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Artigo: Consumo moderado e ciência — o que era ontem, não é mais hoje

O que era ontem, não é mais hoje. E isso é normal em ciência. A ciência não aparece como uma verdade única, estagnada. Ela é um caminho dinâmico pavimentado sobre a discussão de cada nova evidência encontrada a partir da discussão científica, um espaço sempre aberto para a opinião contrária.

No método científico, revemos as descobertas sob outro olhar do que ali está. Novas técnicas de mensuração, aparelhos mais sensíveis e modernos, outras perspectivas sobre o mesmo problema. Tudo isso enriquece a discussão, desde que esteja focada nas evidências científicas e distantes das opiniões pessoais.

Graças a este método, o ovo ganhou seus ares de bom moço na saúde, promovemos o exoplaneta K12-18b a planeta com maior probabilidade de apresentar vida fora da Terra, previmos, na década de 1970, o aquecimento global que desafia a agricultura mundial e as plantações de lúpulo. E é assim também que estão surgindo evidências robustas, como se diz no jargão científico, sobre os efeitos do consumo moderado de cerveja artesanal na saúde humana.

Desde 2011, me dedico a entender os efeitos do consumo moderado de cerveja artesanal em diferentes doenças. Neste tempo, observamos um efeito protetor antioxidante surpreendente para o fígado[i] e indícios de redução do risco de câncer[ii], entre outras novidades que em breve serão publicadas. Estes dados confirmam os resultados de artigos epidemiológicos (aqueles que analisam grandes amostras) em humanos, publicados a partir de 2011[iii],[iv], e que observaram como efeito deste consumo a diminuição no risco de doenças cardiovasculares, o câncer e a diabetes tipo 2.

Por isso, no início de 2023, fui pego de surpresa quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) veio a público divulgar os resultados de um artigo[v] recém-publicado na época, confirmando a inexistência do consumo seguro de bebidas alcoólicas em qualquer quantidade em razão do aumento do risco de câncer. E quando a OMS fala temos que ouvir atentamente por sua inestimável importância para a saúde mundial.

Enquanto tentava encontrar erros no meu próprio trabalho, tive acesso ao artigo citado pela OMS. E me surpreendi pela segunda vez. O artigo demonstra que não existe uma correlação entre o consumo moderado de cerveja e aumento de risco de mortalidade por qualquer causa, contradizendo a afirmação inicial da OMS, mas, ao mesmo tempo, sustentando nossos achados recentes sobre possíveis efeitos benéficos deste consumo.

Literalmente os autores deste estudo dizem “There was a nonsignificantly increased risk of all-cause mortality among drinkers who drank 25 to 44 g per day…” (traduzindo, houve um risco aumentado não significativo de mortalidade por todas as causas entre os bebedores que beberam 25 a 44 g por dia). Para os leitores atentos e pesquisadores de plantão: sabemos que um “aumento não significativo” em estatística significa que esse aumento não significa um aumento real e, portanto, não existe. Não é à toa que este artigo estampa os momentos finais das minhas palestras sobre o assunto como um grand finale

Em resumo, o efeito benéfico do consumo moderado de cerveja artesanal não pode ser descartado. Muitas pesquisas ainda são necessárias para batermos o martelo, principalmente pesquisa clínicas (aquelas feitas com pessoas). Mas este artigo, o mais robusto e abrangente, reunindo 41 anos de publicações científicas sobre este assunto, se tornou mais uma evidência da vantagem de se ter como hábito não ultrapassar a barreira dos 44g de etanol por dia (que equivalem a 2 copos de 300mL diários para homens e um copo diário para mulheres de uma cerveja com 4,5% de álcool), que caracteriza o consumo moderado.

“Em resumo, o efeito benéfico do consumo moderado de cerveja artesanal não pode ser descartado. Muitas pesquisas ainda são necessárias para batermos o martelo, principalmente pesquisa clínicas”

Finalmente, precisamos de mais estudos para aprofundar o entendimento destes efeitos em humanos e ter a noção exata dos mecanismos que permitem observarmos estes efeitos. Para isso, é fundamental que as políticas públicas de financiamento de pesquisa no Brasil sejam mantidas e aumentadas, pois historicamente para qualquer setor produtivo, o aumento da economia depende diretamente do quanto se sabe sobre o que é produzido. Não é à toa que os países mais desenvolvidos são aqueles que mais investem na balbúrdia acadêmica. Então, que a gente invista sem moderação em pesquisa, mas sempre bebendo com moderação.

*Glauco Caon é autor do livro ”Saúde: uma viagem científica pelos efeitos da cerveja no corpo humano“, publicado pela Editora Krater. Formado em biologia, possui mestrado e doutorado em fisiologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde também é professor no programa de pós-graduação em Fisiologia.


[i] Caon et al. (2021). Moderate beer consumption promotes silymarin-like redox status without affecting the liver integrity in vivo. Food Bioscience. DOI: 10.1016/j.fbio.2021.101307.

[ii] Kindermann et al. (2024). Moderate India Pale Ale beer consumption promotes antigenotoxic and non-mutagenic effects in ex vivo and in vivo mice models. Journal of the Science of Food and Agriculture. DOI: 10.1002/jsfa.13726

[iii] Costanzo et al. (2011). Wine, beer or spirit drinking in relation to fatal and non-fatal cardiovascular events: A meta-analysis. European Journal of Epidemiology. DOI: 10.1007/s10654-011-9631-0.

[iv] Li et al. (2020). Healthy lifestyle and life expectancy free of cancer, cardiovascular disease, and type 2 diabetes: prospective cohort study. British Medical Journal. DOI: 10.1136/bmj.l6669.

[v] Zhao et al. (2023). Association between Daily Alcohol Intake and Risk of All-Cause Mortality: A Systematic Review and Meta-analyses. JAMA. DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2023.6185.


* Este é um artigo de opinativo. As opiniões contidas nele não refletem necessariamente a opinião do Guia da Cerveja.

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