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Setor cervejeiro pede agilidade do Governo no envio do projeto do Imposto Seletivo ao Congresso

Falta de regulamentação do novo tributo a sete meses da cobrança gera apreensão entre microcervejeiros e gigantes do setor

O relógio está correndo. A exatos sete meses do início da cobrança do Imposto Seletivo (IS), agendada para o dia 1º de janeiro de 2027, o Governo Federal ainda não enviou ao Congresso Nacional o projeto de lei ordinária que definirá as regras, o modelo de cobrança e as alíquotas do novo tributo. O cenário tem gerado apreensão e um clima de insegurança entre executivos e empreendedores do setor, desde as microcervejarias até as gigantes do mercado, que pedem agilidade do governo.

Durante a cerimônia de lançamento do Anuário da Cerveja 2026, publicação oficial do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), realizada no último dia 19 de maio, as principais lideranças da indústria aproveitaram a ocasião para se manifestarem sobre o tema.

Para o presidente executivo do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv), Márcio Maciel, o momento atual é de severa indefinição. “A gente ainda não sabe quanto imposto vai pagar ano que vem”, alertou Maciel.

O executivo reforçou a necessidade de o governo apresentar a proposta do Imposto Seletivo o quanto antes para que as empresas consigam planejar seus orçamentos. Maciel também destacou o caráter extrafiscal do imposto — criado para desestimular o consumo de produtos considerados pelos legisladores como nocivos à saúde e ao meio ambiente —, frisando que ele “não pode ser usado para arrecadar”.

O presidente do Sindicerv também alertou sobre o peso do Estado na produção: “A gente tem que manter a nossa carga tributária, que já é altíssima hoje, a maior da América Latina. Só não pode ter aumento de carga, que é algo que a sociedade não vai aceitar”. Ele concluiu afirmando a urgência de realizar esse debate de forma técnica e antes que o calendário seja engolido pelo período eleitoral deste ano.

Apreensão e pleitos entre os pequenos produtores

A aflição das grandes fábricas é compartilhada de perto pelas cervejarias artesanais. Gilberto Tarantino, presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) e recém-releito presidente da Câmara Setorial da Cerveja, comemorou a resiliência do setor artesanal diante de um ano de 2025 considerado muito difícil. No entanto, reforça a urgência no envio do projeto e a necessidade de diferenciação dos pequenos produtores no novo tributo.

“As cervejarias artesanais têm que ter um tratamento tributário diferente das grandes indústrias”, ressaltou Tarantino, lembrando que a inclusão dessa diferenciação na emenda constitucional da Reforma Tributária foi uma vitória histórica da associação.

“Agora a gente aguarda a lei ordinária definindo a alíquota do Imposto Seletivo, que até o momento não saiu, e a gente tá praticamente no meio do ano. Isso gera muita segurança, porque a gente tem que prever o que vai acontecer a partir do dia primeiro de janeiro do ano que vem”, argumentou o executivo.

A preocupação da Abracerva é que o envio tardio do projeto drene o tempo necessário de debate e escuta, dificultando o “olhar para as pequenas cervejarias” dentro do parlamento.

A corrida contra o tempo e as opções de Brasília

O tempo curto por conta das especificidades do calendário legislativo em 2026, pressionado pelas Eleições, pode dificultar a participação da indústria no debate do Imposto Seletivo.

A Reforma Tributária exige que o novo imposto respeite a chamada “noventena”, um período de 90 dias entre a publicação da lei e sua entrada em vigor. Logo, para que passe a valer em janeiro de 2027, todo o rito de aprovação e sanção no Diário Oficial da União precisa acontecer até o final do próximo mês de setembro.

Dado esse prazo curto, e segundo declarações recentes do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), o Executivo trabalha com apenas duas alternativas para evitar um colapso na pauta: enviar um projeto de lei com regime de urgência — que tranca a pauta do Plenário se não for votado em até 45 dias — ou editar uma Medida Provisória (MP).

A possibilidade de uso de uma MP é especialmente rejeitada por agentes da cadeia produtiva cervejeira, pois a medida passa a ter força de lei imediatamente e limita consideravelmente as possibilidades de atuação e articulação do setor privado no Congresso. “Se existe alguma chance do setor em participar da discussão e aprovação do projeto, na hipótese de MP haverá muita limitação”, afirmou Marcos Moraes, diretor tributário da Abracerva em reportagem do Guia da Cerveja.

Propostas do setor para o Imposto Seletivo já estão na Fazenda

Enquanto o Ministério da Fazenda não torna público o texto final, o setor atua apresentando propostas baseadas em premissas globais de sucesso.

O principal consenso entre Sindicerv e Abracerva é que a calibragem do Imposto Seletivo deve se dar por meio de um sistema progressivo pautado pelo teor alcoólico das bebidas. Esse formato tem ampla validação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) e já é implementado com êxito em mercados consolidados como Reino Unido, Austrália e Suécia.

A lógica é simples: bebidas com concentração maior de álcool recebem encargos mais pesados, enquanto formulações mais brandas, a exemplo das cervejas, são taxadas de forma menos agressiva, direcionando o consumo populacional para escolhas de menor risco.

Para proteger o segmento artesanal, a Abracerva desenhou e entregou formalmente ao governo uma proposta suplementar que estipula o desconto de impostos federais a partir do porte de produção da fábrica. Pelo texto sugerido, cervejarias com fabricação anual de até 1 milhão de litros teriam uma redução de 95% na alíquota do IS.

Conforme os dados apresentados, embora aproximadamente 95% das fábricas do Brasil possuam porte de até 5 milhões de litros/ano, este universo corresponde a pouco mais de 1% do volume total de cervejas produzido no país. A estratégia neutralizaria a asfixia financeira e evitaria a alta de preços dos róulos independentes ao consumidor final sem que isso causasse perda real ou relevante para a arrecadação da União.

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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