O consumidor de cervejas está mudando. O crescimento de produtos que respondem à maior preocupação do público com saúde, bem-estar e moderação, bem como o interesse por outras bebidas, como os drinks prontos para beber (RTDs, na sigla em inglês), são exemplos disso. Se antes só as grandes indústrias investiam nessas tendências, hoje já é possível notar que cervejarias artesanais estão se transformando em verdadeiras indústrias de bebidas para se adaptar aos novos padrões de consumo e aproveitar essas oportunidades. As estratégias são variadas, mas passam por diversificar o portfólio e otimizar a estrutura industrial já existente.
Os números estão aí para quem quiser ver. Segundo o mais recente relatório da IWSR, uma das principais referências de mercado no setor, os RTDs superaram pela primeira vez a marca de 1 bilhão de caixas consumidas globalmente em 2025. O destaque vai para os coquetéis em lata, que saltaram 14% em volume no último ano no mundo. A mesma pesquisa aponta ainda que as projeções apontam que a cerveja sem álcool deve dobrar de volume no mundo, saltando de 2% para 4% do volume total consumido até 2033.
As ações da grande indústria também mostram essa mudança. O Grupo Heineken lançou na semana passada a plataforma +Equilíbrio, área que vai concentrar os produtos com foco na tendência de bem-estar (wellness). São produtos como a nova Heineken Ultimate, com 30% menos calorias, as cervejas sem álcool, a exemplo da Heineken 0.0, e sem glúten, como Sol, Praya e Amstel Ultra.
Na Ambev, o equivalente é a área de “Balanced Choices”, que teve como lançamento recente a Spaten Pro, cerveja preta sem álcool com 10 gramas de proteína. Desde 2021, existe também a unidade de negócios “Beyond Beer” para outros produtos da companhia, como o Beats, drink pronto para beber (RTD, na sigla em inglês).
Entre as cervejarias artesanais, a paulista Cervejaria Tarantino acabou de terminar uma reforma em suas instalações. Ela uniu forças com a WeBev para integrar a produção e distribuição de cervejas às linhas de bebidas não alcoólicas e funcionais. Mas existe também quem tenha visto essa tendência chegar há mais tempo. A mineira Verace investiu em destilaria própria e maquinário de envase exclusivo para abocanhar o mercado de drinks prontos em lata desde 2020, ano marcado pela pandemia de Covid-19.
Cervejaria Tarantino e os não-alcoólicos
A transformação da Cervejaria Tarantino começou a partir da relação entre o sócio-proprietário Isaac Deutsch e Raphael Hennies, da WeBev. Ambos se conheceram enquanto trabalhavam com uma terceira distribuidora. Naquele momento, os empresários identificaram que a distribuição própria constituía um pilar essencial para o crescimento de suas marcas. Para solucionar essa demanda, eles criaram uma estrutura própria e focada no portfólio conjunto da Tarantino e da WeBev. A parceria, que iniciou pela distribuição, evoluiu rapidamente para a integração da produção física.
Isaac explica que hoje o projeto une a experiência da Tarantino em cervejas e sua robusta estrutura industrial ao conhecimento de mercado da WeBev em bebidas não alcoólicas e funcionais, representadas pelas marcas Puro Verde e Amaz. As duas empresas compartilham integralmente a produção, a logística e a atuação comercial, consolidando uma plataforma de bebidas muito mais robusta e completa.

“Para as cervejarias artesanais, diversificar o portfólio também é uma forma de aproveitar melhor a estrutura industrial e buscar novas fontes de crescimento. Mas não basta ter capacidade de produção. É preciso conhecer cada categoria, entender o consumidor e saber como competir nos pontos de venda”, diz o sócio-proprietário da Tarantino.
Verace, os destilados e RTDs
No mercado mineiro, a Cervejaria Verace, localizada em Nova Lima, trilhou o caminho da diversificação focada em bebidas mistas gaseificadas (RTDs). O sócio-proprietário e cervejeiro Túlio Silva revela que a ideia surgiu no segundo semestre de 2020, durante o primeiro ano da pandemia de COVID-19. Diante do cenário de incertezas e do modelo de “abre e fecha” do comércio, a diretoria buscou prever o comportamento do mercado na retomada para preparar a fábrica com antecedência.
A empresa avaliou dois cenários: completar a adega com novos tanques para ampliar a capacidade de cerveja ou iniciar a produção de bebidas mistas. Sinais fortes do mercado de Belo Horizonte apontaram para a segunda opção. O primeiro sinal veio do Carnaval de rua da capital mineira, onde o consumo de bebidas mistas em latas e plásticos é massivo devido à proibição de recipientes de vidro. O segundo sinal foi o sucesso local do Xeque Mate (bebida mista de chá-mate, guaraná, rum e limão).
Túlio já havia observado essa tendência em 2015, na feira de Nuremberg, na Alemanha, onde indústrias craft compravam equipamentos de destilaria para fabricar bebidas diferenciadas. Para tirar o projeto do papel, a Verace realizou processos de licenciamento, preparação de layout e comprou maquinários específicos. A empresa adquiriu uma enlatadora isobarométrica dedicada exclusivamente aos drinks e instalou uma área de destilaria com um destilador próprio para produzir o gin e a vodka que servem de base para as receitas. O próprio Túlio especializou-se e fez o curso de mestre destilador.
Atualmente, com pouco mais de quatro anos nesse segmento, as bebidas mistas representam entre 15% e 20% do volume de vendas financeiro da Verace. O portfólio conta com dois destilados puros (gin e vodka) e cinco opções de RTDs em lata. A empresa já está na segunda geração de drinks — do portfólio inicial de dez produtos, apenas um restou, enquanto os outros quatro atuais já pertencem à nova fase — e a equipe já desenvolve a terceira geração.

Um dos grandes diferenciais da Verace é o fornecimento de drinks em barril (granel). Isso permite que os bares locais dediquem torneiras (taps) para servir drinks prontos com agilidade. A praticidade beneficia os donos de bares, que não precisam contratar mixologistas ou estocar frutas frescas, garantindo um produto padronizado.
“Apesar desse tipo de bebida ser feita dentro da mesma fábrica, o mercado e o consumidor são diferentes. A única coisa que eles têm em comum muitas vezes é o fato de irem ao ponto de venda para beberem juntos”, conta Tulio. “Eu acho que abrir mão desse tipo de produto hoje é abrir mão de faturamento e de maior presença no mercado”, finaliza.
Dicas para cervejarias artesanais
Para as cervejarias artesanais que planejam expandir o portfólio e ingressar no mercado de novas bebidas, os empresários Isaac Deutsch e Túlio Silva compartilham recomendações fundamentais:
- Pense primeiro no comercial e no consumidor: Isaac Deutsch alerta que a estratégia comercial, o posicionamento de marca e o entendimento do público-alvo devem vir antes do desenvolvimento da produção. Embora muitas cervejarias artesanais consigam fabricar outras bebidas com poucas adaptações técnicas, a capacidade fabril por si só não garante o sucesso de vendas no ponto de venda.
- Busque parceiros experientes: Isaac reforça que colaborar com parceiros experientes nas categorias desejadas acelera o aprendizado, evita erros operacionais, reduz investimentos desnecessários e gera economias de escala na produção, logística e distribuição. Já Túlio Silva diz que é perfeitamente viável produzir drinks comprando o destilado base a granel de terceiros e que casas de aroma (como a francesa Givaudan e a brasileira Duas Rodas) têm muito o que explorar e até relatórios anuais de tendências de consumo. A Verace mantém, inclusive, um profissional formado dedicado exclusivamente a realizar experimentos com esses insumos e acompanhar as rápidas mudanças de preferência do consumidor.
- Destilados versus RTDs: Túlio destaca que os produtos que realmente trazem volume de vendas, margem financeira e sucesso comercial são os RTDs. O mercado de destilados puros em garrafa é extremamente fechado e dominado por grandes multinacionais ou marcas de baixo custo, o que dificulta a competição de preços para produtores menores.


