Em 1999, o Brasil enfrentava uma crise econômica aguda. Com o fim da banda cambial, o dólar disparou e inviabilizou a importação de cervejas que, até então, eram a aposta de uma pequena importadora e distribuidora comandada pelos sócios Alberto Ferreira e Aldo Bergamasco. O que parecia ser o fim do negócio, porém, tornou-se o gatilho para uma revolução no paladar brasileiro.
Pressionados por clientes fiéis — entre eles o Grupo Pão de Açúcar e o icônico restaurante Baden Baden, em Campos do Jordão — os sócios se viram diante de um dilema: fechar as portas ou produzir no Brasil. Durante um almoço num dia gelado na Serra da Mantiqueira, após o Vasco (José Vasconcelos), dono do restaurante, lançar a provocação: “Por que ninguém faz uma cerveja dessa aqui?”, a história mudou. Ao lado de Marcelo Moss, que possuía equipamentos de brassagem, o grupo deu início a uma das jornadas mais emblemáticas do empreendedorismo nacional: a fundação da Baden Baden, a marca que desbravou o até então inexistente mercado de cervejas artesanais brasileiras.

Em meio a uma press-trip para Campos do Jordão esta semana, Alberto Ferreira, um dos fundadores, concedeu uma entrevista exclusiva ao Guia da Cerveja. E detalha como a união de quatro amigos e a audácia de vender cervejas diferentes com rótulos pretos e dourados em um mercado acostumado à Pilsen em embalagens azuis e brancas ajudaram a transformar a cultura cervejeira no país.
Como vocês combinaram perfis tão distintos — distribuidores, restaurateur e cervejeiro — para criar um negócio do zero?
Foi uma combinação perfeita, quase uma “nitroglicerina pura”. Tínhamos eu e o Aldo, com a experiência de mercado da nossa distribuidora; o Vasco, com a visão de um restaurante que já era ícone em Campos do Jordão; e o Marcelo Moss, que era um apaixonado pelas cervejas britânicas e tinha a cozinha de fabricação. Cada um contribuiu com seu perfil. O Marcelo, que ele mesmo dizia não ser mestre cervejeiro, mas um “fazedor de cerveja”, permitiu que a coisa acontecesse. Pouco tempo depois, o destino colocou no nosso caminho Carlos Hauser, mestre cervejeiro com passagem pela Antarctica, que nos ajudou a elevar a qualidade técnica.
Vocês entraram num mercado que, para o brasileiro, praticamente não existia. Como foi o trabalho de “evangelização” do paladar?
O jogo da distribuição na época era muito pesado e dominado pelas gigantes. Nós decidimos fazer assim mesmo. O brasileiro estava acostumado com cerveja clara, leve, barata e rótulos azuis ou brancos. Nós lançamos uma cerveja amarga, escura, cara e com rótulo preto e dourado. Como não havia redes sociais, criávamos folders explicativos e distribuíamos nos pontos de venda para ensinar as famílias o que era Lager, o que era Ale e por que provar aquilo. Uma vez que o consumidor experimentava uma craft, ele não queria mais voltar para as Pilsens convencionais. O mercado estava adormecido; nós apenas o despertamos.
A Baden Baden é reconhecida como uma das grandes precursoras do mercado de cervejas artesanais. O que tornava os produtos de vocês tão disruptivos naquele momento?
A Red Ale, a Stout e a Golden — que vinha com canela, algo fantástico — eram diferentes de tudo. A Red Ale, por exemplo, tecnicamente é uma Barley Wine, com quase 10% de álcool; as pessoas nem acreditavam que aquilo era cerveja. Nós quebrávamos regras o tempo todo. As grandes cervejarias só vendiam Bock no inverno, então nós lançamos Bock em janeiro. Quer tomar Bock no calor? Toma Bock. Essa ousadia de inovar, aliada à distribuição seletiva em clusters sofisticados de São Paulo, permitiu que a marca decolasse.
E por que Campos do Jordão?
O restaurante do Vasco já era em Campos do Jordão. A cidade, conhecida como a “Suíça brasileira”, comportava coisas mais sofisticadas. Naquela época, ela era ainda mais exclusiva do que é hoje. Então, ter uma cerveja brasileira custando 3 dólares em Campos do Jordão era algo que funcionava de forma muito natural.
Você considera que a Baden Baden abriu, de certa forma, as portas para o mercado de cerveja artesanal de hoje?

Olha, sem nenhuma arrogância, de verdade, mas com muito orgulho: a Baden foi a pioneira. Ela que abriu esse mercado. Nós fomos desenvolvendo esse paladar no consumidor. Fomos a primeira cervejaria a produzir cervejas artesanais, envasar e distribuir nacionalmente. Começamos em Campos do Jordão, fomos descendo a serra devagarzinho para São Paulo e depois as garrafas nos permitiram ir para o Brasil inteiro.
A burocracia e a falta de infraestrutura foram os maiores obstáculos?
Eu costumo dizer que tínhamos uma “catedral” na mente: construir o melhor segmento de cervejas do Brasil. Isso nos dava ânimo, porque quebrar pedra era o nosso dia a dia. Tudo era importado: lúpulo, malte… O Ministério da Agricultura barrava os insumos porque nunca tinha visto aquilo e não sabia classificar o produto. Não existiam equipamentos adequados; nossa envasadora era adaptada de uma máquina argentina de processo seco e perdia 12% do líquido! Mas nascemos com o propósito de envasar e distribuir nacionalmente, algo que as microcervejarias da época não faziam.
Após anos de construção, a venda para grandes grupos. Como você vê hoje esse processo e o papel da Heineken?
Vendemos porque, na realidade, éramos quatro amigos amantes da cerveja, mas endividados como pessoas físicas. Não tínhamos financiamento, era tudo no cheque especial. Cheguei a usar meu cartão de crédito pessoal para comprar lúpulo. Em sete anos, eu nunca tinha tirado um centavo, só coloquei dinheiro. Olho para a Baden hoje como aquela história de interior: uma família humilde que tem um filho brilhante e o deixa ir para a cidade para estudar. Ele vira um grande médico, mas continua sendo seu filho.

A marca passou pela Schincariol em 2007, depois pela Brasil Kirin em 2011 e, em 2017, a Heineken comprou. Eu tenho muito a agradecer à Heineken. É muito difícil para uma gigante manter a inovação e cuidar tão bem de um “diamante” pequenininho como a Baden Baden.
Nós fomos inovadores desde o início. Desmistificamos que a cerveja escura é encorpada, que fermenta no estômago e é ruim. A Heineken mantém esse DNA de inovação vivo. Tenho muito orgulho de ter sido uma das pessoas que construíram essa marca e esse mercado no Brasil.
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A reportagem viajou a convite da Baden Baden. Entrevista de Marcelo Tárraga com texto e edição de Luís Celso Jr.


