back to top
InícioNotíciasInternacionalEstados Unidos proíbem cerveja canadense em novo capítulo da guerra tarifária

Estados Unidos proíbem cerveja canadense em novo capítulo da guerra tarifária

A guerra tarifária de Donald Trump ganha mais um capítulo nesta terça-feira (29): a partir das 0h01, no horário de Nova York, os Estados Unidos (EUA) proíbem a importação de cerveja canadense embalada, em garrafa, lata ou barril. Antes dela vieram a tarifa de 50% sobre o alumínio, que encareceu a lata e levou cervejarias canadenses a comprar da China, e a taxação do alumínio nas latas mexicanas, que apertou a margem da dona da Corona no mercado americano. Em pouco mais de um ano e meio, o conflito comercial atingiu a bebida, a embalagem e o lucro.

A proibição da cerveja canadense se apoia na Seção 338 da Lei Tarifária de 1930 e responde às restrições que as províncias do Canadá impuseram à venda de bebidas americanas. Chega, porém, a um comércio que já havia quase desaparecido: segundo o governo dos Estados Unidos, as exportações de bebidas alcoólicas para o país vizinho caíram cerca de 81% desde 2024, de US$ 718 milhões para US$ 137 milhões. Com a cerveja foi pior — dados do Censo americano citados pela Brewers Association, associação das cervejarias artesanais independentes do país, apontam recuo de 85% desde 2025 e de 94% desde 2024.

O escopo abrange até a marca americana. Como escreve Michael Mohr-Ramirez, gerente de assuntos federais da associação, a regra vale pelo lugar de produção, não por quem é o dono da marca — o que barra quem fabrica sob contrato no Canadá. Ficaram fora da lista a cerveja sem álcool e a remessa a granel para envase nos Estados Unidos (em caminhões-tanque, por exemplo); esta ainda está sujeita à tarifa de 50% que já existia.

A associação recomenda revisar contratos e cargas em trânsito, porque produto embarcado antes de terça e desembaraçado depois tem tratamento próprio.

Já os produtores de cerveja canadense que têm vendas para os Estados Unidos estavam correndo contra o relógio para entregar antes da data. É o caso da Moosehead, a maior cervejaria independente do Canadá, com sede em Saint John, em New Brunswick. “Estamos tentando agilizar ao máximo o processo”, disse Oland, CEO da Moosehead ao Toronto Star.

Cerca de 15% do volume total de cerveja da Moosehead é exportado para os EUA. Portanto, a correria só resolve parte do problema. “Provavelmente teremos cerveja nos EUA até o final de outubro ou início de novembro”, disse Oland. “Se não tivermos clareza até lá [do desenrolar das tarifas impostas], simplesmente não consigo prever o que acontecerá.”

A conta que chega pela lata na cerveja canadense

No entanto, a frente que mais atinge quem produz não é a bebida, é a embalagem. A tarifa americana sobre alumínio e aço começou em 25%, em março de 2025, com resposta canadense na mesma moeda, e dobrou para 50% no fim de agosto deste ano.

Em Windsor, Ontário, a Walkerville Brewery viu a lata de 473 ml passar de cerca de 31 para 35 centavos — alta de aproximadamente 13% —, segundo o proprietário, Mike Brkovich, em entrevista ao portal especializado AL Circle. São 40 mil unidades por mês, compradas de um fornecedor canadense. “Vamos ter de aumentar os preços, eu acho, nos próximos três ou quatro meses. Mas estamos tentando segurar”, diz ele.

O aumento chega até quem compra dentro do país por causa do desenho da cadeia: o Canadá tem grandes fundições de alumínio, movidas a hidrelétrica, mas não tem laminadora da chapa específica usada em lata. O metal cruza a fronteira para ser laminado e volta como embalagem. “Os fabricantes de lata têm custos dramaticamente mais altos com a matéria-prima (…). O que eles mandam de volta para o Canadá e o que mandam para o mercado americano vai ficar bem mais caro”, disse John Taylor, chefe do departamento de marketing e gestão de cadeia de suprimentos da Universidade Wayne State.

A saída apareceu do outro lado do Pacífico. Vadim Bajgoric, dono da Canvas Craft, que imprime latas na Colúmbia Britânica, contou ao site Vinetur que dois anos atrás todo o seu estoque era feito na América do Norte. Hoje metade vem da China, com desconto de cerca de um terço. “A China tem uma vantagem enorme”, disse, em reportagem reproduzida pela The Drinks Business. Em Vancouver, em British Columbia, o presidente da Strait & Narrow, Yuri Akeroyd, levou a maior parte das suas compras para a China nos últimos oito meses e classificou a decisão como “sobrevivência”.

A troca, porém, é tendência em formação, não debandada: os dados comerciais canadenses mostram que o valor importado de latas chinesas subiu 14% em 2025, mas o gasto com as americanas também subiu 11%. As grandes seguem presas a contratos de vários anos. Quem está mudando de fornecedor é o pequeno.

O capítulo mexicano

O México passou pelo mesmo aperto um ano e meio antes, e o resultado ajuda a medir o estrago. Em abril de 2025, o Departamento de Comércio americano esclareceu que a tarifa sobre cerveja importada em lata incide apenas sobre o valor do alumínio da embalagem, não sobre a bebida. Como cerca de 60% do que o país manda aos Estados Unidos vai em garrafa, boa parte do volume escapou.

Escapou do líquido, não da margem. A Constellation Brands, que vende Corona e Modelo no mercado americano, fechou o ano fiscal encerrado em fevereiro com US$ 8,3 bilhões em vendas de cerveja, 3% menos que no ano anterior, e com a margem operacional do negócio em 38% — 170 pontos-base abaixo, citando entre as causas o custo mais alto do produto vendido por causa das tarifas do alumínio.

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
NOTÍCIAS RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui