Se você acha que a cerveja IPA é algo relativamente recente no Brasil, reveja seus conhecimentos. Barris da India Pale Ale já aportavam no país com navios britânicos desde meados do século 19, ainda no período do Brasil Império. A primeira menção a esse estilo de cerveja na imprensa brasileira é um anúncio de leilão publicado em 1852 pelo Jornal do Commercio do Rio de Janeiro. E, a partir da noite desta sexta-feira (24), será possível provar uma versão baseada nessa IPA histórica na Cervejaria Nacional, em São Paulo.
Batizada de PioneirIPA, a cerveja é uma English IPA com maltes, lúpulos e levedura inglesa, além de características específicas descobertas na pesquisa, como teor alcoólico mais elevado (8,2%) e secura mais agressiva. A coloração é dourada, com espuma branca, aromas e sabores florais e que remetem a especiarias, como gengibre. Na boca, o amargor é médio, a potência alcoólica é bem perceptível, com notas terrosas e final seco.
Como é uma produção de lote único, ficará disponível no bar, localizado em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, somente até o fim do estoque.
O caminho até a PioneirIPA
A cerveja marca o ponto alto da terceira edição do projeto anual de cervejas históricas do brewpub paulista. A iniciativa nasceu de uma conversa informal durante um evento entre Marcos Braga, cervejeiro da Cervejaria Nacional, e Eduardo Marcusso, doutor em Geografia, cervejeiro caseiro e sommelier, além de servidor público do Ministério da Agricultura. “O Marcos se interessou muito pela história da primeira cerveja do Brasil, feita pelos holandeses (…). E viu que o trabalho tinha um conteúdo interessante para transformar pesquisa acadêmica em produto”, explica Eduardo sobre o objetivo de aliar teoria e produção cervejeira.
A colaboração já rendeu duas produções: Maurícia, uma Kuit feita em 2024 e baseada em pesquisa sobre a primeira cervejaria da América Latina instalada pelos holandeses em Recife em 1640; e Porter da Corte, rótulo inspirado nas cervejas escuras importadas da Inglaterra no começo do século 19.
Na segunda edição, o projeto contou com um reforço de peso. Marcus Fernandes Marcusso, irmão de Eduardo, participou da pesquisa e ajudou a derrubar o mito de que Dom João VI seria um grande apreciador de cerveja. Além disso, trouxe informações que revelaram a chegada maciça desse estilo de cerveja escura ao país no início do século 19. “Acho que minha contribuição foi um pouco nesse sentido: de procurar trazer o contexto histórico, esse cenário mais amplo”, conta Marcus.
Para o terceiro ano, a iniciativa ganhou um novo membro: o jornalista e sommelier de cervejas Luís Celso Jr., diretor de conteúdo e editor do Guia da Cerveja. Foi ele que localizou o anúncio da primeira cerveja IPA durante um levantamento que fez para um livro-reportagem que está escrevendo sobre a história da cerveja no Brasil. “Essa é a primeira menção ao nome India Pale Ale. Mas, como no início esse tipo de cerveja não tinha um nome definido, é possível que a cerveja IPA tenha estado por aqui até mesmo antes dessa data”, explica.
“Além disso, no século 19, o Rio de Janeiro era um porto seguro para os navios ingleses. Muitos deles faziam paradas para reabastecimento e depois seguiam viagem. Contornavam o sul do continente africano até a Índia, para onde esse tipo de cerveja foi originalmente feito”, diz Celso. O livro — que conta com patrocínio do Edital Fermenta! – Incentivo a Projetos de Cultura Cervejeira, da Academia da Cerveja — está em processo de finalização e deve ser publicado em breve.
A recriação de uma cerveja IPA histórica
Se nas primeiras edições os cervejeiros puderam brincar com elementos de “brasilidade”, a nova cerveja IPA exigiu uma abordagem diferente. Os ingleses batalhavam para que a cerveja não sofresse interferências externas, conta Eduardo Marcusso, nem mesmo da madeira dos barris durante a viagem. Havia uma busca por uma bebida mais pura e clássica. Contudo, os longos meses no mar acabavam deixando o líquido mais seco e alcoólico do que conhecemos hoje.
Traduzir esses dados para os tanques modernos gerou grandes debates entre os envolvidos. Marcos Braga conta que o maior desafio foi justamente encontrar esse equilíbrio. “Queríamos uma cerveja alcoólica, seca, com uma pitada de acidez e, por ser IPA, amarga”, detalha.
Para alcançar o perfil, a equipe utilizou açúcar na receita e maior acidificação. Já o amargor e aromas característicos vieram de uma alta e atípica carga de lúpulo inglês East Kent Goldings (EKG) no processo e no dry-hopping. A levedura escolhida foi a English Ale, da Pinnacle, para também refletir essa identidade original.
Apesar de todos os parâmetros terem saído da pesquisa, Braga faz questão de ressaltar a magia por trás do processo criativo. “Apesar das bases históricas como sustentação, essa cerveja consiste na nossa interpretação das informações, com um tanto de licença poética”, reflete o cervejeiro. “Sem termos como viajar no tempo e degustar essa cerveja IPA, esse processo é quase como replicar uma famosa pintura antiga tendo apenas a descrição de como era”.
Serviço:
- O quê: Lançamento da cerveja PioneirIPA
- Quando: 24/07 (sexta-feira), a partir das 19h30
- Onde: Cervejaria Nacional – Av. Pedroso de Morais, 604 – Pinheiros, São Paulo


