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Mais destilados e mulheres: Tendências na relação entre bebidas e música

Água, malte, lúpulo e levedura são os ingredientes básicos de uma cerveja. Mas a união deles não basta para que uma bebida seja boa. É preciso encontrar uma combinação certeira. A mesma lógica serve para a música, com a união de notas, de letras e de arranjos que pode se transformar em um poderoso unificador entre as pessoas. Essas junções se tornam ainda mais fortes quando a música e a cerveja – ou outras bebidas alcoólicas – caminham juntas, como se deu em vários momentos marcantes na sociedade brasileira, moldando comportamentos e tendências.

É impossível, por exemplo, imaginar uma roda de samba sem vários copos de cerveja ou deixar de associá-la a grandes nomes da música nacional, como João Nogueira. Além disso, a música serviu para eternizar a relação com a cerveja em letras interpretadas por bandas como Skank e Chico Science & Nação Zumbi, na década de 1990. Mas, recentemente, a música e a cerveja traçaram outras tendências nessa representação, como uma maior presença feminina, seja na interpretação ou como personagens dessa relação. Além disso, a cerveja perdeu parte do seu protagonismo, dividindo espaço com outras bebidas.

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Essa união, claro, não passou ilesa pelas cervejarias, que se utilizam há décadas do poder musical para alavancar a venda e o consumo da bebida no Brasil, com o caso mais óbvio sendo o de Zeca Pagodinho, garoto-propaganda por anos da Brahma. A parceria com o cantor ficou tão marcada que ele foi homenageado no carnaval de 2020 com uma estátua de bronze criada pela marca e que circulou nas ruas do Rio de Janeiro.

Outras grandes marcas da Ambev, por exemplo, investem em ações de marketing com artistas. São os casos da Skol, com a parceria envolvendo Wesley Safadão, e da Bohemia, com Gusttavo Lima. Acordos pensados no posicionamento de mercado, sob a percepção do gosto musical do seu público-alvo.

E essa busca associativa também é vista em refrões, como “E pra sair da solidão, latinha na mão, latinha na mão”, da parceria de Leonardo com Zeca Pagodinho, tendo marcado época, em uma ligação da cerveja com o pagode e o sertanejo que se amplia nos últimos anos.

Recentemente, o ex-BBB e cantor Rodolffo, que faz dupla com Israel, viu Batom de Cereja, que traz a cerveja no refrão, chegar ao topo das paradas musicais no Brasil. O clipe da música no YouTube acumula mais de 127 milhões de visualizações. No Spotify, a faixa já foi reproduzida mais de 56 milhões de vezes.

Maior presença feminina
Ao longo dos últimos dez anos, alguns estudos trouxeram à luz da discussão inúmeros fatores que influenciam o consumo de cerveja no Brasil e sua presença, direta ou indiretamente, na música e em comerciais, como ressalta Yuri Moita, chef e mestre em Educação e Gestão pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em inovação.

De acordo com ele, a questão de gênero está envolvida em mudanças no padrão de consumo, com as mulheres tendo passado a beber mais cerveja. E com o aumento do poder aquisitivo, elas se tornaram seletivas, também consumindo mais as artesanais. Um movimento percebido e que se reflete na produção artística.

Um exemplo de associação feminina com a cerveja na música brasileira é o da cantora sertaneja Marília Mendonça. Ela destaca a bebida em músicas, como O Copo de Cerveja, ou em fotos nas redes sociais.

“Artistas e empresários têm seu olhar voltado a entender e satisfazer a necessidade do seu público. De modo direto, o público mudando, a área artística necessita acompanhar. Em um mundo globalizado e de alta competitividade, empresas e empresários precisam seguir tendências de consumo de seus públicos”, reflete Moita.

Com diversas pesquisas na área de bebidas, Vitor Manfroi, professor do Instituto de Ciência e Tecnologia de Alimentos (ICTA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que essa tendência – de aumento do consumo de bebidas alcoólicas pelas mulheres e maior representação dessa atividade na música – deve-se, principalmente, ao empoderamento feminino.

Acredito que as mulheres estejam ampliando seu espaço em todas as áreas, incluindo a música, as artes, e o consumo de bebidas. E elas beberem mais, e falarem ou cantarem sobre isso, passa, pura e simplesmente, pela mulher estar assumindo uma atitude de escolhas, de fazer o que gosta, de aumento do prazer, sem amarras ou preconceitos

Victor Manfroi, professor do ICTA da UFRGS

A vez das destiladas
Além do aumento da representação feminina na música, outra tendência é que o protagonismo de outrora da cerveja não é mais o mesmo, dividindo espaço com outras bebidas, como as destiladas.

Moita explica que o fator de maior influência na escolha de uma bebida alcoólica é a ocasião social, sendo que a cerveja reina em bares e restaurantes. Um cenário diferente entre os frequentadores de casas de show, entre outros estabelecimentos, que têm mudado o perfil de consumo.

Levando em consideração a mudança de gênero, estudos destacam que o público feminino é mais influenciável por família, amigos e ocasiões na escolha de bebidas e está disposto a gastar mais neste quesito. Assim, é possível entender que o público feminino, mais exigente e criativo, possibilita a locais de show a mudarem seus cardápios, incluindo e expandindo opções. Portanto, com o público e seu perfil de consumo mudando, a arte, como reflexo da sociedade, precisa se adaptar

Yuri Moita, chef e mestre em Educação e Gestão pela UFRJ

Já Manfroi avalia que a troca da cerveja por outras bebidas nas letras musicais se dá pelo desejo de ostentação de um produto tradicionalmente mais caro. “Pode ser que escrever e cantar utilizando bebidas mais caras do que a cerveja possa parecer que a música ou estilo musical atinja outro patamar de qualidade. Por outro lado, também acredito que a ‘geração saúde’ esteja consumindo menos bebidas alcoólicas, e aí possa estar diminuindo a citação de todas as bebidas alcoólicas nas letras de músicas, e não só da cerveja.”

O professor da UFRGS avalia, porém, que ainda há muito apelo pela cerveja, seja por fatores sociais ou climáticos, o que a mantém presente nas músicas. “A questão econômica também é importante, pois sendo jovens, em sua maioria, os que gostam destes gêneros optam por consumir bebidas mais baratas, caso da cerveja. Ainda, entra um componente regional e, principalmente, climático, ou seja, em locais mais quentes, na maior parte do nosso país tropical, o consumo de cerveja é facilitado, e mesmo sugerido, exatamente, por estas temperaturas mais elevadas.”

Para Moita, por sua vez, a ampliação da produção artística, a diversificação de estilos, a mudança de paladar e a absorção de influências, somadas, explicam a proliferação de destilados e drinques coloridos em bailes funk. “Basta observarmos a tendência de consumo de millenials e é possível perceber que não existe diferenciação de consumo quanto ao gênero do público, mas sim por fatores econômicos e sociais”, comenta o mestre pela UFRJ.

“A geração Y vem consumindo, na verdade, mais tudo: de cultura a bebidas”, completa o professor Manfroi, destacando que isso se deve ao crescente individualismo da sociedade, com o consumismo muitas vezes desenfreado sendo uma marca desse modo de viver.

Everbrew lança crowdfunding no sábado para financiar obra de fábrica em Santos

A Everbrew decidiu apostar no público cervejeiro para viabilizar a construção da sua fábrica em Santos. Neste sábado, a marca de artesanais lança o seu crowdfunding com a intenção de obter recursos para a obra do estabelecimento, que ficará instalada na região do Mercado Municipal.

O plano da Everbrew é arrecadar pelo menos R$ 1 milhão com o programa de financiamento coletivo para a obra, que tem valor total estimado em R$ 3 milhões. E os interessados em contribuir com a cervejaria de Santos podem aderir a 4 planos diferentes, com direito a recompensas oferecidas pela marca.

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“A gente tem um volume grande para uma artesanal, de 30 mil litros por mês. Somos bem atendidos como ciganos, mas quero ter a vantagem competitiva da produção própria. Com ela, você tem o controle de todos os processos, tem oportunidade de produzir o quanto quiser”, afirmou Renê dos Santos, um dos sócios-fundadores da Everbrew, em entrevista ao Guia.

Os planos oferecidos pela Everbrew em seu crowdfunding são EverPlatinum (R$ 5.000), EverOuro (R$ 2.000), EverPrata (R$ 1.000) e EverBronze (R$ 500). E os pagamentos podem ser realizados à vista ou parcelados em até dez vezes.

Em troca, os apoiadores do crowdfunding da Everbrew vão receber “evercoins”, créditos para troca por produtos assim que a fábrica estiver pronta e com autorização para venda, o que está previsto para ocorrer em dezembro de 2021. Além disso, passam a fazer parte de um clube de benefícios e vantagens da cervejaria.

A fábrica própria, para a qual a Everbrew estima um investimento total de R$ 3 milhões, terá capacidade de produzir 30 mil litros por mês de cerveja, com a possibilidade de expansão para 50 mil.

Surgida em 2016, a cervejaria funcionava como cigana desde então. E, nos últimos tempos, vinha concentrando a sua produção na Startup Brewing, no interior paulista. Já o seu brewpub em Santos, que foi inaugurado em 2018, tem capacidade de produção de 2 mil litros mensais.

Confira, em detalhes, quais são os planos do programa de financiamento coletivo da Everwbrew:

Plano EverPlatinum
Investimento de R$ 5.000, bônus de 70%, total de bonificação em EC$ 8.500,00.
Pedidos: mínimo de 6 cervejas por pedido e máximo de 36 cervejas da Everbrew por mês.

Plano EverOuro
Investimento de R$ 2.000, bônus de 60%, total de bonificação em EC$ 3.200,00.
Pedidos: mínimo de 6 cervejas por pedido e máximo de 18 cervejas mês.

Plano EverPrata
Investimento de R$ 1.000,00, bônus de 55%, total de bonificação em EC$ 1.550,00.
Pedidos: mínimo de 6 cervejas por pedido e máximo de 12 cervejas mês.

Plano EverBronze
Investimento de R$ 500,00, bônus de 50%, total de bonificação em EC$ 750,00.
Pedidos: mínimo de 6 cervejas por pedido e máximo de 12 cervejas mês.

Entrevista: “Produção no campo precisa estar no mesmo passo das cervejarias”

A indústria cervejeira brasileira é pujante, como confirmado pela presença de grandes marcas no país e pelo protagonismo das suas empresas, assim como pela inventividade das artesanais. E a produção agrícola de insumos pode seguir o mesmo passo, se adaptando para conseguir atender as demandas. Esse casamento de atividades é o caminho enxergado por Edivaldo Del Grande, presidente da Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo (Ocesp), para a expansão de culturas como as do lúpulo e do malte no país.

Com a experiência de mais de trinta anos como produtor rural e de mais de duas décadas como dirigente de cooperativas e de entidades agropecuárias, Edivaldo avalia, em entrevista ao Guia, que o cooperativismo pode ser fundamental para fomentar o cultivo do lúpulo, por exemplo, um insumo muito importado pelas cervejarias, mas que, na opinião do presidente da Ocesp, poderia fazer parte da agricultura familiar.   

Esse trabalho unificado, em sua visão, pode permitir uma melhor organização do setor, que também precisa ter o apoio de institutos de pesquisa para adequar essas culturas de insumos cervejeiros às características brasileiras, conseguindo atender as demandas da melhor forma.

Além disso, na visão de Edivaldo, juntos, os produtores tendem a se tornar mais competitivos, seja pelo acesso à tecnologia ou pela redução de custos. Para o presidente da Ocesp, inclusive, mais do que aumentar a produção, o agro brasileiro deve se preocupar em agregar valor ao que já colhe e encontrar novas oportunidades de mercado.

Ele ainda lembra que o cooperativismo no setor cervejeiro pode funcionar tanto para a produção de ingredientes, como a cevada e o lúpulo, como no de consumo, em que produtores se unem para a aquisição de insumos. Além disso, aponta a possibilidade de outras fontes de receita, como o turismo rural. Ou seja, as oportunidades de união entre o campo e a indústria cervejeiras – e mesmo outros segmentos da sociedade – são muitas.

A Ocesp, presidida por Edivaldo, reúne mais de mil cooperativas e 3,6 milhões de cooperados em diversos segmentos da economia. E, além de presidir essa importante organização, ele ainda é coordenador do Fórum Paulista do Agronegócio, um movimento que congrega 45 entidades da cadeia de produção agropecuária.

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Confira as avaliações do presidente da Ocesp sobre o momento do cooperativismo e como ele pode contribuir e ser aplicado ao setor cervejeiro na entrevista abaixo ao Guia.

Quais são os principais desafios para as cooperativas neste momento?
Vamos analisar o agronegócio brasileiro. As oportunidades continuam sendo imensas, uma vez que o Brasil é campeão na produção de alimentos e nenhum país tem condições parecidas com as nossas. A demanda por alimentos no mundo continua crescendo. E, aqui, temos um grande desafio, porque o mundo cobra do Brasil uma produção maior. Mas, melhor do que produzir e vender commodities, precisamos agregar valor aos nossos produtos, trazer mais divisas e aumentar a renda no campo. Além disso, estudar novas oportunidades de negócio, novos parceiros comerciais, novos nichos de mercado, inclusive no âmbito interno. Todos esses são também desafios para as nossas cooperativas agropecuárias. Outra questão, aguçada pela pandemia, tem a ver com a saúde das pessoas. Seja saúde relacionada a doenças virais, seja a atenção a procedimentos sanitários, a preocupação de consumir alimentos saudáveis, a qualidade do ar que respiramos… Temos que prestar muita atenção a estes sinais dos novos tempos, a esta “nova” e fortalecida exigência dos consumidores, para que não tenhamos problemas na comercialização de nossos produtos agropecuários.

Como o cooperativismo pode ajudar na superação da atual crise?
As cooperativas têm algumas características que as tornam mais resistentes às crises. São empreendimentos mais adequados para o crescimento econômico com justiça social. Desde meados do século XIX, quando surgiu na Inglaterra o cooperativismo moderno contra os efeitos nocivos da Revolução Industrial, as cooperativas são formadas com um único objetivo: melhorar a vida de seus participantes, os cooperados. Em geral, são pequenos empreendedores que se unem em uma cooperativa para ingressar no mercado competitivo. Juntos, eles conseguem diminuir custos, ganham escala e aumentam o poder de barganha, tanto para vender como para consumir algum produto ou serviço. São os próprios cooperados, através do voto em assembleia, que direcionam os rumos do negócio. A renda obtida é distribuída proporcionalmente à participação ou trabalho de cada um. Essa distribuição mais justa, pulverizada, faz com que os cooperados movimentem a economia de suas localidades, atraindo investimentos em educação, saúde, transporte, comércio, lazer, etc. Toda a comunidade ganha com a cooperativa. Isso foi medido pela USP. Onde tem cooperativa, o Índice de Desenvolvimento Humano é melhor. A própria ONU tem incentivado e divulgado o cooperativismo como modelo de negócio local mais sustentável.

Muitas vezes, quando se pensa na produção do agro brasileiro, há uma associação imediata com grandes produtores, mas a realidade é que o setor é composto, majoritariamente, por pequenos produtores. Como você enxerga a importância do cooperativismo no agro? E como ele pode se tornar um parceiro das indústrias cervejeiras?
Isso é verdade, principalmente nas cooperativas. Temos cooperativas gigantes no mercado, com marcas famosas, instalações em vários municípios e estados, exportando para diversos países, que, na verdade, são constituídas da união de mini e pequenos produtores. Justamente por isso, o cooperativismo tem uma importância enorme para o agronegócio. Os pequenos ganham mais competitividade quando associados a cooperativas. Elas organizam os produtores, passam orientações e transferem tecnologia para as propriedades de seus cooperados. Além de diminuir custos e aumentar o poder de barganha, as cooperativas elevam a qualidade do trabalho de seus produtores associados. Isso pode ser muito útil para a indústria cervejeira, uma vez que o Brasil importa grande parte dos ingredientes para a produção de cervejas. As cooperativas podem ser bons parceiros comerciais das cervejarias no fornecimento de matéria-prima de qualidade, à altura das exigências do setor.

Nesse momento, há um crescimento do cooperativismo e da sua cultura no setor cervejeiro. Como o senhor enxerga esse momento e como o cooperativismo pode contribuir para a evolução desse segmento?
Com o passar dos anos, a sociedade vai percebendo cada vez mais a importância do cooperativismo para as necessidades locais e para um desenvolvimento econômico mais equilibrado. No estado de São Paulo, já somos 3,6 milhões de cooperados em mais de mil cooperativas. Temos cooperativas nas mais variadas atividades econômicas, como agropecuária, crédito, consumo, educação, eletrificação rural, saúde, transporte, reciclagem, serviços em geral. No Brasil, são 5.300 cooperativas e 15,5 milhões de cooperados. Praticamente, 50% dos alimentos produzidos no país passam por cooperativas. Na área da saúde, 38% do mercado de planos assistenciais está nas mãos de cooperativas. O cooperativismo de crédito já tem a maior rede de agências do Sistema Financeiro Nacional. Vejo que, com o crescimento das cervejarias, principalmente as artesanais, o modelo cooperativo pode ser interessante, sim. Tanto o cooperativismo agro, para produção e fornecimento de cevada e lúpulo, como o cooperativismo de consumo, que pode unir produtores de cerveja para comprar insumos em quantidade e qualidade a um custo mais baixo.

O Brasil ainda importa boa parte do lúpulo utilizado na indústria cervejeira, mas recentemente o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura e a Secretaria de Agricultura Familiar e Cooperativas, vinculada ao Mapa, iniciaram um projeto de cooperação técnica para fortalecer a cadeia do lúpulo. Qual é a importância desse tipo de iniciativa?
O Ministério da Agricultura tem feito um trabalho muito bom sob o comando da ministra Tereza Cristina. Todo o suporte para produção agropecuária no Brasil, desde recursos e condições para custeio, investimentos e industrialização, até o aporte para subvenção do seguro rural vem evoluindo. O Mapa, nos últimos anos, também ampliou e muito o mercado internacional para os nossos produtos. No caso do setor cervejeiro, que é mais uma questão interna, vejo com bons olhos a preocupação do Mapa, por meio da Secretaria de Agricultura Familiar e Cooperativas. É uma iniciativa que, além de incentivar a produção de lúpulo no país – uma vez que importamos praticamente 100% –, deve despertar o interesse de produtores e impulsionar ainda mais a organização do setor cervejeiro. Acho importante também o trabalho de nossos institutos de pesquisa, para melhorar e adequar as variedades de lúpulo e cevada às condições que temos no país.

O senhor enxerga a possibilidade de a produção do lúpulo brasileiro integrar a agricultura familiar através do cooperativismo?
Com certeza. O cooperativismo pode ser um grande aliado do setor cervejeiro, tanto na produção agrícola como no consumo de insumos para a fabricação e venda das cervejas. O lúpulo pode ser uma alternativa de renda para os pequenos produtores.

O cooperativismo encaixa-se na organização desses produtores, oferecendo melhores condições para produção – em termos de custos principalmente – e orientação técnica sobre variedades mais adequadas, tecnologia e tratos culturais para fazer frente às exigências das cervejarias, sejam elas grandes ou artesanais. Mas, importante frisar, a produção no campo tem que estar pari passu com as necessidades das cervejarias. Deve ser uma parceria comercial para que os resultados sejam ainda melhores aos dois lados.

Edivaldo Del Grande, presidente da Ocesp

Como o senhor vê a cultura da cevada, fundamental para as maltarias e a produção das grandes cervejarias, inserida dentro do cooperativismo? Qual é o cenário para essa cultura?
O cultivo da cevada também pode ser estimulado por meio de cooperativas. Somos altamente dependentes de importação. A cevada é uma interessante alternativa para cultura de inverno, inclusive mais rentável. Aliás, em algumas cooperativas da região Sul, os cooperados já aderiram ao plantio da cevada.

Dentro do segmento de cervejas artesanais, temos acompanhado o crescimento de cervejarias rurais. Como enxerga esse campo de atuação para o cooperativismo? E quais outras oportunidades você enxerga dentro do cooperativismo para a atividade cervejeira?
É um nicho de mercado crescente e deve ser olhado com atenção pelos produtores rurais e suas cooperativas agropecuárias. Mas também quero destacar aqui a importância da cooperativa de consumo. Os cervejeiros artesanais podem se unir e montar uma cooperativa de consumo para fazer compras em conjunto. Assim, conseguiriam adquirir insumos em maior quantidade, barateando o custo para todos. Na cidade de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, já existe uma experiência de cooperativa de cervejeiros (a Cooperbreja). Como se fosse uma central de compras, que beneficia todos os envolvidos, cooperados, que na verdade são os donos da cooperativa. Outra sugestão seria a inclusão dessas cervejarias artesanais nos roteiros de turismo rural. Seria mais uma fonte de renda para os cervejeiros.

Invicta apresenta 8 novas colaborativas em reedição da Semana da Justiça

Uma das principais ações promocionais do segmento de cervejas artesanais, a Semana da Justiça, realizada pela Invicta, chega a mais uma edição oferecendo uma novidade aos consumidores: a marca de Ribeirão Preto apresenta oito opções de rótulos produzidos de modo colaborativo e que compõem a Linha Finito.

A nova edição da Semana da Justiça vai até a próxima terça-feira (25/05) e conta com descontos que podem chegar a até 50%. E agora a Invicta incluiu uma edição 2021 da Linha Finito, produzida de modo colaborativo com oito cervejarias, sendo uma delas belga, e que está sendo fabricada apenas uma vez, como destaca o comunicado divulgado pela cervejaria de Ribeirão Preto.

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“A Linha Finito foi criada essencialmente para explorar toda a diversidade e criatividade do universo cervejeiro. São cervejas que serão produzidas apenas uma única vez, com a proposta de ir além de uma simples brassagem, pois a cada rodada de produção, novos cervejeiros conceituados dos quatro cantos do mundo serão convidados para compartilhar esse momento e enriquecer ainda mais sua experiência ao abrir a garrafa”, diz a Invicta.

As cervejarias que colaboraram na produção da Linha Finito, agora à venda na Semana da Justiça, são: 2Cabeças (Imperial Stout com café, anis, pimenta dedo-de-moça e carvalho), Bamberg (Hopfen Ale, Meu Nome Não é IPA, versão Invicta), a belga Brussels Beer Project (Double Black IPA com limão e pimenta Sichuan), Colombina (Brut do Cerrado com jabuticaba e pitaya), Debron (Amber Lager), Dum (Session Lager com mosaic e citra), Urbana (Quadruppel com rapadura preta) e Velhas Virgens (Summer Ale Piña Colada com candy sugar, abacaxi e coco).

A Linha Finito também conta com uma arte especial, desenvolvida por Shee com o uso de técnicas de colagem e pintura. “Assim como as cervejas, esse trabalho também é artesanal, sendo todo feito à mão, com técnicas de colagem e pintura. Buscando traduzir as receitas únicas das cervejarias participantes, suas características mais marcantes foram pintadas individualmente e ressaltadas por meio da escolha das cores”, explica a artista, acrescentando que há, ainda, uma padronização entre os rótulos.

“A arte central se repete em todos os rótulos e representa a ideia de tempo, na sua forma abstrata, que pode lembrar uma ampulheta ou qualquer outra invenção humana feita para medir durações e períodos. Ao mesmo tempo em que representa os tanques de cerveja recebendo e misturando os ingredientes”, conclui a artista.

As vendas da Semana da Justiça ocorrem apenas online, pelo site da Invicta, que oferece “frete econômico” para Grande São Paulo, Ribeirão Preto e região, Campinas, Araraquara, São Carlos, Sorocaba, Votorantim, Curitiba, Rio de Janeiro, Uberlândia, Araguari, Goiânia, Aparecida de Goiânia e Brasília. As entregas acontecem em todo o Brasil, via transportadora. E quem mora em Ribeirão Preto pode retirar suas compras na própria cervejaria.

Ambev e Heineken são autuadas por trabalho escravo em terceirizada; Empresas se posicionam

A Ambev e a Heineken foram autuadas após 23 imigrantes serem encontrados em condições de trabalho consideradas análogas à escravidão, impostas por uma transportadora contratada como prestadora de serviço pelas companhias, a Sider. O caso foi revelado pelo El País e confirmado pelo Guia, que ouviu as três empresas relacionadas ao caso.

À reportagem, as cervejarias declararam que buscaram salvaguardar os direitos dos trabalhadores assim que ocorreu a autuação e prometeram reforçar o acompanhamento das atividades das contratadas. A Ambev também apontou que o tipo de vínculo firmado entre a companhia e a Sider, por demanda, representa 1% dos seus acordos com transportadoras. E a Heineken declarou que bloqueou o repasse de créditos à transportadora por serviços prestados até a conclusão do caso. Já a Sider diz que se defenderá da acusação.

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Os trabalhadores estrangeiros foram libertados em ação realizada no dia 3 de março pelo Programa de Erradicação do Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da Superintendência Regional do Trabalho no Estado de São Paulo, órgão ligado ao Ministério da Economia.

Autuadas, assim como a Sider, Ambev e Heineken também foram responsabilizadas pela acusação de trabalho análogo à escravidão porque a legislação afirma que as empresas contratantes têm a responsabilidade de fiscalizar o cumprimento das obrigações pela contratada terceirizada junto aos funcionários.

Os 23 imigrantes – 22 venezuelanos e um haitiano – moravam na boleia dos caminhões, que ficavam estacionados nas sedes da Sider, em Limeira e Jacareí, no interior paulista, pois não tinham direito a alojamento, como prometido quando o contrato foi firmado, de acordo com as informações do El País. Ainda segundo a publicação, os trabalhadores receberão um total de R$ 657.270 em indenização – cerca de R$ 27 mil para cada.

Ao Guia, em nota oficial, a Heineken diz ter ficado sabendo do caso “por meio da Superintendência Regional do Trabalho”. E declarou que, desde então, “colaborou ativamente para garantir que todos os direitos fundamentais dos trabalhadores envolvidos fossem restabelecidos conforme a orientação dos auditores fiscais do trabalho”. Também reforçou não ter relação profissional com os trabalhadores, que estavam vinculados à Sider.

Já a Ambev, também em nota enviada à reportagem, garante ter dado pronto amparo aos trabalhadores assim que foi notificada da ocorrência envolvendo a transportadora contratada. “Assim que tomamos conhecimento da denúncia envolvendo a Sider, uma transportadora que presta serviços para a Ambev e outras empresas, imediatamente garantimos que os motoristas contratados pela fornecedora fossem levados para um hotel, onde foram acolhidos e receberam todo o suporte necessário.”

A companhia também destaca que, segundo sua apuração, os imigrantes estavam em situação legal no Brasil, tiveram a carteira de trabalho assinada pela Sider e recebiam o salário da categoria, mas que “as autoridades afirmaram que tinham jornada de trabalho excessiva e alguns não possuíam residência fixa, o que é inadmissível”. Surpreendida com a situação, a Ambev agiu para que os trabalhadores fossem remunerados.

“Seguindo as orientações e com a concordância dos auditores fiscais do trabalho, garantimos que a fornecedora contratante fizesse o pagamento de todas as verbas e indenizações trabalhistas e que a transportadora providenciasse o retorno dos motoristas ao local de origem ou a vinda de seus familiares, conforme escolha de cada um”, declara a Ambev.

A Heineken também diz ter suspendido o pagamento à Sider pela prestação de serviço enquanto os trabalhadores não forem completamente indenizados pela transportadora. “Ainda que não tenhamos vínculo direto com os motoristas, que são contratados pela transportadora que presta serviços ao Grupo Heineken e outras empresas, em respeito a esses trabalhadores bloqueamos os créditos que o fornecedor possuía em decorrência dos serviços prestados, até que as indenizações acordadas entre a transportadora e o Ministério Público do Trabalho sejam pagas integralmente.”

Além disso, em seu comunicado oficial, a Heineken aponta que as empresas contratadas assinam um código de conduta – o que a leva ter um programa de excelência de transportadoras, segundo descreve – e que o seu descumprimento pode provocar a rescisão do acordo. Diante do caso de autuação de uma terceirizada por trabalho análogo à escravidão, a cervejaria promete reforçar seus cuidados e critérios como contratante.

“A partir desse caso, a companhia está reforçando todas as ações de validação dos fornecedores durante o processo de contratação, assim como construindo novos critérios de acompanhamento ainda mais rígidos sobre o cumprimento das obrigações previstas na legislação vigente, em nosso contrato e no Código de Conduta, para que casos como esse não se repitam no futuro”, comenta a Heineken.

Já a Ambev destaca que o acordo firmado com a Sider se insere em um contrato por demanda, que possui participação pequena nos transportes da empresa. E também garante que vai ampliar a fiscalização desse tipo de trabalho terceirizado diante da recente ocorrência.

“A grande maioria dos nossos fretes é feita por transportadoras dedicadas, que são fornecedores fixos. Uma parcela pequena é feita por transportadoras spots, que são contratadas conforme a demanda. A Sider opera no modelo de fretes spots, representando menos de 1% das nossas contratações. Já iniciamos uma revisão dos nossos processos de fiscalização e apoio às transportadoras spots, para que situações como essa nunca mais se repitam. Entre as medidas que já estão sendo colocadas em prática estão o fortalecimento dos nossos processos de auditoria, novos treinamentos e a criação e monitoramento constante de métricas de identificação de irregularidades na gestão de pessoas”, conclui a Ambev em sua nota oficial.

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O lado da transportadora
À reportagem do Guia, em nota, a Sider negou a prática de trabalho em condição análoga à escravidão no serviço prestado para Heineken e Ambev, defendendo ser “necessário saber separar o joio do trigo, não incorrer em injustiças, evitar a tentação das medidas afobadas e midiáticas, que são sempre capazes de causar danos de difícil reparação à reputação”.

“A Sider informa que todos os seus funcionários têm carteira assinada, salário da categoria e pagamento de todos os benefícios da categoria bem como de horas extras, reafirmando o seu compromisso empresarial”, diz.

A transportadora declara, ainda, que “tomará as medidas judiciais cabíveis visando salvaguardar seus direitos”. “Deixará claro a toda a comunidade, em especial com a defesa a ser apresentada e demonstrando documentalmente que nunca houve trabalho em suas instalações compatíveis com condições análogas à escravidão, posto que as verbas trabalhistas foram sempre quitadas a tempo”, acrescenta a Sider.

Trabalho análogo à escravidão no Brasil
Na última semana, quando se celebrou o aniversário da abolição da escravidão, ocorrida em 13 de maio de 1888, a Subsecretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) atualizou os dados de combate ao trabalho análogo ao de escravo no Brasil na plataforma de estatísticas e dados Radar SIT.

De janeiro até 13 de maio, foram concluídas 72 ações fiscais para a erradicação do trabalho análogo ao escravo no país, sendo que 37 foram autuados por submeterem um total de 314 trabalhadores a essas condições. Para efeito comparativo com o ano anterior, de janeiro a maio de 2020 haviam sido concluídas 26 ações fiscais e 30 trabalhadores tinham sido resgatados.

Colunista do Guia, André Lopes lança ebook sobre flexibilização trabalhista

O governo federal publicou no final de abril a Medida Provisória nº 1.046/2021, que estabelece flexibilizações temporárias na legislação trabalhista e pode ser adotada pelos empregadores por até 120 dias, auxiliando no enfrentamento das consequências econômicas decorrentes da pandemia de Covid-19. E, para explicar em detalhes as mudanças trazidas pela medida, André Lopes, diretor jurídico da Associação Brasileira da Cerveja Artesanal (Abracerva), criador do site Advogado Cervejeiro e colunista do Guia, criou um ebook especial: “Flexibilização das Regras Trabalhistas”.

Confira o ebook na íntegra

Nele, André Lopes detalha como funcionam as regras temporárias, passando por aspectos como suspensão temporária de contrato, redução de jornada e de salários e acordos individuais ou coletivos, entre outros aspectos. É um importante guia para orientar o empreendedor cervejeiro nesse momento incerto e turbulento da pandemia.

“O governo federal relançou as regras que flexibilizam as relações de trabalho que haviam sido editadas em 2020, agora por meio das Medidas Provisórias nº 1.045 e 1.046”, explica o advogado no ebook.

“A MP nº 1.045 institui o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, enquanto que a MP nº 1.046 institui medidas trabalhistas que poderão ser adotadas por empregadores para preservação do emprego, a sustentabilidade do mercado de trabalho e o enfrentamento das consequências da emergência de saúde pública decorrente do coronavírus”, acrescenta André.

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Em agosto do ano passado, o advogado já havia publicado uma importante obra impressa para o setor, o Direito Para o Mercado da Cerveja, lançada pela editora Krater.

Demanda por garrafas PET força sofisticação no uso de rótulos pelas cervejarias

As mudanças no modo do consumo de cervejas a partir da eclosão da pandemia do coronavírus forçaram uma série de adaptações em fornecedores e outras empresas do setor. O maior envase da bebida em embalagens PET, antes deixadas em segundo plano, também provocou uma nova demanda: a preocupação com a comunicação visual realizada através dos rótulos. Antes negligenciados, agora têm se tornado mais sofisticados e alinhados com a estratégia de cada empresa para reforçar os laços com o seu público.

A avaliação é de Bruno Lage, sócio da Label Sonic, empresa de rotulagem que percebeu esse aumento da demanda pelos serviços para garrafas PET. Para ele, as cervejarias artesanais devem replicar o cuidado adotado com a sua produção quando pensam em expor as suas marcas nessas embalagens.

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“A criatividade não pode ser tolhida e não há regras. Mas há uma mudança interessante: os rótulos para PET eram bem simples e baratos antes da pandemia. Agora que esta embalagem é melhor aceita pelo consumidor, os rótulos estão mais sofisticados, acompanhando a qualidade da cerveja”, relata Bruno Lage.

É um efeito da alteração do escoamento da produção cervejeira. A partir do momento em que eventos passaram a ser cancelados e bares foram fechados – ou ao menos têm de funcionar com muitas restrições –, as marcas precisaram reforçar o envase da produção em garrafas, latas e PETs.

E, antes com pouca presença no mercado, o PET conquistou seu espaço, especialmente para os estabelecimentos que funcionam com delivery e retirada. A partir daí, as marcas começaram a se preocupar não apenas em vender a sua cerveja nesse formato, mas também em se expor da melhor forma possível nessa embalagem, que passou a fazer parte do seu relacionamento com o consumidor.

“Sem os festivais e festas cervejeiras, muitas cervejarias começaram a envasar em garrafas e latas. O growler cresceu muito e o take away, pouco explorado até então, ganhou força. Mas a venda de cerveja em garrafas PET, que tinha força no Sul do Brasil e sofria de preconceito por parte das próprias cervejarias, virou uma ótima opção para a venda através do growler ganhar escala”, diz o sócio da Label Sonic.

Adaptações e cuidados
Além das cervejarias, os fornecedores também se adaptaram a essa tendência, caso da Label Sonic, que precisou voltar parcela relevante da sua atuação para as embalagens PET. “Acompanhamos este movimento e hoje temos condições de atender a todos que usam mais esta forma de vender cervejas”, garante Bruno Lage.

Saiba mais sobre a Label Sonic em nosso Guia do Mercado

As cervejarias, agora, buscam alinhar a comunicação visual para esse tipo de embalagem ao mesmo tempo em que lidam com seus custos. Mas Bruno Lage reforça cuidados que as marcas precisam adotar na concepção da arte para aplicação de rótulos nas garrafas PET, em função do seu formato.

A aplicação pode ser feita por rotuladoras principalmente se as embalagens forem cilíndricas. Pode ser feita manualmente também. Como há muita oferta de growlers de PET cônicos, é importante desenvolver a arte com o formato em curva para que, quando aplicado, o rótulo fique alinhado e sem dobras

Bruno Lage, sócio da Label Sonic

Brooklyn lança no Brasil cerveja da luta LGBTI+ e reverte recursos à causa

A Brooklyn Brewery, uma das mais icônicas artesanais dos Estados Unidos, trouxe ao mercado brasileiro a The Stonewall Inn IPA, cerveja que exalta o orgulho LGBTI+ e a luta da sua comunidade, revertendo parte dos recursos com a sua venda para a causa. A chegada ao mercado do país se dá nesta segunda-feira, o Dia Internacional contra a Homofobia.

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A cerveja foi criada pela Brooklyn Brewery para reforçar sua parceria com o The Stonewall Inn, bar em Nova York que ficou mundialmente conhecido em 1969 por ter sido o estopim de uma série de manifestações em prol da luta pelos direitos LGBTI+, em função de uma batida policial no local.

Precisamos sempre reforçar a importância da diversidade e buscar promovê-la de todas as formas possíveis. Queremos ajudar a construir um mundo com mais amor, uma cerveja por vez

Mariane Marques, embaixadora da marca Brooklyn Brewery no Brasil

Além do compromisso com a conscientização sobre os direitos LGBTI+ e a importância do respeito às diferenças, ao lançar a The Stonewall Inn IPA no Brasil, a Brooklyn Brewery também estabeleceu parceria com a Câmara de Comércio e Turismo LGBT, associação sem fins lucrativos que tem o propósito de fortalecer o empreendedorismo e o desenvolvimento socioeconômico e cultural dessa comunidade.

“Essa parceria é parte do nosso compromisso de estimular a diversidade. Começamos educando nossas pessoas e buscando criar ambientes seguros para todos. Logo teremos mais iniciativas locais junto à Câmara”, afirma Mariane.

Brooklyn e Stonewall
A parceria entre a Brooklyn Brewery e o Stonewall Inn começou em 2016, quando o bar convidou a cervejaria para participar do lançamento da The Stonewall Inn Gives Back Initiative (SIGBI), organização sem fins lucrativos cujo compromisso é eliminar a intolerância social que atinge a vida dos cidadãos LGBTI+, apoiando organizações com o fornecimento de assistência estratégica e financeira por meio de campanhas de conscientização, programas de educação, arrecadações e diálogos públicos.

A iniciativa, então, levou ao nascimento da The Stonewall Inn IPA, que em 2019 foi disponibilizada pela Brooklyn Brewery em mercados fora dos Estados Unidos. Parte dos lucros obtidos com suas vendas em todo o mundo, inclusive no Brasil, é revertida à SIGBI, transformando-se em apoio financeiro para instituições a ela ligadas.

A The Stonewall Inn IPA será vendida no Brasil em latas de 350ml e chope nos pontos de vendas da marca e no e-commerce da Maniacs Brewing. Segundo a Brooklyn Brewery, tem amargor leve, aroma de casca de frutas cítricas e grapefruit, harmonizando com tacos, cheddar forte, molhos picantes e frutas tropicais. De estilo Session IPA, apresenta 4,6% de teor alcoólico e 30 IBUs.

A Brooklyn Brewery ocupa a 11ª posição no ranking de volume entre as cervejarias artesanais dos Estados Unidos, levando o nome do bairro em que foi fundada em Nova York, em 1988. No Brasil, está sediada em Curitiba, em uma joint venture com a Maniacs Brewing.

Miller ironiza tendência e “lança” hard seltzer ao espaço em campanha

A Miller Genuine Draft decidiu aderir à onda da hard seltzer, ainda que de modo bem crítico e irônico. Na última semana, a tradicional marca dos Estados Unidos, que faz parte do conglomerado da Molson Coors, “lançou” a sua bebida. Mas ao espaço, em uma campanha publicitária.

A iniciativa da Miller foi reforçar o nome da marca no setor cervejeiro, assegurando que nunca irá ter uma hard seltzer, indo na contramão de uma tendência no segmento, a de lançamentos de bebidas deste estilo.

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“Hard seltzer é um fenômeno cultural, e as pessoas perguntam se a Miller tem planos de lançar uma seltzer”, disse Sofia Colucci, vice-presidente global da família de marcas Miller em um comunicado à imprensa. “Queremos ser claros: nunca lançaremos uma seltzer. A Miller fala abertamente sobre cerveja. A única maneira de lançarmos um seltzer é lançando-a no esquecimento.”

O evento de lançamento ao espaço de uma hard seltzer pela Miller foi realizado na última quinta-feira, sendo o ápice de uma campanha iniciada dias antes, em que a empresa assegurou que jamais vai haver uma bebida dessas com o seu nome. Antes, também havia divulgado uma propaganda de 60 segundos com essa intenção.

A Miller ainda criou um site para divulgar a iniciativa e transmitiu o evento em seu perfil no Twitter, com caixas de hard seltzer sendo afixadas em um foguete que seria lançado na atmosfera. A ação de marketing da cervejaria dos Estados Unidos pode ser vista no vídeo abaixo:

“Toda marca de cerveja está lançando uma bebida gaseificada, então parecia certo fazer o mesmo. Passamos muito tempo debatendo se deveríamos enterrar seltzers, atirá-las no espaço ou jogá-las na boca de um vulcão em erupção. Mas mandá-las para um buraco negro parecia fazer mais sentido”, disse Bianca Guimarães, sócia e diretora executiva de criação da Mischief @ No Fixed Address, agência que desenvolveu a campanha de “lançamento” da hard seltzer pela Miller.

A Miller Genuine Draft é uma das maiores marcas do portfólio da Molson Coors nos Estados Unidos, com uma longa e rica história, sendo o principal produto da família de marcas Miller High Life, uma cerveja do estilo Pilsen criada em 1903.

Em 1985, a Miller High Life Genuine Draft foi apresentada com a mesma receita da Miller High Life, mas com diferença na filtração, não sendo pasteurizada. A empresa logo encurtou o nome da cerveja para Miller Genuine Draft, sendo frequentemente referida como MGD.

Balcão do Profano Graal: História da cerveja no Brasil – Começando do início

Balcão do Profano Graal: História da cerveja no Brasil – Começando do início

Quando se fala em história da cerveja no Brasil, uma questão que vem à cabeça da maioria das pessoas parece ser: qual foi a primeira fábrica de cerveja do país? E tenho certeza que, até bem pouco tempo atrás, a maioria das pessoas responderia sem hesitar que foi a Cervejaria Bohemia, de Petrópolis (RJ). Que, na verdade, era uma filial, fundada em 1853, da Imperial Fábrica de Cerveja Nacional, de Henrique Leiden, surgida no Rio de Janeiro alguns anos antes. Em 1858, Leiden vendeu a sua filial de Petrópolis para outro imigrante alemão: Henrique Kremer. E apenas no ano de 1899, quando foi feita uma grande obra de modernização da fábrica, é que esta passou a se chamar Companhia Cervejaria Bohemia.

Mas essa afirmação é imediatamente contestada pelos pernambucanos, que fazem questão de lembrar que existiu uma cervejaria no Recife ainda no século XVII, durante o período de ocupação holandesa do Nordeste (entre 1630 e 1654). Essa cervejaria começou a funcionar em abril de 1641, sob o comando do mestre-cervejeiro Dirck Dicx, e ficou conhecida pelo nome de La Fontaine. Que era o nome da residência alugada ao governador Mauricio de Nassau pelo prazo de quatro anos, onde funcionou a cervejaria.

Dessa forma, não há dúvidas de que a cervejaria gerida pelos holandeses no Recife tenha sido a mais antiga fábrica de cerveja existente no território que futuramente viria a ser o Brasil. Mas Recife, àquela altura, não era ainda Brasil. E sim um enclave holandês em uma colônia portuguesa que estava sob o domínio espanhol (até 1640). Tanto que, quando partem os holandeses, a fábrica também deixa de funcionar. Então, a dúvida permanece: qual foi a primeira cervejaria do Brasil independente?

Em alguns anúncios da sua cervejaria, Henrique Leiden se denominava “o primeiro introdutor deste ramo de indústria no Brasil” (Almanak Laemmert, edição de 1857). E, na falta de maiores informações, durante muito tempo acreditamos nesse auto-marketing de Leiden. Há uma controvérsia em torno da data exata de abertura da sua fábrica no Rio de Janeiro. A data mais replicada é a de 1848, proposta por Carlos Alberto Tavares Coutinho. Mas Gilberto Freyre afirma que a edição de 22 de dezembro de 1869 do Diário de Pernambuco noticiava que Henri Joseph Leiden, “proprietário da grande fábrica de cerveja da Rua do Sebo”, havia sido agraciado pelo Imperador D. Pedro II com o Hábito da Rosa, por “ter sido ele o fundador da primeira fábrica de cerveja no Brasil no ano de 1842”. Qual a data correta, somente mais pesquisas poderão dizer.

Mas o seu alegado pioneirismo é contestado por um anúncio publicado no Jornal do Commercio (RJ) em 27 de outubro de 1836 da fábrica de Cerveja Brazileira (assim mesmo, com “z”). Na verdade, essa cervejaria publicou uma série de nove anúncios no periódico ao longo do segundo semestre de 1836. A maioria deles repete o mesmo texto:

“Vende-se na rua de Matacavallos nº 90 e na Rua Direita nº 86, a Cerveja Brazileira, acolhida favoravelmente e muito procurada. Esta saudável bebida reúne a barateza a um sabor agradável e à propriedade de conservar-se muito tempo, qualidades estas que serão mais apreciadas à medida que o uso da dita cerveja se tornar mais geral. Compram-se as garrafas vazias a 60 rs cada uma”.

Agora vejam como é fascinante a pesquisa histórica. Quando começávamos a nos acostumar com a ideia de que antes da Bohemia, já existia outra fábrica de cerveja no Brasil independente, eis que surge um anúncio na edição de 15 de dezembro de 1832 do Correio Mercantil (RJ) que diz o seguinte: “Na fábrica de cerveja da rua d’Ajuda n. 67, acha-se a melhor cerveja muito em conta. O uso dela, durante o esiio [sic] é o mais apropriado possível para conservar o tom do estômago, que o calor excessivo tende a debilitar, disposição perniciosíssima quando o cólera morbus está se aproximando”. No dia 28 do mesmo mês e ano, a cervejaria volta a anunciar seus produtos no mesmo periódico:

Na rua d’Ajuda n. 67, acha-se a excelente cerveja nacional, muito boa para conservar nesta estação quente as forças digestivas, e mormente quanto estamos ameaçados pela invasão do cólera morbus, o preço é muito cômodo e, para as pessoas mais delicadas, usada com água ela prova magnificamente: dá vontade de comer e ativa a circulação.

Por esse segundo anúncio ficamos sabendo que a fábrica se chamava Cerveja Nacional. E que a cerveja era vendida por suas propriedades terapêuticas, principalmente durante o verão. E também que se recomendava bebê-la diluída em água para abrir o apetite e “ativar a circulação”. De quebra, o anúncio ainda nos lembra que o mundo passava por uma pandemia de cólera, que durou de 1826 a 1837. Mas essa doença vai desembarcar no Rio de Janeiro apenas em 1855, vitimando 11.180 pessoas.

Mas, como eu gosto de dizer, a pesquisa histórica é como um quebra-cabeças às avessas. Cada peça que se encaixa, abre um monte de novas lacunas. E, infelizmente, até agora não temos informações mais detalhadas sobre o funcionamento seja da Cerveja Brazileira, seja da Cerveja Nacional. Como, por exemplo, quem eram os seus proprietários, que estilos de cerveja elas produziam ou quanto tempo duraram.

Mas, já podemos afirmar com segurança que, por ora, o bastão do pioneirismo na produção de cerveja no Brasil independente não cabe nem a Henrique Leiden, nem à Cerveja Brazileira, mas sim à misteriosa Cerveja Nacional. Mas, tem muita pesquisa ainda a ser feita…


Referências Bibliográficas:
COUTINHO, Carlos Alberto Tavares. Cervisiafilia: a história das antigas cervejarias. Disponível em: http://cervisiafilia.blogspot.com.br/

FREYRE, Gilberto. Nós e a Europa germânica: em torno de alguns aspectos das relações do Brasil com a cultura germânica no decorrer do século XIX. Rio de Janeiro: Grifo Edições, 1971.

KÖB, Edgar. Como a cerveja se tornou bebida brasileira: a história da indústria de cerveja no Brasil desde o início até 1930. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, 161 (409), 2000, p. 29-58.

PIMENTA, Tania Salgado; BARBOSA, Keith; KODAMA, Kaori. A província do Rio de Janeiro em tempo de epidemia. Dimensões. Espírito Santo. Vol. 34, 2015, p. 145-183.

ROTOLO, Tatiana; MARCUSSO, Eduardo. A cerveja no Brasil holandês: notas sobre a instalação da primeira cervejaria do Brasil. Contextos da alimentação: Revista de comportamento, cultura e sociedade. São Paulo: Centro Universitário Senac. Vol. 6, nº 1, Julho 2019, p. 73-93.


Sérgio Barra é carioca, historiador, sommelier e administra o perfil Profano Graal no Instagram e no Facebook, onde debate a cerveja e a História