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Cerveja sem álcool vai dobrar de tamanho no mundo até 2033, prevê IWSR

Que a cerveja sem álcool anda em alta, todos sabemos. Resta apenas entender se é uma moda passageira e que tamanho pode atingir. Para a primeira questão, não há resposta ainda. Mas a segunda já conta com dados. Um novo relatório da IWSR, uma das principais referências de mercado no setor, aponta que a categoria deve dobrar sua participação no consumo mundial nos próximos anos.

A projeção mostra a bebida saltando de 2% para 4% do volume total consumido globalmente até 2033. Mais do que uma escolha sazonal ou restritiva, o dado consolida o segmento como um pilar estratégico da indústria. No último balanço anual, o setor cresceu 8% em volume global, consolidando-se como a segunda maior subcategoria cervejeira no mundo.

Para a IWSR, essa aceleração é uma das principais frentes de atração de novos públicos. O avanço é impulsionado pelo que a pesquisa chamou de “mindful drinking”: na prática, o consumidor quer preservar o ritual da cerveja e a qualidade sensorial, mas sem o impacto do álcool — encaixando o brinde na rotina de treinos ou mesmo durante o expediente.

Essa mudança abre portas para estilos artesanais (indo muito além das Lagers convencionais) e consolida o produto na faixa premium, já que o público demonstra disposição crescente em pagar por qualidade técnica e sabor.

Cerveja sem álcool no Brasil

Essa dinâmica já tem reflexos aqui no mercado brasileiro. Embora o detalhamento por países da IWSR na América Latina tenha destacado um forte crescimento em volume para mercados como Colômbia e México, o Brasil se alinha à tese global ao registrar uma expansão acelerada do portfólio não alcoólico. O país deve consumir 885 milhões de litros de cerveja sem álcool em 2026, segundo o Euromonitor, e já é o segundo maior produtor de cerveja sem álcool do mundo.

A busca por rótulos zero e por alternativas de menor teor alcoólico tem motivado grandes cervejarias e marcas artesanais no país a investirem em inovação, tecnologia de desalcoolização e lançamentos de receitas cada vez mais complexas para atender ao bebedor nacional.

Premium e migração do eixo do consumo

A pesquisa, que trata de bebidas em geral, também traz outros insights interessantes sobre a cerveja. O volume geral caiu 2% no último ano, parte de uma retração global de 500 milhões de caixas no mercado de bebidas. Na contramão, a categoria “Premium & Above” — que reúne rótulos de maior valor agregado e artesanais — avançou 1%. Uma troca de volume por valor: o consumidor prefere investir em qualidade e procedência, o que chancelou o mantra de “beber menos, mas beber melhor”.

O panorama global também desenha uma mudança clara na distribuição do consumo pelo mapa mundial. Enquanto mercados maduros e tradicionais projetam quedas nas doses consumidas ao longo da próxima década — com retrações previstas de 18% nos Estados Unidos, 14% na Alemanha e 13% no Reino Unido até 2035 —, a rota de crescimento do setor migrou para economias emergentes.

Países como Vietnã (com projeção de alta de 15%), México (+13%), Colômbia (+26%) e Índia (+38%) despontam como os grandes motores da indústria nos próximos anos. A Índia, inclusive, deve ultrapassar os EUA até 2032. Assim, se tornaraia o segundo maior mercado de bebidas do planeta, atrás apenas da China, prevê o IWSR.

Entre Stouts e RTDs

Na esteira da busca por sabores mais intensos, as Stouts roubaram a cena na pesquisa. As cervejas escuras cresceram 4% em volume global no último ano no mundo. O salto reflete tanto o desejo do público por perfis sensoriais complexos quanto o peso de marcas históricas que dominam o segmento, dizem os analistas.

O avanço dos drinques prontos em lata, conhecidos como RTDs, consolidou uma transformação no comportamento do consumidor jovem, que busca praticidade e variedade de sabores. A categoria atingiu pela primeira vez a marca de 1 bilhão de caixas de nove litros consumidas globalmente. O destaque vai para os coquetéis em lata, que saltaram 14% em volume no último ano.

Essa concorrência direta no consumo social exige do setor cervejeiro maior flexibilidade e reforça o posicionamento da cerveja sem álcool e dos rótulos especiais como produtos focados em experiência.

A cerveja até 2035

A IWSR aponta que o mercado global não caminha para o fim do consumo, mas para um profundo reequilíbrio estrutural. A projeção prevê uma queda no volume global de bebidas alcoólicas até 2031. Porém, seguida por uma recuperação gradativa: em 2035, o consumo deve ficar apenas 1% abaixo do patamar de 2025.

Esse ajuste será puxado pela expansão de mercados emergentes e por um aumento de 9% na população mundial em idade legal para beber nos próximos dez anos. Marten Lodewijks, presidente da IWSR, disse que 2035 será um jogo diferente em entrevista ao site The Drinks Business. O sucesso das marcas deixará de ser apenas sobre escala. E dependerá agora da habilidade das cervejarias em entregar a funcionalidade, a diversidade de estilos e a experiência sensorial que o novo consumidor exige.

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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