menos variedade, mais controle de custo e de qualidade. “O que é positivo. Era um amadurecimento que o mercado cervejeiro artesanal precisava de qualquer forma. Mas, por outro lado, no lado da demanda, a gente tem uma certa depressão de demanda e agora tem todo um trabalho novamente de convencimento das pessoas a voltar a consumir artesanal”, analisa.

Cerveja e futebol: Turatti une paixões com rótulos exclusivos dos times Ceará e Fortaleza

Que cerveja e futebol são paixões nacionais, todo mundo já sabe. Com essa ideia na mente, e uma latinha na mão, a Cervejaria Turatti firmou parceria com os times Ceará Sporting Club e Fortaleza Esporte Clube para produzir rótulos exclusivos inspirados na identidade e tradição dos dois maiores clubes de futebol cearenses. Mas não para por aí. A empresa também está em negociação para a produção de um rótulo especial para o Ferroviário Atlético Clube.

A entrada de cervejarias artesanais nesse mercado do futebol é algo relativamente novo. No final de julho, a Cervejaria Colombina, de Aparecida de Goiânia (GO), começou a patrocinar o Goiás Esporte Clube, passando a também produzir a cerveja oficial do Clube. Em razão disso, é tão importante ver casos como esse da Cervejaria Turatti com olhar estratégico. Trata-se da maior cervejaria artesanal do Nordeste, tendo faturado muitas medalhas. Essa autoridade foi conquistada com dedicação à qualidade da bebida, aos negócios e com o olho aberto para oportunidades.

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Segundo Lissandro Turatti, sócio da marca, foi esse olhar de oportunidade que inspirou a parceria com os times de futebol. O objetivo era fortalecer o vínculo entre os times e suas torcidas, unindo a cultura futebolística cearense à produção cervejeira local. 

Assim, a Turatti assumiu a produção de rótulos que já existiam sob a gestão da Cervejaria Cinco Elementos, mas com um novo posicionamento. A ideia foi migrar de cervejas premium de alto custo — que eram mais guardadas do que consumidas —, para produtos com preço mais competitivo, visando aumentar o giro e o consumo regular. A iniciativa já se mostra promissora, com a Turatti registrando um triplo aumento no volume de vendas desses rótulos licenciados.

“É uma honra associar nossa produção aos clubes que despertam tanta paixão no Estado. O objetivo é justamente criar rótulos que expressem a história e a força de cada time,” afirmou Lissandro. 

A marca já conta com quatro cervejas do Fortaleza e três do Ceará, todas com o selo de autenticidade dos clubes, garantindo que o torcedor consuma um produto oficial e de qualidade. A distribuição inicial já alcança supermercados de destaque em Fortaleza, como Guará e Nidobox, com expansão prevista para Pinheiro, São Luiz e Portugal, além das próprias unidades da Turatti.

Confira abaixo a entrevista com Lissandro Turatti sobre a estratégia de unir cerveja e futebol, com estilo artesanal e paixão clubística, no Ceará.

Rótulos do Fortaleza Esporte Clube desenvolvidos pela Cervejaria Turatti. (Foto: Divulgação)

Como surgiu essa ideia de lançar rótulos exclusivos inspirados na identidade do Fortaleza Esporte Clube e do Ceará Sporting Club?

Essa ideia já existia, a [cervejaria] Cinco Elementos produz os rótulos do Fortaleza e do Ceará, no formato de cervejas premium, com custo mais elevado por lata. A gente observou que o torcedor comprava e deixava ela exposta na estante, não consumia. Nossa ideia era mudar o posicionamento para produtos de entrada, com preços mais competitivos, para aumentar o giro. A Cinco Elementos continua produzindo os rótulos premium e nós entramos nos demais segmentos.

A ideia foi entrar em nichos de torcidas, aproveitando a paixão por cerveja e futebol, dando identidade e pertencimento às torcidas?

A gente vê que a cerveja e o futebol sempre foram ligados, sempre tiveram uma paixão muito forte juntos. E a ideia era essa, tanto que a gente está com quatro cervejas do Fortaleza e três do Ceará, a gente conseguiu acertar no posicionamento. É um nicho de torcida. Mesmo que os clubes do estado aqui não estejam tão bem no campeonato quanto no ano passado, vemos que os produtos vem agradando, e estamos conseguindo espaço.

Como foram as negociações com os clubes?

As negociações foram tranquilas, porque já existia essa experiência deles com a Cinco Elementos. Eu acho que eles abriram um espaço legal, gostaram da ideia. Todas as latas têm o selo de autenticidade de produto para identificar que é um produto oficial. Então, demanda até um trabalho extra, porque tem que ser colado à mão. Mas é o controle de ter um produto de qualidade e um produto oficial com os clubes.

Rótulos de cerveja do Ceará Sporting Club desenvolvidos pela Cervejaria Turatti. (Foto: Divulgação)

Quais foram os principais desafios e como eles foram superados?

O principal desafio hoje é colocar o produto nas lojas do clube. E, em campo, eu acho que o maior desafio é botar um produto de nicho assim. E, se o clube está bem, as vendas vão bem, automaticamente. Você tendo, em campo, um resultado positivo, que é o que todo torcedor espera, o resultado de venda dos produtos licenciados também aumenta consideravelmente.

Já dá para mensurar algum resultado desta ação?

A gente já conseguiu triplicar o volume de vendas, o que surpreendeu. Agora está sendo bem positivo, porque a gente está tendo uma aderência nos pontos de venda e estamos com uma projeção muito boa para o final do ano. Vamos lançar agora os kits, então acho que vai ser bom para o final do ano como presente.

Os rótulos já estão à venda em supermercados específicos. Como foi essa distribuição? 

Os principais supermercados de Fortaleza já estão com as latas. A gente está agora aumentando para outros pontos, como padaria e novos pontos de mercados. Isso aí facilitou bastante a aceitação. A gente começou com poucos rótulos inicialmente, mas a aderência do próprio ponto de venda surpreendeu. E, no dia dos jogos, a ação depende do clube. O problema é que é lata, não é chopp, então tem a limitação de entrar no estádio com a própria lata.

Vocês já estão em tratativas para fazer um rótulo com o Ferroviário Atlético Clube. Em que etapa estão deste processo?

O do Ferroviário, o rótulo já está aprovado, está em fase de impressão e logo a gente vai ter esse lançamento, bem breve.