O Brasil alcançou mais um resultado de destaque no meio cervejeiro mundial: o sommelier Rodrigo Sawamura, 46 anos, conquistou o quarto lugar no Campeonato Mundial de Sommelier de Cerveja (World Cup of Beer Sommeliers) de 2025, realizado em setembro durante a Drinktec em Munique, na Alemanha. Com isso, ele se tornou o único sommelier das Américas a ter três finais de Campeonato Mundial no currículo. O especialista, que também teve a segunda maior nota técnica, superou mais de 90 participantes de 18 países. Além disso, a delegação brasileira foi considerada este ano a segunda melhor do evento.
“O campeonato reforçou que concentração, foco e dedicação influenciam diretamente no resultado”, afirmou Rodrigo Sawamura em entrevista ao Guia da Cerveja. Mas para entender o grande feito, é preciso destacar a dinâmica do campeonato, que é dividido em etapas eliminatórias de altíssima precisão.
A fase classificatória exigiu que os sommeliers passassem por três provas: identificação de dez estilos de cerveja e dez defeitos (off-flavors) em testes cegos — com cada acerto valendo dez pontos —, além de uma prova teórica. Os dez melhores avançaram para a semifinal, uma etapa de duelos individuais onde os participantes descreviam, às cegas, as características sensoriais de uma cerveja desconhecida.
Já a prova final ia além dos conhecimentos cervejeiros: era preciso também dominar a técnica da oratória. Nesta etapa, os participantes precisavam fazer uma apresentação de serviço completo de uma cerveja sorteada na hora, exigindo do competidor conhecimento aprofundado sobre a história do estilo e da cervejaria, características sensoriais, sugestões de harmonização e oportunidades de consumo para um corpo de jurados e plateia.
Foi dentro deste nível de exigência e superando todos os desafios que Rodrigo Sawamura colocou o Brasil em destaque.
Confira, abaixo, a entrevista completa.
Estar em um Campeonato Mundial coloca à prova toda a sua trajetória profissional, e deve passar um filme na sua cabeça. Como foi a formação e a preparação para atingir este nível de desempenho?
Tudo começou em 2013, com o curso de sommelier de cervejas. Ali, eu adotei a estratégia de continuar estudando para conseguir me inserir no universo cervejeiro. A partir de 2015, obtive resultados importantes nos campeonatos, como o terceiro lugar no Campeonato Brasileiro daquele ano, que me projetou para o mundo da cerveja. Em 2016, eu fui campeão brasileiro. Em 2017 eu me classifiquei para o Mundial e, naquela edição, fiquei em terceiro lugar.
E aí eu quase me aposentei porque, nesse momento, em 2017, eu já era professor e estava atuando dentro do programa de formação da DOEMENS no Brasil, onde fiquei até 2019. Como já havia entrado para o mercado da cerveja, decidi parar de disputar os campeonatos.
Mas eis que em 2025 a Estrella Galícia da Espanha [onde Sawamura atuava como gerente de cultura cervejeira da marca no Brasil] me incentivou a me inscrever de novo.
Como sua atuação como sommelier e como professor pode ter impactado no resultado?
Essa consistência de contato com o mundo da cerveja, não só de participar de outras etapas do Mundial e do Brasileiro, mas principalmente a experiência de 100% dando aula entre 2016 e 2019, ajudou demais a consolidar conhecimento. Eu sempre digo que a biblioteca sensorial é diretamente proporcional à exposição. Além disso, a experiência anterior de dinâmica das provas ajuda a entender o que é preciso aprimorar.
Como foi ver o Brasil alcançar o segundo lugar como equipe, considerando sua dedicação ao crescimento da cultura cervejeira no país?
Para mim, isso foi sensacional, ainda mais considerando o nosso cenário e a forma como nos preparamos. Olhamos para outras equipes e elas são “equipes de verdade”, com rotina de treinamento, investimento e estrutura.
No Brasil, não temos um time que se reúne constantemente. A gente foi lá na raça, individualmente, e obtivemos a segunda maior nota geral, desbancando países que têm esse apoio.
Foi algo extraordinário. Fazer parte desse time que foi o segundo melhor do Campeonato como um todo foi fantástico. É um feito gigantesco. Fico com o desabafo de que faltou repercussão desse feito no Brasil, que poderia ser um gatilho para a gente se organizar e pleitear mais apoio.

Quais são as provas mais difíceis no Campeonato?
Para mim, e por já ter ficado em duas finais do Campeonato Mundial, o nível de pressão que eu tinha colocado na minha participação foi muito grande. Então, todas as etapas foram realmente desafiadoras, mas sem dúvida nenhuma a de off-flavors e a prova final são as mais difíceis.
Em off-flavors, a dificuldade é que a gente, aqui no Brasil, não tem muito acesso ao material usado no Campeonato Mundial. Isso é um fator que dificulta um pouquinho nosso treinamento. Até dava para comprar, mas tinha toda aquela questão de investimento alto, prazo de recebimento extenso, então não era simples. E este foi um grande ponto.
E depois, na última prova, o nível de tensão é muito grande — pelo menos para mim, que não sou um exímio apresentador. Confesso que não é simples. Fazer essas apresentações, controlar tempo de fala, ter clareza na comunicação, ter esse jogo de cintura para contornar algumas situações que podem fugir do controle… São muitas variáveis para contornar e, ainda assim, entregar um belíssimo trabalho para conseguir encantar os jurados, obter uma excelente nota e conseguir resultados espetaculares na prova final.
Eu fiz muito treino de estilos aqui no Brasil e uma semana antes, eu fui para Espanha me encontrar com o time da Espanha, que também participaria do Campeonato Mundial —, e a gente fez três dias de treinamentos bem intensos de estilos e off-flavors, antes de fazer a prova.
Ao viver a experiência deste campeonato, houve algum aprendizado ou desafio que mudou a forma como você vê a profissão de sommelier?
O campeonato reforçou que concentração, foco e dedicação influenciam diretamente no resultado. Destaco a importância da inteligência emocional. Minha terceira participação foi a que eu estava mais focado, tranquilo e com mais controle emocional. Essa parte psicológica é crucial, principalmente nas provas de análise às cegas.
Fica também a lição de que nem tudo está sob nosso controle e que se permitir errar é importante. Saí arrasado da prova final por conta de episódios que tiraram minha concentração, o que pode ter me tirado do pódio. Hoje, no entanto, consigo enxergar “o copo meio cheio”: fiz parte da segunda melhor equipe, tive a segunda maior nota técnica e sou o único sommelier das Américas a ter três finais de Campeonato Mundial.
Que mensagem pessoal e profissional você gostaria de deixar para os sommeliers brasileiros que acompanham sua trajetória e sonham em se tornar o próximo Rodrigo Sawamura e, quem sabe, levar o Brasil para o topo mundial?
Para atingir estes resultados, é preciso treino, não tem como fugir da exposição. Você precisa se expor às provas técnicas e às oportunidades de apresentação em público [para poder se sair bem nas provas de apresentação de serviço].
Essa rotina e frequência vão te entregar a segurança para o melhor resultado possível. Se dediquem a buscar conhecimento, se desenvolver tecnicamente e a praticar com uma certa frequência, porque a consistência faz toda a diferença. A margem para erro é mínima.
Dedicação, frequência, exposição e muito controle emocional são os grandes pilares que constroem um bom resultado em competições internacionais como essa.













