O ano de 2020 entra para a história como um dos mais desafiadores para as cervejarias artesanais em todo o Brasil. Afinal, praticamente todas sentiram os impactos de um dos anos mais atípicos da sociedade moderna, marcado pelo surgimento da pandemia do coronavírus.
Se na virada do ano as expectativas eram as melhores possíveis, logo no começo de 2020 as cervejarias tiveram de encarar a desconfiança do consumidor após as contaminações e mortes pelo consumo de rótulos da Backer.
Em seguida, os efeitos da pandemia da Covid-19 espalharam-se tão rapidamente pelo país quanto o próprio vírus. De um dia para o outro, o isolamento social e as consequências econômicas da crise sanitária afetaram a vida das pessoas e, consequentemente, os planos das cervejarias para 2020.
Por outro lado, o temor das contaminações e o crescente número de mortes aceleraram a tendência ao digital. E, para sobreviver a esses desafios de 2020, muitas cervejarias foram obrigadas a se adaptar ao “novo normal”, que trouxe consigo um novo perfil de consumidor.
Aos estabelecimentos, coube elaborar formas para manter as vendas mesmo com as portas fechadas. Foi quando a inovação e a criatividade se tornaram fundamentais para a operação das cervejarias em 2020. Vieram à tona os projetos engavetados e firmou-se parcerias, priorizando as formas mais seguras e eficazes de comunicação e entrega.
Quem conseguiu sobreviver, ainda teve pela frente mais abalos econômicos, com as longas restrições ao funcionamento, as dificuldades de logística, a alta do dólar e, mais recentemente, a falta de insumos e de matérias-primas. E tudo em meio a decretos de fechamento e reaberturas, proibições de consumo, adequações de horários, dispensas de pessoal e desafios financeiros, o que exigiu resiliência das cervejarias em 2020.
Confira o balanço exclusivo de 12 cervejarias sobre o ano de 2020 para o Guia.
Blondine (Sibele Xerfan, fundadora e diretora de marketing)
2020 foi um ano desafiante e de muita resiliência para muitos setores. Nós, conectados com a hospitalidade, sofremos os impactos do fechamento repentino dos bares e restaurantes, que representam uma parte importante de nosso faturamento. Diante da nossa nova realidade, tivemos de tomar decisões com agilidade, como corte de custos e ampliar nossos canais de venda com o lançamento da loja online. Também oferecemos apoio aos bares e restaurantes como forma de fidelização deste nosso portfólio em um período sensível para todos. Outra estratégia, depois da reabertura das casas, foi a venda de growlers lacrados de fábrica para os bares pensando em uma forma de trazer mais segurança e menos manuseio dos produtos durante a pandemia. Paralelamente, fortalecemos nossa presença nas redes de varejo, o que trouxe muita segurança para a Blondine neste ano, visto que os consumidores aumentaram a compra de bebidas alcoólicas para consumo em casa. A Blondine sempre estimou o relacionamento próximo com os seus parceiros, desta forma conseguiu abastecer o mercado sem alavancar grandes problemas de ruptura com as embalagens. A única adversidade foi com a cerveja Sparkling, uma Brut IPA que usa em seu envase uma garrafa importada da França que sofreu um reajuste de 100%, o que inviabilizou a manutenção do produto nas prateleiras das redes e ocasionou sua retirada do mercado. As demais cervejas continuam em linha, obtendo sucesso de vendas e sem comprometer o portfólio.
Cia de Brassagem Brasil (Danielle Mingatos, diretora de tecnologia cervejeira)
Encerramos a operação do nosso bar em março. Já tínhamos esse fechamento previsto, mas o objetivo com essa ação era a de retornarmos ao mercado e tudo aconteceu junto. Entendemos que, com as despesas que tínhamos com o nosso bar, era inviável nos mantermos. Também passamos por uma mudança societária. Isso nos fez rever a nossa cervejaria, nossas estratégias e entender quais seriam os melhores caminhos a seguir. Retomamos as produções no final de outubro e estamos seguindo com muita parcimônia. No retorno, vimos o estrago com tantos bares e restaurantes de portas fechadas. A falta de garrafas é um complicador, pois temos alguns pontos de venda que exigem que o produto seja apresentado em garrafas. Felizmente, já tivemos experiência com a produção em latas. Hoje, estamos produzindo nossas cervejas em latas e com a possibilidade de tê-las não pasteurizadas, o que melhora muito a experiência do consumidor.
Colonus (Filipe Carvalho, sócio-proprietário)
Os meses de março, abril e maio geraram cada vez mais temor ao que estava por vir, nos fazendo buscar mais proximidade para reforçar o nosso grupo de cervejeiros: as parcerias surgidas durante este período, o reforço na divulgação das marcas e das ações promovidas. Não podemos esquecer das lives que também promoveram fortemente as marcas e o canal de comunicação, elevando mais ainda o status da Rota (RJ) dentro do cenário. De maneira efetiva, tivemos o suporte jurídico para todas as ações, com destaque para problemas com energia e água nas cidades.
DeBron Bier (Thomé Calmon, sócio-diretor)
2020 não foi um ano fácil, apesar de ter tido um início promissor. Tiramos aprendizados e conseguimos desenvolver outros canais de vendas que deram uma boa visibilidade para a DeBron. Naturalmente, o coronavírus desacelerou o desenvolvimento que havíamos planejado para este ano, sem falar na queda de faturamento. Mas, por outro lado, conseguimos ser mais eficientes e aumentar a produção de garrafas apesar da falta em um determinado período. Os insumos ficaram mais caros e a pressão por aumento de preços tem ficado cada dia maior. Palavra do ano: resiliência!
Doutor Duranz (Ricardo Branco, sócio-proprietário)
Tivemos de inovar, usar a criatividade. Assim, nós turbinamos o nosso aplicativo de delivery, que passou a ser o principal canal de venda. Fizemos uma série de promoções para poder atrair as pessoas e, com isso, conseguimos um contato mais próximo com o público. Neste delicado momento que estamos vivendo, a Rota Cervejeira RJ conseguiu promover ainda mais a união dos seus associados, para que juntos pudéssemos pensar em soluções para alavancar a retomada do turismo cervejeiro em um futuro próximo.
Hipnose
Obviamente, a crise do coronavírus trouxe um impacto financeiro negativo na Hipnose, assim como em todas as outras cervejarias. Para nós, especialmente pelo fato de termos constantemente eventos e shows nas nossas taps, compondo grande parte da receita da empresa. Recentemente, a falta de insumos também se mostra um desafio que estamos lidando através do aumento de parceiros fornecedores e de aquisição em quantidades menores, caso necessário. A ideia é não perder nenhuma oferta de insumo disponível para não diminuirmos a produção.
MinduBier (Gustavo Martins, sócio-fundador)
O ano de 2020 tem sido um dos mais desafiadores da nossa história como empresa. Foi um ano em que a resiliência falou mais alto. Em março, logo após decretarem o fechamento dos estabelecimentos comerciais, todos os clientes cancelaram seus pedidos e tivemos uma queda nas vendas de 95%. A partir daí, investimos no e-commerce e, principalmente, no delivery na Grande Salvador. As pessoas, que compravam bastante nos pontos de venda, passaram a comprar conosco, o que recuperou um pouco o faturamento e, aliado à redução de custos fixos por revisão de contratos e diminuição do ritmo de produção, conseguimos passar por essa fase. Após a retomada, percebemos um aumento de vendas a estes estabelecimentos, porém também as vendas pelo delivery caíram bastante e, em paralelo, fomos surpreendidos com a falta de insumos e embalagens.
New Age (Edison Nunes, gerente comercial)
Nos meses de março e abril, as quedas nas vendas foram de 50% devido ao fechamento dos bares e restaurantes e as prioridades do consumidor para as compras de material de limpeza, higiene pessoal e cesta básica. Já no 2º semestre, houve o aumento de venda em cerca de 30% das nossas cervejas especiais. O consumo domiciliar cresceu, privilegiando as embalagens em lata (consumo individual) e os canais de vendas como os supermercados, que permaneceram abertos durante toda a pandemia. Na NewAge, todas as cervejas estão predominantemente na embalagem de lata e a indústria de embalagem, que não conseguiu acompanhar a demanda do consumo, ocasiona a falta de vários rótulos e marcas tradicionais no mercado.
Odin (Flavio Haas, sócio-proprietário)
O coronavírus alterou o consumo propriamente dito. O cliente trocou a cerveja no bar por garrafas e growlers na comodidade e proteção de sua casa. A alta do dólar afetou diretamente o “direcionamento” de nossas matérias-primas brutas, assim como de nossas importações, que consequentemente afetam toda a cadeia de produção, desde os insumos e embalagens até as peças de reposição. De fato, 2020 foi um ano atípico, não somente pela questão do coronavírus. A reação da Odin a toda essa crise foi imediata e rapidamente conseguimos adiantar os insumos necessários para alguns meses à frente, negociamos o prazo de alguns pagamentos e impostos, postergamos novos investimentos e, principalmente, aceleramos a venda direta ao cliente final. Nossas mídias digitais alteraram o viés institucional para um viés mais comercial, reduzindo o caminho entre a propaganda e a execução da venda final ao cliente.
Proa
2020 foi, sem dúvida, um ano de muitos desafios. O fechamento dos bares devido à pandemia impactou diretamente o nosso negócio, pois houve uma drástica diminuição das vendas e, consequentemente, da produção. Além dos bares e restaurantes que compravam o nosso produto, a Proa tem três bares próprios: um bar de fábrica, um bar conceito em Salvador e um mais recente no aeroporto, que segue fechado. Tudo isso gerou diminuição da receita e também inevitáveis demissões. A falta de insumo provocou uma quebra na nossa produção, prejudicando o estoque. Toda a cadeia necessária para chegar ao produto final foi afetada. A maneira que encontramos para agir nesse cenário foi dar prioridade ao consumidor final. Implementamos um delivery próprio e nossos bares passaram a funcionar como ponto de take away. Com isso, tivemos que mudar o foco da nossa comunicação também, estreitando os laços com o cliente final, oferecendo growlers e aluguel de chopeira como opção de compra, já que não envasamos toda a nossa produção.
Taru (Marcelo Miguel, sócio-proprietário)
Claro que em momentos de crise sempre surgem oportunidades, e isso fez com que a cervejaria colocasse em prática planos que eram de médio ou longo prazo. O coronavírus veio para complicar, e muito, o cenário mundial. A grande dor é ver parceiros e amigos que estão se perdendo no caminho. Entendemos que a falta de insumos e matéria-prima, que já são de certa forma normais para nosso mercado por estarmos em entressafra, foi agravada pela crise. E a dificuldade na previsão de demanda para os próximos meses dificulta ainda mais um planejamento apurado. De qualquer forma, tem sido possível obter os materiais necessários buscando novas fontes e fornecedores. Conseguimos manter a produção rodando normalmente. Um pouco de criatividade, novas receitas e boa comunicação com o consumidor ajudam bastante.
Wonderland Brewery (Anna Lewis, sócia-proprietária)
Este ano foi muito desafiador. Primeiro foi a incerteza de quando terminaria a quarentena, como poderíamos nos adaptar, que volume e quais estilos poderíamos produzir para atender à demanda ajustada, e em que embalagem. O segundo desafio é que todo o ecossistema que foi construído antes mudou, e uma mudança na cadeia dá um efeito cascata para todos. E agora, chegamos a um ponto em que as cervejarias artesanais estão sem garrafas de vidro e caixas de papelão. Há também a parte que é quase impossível para uma cervejaria artesanal pequena fazer um pedido, pois o volume não atende aos requisitos de lote mínimo para os grandes fabricantes. Mas, mesmo assim, precisamos pagar adiantado, e um preço 25% maior do que era antes da pandemia. Como é possível lidar com isso? Bem, isso requer muita análise de uma bola mágica, organizando-se com fornecedores e outras pequenas cervejarias em nossa comunidade para tornar viável para os fornecedores nos atenderem. Além disso, depois de ver a dinâmica, adaptamos nossa proporção e os novos lotes de nossas três cervejas foram lançados em latas.