Saudações! Em minha última coluna desejei estar de melhor humor — e cumprir meus prazos. Falhei miseravelmente em ambas as questões. O ano de 2025 cobrou um preço alto demais do mercado da cerveja, seja em terras Brasilis ou fora daqui.
Tivemos o encerramento de atividades de cervejarias icônicas como a Brouwerij De Molen (2004–2025) na Holanda e Rogue Ales & Spirits (1988–2025) nos EUA. Encerramento de atividades da loja de homebrew mais antiga em operação nos EUA — F.H. Steinbart Co (desde 1918 até 2025 — atravessou a lei seca!) entre outras baixas consideráveis de um mercado que se molda, se ajusta e, dada a inevitável questão climática — “Cerveja é Agricultura” — tem um futuro muito incerto pela frente.
Cervejarias são negócios e estão sujeitas a uma miríade de variáveis, desde fatores externos quanto internos. Fazem parte da história, fazem parte da nossa história, deixam saudades. Mas o que realmente importa mesmo são as pessoas. E, como comentei no início da coluna, 2025 cobrou um preço alto demais.
As transformações no mercado da cerveja e os legados que ficam
Neste ano que passou perdemos Kátia Jorge. Graduada em Engenharia Química, com mestrado em Bioquímica e doutorado em Ciência dos Alimentos, além de ser mestre cervejeira e sommelier de cervejas. Uma das pioneiras no Brasil. Diretora da FlavorActiv. Um doce de pessoa, acessível, divertida, irreverente e, ao mesmo tempo, uma fonte inesgotável de sabedoria. Tive o prazer de participar de alguns cursos que ela ministrou, assim como bebericar de forma descontraída cervejas em sua companhia após um longo dia de julgamento.
Nesse ano que passou perdemos Martyn Cornell. Inglês, escritor há mais de 40 anos, e um pesquisador de cervejas. Publicou vários livros sobre o assunto, dono de um blog maravilhoso (que parece ter sido tirado do ar). Desconstruiu mitos já bem consolidados no meio cervejeiro. Eu assinava a newsletter do blog e vinham uns textos imensos e maravilhosamente escritos, que eram puro deleite de ler e se surpreender. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente há alguns anos.
Definitivamente não sou religioso. E, por mais que seja clichê, acho interessante e apropriada a citação (que não sei a quem creditar) de que realmente morremos quando morre a última pessoa que sabia nosso nome. Afinal, memória e legado são a forma mais pura de resistência ao esquecimento. Também no mercado da cerveja. Acredito que tocamos a vida das pessoas ao nosso redor de forma permanente e, de certo modo, continuamos a viver através disso.
Um brinde à Katia! Um Brinde à Martyn! Saúde!
Jayro Neto é somelelê, CFO, auxiliar administrativo e sócio da Cozalinda. É sommelier de cervejas desde 2015, campeão do Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas de 2019. Também atua como diretor financeiro da Abracerva desde 2022, juiz BJCP Certified e é co-autor do livro Guia da Sommelieria Brasileira.
* Este é um texto opinativo. As opiniões e informações contidas nele são de responsabilidade do colunista e não refletem necessariamente a opinião do Guia da Cerveja.
A AB InBev, dona da Ambev, anunciou na terça-feira (6) a recompra de 49,9% de suas fábricas de latas nos Estados Unidos por 3 bilhões de dólares. A fatia pertencia a um consórcio liderado pela Apollo Global Management e a transação envolve sete unidades produtivas.
A manobra estratégica da AB InBev visa proteger a cadeia de suprimentos contra o impacto das tarifas de alumínio e garantir maior eficiência de custos, segundo sites internacionais como Reuters e Bloomberg. Com o controle total, a fabricante de Budweiser e Stella Artois busca acelerar inovações e assegurar a qualidade das embalagens. O negócio deve ser concluído ainda neste trimestre com previsão de elevar o lucro por ação logo da AB InBev no primeiro ano.
Esse não é um movimento isoladodo AB InBev. Ainda no setor de packaging, mas aqui no Brasil, a Ambev investiu R$ 1 bilhão e inaugurou uma fábrica de vidros em Carambeí (PR) em meados de dezembro do ano passado. Com isso, a empresa amplia a integração vertical da cadeira de fornecimento dos seus produtos — que cobre desde a plantação da cevada até as embalagens. A unidade tem capacidade para produzir 600 milhões de garrafas por ano, focando especialmente nos segmentos que lideram a expansão do setor: as cervejas premium e as opções zero álcool.
A cerveja Duff, da série de animação Os Simpsons, voltou ao Brasil no final do ano passado. Desta vez, devidamente licenciada e importada pela Interfood diretamente de Portugal. Sim, apesar de ser uma cerveja oficial, com direitos confirmados e pagando royalties ao programa de televisão, ela não é fabricada nos Estados Unidos, nem em Springfield. Vem da cidade de Santarém, perto da capital Lisboa, segundo Sandro Macedo, colunista da Folha de São Paulo.
Não é a primeira vez que o país recebe a cerveja preferida do Homer Simpson. Uma versão dela foi importada em 2011 e a marca chegou a ser fabrica nacionalmente em 2016. Mas ambas as iniciativas tiveram problemas por conta de direitos autorais. A versão atual é uma Premium Lager de 4,8% e está disponível no site TodoVino em latas de 330 ml.
Além disso, a cerveja chega justamente no momento em que o programa decidiu aposentar (aparentemente, para sempre) o Duffman, personagem embaixador da Duff. A despedida aconteceu no episódio “Separação”, da 37ª temporada, exibido nesse começo deste ano nos Estados Unidos.
Museu da Cerveja em Blumenau recebe visitantes de 55 países
O Museu da Cerveja, localizado em Blumenau (SC), ultrapassou a marca de 8,4 mil pessoas em 2025. O levantamento aponta que turistas de 55 países diferentes exploraram o acervo, que narra a história da bebida e sua ligação com o município. Segundo a gestora Vanessa Tomio Zanetti Koch, a expectativa para 2026 é superar esses números devido aos nove feriados nacionais previstos. O espaço oferece oito salas temáticas e degustação e área ao ar livre. Detalhes sobre ingressos e horários estão disponíveis no site do Museu da Cerveja.
Amstel lança móvel interativo focado na ocasião de churrasco
Móvel temático Churrasco Amstel deve ficar posicionado estrategicamente perto de açougues (Crédito: Divulgação / Amstel)
A Amstel apresentou ao varejo brasileiro o Churrasco Amstel, um móvel temático que organiza cervejas e itens essenciais para confraternizações em um único ponto. Desenvolvido em parceria com a Tiwa Creative, o equipamento conta com uma tela interativa que calcula a quantidade ideal de bebidas e alimentos conforme o número de convidados. A gerente Natália Urnikes destaca que a solução tem por objetivo simplificar a jornada de compra e levar tecnologia para o ponto de venda. A estrutura é posicionada estrategicamente próxima aos açougues para facilitar o fluxo dos consumidores nos supermercados.
Heineken promove harmonização de verão no Inside The Star em SP e PR
O projeto Inside The Star realiza sessões especiais de harmonização gastronômica entre os dias 16 e 31 de janeiro. As atividades ocorrem nas unidades da Heineken em Jacareí (SP) e Ponta Grossa (PR), sempre às sextas e sábados, às 14h. A experiência foca em rótulos leves e petiscos selecionados para os dias quentes, integrando o tour que apresenta o processo produtivo das bebidas. Os ingressos para a programação de verão custam R$ 80 e as reservas devem ser feitas por meio da plataforma Sympla. Mais informações pelo site oficial Inside The Star.
Cervejaria Ashby conquista duas medalhas em concurso no Chile
A segunda edição da BioBío Beer Cup, competição cervejeira do sul do Chile, premiou a cervejaria Ashby, de Amparo (SP), com duas medalhas. A marca paulista garantiu a prata com a Ashby Weiss e o bronze com a Ashby Porter, competindo com mais de 300 inscritas de diversos países. O fundador Scott Ashby ressalta que o reconhecimento internacional reforça a qualidade do produto artesanal brasileiro. Fundada em 1993, a cervejaria é uma das mais antigas do renascimento da cerveja artesanal no Brasil.
Heineken e Electrolux lançam cervejeira com torre de chope
Uma colaboração inédita entre Heineken e Electrolux resultou na criação da Home Bar, uma cervejeira equipada com torre de chope exclusiva para o uso do Keg de 5 litros. A parceria foca em levar a experiência do ritual de servir a bebida perfeitamente gelada para dentro dos lares brasileiros. Para marcar o lançamento, a campanha Celebrity House sorteará uma viagem para Salvador (BA) com direito a três acompanhantes. Os interessados em participar da promoção e conferir as condições devem acessar o site oficial da campanha Celebrity House com Electrolux Home Bar para realizar o cadastro.
Itaipava retorna ao futebol paulista no Paulistão 2026
A Itaipava retorna ao futebol paulista após sete anos como patrocinadora oficial do Paulistão Casas Bahia 2026 e das transmissões na CazéTV. A marca do Grupo Petrópolis planeja 143 exposições de mídia durante os jogos exibidos no canal digital. O campeonato começa neste sábado (10) com a partida entre Mirassol e São Paulo (SP). Segundo Diego Santelices, a estratégia foca no clima de verão e nos grandes encontros dos torcedores. A parceria une a tradição do torneio à linguagem moderna da plataforma de streaming para ampliar a conexão com o público.
Bodebrown lança cerveja de verão em evento em Curitiba
A cervejaria Bodebrown promove neste sábado (10) o lançamento da Frutti Sour Millésime 2026 em Curitiba (PR). O evento acontece durante o tradicional Growler Day com direito a shows de rock das bandas Four Back e Rusty Cage. A nova é uma Sour (cerveja ácida) com base do estilo Berliner Weisse e adição de maracujá, tangerina e goiaba na composição para garantir refrescância. A programação inclui café da manhã solidário mediante doação de alimentos e visitas guiadas à fábrica.
Projeto Vidrado da Heineken expande reciclagem para o Maranhão
O projeto Vidrado amplia sua rede de reciclagem de vidro e chega pela primeira vez a Atins (MA) neste verão. A iniciativa é uma parceria entre a Heineken e a startup SOLOS que já atua de forma contínua em Caraíva (BA). A ação promove a coleta porta a porta e instala pontos de entrega voluntária para garantir a economia circular em destinos turísticos. Desde sua criação, o programa já destinou 154 toneladas de vidro para a produção de novas garrafas. Moradores e turistas participam da preservação ambiental através de orientações e logística reversa monitorada.
Griletto terá chopp em dobro para quem comprar a bebida com tábua ou porção
O Griletto, rede de restaurantes especializada em grelhados com mais de 150 lojas franqueadas no Brasil, vai oferecer promoção de chopp em dobro na compra de qualquer tábua ou porção do menu. A oferta “Dose Dupla” vale de segunda-feira (12) até dia 29, entre segundas e quintas-feiras, das 17h às 20h. A segunda unidade de chopp (de 300ml, 500ml ou 700ml) será do mesmo tamanho do copo solicitado. A campanha é válida para pedidos realizados no balcão e o consumidor deve verificar, no momento da compra, as condições da promoção na loja visitada. Mais informações no site oficial.
Quem é o produtor de cerveja caseira no Brasil? Essa pergunta foi muitas vezes respondida com um palpite ou de maneira superficial desde que o movimento começou aqui no Brasil — a primeira Associação de Cervejeiros Caseiros (Acerva) foi fundada no Rio de Janeiro (RJ) em 2006. No entanto, agora é possível ter uma definição muito mais clara. E ele é mais engenheiro do que artista, revela a edição 2025 do Censo da Cerveja Caseira Brasileira, realizada pelo podcast Brassagem Forte, hoje parte da consultoria Pint.Network.
A pesquisa por si só é um feito inédito no país: teve a participação de 2.770 produtores de todos os 27 estados, a maior amostragem já realizada na história do hobby no Brasil. “Com a ajuda dos patrocinadores institucionais, chegamos a uma abrangência muito grande, superando pesquisas similares feitas por veículos maiores, como o Brulosophy”, explica Henrique Boaventura, sócio da Pint.Network e apresentador do Brassagem Forte.
São Paulo liderou o percentual de respondentes, com 29,9% do total, seguido por Santa Catarina (12,1%) e Minas Gerais (10,1%). No entanto, se considerado o número de participantes por 100 mil habitantes — uma medida muito mais proporcional —, Santa Catarina lidera (4,39), seguida pelo Distrito Federal (2,8) e Rio Grande do Sul (2,47).
O volume de dados transforma percepções antigas em estatísticas palpáveis desse importante segmento para a cerveja artesanal brasileira. Muitos que hoje são cervejeiros profissionais, sócios de cervejarias e outros negócios na área começaram produzindo cerveja caseira. Além disso, cada cervejeiro é um entusiasta e um advogado da cerveja artesanal, divulgando sua paixão e ampliando o mercado.
Os dados mostram que a produção caseira é um setor consolidado, mas que, por outro lado, está quase estagnado. E revela um perfil muito técnico do produtor num meio com grandes barreiras de entrada.
Mais engenheiro do que artista
Ranking das 10 profissões mais predominantes entre os produtores de cerveja caseira (Reprodução / site oficial)
O Censo da Cerveja Caseira Brasileira traçou um retrato muito claro do produtor brasileiro. A maioria absoluta são homens (97%), brancos (76,4%), e tem entre 40 e 49 anos (42,2%), com formação superior completa ou pós-graduado (65,4%). A maior fatia dos cervejeiros (38,1%) ganha acima de R$ 10 mil mensais, cerca de três vezes mais que a renda média nacional de aproximadamente R$ 3,5 mil. Outros 32,5% ganham entre R$ 5 e R$ 10 mil.
Mas o que explica essa renda? A profissão. A Engenharia lidera (20,1%), seguida pela área de TI (15,2%). Juntas, elas têm mais participação na área do que a soma das outras oito profissões que figuram no top 10 do ranking — áreas da Saúde, Vendas, Educação, o próprio meio cervejeiro, Direito, Ciências, além de aposentados e empresários.
Isso mostra que o hobby atrai quem busca precisão, processos e controle. Diferente do que já se achou um dia, não se trata apenas de arte ou gastronomia. A alta escolaridade técnica transformou as garagens em pequenos laboratórios de engenharia doméstica.
Baixa renovação na cerveja caseira
Para além do perfil, um dado preocupante é que apenas 6,6% dos respondentes começou na cerveja caseira há menos de um ano, indicando uma taxa muito baixa de renovação. “Isso é um sinal de que o interesse pelo hobby diminuiu, o que acende um alerta para o setor”, diz Henrique Boaventura.
“A participação de somente 3% de mulheres não surpreende, mas é muito negativa. Ou existem mais mulheres no hobby que não conseguimos alcançar, o que é ruim, ou realmente a participação é tão baixa, o que é ainda pior”, completa.
Considerando o perfil, será que o hobby se tornou técnico demais ou criou uma espécie de barreira intelectual? Boaventura não entende dessa forma. “Não vemos exatamente como uma barreira intelectual, mas cultural. Entendemos que a comunicação de quem está no setor talvez esteja ‘viciada’, falando para o mesmo perfil. Isso se reflete não só na concentração de profissões, mas também de gênero, renda e outros fatores”, analisa Boaventura.
“Comparemos com a onda de pessoas fazendo pão na pandemia. Foi um hobby que tinha elementos mais emocionais vinculados, como o contato e manipulação dos ingredientes, criar e nutrir a levedura, produzir um alimento que pudesse ser desfrutado por amigos e familiares, e outras questões mais emocionais. Já a comunicação cervejeira fala muito em atributos técnicos e sensoriais, com argumentos bastante técnicos. Falhando, por vezes, em despertar um interesse mais emocional que poderia depois ser complementado com o conhecimento técnico”.
Eficiência na cerveja caseira
O Censo 2025 também trouxe muitas informações sobre a prática do hobby em si. Bem como sobre os motivos que levaram alguns a pensar em abandonar o lazer, ou desistir de fato. “O volume de respondentes que parou ou pensou em parar é bastante alto, em torno de 30%, o que também mostra um risco”, diz o podcaster.
A falta de tempo é o maior inimigo do hobby, citada por 34,6% dos respondentes como o principal motivo para pensar em parar. “Entre os que pensaram em parar ou pararam, a quantidade de moradores de apartamento é 10 pontos percentuais (25% contra 35%) maior do que de casas. O que confirma que espaço é uma questão muito relevante também”, explica Boaventura.
A resposta de alguns produtores para sobreviver nessas condições é investir em tecnologia. O uso de softwares na nuvem disparou. O Brewfather assumiu a liderança do mercado com 48,5% da preferência, superando programas antigos focados apenas em desktop, como BeerSmith.
Além disso, os equipamentos grandes de três panelas estão perdendo espaço para a praticidade. O método BIAB (Brew in a Bag) lidera com 31,9%, seguido de perto pelos sistemas Single Vessel / All-in-One (modelo de panelas elétricas automatizadas, as pipoqueiras) com 27,4%.
Tamanho e custo
Relação entre tamanho dos lotes e custos de produção (Reprodução / Site oficial)
Mas o que os produtores ganham de fato fazendo cerveja em casa? Mais satisfação técnica do que economia. Antigamente, muitos acreditavam que era significativamente mais barato produzir em casa. Mas não é bem assim. A maioria dos respondentes (35,39%) disse produzir lotes de 20 litros a um custo médio de R$ 9,80 por litro. Embora seja competitivo com a artesanal comercial, exige investimento inicial alto, tempo e espaço na maior parte das vezes.
Já produzir lotes de menos de 10 litros provou-se ineficiente. Custa quase o dobro (R$ 19,00/L). O que pode explicar a morte dos mini-equipamentos (1,7% dos respondentes). O ponto de melhor custo-benefício parece ser de 40 litros (R$ 6,20) ou mais (R$ 6,40) — tamanhos usados por 39,34% dos respondentes, somando ambas as faixas.
Isso leva a outra estatística interessante: o volume médio de produção aumenta conforme a experiência do cervejeiro. Quem está a menos de um ano no hobby produz 21,3 litros por lote. Já que está a mais de dez anos chega a 35,4 litros.
Estilos e investimento
“Um resultado que contrariou o que esperavam foi a concentração de maioria dos respondentes em estilos mais comuns, como APA/IPA (61,6%) e Ales genéricas (30,8%). Embora uma parcela dos cervejeiros caseiros goste de experimentar com estilos diferentes (22%), maioria repete os mesmos estilos. Somando isso ao fato da maioria seguir o BJCP (84,2%), vemos que consistência e evolução na qualidade é mais relevante para a maioria dos respondentes que variedade”, conta o apresentador do Brassagem Forte.
O levantamento mostra também um comportamento de “consumo duplo”. Cerca de dois terços dos respondentes (68,2%) disse gastar entre R$ 100 e R$ 300 por brassagem. Ao mesmo tempo, 44% diz gastar em média o mesmo valor comprando cervejas comerciais. Isso movimenta toda a cadeia, de lojas de insumos a importadoras.
A cervejaria escocesa BrewDog reformulou seu visual e a nova identidade visual das latas de Punk IPA, Elvis Juice e Hazy Jane acabam de chegar ao Brasil por meio da importadora Interfood. Em uma iniciativa que marca o início de uma “nova era” para a companhia após a saída do CEO James Arrow, segundo sites internacionais, os rótulos mais icônicos da marca ganharam embalagens modernizadas que buscam refletir a personalidade individual de cada líquido.
A mudança não é apenas estética. Ela faz parte de um movimento global iniciado no Reino Unido em maio de 2025, representando a primeira grande reformulação da marca em cinco anos. Após meia década mantendo o padrão visual estabelecido em 2020, a cervejaria decidiu apostar em composições que valorizam o contraste, fundos mais limpos e uma tipografia ampliada, facilitando o reconhecimento nas gôndolas.
Segundo Lauren Carrol, diretor de Operações da BrewDog, a nova embalagem visa “revolucionar a categoria”. E, ao mesmo tempo, manter a missão original da marca de fazer o público se apaixonar por cervejas de alta qualidade, produzidas com tecnologia de ponta e atitude.
Nova identidade visual da Brewdog
No Brasil, os holofotes desta transição estão voltados para o trio de maior sucesso da casa. A Punk IPA, carro-chefe que completou 18 anos de história em 2025, traz um design que reafirma seu caráter lupulado e notas de frutas tropicais. A Elvis Juice, uma IPA com infusão de grapefruit que se tornou sucesso absoluto nos Estados Unidos antes de conquistar a Europa, chega com um visual que destaca seu perfil intensamente cítrico e refrescante. Por fim, a Hazy Jane apresenta uma estética com linhas mais suaves e fontes arredondadas. Elas remetem diretamente à sua textura aveludada e perfil “suave e frutado”, reforçando sua proposta de ser uma IPA turva e fácil de beber.
Além da renovação dos clássicos, a reformulação reflete a evolução constante do portfólio da BrewDog. A empresa tem visto o crescimento acelerado de novos rótulos, como a Wingman IPA e a Cold Beer. Globalmente, a marca também fortaleceu sua presença institucional por meio de contratos plurianuais de peso. Tornou-se a cervejaria oficial do Estádio Olímpico de Londres e do West Ham United.
A chegada das novas latas e garrafas ao país é viabilizada pela Interfood e pelo seu canal de vendas oficial, a TodoVino. Os novos rótulos já podem ser encontrados nas melhores lojas especializadas e plataformas digitais.
A cena cervejeira brasileira acaba de conquistar um novo patamar de reconhecimento global, e desta vez o brinde acontece dentro das universidades. A Catharina Sour, o primeiro estilo de cerveja brasileiro a ser registrado em um guia de estilo, é o foco central de um artigo científico publicado recentemente na prestigiada revista Food Chemistry Advances. O periódico pertence ao grupo Elsevier, uma das maiores e mais respeitadas potências da literatura científica mundial. A sommelière e doutora Amanda Felipe Reitenbach assina o trabalho.
Intitulado “Catharina Sour: Innovation in the first Brazilian craft beer style — From tradition to the sensory exploration of Brazilian tropical fruits”, o estudo não se limita apenas à receita. Os pesquisadores entregam uma análise técnica profunda que passa pela origem histórica, a consolidação no mercado e os processos produtivos que tornam esse estilo único. O estudo destaca como o uso estratégico de frutas tropicais, aliado aos processos de fermentação láctica e mista, cria uma identidade sensorial. Essa combinação reflete a biodiversidade nacional e a capacidade de inovação da cena artesanal brasileira.
A publicação reforça a importância do reconhecimento oficial da Catharina Sour pelo Beer Judge Certification Program (BJCP). O artigo explora como o uso de técnicas de fermentação láctica e mista permite que as características das frutas se destaquem, equilibrando acidez e frescor.
Além dos aspectos químicos, as pesquisadoras discutem os desafios tecnológicos da produção e o crescimento do estilo em competições. O texto aponta o grande potencial de expansão da Catharina Sour no mercado global de cervejas artesanais, no qual a demanda por sabores autênticos só cresce.
Colaboração pela Catharina Sour
O desenvolvimento desta pesquisa foi liderado pela Dra. Amanda Felipe Reitenbach durante seu pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ciência dos Alimentos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Sob a coordenação da Dra. Vivian Maria Burin, uma referência na área, o estudo contou com uma rede de colaboração internacional invejável. Participaram do projeto especialistas da Technical University of Munich (TUM), através do renomado Centro Weihenstephan, com a contribuição fundamental do Dr. Martin Zarnkow.
A rede se estendeu até Portugal, por meio do Centre for Food Education and Research (Fundão, Castelo Branco), com o pesquisador Dr. Julio Cesar Machado Junior., fortalecendo o intercâmbio entre Europa e América Latina. No Brasil, a parceria estratégica com a Dra. Grace Ferreira Ghesti, da Universidade de Brasília (UnB), consolidou a supervisão científica em biotecnologia e fermentação.
Para quem trabalha no setor, a publicação consolida academicamente a Catharina Sour não apenas como um produto comercial, mas como um objeto de estudo. O trabalho valoriza os ingredientes locais e a capacidade técnica dos nossos pesquisadores e mestres cervejeiros brasileiros.
O mundo da cerveja acaba de ver “ressuscitar” uma lenda. No último dia 15 de dezembro, a cervejaria escocesa Innis & Gunn lançou oficialmente, em Edimburgo, na Escócia, a Innis & Gunn 1875 Arctic Ale. Ela foi criada a partir de uma cerveja rara produzida originalmente há um século e meio para abastecer uma expedição britânica ao Ártico.
A novidade não é apenas uma homenagem, mas uma reconstrução técnica baseada em uma das garrafas mais caras do mundo.
O projeto nasceu da obsessão por preservar a memória cervejeira que o mestre cervejeiro e fundador da Innis & Gunn, Dougal Gunn Sharp, diz ter. Ele adquiriu em um leilão, há mais de uma década, uma garrafa original da “Arctic Ale” de 1875. Investiu 3 mil libras à época, segundo o site The Drinks Business, o que daria cerca de R$ 21 mil hoje.
O valor pago foi alto porque se trata de uma cerveja rara, mas o objetivo era também científico: estudar o líquido remanescente para entender o perfil sensorial e a composição daquela cerveja histórica.
“É difícil dimensionar a raridade desta garrafa. Algumas pessoas podem achar loucura abri-la, mas acho que a verdadeira loucura seria deixá-la guardada em uma prateleira. Cerveja é para ser compartilhada”, disse Sharp, segundo a publicação.
“Esta cerveja foi produzida para uma viagem de resistência e aventura, e acho justo que ela faça mais uma jornada — para o copo. Há algo muito especial em poder degustar um pedaço da história da cerveja e da história marítima. É por isso que estamos fazendo isso”, afirmou.
Artic Ale original
A Allsopp’s fabricava a bebida original. Trata-se de uma das cervejarias mais influentes do século 19. Na época, o cervejeiro desenvolveu o produto para suportar as temperaturas extremas enfrentadas pelos exploradores do Ártico.
Para isso, a receita era robusta. Graças aos açúcares não fermentáveis que impediam o congelamento a -40°C, a bebida era considerada “forte e nutritiva”, possuindo seis vezes mais calorias que o padrão de mercado. Registros de fabricação da época descrevem a cerveja como espessa, escura e “lembrando o antigo vinho da Madeira”. Tão densa que os cervejeiros precisavam retirar da tina de cobre em baldes.
Artic Ale “moderna”
Para trazer essa raridade de volta à vida, a Innis & Gunn uniu forças com a própria Allsopp’s. A marca, que havia desaparecido, foi recentemente revivida por Jamie Allsopp, herdeiro direto da família fundadora.
Essa colaboração garantiu que a nova versão respeitasse o legado da receita original, unindo o conhecimento histórico da Allsopp’s com a tecnologia de produção e maturação em madeira da Innis & Gunn. O resultado é um produto com 9,5% de teor alcoólico (ABV). A Allsopp’s descreve a Artic Ale como uma cerveja de marrom intenso, com sabor que lembra madeira antiga e nada efervescente: a bebida é “quase sem gás”, segundo a empresa.
“Recriar esta cerveja foi um desafio técnico e uma honra. Ver o que os cervejeiros de 150 anos atrás eram capazes de fazer é inspirador”, afirmou a cervejaria durante o lançamento.
Lançamento em um cubo de gelo
E o lançamento dessa recriação histórica não poderia ser mais imagético. A Innis & Gunn levou um bloco de gelo enorme para o evento especial de apresentação, evocando as águas congeladas do Ártico.
De acordo com o site Scottish Field, os convidados puderam provar a cerveja a -10°C. Nada mais justo, já que os marinheiros de 150 anos atrás apreciavam o líquido da mesma forma.
A cervejaria produziu apenas uma quantidade limitada da cerveja. Milhares de pessoas participaram de um sorteio para ter a chance de comprar uma das somente 250 garrafas feitas por 25 libras. No lançamento, a edição limitada esteve disponível em barril nos bares Innis & Gunn Taprooms em Edimburgo e Glasgow. Em janeiro, a Allsopp’s vai ser engatar um barril no The Blue Stoops em Londres, um pub da rede da cervejaria parceira. Não há previsão de que chegue ao Brasil.
O mercado de lúpulo no Brasil prepara o terreno para uma retomada de expansão no próximo ano. Após um ciclo de forte crescimento inicial nos últimos cinco anos, o setor observou uma estabilização natural em 2025 — mas com avanços importantes. Para 2026, a expectativa é que o crescimento volte a acelerar, impulsionado pela profissionalização da cadeia e novos investimentos em industrialização.
Segundo Daniel Leal, vice-presidente da Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo), o cenário atual reflete uma mudança estrutural no perfil de quem planta lúpulo no Brasil. Houve uma depuração do mercado, com a saída de produtores pioneiros menores e a entrada de investidores com áreas maiores e maior capacidade de aporte financeiro.
“Esperamos que 2026 seja o ano em que o setor avance mais concretamente na construção de pontes para buscar investimentos públicos e privados para pesquisas fundamentais no avanço técnico da cultura”, afirma Leal.
Para 2026, desenham-se dois caminhos claros para o desenvolvimento. O primeiro é a integração entre produtores para centralizar processos de beneficiamento, como ocorre com a Cooperativa Brasileira de Lúpulo e a Cadeia Produtiva Local (CPL) da região de Araraquara, no interior de São Paulo. O segundo é a verticalização da produção por novos e maiores players, que possuem capital para gerir todas as etapas de forma autônoma.
A busca pela industrialização do lúpulo no Brasil
Um dos gargalos históricos — o processamento — deve ganhar novos contornos. A industrialização é vista como passo fundamental para garantir qualidade, padrão e escala, acelerando a abertura do mercado cervejeiro para o produto nacional.
Em Araraquara (SP), esse movimento já está tornando realidade. Luciana Andreia Pereira, sócia da Lúpulo Guarani e diretora da CPL de Araraquara, destaca a inauguração, em 1º de agosto, de uma unidade de beneficiamento equipada com peladora (máquina que separa os cones da planta), secador e peletizadora. A peletização é o processo de transformar a flor do lúpulo em pequenos grânulos compactados. E isso reduz a oxidação e facilita o armazenamento e a dosagem pelas cervejarias.
Ela conta que o novo edital de fomento criou uma linha para certificar os lúpulos, analisando a qualidade em alfa-ácidos e óleos essenciais — compostos químicos responsáveis, respectivamente, pelo amargor e pelo aroma da bebida — e desenvolver blends de novos produtores. “Isso busca a padronização e alta qualidade do produto”, explica Luciana.
O desafio dos números e a dependência externa
Apesar do avanço, o Brasil ainda importa 99% do lúpulo que utiliza, mesmo sendo o terceiro maior produtor de cerveja do mundo. Essa dependência obriga a indústria a utilizar insumos muitas vezes envelhecidos pelo transporte, diferentemente do lúpulo no Brasil, que chega fresco às fábricas. Os dados regionais, contudo, mostram o potencial de reversão desse quadro.
A CPL de Araraquara inicia a cadeia com 6,2 hectares — o que representa 30% da produção do estado de São Paulo. A estimativa é ambiciosa: com 26 novos plantios previstos e suporte de consultoria e crédito, a produção local poderá dobrar.
O otimismo é sustentado pela base científica. A região conta com suporte da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e especialistas com mais de 16 anos de experiência na cultura, focados em controle fitossanitário e melhoramento genético.
“O trabalho ainda é longo. Estamos estabelecendo uma cultura que ainda não existe no Brasil, mas com o apoio do governo e a estrutura da CPL […] é possível catalisar um crescimento exponencial do lúpulo no Brasil”, avalia Luciana.
Para 2026, a CPL de Araraquara deve promover a 4ª Festa da Colheita, previsto para agosto. Trata-se de um evento pensado para sensibilizar o mercado cervejeiro.
Além disso, Luciana diz que está articulando e mobilizando outros projetos. A criação da Rota Cervejeira é um deles, e visa estimular o setor por meio do turismo. Já o fórum “Do Campo ao Copo” que deve envolver os maiores players do setor. E até a participação na Brasil Brau, maior encontro do setor, previsto para junho, está nos planos. “A participação dos elos verticalizados da CPL já foi aprovada para o evento Brasil Brau, de reconhecimento internacional. Lá estarão presentes todas as grandes cervejarias e alguns lupuleiros internacionais”, afirma Luciana.
Outro dia, depois de um detox alcoólico de semanas, abri uma cervejinha como se deve: sem nenhum compromisso. É fim de ano, aquele período em que a gente olha para trás tentando encontrar lógica no caos — e entender o futuro do mercado de cerveja.
Guerra, aquecimento global, manobras do Congresso, fim das iniciativas de inclusão, a educação cervejeira segue contando as mesmas histórias sem olhar (de verdade) para o passado, a IA ocupa cada vez mais nosso dia a dia enquanto a gente se afasta do que nos torna humanos: presença, conflito, comunidade.
No noticiário, tem cervejarias lendárias decretando falência. Outras desaparecendo sem nem se despedir. Ao mesmo tempo, enchentes, secas, queimadas, alagamentos e até furacões tropicais já frequentam mais a tal “terra abençoada por Deus” que o Bruno Mars.
É quase sorte a gente ter chegado até aqui, né não?
(Crédito: Imagem gerada com IA)
No meio dessa reflexão meio bêbada e meio sóbria, me lembrei de uma pergunta que o Giba (Tarantino) me fez outro dia: o que vai ser do futuro do mercado de cerveja daqui a 5 anos?
Nem se empolgue.
Se você acha que a resposta existe, tá no lugar errado. A Bia Amorim fez um texto ótimo sobre a tese, mas é isso: apenas tese. Já o retrocesso silencioso é bem real.
Fim do hype no futuro do mercado de cerveja
Eu e algumas pessoas insistimos nessa pauta e seguimos pagando por isso. Mas a real é que ninguém fala mais sobre o tema, mesmo acontecendo em várias áreas. A publicidade já percebeu. O cinema já percebeu. E quem trabalha com bebida também deveria perceber: os movimentos de inclusão foram esvaziados.
Não é que não existam mulheres talentosas, pessoas pretas preparadas, profissionais brilhantes em todas as pontas da cadeia. Elas estão aí desde sempre e não são poucas.
O problema é que a porta que a gente começou a abrir enferrujou de novo. A pauta perdeu glamour, perdeu like, perdeu moda. Só não perdeu urgência, pelo contrário. Mas pra quem dá as cartas do jogo, infelizmente, parece que tá tudo bem.
Fim da humanidade
Enquanto isso, a IA vai ocupando buracos que ninguém deveria ocupar. Por exemplo, tem gente fazendo terapia com IA, tem criador terceirizando o próprio pensamento, tem marca substituindo conversa humana por automação como se fosse normal. Tem também criador brasileiro famoso copiando palavra por palavra o conteúdo dos outros, como um casal fez com uma blogueira britânica.
Se até a construção de relações humanas pode virar algoritmo, o que impede que a cerveja vire só um produto? Só entrega? Só eficiência? Você também sente que estamos caminhando pra isso? Cerveja sempre foi cultura líquida, humana, fluida. Se o humano sai da equação, sobra o quê?
Fim do real
Outro fenômeno é essa troca da vida vivida pela vida editada. Todo mundo procurando pertencimento fácil, amizade que não te enfrenta, não te contradiz, comunidade sem diversidade de verdade. É aí que mora o perigo. Pensa: se a cerveja é uma ponte entre as pessoas, o que acontece quando elas não conseguem mais atravessar ou nem querem passar por essa ponte?
A cerveja não foi feita pra alimentar uma solidão confortável. Foi feita pra mesa cheia, conversa torta, discussão e debate acalorado, pra ser pano de fundo de histórias que cabem na vida, não no feed.
Fim do sentido
Agora, pega a ironia: quanto mais se fala em reinventar o mercado, mais se esquece das coisas simples. Por exemplo, tá todo mundo preocupado com teor alcoólico, parecer sustentável, tomar o share da outra marca, números do próximo trimestre. Mas quem tá olhando o essencial: o que faz uma pessoa querer brindar?
Todo mundo quer ser protagonista no seu brinde, mas se o brinde não tem sentido, emoção ou verdade, não tem produto, inovação ou IA que salve o futuro do mercado de cerveja.
Recomeço
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia, diria Chico (Buarque) e pego carona com ele. Pois ainda vejo um caminho, um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera, com habilidade pra dizer mais sim do que não, como diria Lulu (Santos).
Eu vejo isso nas micro comunidades reais (não digitais), que crescem porque alguém parou pra ouvir. Nos botecos e bares que ainda acolhem quem não tem glamour, mas é inspiração. Nas mesas onde ninguém pega o celular durante o brinde. Nas poucas empresas e profissionais que ainda resistem e acreditam que diversidade não é pauta, é prática.
Eu vejo isso na feirinha que passei outro dia, onde vi uma barraca vendendo cerveja feita por pessoas pretas. Onde o casal e seus dois filhos adolescentes serviam e conversavam com quem passava pra provar a cerveja deles. Simples, como deveria ser.
Eu vejo isso aqui, agora, nesse copo americano suado que to olhando enquanto rabisco esse texto. Num balcão molhado de boteco. Naquele gole que ninguém viu, mas existiu, sabe?
É nesse lugar, contexto ou sonho etílico que ainda mora esse futuro.
Daqui a 5 anos? Não faço ideia!
(Crédito: Imagem gerada com IA)
Só posso falar sobre o que eu gostaria de ver no futuro do mercado de cerveja.
Um mercado com menos pressa e mais propósito. Com menos algoritmo e mais humanidade. Com menos tendência e mais verdade. Com menos exclusão e mais acesso. Com menos exibicionismo e mais encontros.
Com menos “eus” e mais Rozis Sá.
Mais gente puxando gente.
Porque um brinde só vale quando tem alguém do outro lado.
Se você chegou até aqui (espero que sim), deve ter sacado que a pergunta certa não é sobre “o que vai ser da cerveja daqui 5 anos?”. Isso é muito passivo. O jogo é sobre construção, então é muito mais sobre o que a gente pode fazer da cerveja até lá.
Ainda dá tempo. Ainda tem espaço. Ainda tem copo.
E se você quiser, entre umas e outras, a gente inventa um futuro que realmente valha a pena brindar.
2026 já começou, bora?
Eduardo Sena é publicitário, entusiasta cervejeiro, podcaster e agitador etílico-cultural. Com mais de 20 anos de experiência como criativo, é diretor de conteúdo do Hora do Gole HUB — plataforma que conecta cerveja, cultura, equidade e criatividade. Também colabora como estrategista e criativo para outras marcas.
* Este é um texto opinativo. As opiniões e informações contidas nele são de responsabilidade do colunista e não refletem necessariamente a opinião do Guia da Cerveja.
O tempo em que a cerveja sem álcool era sinônimo de sabor ruim ficou definitivamente para trás. Hoje, o mercado entrega ótimos rótulos, alguns repletos de personalidade e sabor. E isso é uma boa notícia também para os adeptos do Janeiro Seco (ou Dry January), movimento que propõe um mês sem álcool para dar aquele “reset”. Agora, isso não necessariamente significa ficar sem beber cerveja.
A tendência não é apenas moda. Globalmente, o mercado de bebidas sem álcool já movimenta cerca de US$ 24 bilhões em 2025, com projeções de alcançar os US$ 50 bilhões na próxima década, segundo o Global Market Insights. No Brasil, o salto é histórico: o Anuário da Cerveja 2025, do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), revelou que o volume produzido de cerveja sem álcool no país disparou 537%, saltando de 118,9 milhões em 2023 para 757,4 milhões de litros em 2024.
Um dado curioso é que, segundo a NielsenIQ, cerca de 82% dos que compram a versão sem álcool também consomem bebidas convencionais. Isso prova que a cerveja zero não serve apenas para quem “não pode” beber, mas é uma escolha estratégica para diversos momentos. De acordo com o Sindicerv, o Brasil já ocupa a 2ª posição no ranking mundial de consumo dessa categoria, atrás somente da Alemanha.
A origem do Janeiro Seco
O Janeiro Seco ganhou força em 2011, quando a britânica Emily Robinson decidiu ficar o mês inteiro sem beber para treinar para uma meia maratona. Surpresa com os benefícios para seu corpo, ela levou a ideia para a ONG Alcohol Change UK, que lidera o movimento mundialmente desde 2013.
A filosofia por trás da campanha não é proibir, mas convidar as pessoas a observar sua relação com o álcool, refletindo sobre abusos e equilíbrio. Participar de movimentos assim é algo motivador e muitas vezes necessário para alguns. Mas, acima de tudo, é preciso ter coerência e não confundir a meta com o objetivo maior. De nada adianta passar janeiro sem beber e exagerar nos outros 11 meses do ano.
Também é preciso entender a realidade regional. No hemisfério norte, onde a campanha nasceu, já é inverno em janeiro — o que naturalmente diminui o consumo de cerveja. No Brasil, é pleno verão. Por isso, o exercício não necessariamente precisa ser nesse mês.
Para ajudar você que quer se lançar nesse desafio, o Guia da Cerveja selecionou cinco opções de cervejas artesanais sem álcool com muito sabor para provar.
Campinas IPA Zero
Para quem não abre mão dos lúpulos, a IPA Zero, da Cervejaria Campinas, é excelente opção. Trata-se de uma das cervejas sem álcool mais vencedoras do Brasil. Entre outros prêmios, conquistou ouro e o título “Country Winner Brazil” no World Beer Awards em 2021 e 2022. Com 40 IBU (unidades de amargor, numa escala de zero a cem), é uma IPA que não deve em nada para as versões tradicionais. Traz amargor acentuado e é muito aromática, tendo triplo dry-hopping com lúpulos Citra e Sabro.
Sim! Cerveja — Melancia Sour n’ Salt
A Sim! Cerveja, também de Campinas (SP), é uma marca que faz somente cervejas artesanais sem álcool. Somente este ano, ela foi premiada em dois importantes concursos de cerveja internacionais. O rótulo Melancia Sour n’ Salt foi eleito a melhor do mundo em sua categoria no World Beer Cup, considerado o maior concurso de cervejas do mundo. E a IPA Sem Álcool ganhou como melhor cerveja sem álcool do mundo no World Beer Awards 2025.
A primeira é uma cerveja ácida e salgada, do estilo Contemporay Gose, com adição de melancia, trazendo um sabor muito peculiar e muito refrescante. Vale a pena provar.
Dádiva Golden Ale Sem Álcool
A Cervejaria Dádiva, de Várzea Paulista (SP), foi uma das primeiras a produzir cervejas sem álcool entre as artesanais, ainda em 2019. O cervejeiro utiliza aqui um microrganismo fermentativo alternativo que produz níveis muito baixos de álcool (abaixo de 0,5%, o que é considerado sem álcool pela legislação brasileira) e todo o sabor que a cerveja precisa. A Golden Ale é complexa, frutada e com maltado leve. Vale a pena experimentar.
ETAPP Catharna Sour com frutas vermelhas
A ETAPP também é uma marca especializada em cerveja sem álcool, mas que traz um apelo ao público esportista e de bem-estar. Conta hoje com cinco rótulos. Entre eles, uma Catharina Sour (primeiro estilo de cerveja brasileiro) com frutas vermelhas que recebeu medalha de prata na etapa nacional da Copa Cerveja Brasil em 2025. Trata-se de uma cerveja ácida com aroma e sabor das frutas. Muito refrescante.
Luci Maracuvaia
A Luci também só faz cervejas sem álcool. O portfólio hoje inclui seis rótulos. Entre eles, uma deliciosa Pilsen com café Arara orgânico da D.Origem. Mas o destaque mesmo é a Maracuvaia, uma Catharina Sour com maracujá e uvaia. Ela foi premiada com medalha de ouro e “Country Winner Brazil” na categoria No & Low Alcohol — Sour & Wild no World Beer Awards 2025, além de levar bronze na Copa Sulamericana de Cervejas no mesmo ano.
Opções convencionais para o Janeiro Seco
O mercado hoje está recheado de boas opções. Entre as convencionais, a Heineken 0.0 e a Corona Cero são boas pedidas e fáceis de achar. Além disso, ambas são feitas a partir de cervejas com álcool que passam por um processo de destilação a vácuo (dealcolização) para retirada do etanol. Nesse caso, pela legislação, elas têm menos de 0,05% — uma quantidade ínfima equivalente a um sachê pequeno de ketchup (5 ml) a cada 10 litros.
Esqueça a pressão dos cronômetros, os batimentos cardíacos monitorados à risca e a busca frenética pelo pódio. No dia 21 de março de 2026, o Litoral Sul de São Paulo será palco de uma tendência que vem ganhando força no mercado de eventos: a corrida recreativa focada em experiência. A Praia do Guaraú, em Peruíbe, foi a escolhida para a estreia da Corrida Cervejeira Pé na Areia, um projeto que promete unir o lifestyle praiano ao universo das cervejas artesanais e do entretenimento.
O evento é capitaneado pela Cervejoca, empresa comandada pelo promotor Joca, e as inscrições já estão abertas no MovNow, limitadas a 450 participantes. A corrida é aberta a maiores de 18 anos e acontece totalmente na faixa de areia. A concentração será em frente à Avenida Central. O dia seguirá o cronograma abaixo:
10h às 13h30: Retirada dos kits
14h: Largada
15h30: Chegada e entrega do cooler
16h: Concurso Miss Pé na Areia, confraternização com DJ e bandas locais
A escolha da Praia do Guaraú não foi por acaso. Conhecida como um santuário ecológico de Peruíbe, a região oferece o isolamento e a segurança necessários para um evento que preza pela descontração.
A proposta é itinerante: após a primeira edição em Peruíbe, a Corrida Cervejeira Pé na Areia deve percorrer outras cidades do Litoral Sul paulista ao longo de 2026, criando um circuito próprio. As datas e etapas serão divulgadas gradualmente no site oficial da organizadora.
Fugindo do tradicional “camiseta e medalha”, a Cervejoca investiu em itens que estendem a experiência para além do dia do evento. Os inscritos receberão:
Abadá e viseira para o clima de festa;
Copo oficial ecológico (430 ml) e bolachas porta-copo;
Cooler térmico exclusivo: Com capacidade para até 10 latas, entregue estrategicamente na linha de chegada.