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Cooperbreja resgata espírito de coletividade para apoiar setor cervejeiro em meio à crise

A pandemia do coronavírus trouxe difíceis lições à contemporaneidade. Ao mesmo tempo em que provocou uma catástrofe sem precedentes nas últimas décadas, com centenas de milhares de mortes e uma crise econômica que levará anos para ser contornada, a Covid-19 fez despertar um perdido sentimento de coletividade – seja pela solidariedade com as vítimas da tragédia ou pela saudade de parentes e amigos separados pelo isolamento. Sentimento que deve reverberar no mercado cervejeiro, como destaca André de Polverel, presidente da Cooperbreja – Cooperativa de Cervejeiros do Brasil.

“Se podemos tirar alguma lição da pandemia, olhando para o setor artesanal especificamente, é que nunca houve tanta necessidade de mudança da nossa cultura empresarial. Precisamos lutar coletivamente ‘por espaço’ e não ‘pelo espaço’. Ou enxergamos isso ou seremos engolidos pelos nossos erros em um curto espaço de tempo”, aponta o presidente da cooperativa sediada em Ribeirão Preto, em conversa exclusiva com o Guia.

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Com quase mil associados em seu quadro, aliás, a Cooperbreja tem procurado utilizar sua experiência em “coletividade” para apoiar seus cooperados a enfrentarem esse momento difícil da Covid-19. Na prática a organização funciona como um brewshop, onde seus associados e clientes podem adquirir equipamentos e insumos para a produção de cerveja. Com uma vantagem: como funciona como uma “central de compras”, a cooperativa consegue preços mais “justos”.

“Todos nós sabemos que o setor cervejeiro como um todo vai precisar se aprimorar para fazer frente aos desafios que esta pandemia nos impõe, sobretudo neste momento de flexibilização do isolamento com regras especificas para cada segmento”, aponta André, para depois acrescentar.

“O trabalho da Cooperbreja vai ser importante em um momento como esse porque as micro e pequenas cervejarias que terão a oportunidade de aderir à cooperativa poderão fazer compras de insumos adequadas ao seu porte e necessidades do momento com vantagens e suporte que certamente elas não encontrariam ‘sozinhas’ no mercado”, detalha.

Além das vantagens competitivas, mesmo para aqueles que se encontram em uma situação de inadimplência com seus fornecedores, segundo relata André, as relações de negócios resultantes “entre cooperativa e cooperado, o chamado ‘ato cooperativo’, não é tributado e, neste sentido, a cooperativa pode ser tanto um brewshop competitivo quanto um grande PDV para os seus cooperados”.

O presidente da Cooperbreja destaca, ainda, outros benefícios trazidos pelo conceito de coletividade intrínseco à cooperativa. É o caso, por exemplo, do suporte burocrático frente a questões relativas ao Ministério da Agricultura (Mapa), da realização de cursos voltados especialmente para o associado e da possibilidade de fazer testes sensoriais de sua bebida.

“Na cooperativa, além de ter acesso a preços diferenciados, as cervejarias poderão contar com suporte especializado para a sua formalização junto ao Mapa e não terão mais a necessidade de regular constantemente o seu estoque de insumos, facilitando a logística e tendo a oportunidade de um controle maior sobre a sua margem de preços”, afirma André.

“Poderão, ainda, participar de cursos oferecidos pela cooperativa para o seu aperfeiçoamento na produção de cerveja e gestão do seu negócio, além de poder levar as suas cervejas para serem analisadas sensorialmente e poderem fazer a sanitização adequada dos seus barris, entre outras vantagens”, complementa ele.

A estrutura da Cooperbreja
As vantagens propiciadas pela entidade, fundamentais em um período de crise como o atual, derivam de sua própria natureza empresarial. André explica que a Cooperbreja é uma típica cooperativa de consumo fundada nos termos da Lei Federal 5.764/71, que rege o cooperativismo no Brasil. 

“Antes de mais nada, é preciso dizer que uma cooperativa nada mais é que um empreendimento coletivo de negócios, porém com princípios e valores inalienáveis”, aponta o presidente da Cooperbreja. “Neste modelo de negócio todos os integrantes da cooperativa são sócios (donos) com o mesmo poder de voz e voto. Ela tem abrangência nacional, embora a maioria de seus cooperados residam em Ribeirão Preto e região.”

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Para que esse empreendimento desse certo e pudesse desenvolver o seu trabalho primordial, que é a prática do comércio justo, foi preciso que um grupo coeso se reunisse e levantasse um capital que fosse suficiente para realizar compras coletivas no atacado com a obtenção de vantagens competitivas para os seus membros, sobretudo nos preços, acrescenta André. 

E o resultado, segundo ele, não foi apenas o desenvolvimento do mercado cervejeiro local, mas também da própria região de Ribeirão Preto. “Por meio do seu trabalho, a cooperativa age como uma verdadeira central de compras, regulando os preços de mercado, proporcionando aos seus cooperados e clientes acesso a produtos e serviços de qualidade a um ‘preço justo’, além de contribuir para a melhora do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do município onde está inserida”, finaliza o presidente da Cooperbreja.

Maior festival de artesanais dos EUA é cancelado, mas terá edição online em 2020

Pela primeira vez em quase 40 anos, o Great American Beer Festival (GABF), maior evento de cervejas artesanais dos Estados Unidos, não acontecerá – ao menos “fisicamente”. Em vez de um grande encontro presencial, agendado inicialmente para o período entre os dias 24 e 26 de setembro em Denver, no Colorado, uma versão digital e “imersiva” vai ser realizada online.

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O cancelamento se deu na esteira dos decretos do governo estadual que determinam diretrizes e restrições para a realização de eventos. “Ao mesmo tempo em que estamos decepcionados por não podermos nos reunir em Denver para o maior evento anual da comunidade da cerveja artesanal, a saúde e segurança de nossos atendentes, cervejeiros, voluntários, juízes e colaboradores é e sempre será nossa maior prioridade”, afirma Bob Pease, presidente da Brewers Association, entidade responsável pela organização do festival.

“Enquanto o mundo ainda estiver sendo amplamente afetado pela propagação da Covid-19, nós devemos nos manter firmes às nossas prioridades e buscar outros caminhos para realizar o GABF”, completa Pease, explicando a busca por alternativas para que o evento ocorra.

Assim, a 39ª edição do festival vai ter um caráter diferente neste ano, com os cervejeiros dos Estados Unidos celebrando as artesanais digitalmente. Para isso, uma série de experiências virtuais em tempo real, envolvendo especialistas, marcas, cervejeiros e amantes da bebida, vai ocorrer nos dias 16 e 17 de outubro.

O evento e sua dinâmica ainda estão sendo planejados, mas devem incluir degustações, palestras, debates, promoções de cervejarias e alguma alternativa que proporcione delivery de kits de harmonização de rótulos com pratos.

O tradicional concurso de cervejas do festival será realizado normalmente. Um corpo de mais de cem jurados vai avaliar cerca de 7 mil amostras inscritas até 9 de junho para apontar as melhores cervejas de cada estilo.

“Estamos felizes por poder manter o concurso nesse ano, premiar as conquistas das cervejarias e gerar engajamento do público com tendências e estilos”, acrescenta Pease.

Tudo que o mercado fez até aqui tem sentido hoje?, questiona fundador da Eisenbahn

Um dos principais personagens do movimento de crescimento e ganho de relevância da cerveja artesanal no Brasil, Juliano Mendes, fundador da Eisenbahn, acredita que a crise do coronavírus precisa provocar uma “profunda revisão” no segmento para que consiga se manter saudável.

Para ele, a inevitável e necessária reinvenção das empresas do setor passa por uma nova maneira de olhar para sua operação, variedade de produtos e marketing, entre outros. Assim, o encolhimento provocado pela pandemia pode tornar as companhias mais saudáveis. “Muitos sairão mais eficientes, mais enxutos, com novas ideias de serviços e produtos”, projeta.

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O consumidor, que já vinha experimentando novas experiências e sabores nos últimos anos, deve sair da pandemia mais criterioso e valorizando a qualidade e as experiências que a cerveja pode proporcionar. “Em um momento como esse, em que as pessoas, muitas vezes, precisam repensar seus gastos pessoais, acredito que o consumidor prefira um momento prazeroso, em menor quantidade, do que abrir mão da qualidade”, avalia.

Tais análises, aliás, merecem redobrada atenção. Formado em administração pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, Juliano foi um dos precursores da cerveja artesanal no país ao criar a Eisenbahn, empresa que ajudaria a pavimentar a consolidação desse nicho nacionalmente – a marca, hoje, pertence ao Grupo Heineken. É, portanto, um nome importante para ajudar a antever o que poderá ser do mercado no período de pós-coronavírus.

Confira, a seguir, a entrevista completa com Juliano Mendes, fundador da Eisenbahn.

Diante desse novo cenário e da crise que se prolongará por meses, o que as cervejarias precisam ter em mente no mundo pós-pandemia? Quais são os possíveis caminhos a seguir?
É um momento muito difícil, sem dúvida. Mas, se há algo que essa crise pode deixar de efeito colateral, é uma profunda revisão em toda a forma com que a cervejaria opera. Seja em termos comerciais, de marketing ou na produção, todos estão tendo que repensar o negócio. E, dessa reflexão, muitos sairão mais eficientes, mais enxutos, com novas ideias de serviços e produtos. Muitas cervejarias abriram novos canais de vendas e fizeram uma revisão no mix de produtos. É hora de pensar: tudo o que fizemos até aqui faz sentido hoje e continuará fazendo amanhã? Acredito que as empresas que conseguirem superar esse desafio sairão mais bem preparadas, estrategicamente falando, para enfrentar o futuro.

A crise do coronavírus e a retração econômica provocada por ela podem afetar mais marcas de cerveja com maior valor agregado como a Eisenbahn? E como trabalhar para minimizar esses efeitos?
A crise do coronavírus infelizmente afeta todo o ecossistema em que nosso negócio está envolvido. Como empresa, nos preocupamos em fazer o máximo que está ao nosso alcance para diminuir os impactos dessa crise em nossos funcionários, clientes e consumidores. Por isso, o Grupo Heineken no Brasil está fazendo uma série de iniciativas e ações voltadas para esses públicos e também para sociedade como um todo. Uma delas chama-se Brinde do Bem, movimento de apoio aos bares de todo o Brasil (nele, por meio de uma vaquinha online, o consumidor faz uma contribuição para o seu bar preferido, que pode ser revertida em consumação após a quarentena, e a Heineken dobra o valor do repasse). Dessa forma, ajudamos os bares a balancear o caixa e a manter os salários em dia. 

Em sua avaliação, o que deve mudar no comportamento do consumidor cervejeiro quando a pandemia se arrefecer?
Acredito que a tendência do “beba menos, mas beba melhor” pode ser intensificada. O consumo responsável deve ganhar mais espaço. As pessoas têm procurado mais qualidade, mesmo sabendo que muitas vezes ela vem acompanhada de um preço mais alto. Em um momento como esse, em que as pessoas, muitas vezes, precisam repensar seus gastos pessoais, acredito que o consumidor prefira um momento prazeroso, em menor quantidade, do que abrir mão da qualidade que já vem experimentando.

Qual é o valor das lives na disseminação da cultura cervejeira e do conhecimento técnico propriamente dito? Para você, da Eisenbahn, o que elas podem sinalizar sobre o futuro do mercado cervejeiro?
Nossas lives (a Eisenbahn, junto ao Instituto da Cerveja Brasil, produziu uma série de lives abordando diversos aspectos do mercado e consumo da cerveja) têm um conteúdo bem abrangente, que envolve temas relacionados ao serviço, como copos corretos e temperatura do líquido, passando por temas históricos e até mesmo assuntos bem técnicos ligados à produção de cervejas. Ou seja, temos temas para todos os gostos, objetivos e níveis de conhecimento. Acreditamos que o compartilhamento de informação nos torna muito melhores, como pessoas e como empresa. Dividir conhecimento e compartilhar informação é um caminho sem volta.

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Já é possível enxergar interesse ou acesso de algum tipo de público que antes não teria contato com esse tipo de conteúdo? E como fazer para retê-lo?
Temos percebido a participação de um público bastante eclético. De conhecimento bem variado, também. Pelas perguntas e comentários, estamos notando que pessoas de conhecimento bem técnico têm aproveitado nossas aulas. Contudo, é muito animador ver um público leigo, mas super interessado em aprender e entrar nesse universo das cervejas especiais. Acredito que a forma de reter tanto um quanto o outro público é justamente através do compartilhamento de conhecimento, de forma técnica, precisa e profissional.

Há algum ponto negativo nessa “invasão” de lives? Qual e por quê?
Não vejo ponto negativo, pelo contrário. A informação já está aí, à disposição de todos, em blogs, redes sociais, livros. Tanto a informação boa quanto a ruim. As lives são apenas mais uma ferramenta, de muita eficiência, é verdade. Cabe aos consumidores dessa plataforma terem discernimento do que é bom ou ruim. Nem sempre é fácil, mas o tempo vai resolver isso.

Ambev acompanha índice Bovespa em maio e tem leve recuperação após meses de queda

A ação da Ambev acompanhou a alta do índice Bovespa em maio e recuperou parte do seu valor de mercado, ainda que sem apagar as perdas acumuladas dos meses anteriores de 2020. O papel ABEV3 teve valorização de 10,05%, bem semelhante ao do Ibovepa, que subiu 8,57% no mesmo período.

A ação ordinária da multinacional cervejeira fechou o pregão da última sexta-feira com o preço de R$ 12,48, sendo que havia começado maio cotada a R$ 11,34. Apesar disso, a queda em 2020 continua sendo brutal – o papel da Ambev havia terminado 2019 a R$ 18,67. Ou seja, a desvalorização neste ano está em 33,15%.

No início de maio, foi divulgado o balanço do primeiro trimestre da Ambev. Pressionada pela crise do coronavírus, a companhia teve lucro líquido de R$ 1,091 bilhão no período, um recuo de 59% em relação aos três meses iniciais de 2019. E analistas apontaram que o pior ainda está por vir para a empresa, que já revelou queda de 27% no volume de cervejas vendidas em abril.

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Mas, na Bolsa de Valores de São Paulo, a Ambev acompanhou a recuperação do principal mercado nacional em maio, com o índice Bovespa atingindo o segundo mês de resultado positivo em 2020. O pregão de sexta, por exemplo, foi fechado em 87.402,59 pontos, sendo que havia terminado abril com 80.505,89.

Continua, porém, sendo insuficiente para recuperar as expressivas perdas dos três primeiros meses do ano, especialmente de março, pois o Ibovespa tinha encerrado 2019 com 115.645,34 pontos. Ou seja, mesmo com a recuperação de abril e maio, a queda acumulada em 2020 está em 24,42%.

Esta foi apenas a segunda vez em 11 anos que o Ibovespa teve alta em maio. E a avaliação de especialistas é que isso se deu em função da reabertura da economia de alguns países que já passaram pelo pico do surto do coronavírus.

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O cenário interno, porém, não é nada bom, como apontou a retração do PIB em 1,5% no primeiro trimestre de 2020. A crise sanitária também continua grave e o cenário político é incerto, especialmente pelo choque entre poderes, com o presidente Jair Bolsonaro tendo confrontado algumas vezes o STF e o Congresso Nacional.

Fora do Brasil
Entre as principais cervejarias do mundo, o destaque foi para a alta da Heineken na Europa. O papel começou o mês custando 77,62 euros e encerrou maio com o valor de 82,48 euros. A valorização, portanto, foi de 6,26% em um mês.

Já a ação da Anheuser-Busch InBev – multinacional fruto da fusão da belga Interbrew com a Ambev – fechou o quinto mês de 2020 cotado a 41,91 euros. Como havia terminado abril valendo 41,88 euros, a alta foi de 0,07% no período. 

Consumo de álcool na quarentena: Uma reflexão a partir da visão de um apreciador

*Por Luiz Guerreiro

O consumo de álcool na quarentena provocada pela Covid-19 é motivo de intenso debate. Algumas regiões adotaram a lei seca, especiamente no cenário internacional, proibindo a circulação desse tipo de mercadoria em sua região. Afinal, será que essa atitude realmente surte algum efeito positivo?

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Em primeiro momento, consiste entender que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou evitar o consumo de álcool durante a atual pandemia devido aos riscos gerados pela ingestão em excesso, tanto fisicamente para quem consome quanto a terceiros, por conta da mudança de comportamento sob a influência de álcool.

Acontece que existem dois tipos de consumidor: o primeiro grupo, composto por indivíduos que possuem controle quando estão consumindo bebida alcoólica; e o segundo conjunto, formado por aqueles em que essa substância acarreta em problemas, uma vez que perdem o controle e fazem o uso exageradamente. Estes são considerados doentes e, portanto, devem evitar o uso em qualquer circunstância.

O fato do consumo de bebida ser geralmente realizado em grupos também acarreta em problemas, pois o distanciamento social é a única alternativa a fim de conter o avanço da doença. Consequentemente, os bares e similares são ambientes que devem ser evitados nesse momento.

É sabido também que a ingestão dessa substância associada à direção de veículos automotivos consiste na motivação do número gigantesco de acidentes de trânsito no Brasil. É algo do cotidiano que precisa de combate, assim não é um problema relacionado ao atual cenário.

Por outro lado, inúmeras pessoas fazem o uso de álcool com moderação, servindo como ferramenta de degustação e alegria. São indivíduos saudáveis e com controle durante o consumo, os quais sob o efeito do líquido não violam as regras. Logo, estes não podem ser impedidos de ter acesso ao produto.

Toda tentativa de proibição de algum item gera um mercado clandestino, pois há pessoas que não vão respeitar a norma imposta. Justamente aquele grupo considerado doente tende a cometer irregularidades a fim de conseguir o objeto de desejo.

O consumo de bebida traz inúmeros debates, contudo é necessário entender todo o conjunto de atores envolvidos no seu uso. Portanto, as medidas devem ser direcionadas de acordo com cada situação específica.

Em suma a proibição do álcool na quarentena não é o caminho, pois não vai resolver o problema, pelo contrário: acarretará em mais impasses. A melhor opção é a informação e a busca por sensibilizar o cidadão dos riscos do consumo em excesso. Paralelamente a isso, a compra e o consumo consciente podem e devem seguir no atual momento sem problemas.

*Luiz Guerreiro é apreciador de longa data, produtor de cerveja caseira e um leitor inquieto do Guia

Para promover o debate entre os mais distintos segmentos do setor cervejeiro, o Guia deixa o espaço totalmente aberto para seus leitores. Se quiser mandar uma sugestão de artigo, é só escrever para nosso editor: itamar@guiadacervejabr.com

Com lives, ICB olha para o futuro da difusão da cultura da cerveja

Na impossibilidade de continuar interagindo com o público em eventos e cursos presenciais, que têm na proximidade e na troca de experiências suas grandes vantagens, escolas como o Instituto da Cerveja Brasil (ICB) se viram impelidas a acelerar sua transição para o ambiente digital. Com isso, as lives cervejeiras ganharam espaço e estão sendo aperfeiçoadas para sedimentar seu lugar na cultura cervejeira. 

Até o início da pandemia e do isolamento social, a relevância das lives como ferramenta de comunicação era pequena na estratégia do ICB. Desde então, o instituto viu no formato uma possibilidade poderosa e correu para estruturar uma série de encontros virtuais com professores, parceiros e convidados. “Esse início foi importante para entendermos como agir, apresentar e quais temas abordar”, afirma o sócio do ICB, Estácio Rodrigues, ao Guia.

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Depois de algumas semanas de familiarização com as possibilidades do formato, a escola estabeleceu uma parceria com a Eisenbahn – impossibilitada pela crise do coronavírus de gravar a temporada 2020 do reality Mestre Cervejeiro, um de seus principais canais de divulgação de cultura cervejeira – para entregar conteúdo a seu público.

As marcas, então, desenvolveram um calendário de 14 lives chamadas “Conteúdo de Mestre”, que foram divididas em três eixos temáticos: história, processos e serviços. “Pensamos em diversos conteúdos que pudessem ser leves e ao mesmo tempo com bastante conhecimento, além de enriquecer a experiência de uma boa degustação”, afirma o sócio do ICB.

Os cursos passam por temas como técnicas de higiene, refrigeração, estilos e harmonização. Na prática, o conteúdo tem origem nos cursos regulares do ICB, adaptados para o formato mais conciso, de 30 minutos, segundo detalha Estácio.

“Tivemos apenas que enxugar os assuntos e adaptar a linguagem mais coloquial do dia a dia das pessoas. Os professores sempre tomam o cuidado de ‘traduzir’ algum termo cervejeiro para que o público acompanhe de forma mais fácil”, detalha Estácio sobre os esforços dos apresentadores Juliano Mendes, fundador da Eisenbahn, e Pri Colares, sommelière, responsáveis pelas aulas.

O sócio do ICB, aliás, vê no clima informal e na experiência “confortável” que as lives proporcionam um grande potencial para a popularização da cultura cervejeira. “Quando bem feitas e com conteúdos corretos para o público, as lives são muito enriquecedoras, pois levam informação adicional sobre aquele produto ou serviço que está sendo discutido. Quem não quer tomar uma cerveja no aconchego de sua casa e entender mais sobre ela?”.

Os encontros ocorrem às 17h das quartas-feiras e às 11h dos domingos, no perfil da Eisenbahn no Instagram. O programa tem, ainda, três encontros: neste domingo, Juliano Mendes recebe Edu Passarelli para conversar sobre harmonização de cervejas com pratos brasileiros; na terça-feira (3 de junho), ele debate com Luís Celso Jr a história do estilo Pilsen; e, no próximo domingo (7 de junho), Pri Colares discute com Beatriz Ruiz o papel da mulher na história da cerveja.

O conteúdo da série de lives do ICB e da Eisenbahn vai ficar disponível no portal do reality show Mestre Cervejeiro.

Hilda
Mesmo com a realização cancelada em 2020, o Eisenbahn Mestre Cervejeiro celebrou nesta semana mais um de seus “frutos”: a Hilda, Session IPA vencedora da décima edição do programa, criada pelo mineiro Claudio Botelho. A novidade chegou às prateleiras digitais do e-commerce do Grupo Pão de Açúcar.

“A Hilda é uma homenagem à minha avó, mãe da minha mãe, que antes de partir, plantou cada árvore do pomar onde hoje está minha cervejaria”, conta Botelho, lembrando os aromas de lima, laranja, limão capeta e mexerica que o inspiraram.

A princípio, a cerveja com teor alcoólico de 4,6% será vendida online somente no Estado de São Paulo.

ESCM oferece bolsas de estudo para cada uma das 1,2 mil cervejarias do Brasil

Um novo programa de educação da Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM) vai dar bolsas de estudo com acesso a cursos inéditos da instituição para cervejarias de todo o Brasil. O projeto ESCM Juntos terá 1,2 mil bolsas, uma para cada empresa do setor registrada no país, com o objetivo de capacitar e abastecer o mercado com conhecimento, algo que se tornou ainda mais importante em um momento de incertezas como o atual.  

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Por meio do programa, as cervejarias terão acesso a mais de 15 cursos inéditos, abordando temas como ingredientes (água cervejeira, malte, lúpulo, leveduras), processos (controle de qualidade, gestão e análise sensorial, envase) e gestão (custos, marketing, PCP, equipes). As aulas serão ministradas por professores voluntários que apoiam o projeto.

Os cursos vão ser online e com carga horária de nove horas. O formato, com aulas divididas em três dias, foi pensado para permitir que os participantes conciliem estudo e trabalho, de acordo com o diretor da ESCM, Carlo Bressiani.

“Nós dividimos os temas de forma a trazer um conteúdo prático e focado aos profissionais cervejeiros. Também pensamos nisso ao oferecer uma carga horária de três horas ao dia, já que sabemos que muitos desses profissionais seguem na rotina de fábrica”, comenta. 

O diretor da ESCM destaca a necessidade de o setor cervejeiro se manter unido e valorizando o conhecimento em um cenário de crise. Assim, o momento de instabilidade foi fator motivador para a concessão das bolsas de estudo.

“Como o próprio nome diz, estamos juntos. Todos os integrantes da cadeia produtiva da cerveja têm a missão de apoiarem-se. O conhecimento é o bem mais valioso que nós temos e estamos colocando esse conteúdo a disposição do mercado”, completa Bressiani.

As inscrições podem ser feitas até a data de início dos cursos – alguns deles começam na próxima segunda-feira. São. 50 vagas por turma. Assim, quanto antes a cervejaria decidir pela participação, maior é a probabilidade de ela poder escolher o curso mais interessante para seu momento.

Todas as informações sobre as aulas e o regulamento completo estão no site do projeto.

Balcão da Bia: Minha cervejaria dos sonhos

Coluna bia amorim

Balcão da Bia: Minha cervejaria dos sonhos

Sou sommelière de cervejas e, por conta do meu trabalho, estou sempre provando novidades, cervejas diversas. Mas também faz parte dele olhar as prateleiras, o amontoado de rótulos, as diversas embalagens, de novas e tradicionais cervejarias. É preciso entender alguns paradigmas, ver as coincidências, perceber as tendências e como o mercado – esse organismo vivo – funciona.

Eu sinto falta de um monte de coisas. Mas essa percepção, muitas vezes, pode ser apenas o meu ego, o meu gosto pessoal, e não o que é preciso realmente. Então me coloco a sonhar. Abro uma cerveja, me sento confortavelmente ao pôr do sol e fico imaginando como seria se eu pudesse ter a minha cervejaria. Uma fábrica ao meu bel-prazer.

Primeiro, vagueio pela localização. O duro de sonhar é isso: posso edificar até um mosteiro e morar na Bélgica. Isso, sim, é sonho. Eu me perco rápido, logo o sonho se transformou em um Sin City cervejeiro. Volto meus pés um pouco mais perto do chão. Poderia ser na Serra, perto de Minas Gerais. Ali, divisa com o Rio de Janeiro. “Muitos amigos naquela região, fácil acesso para tudo”, pensei.

Dou uma suspirada na vida e uma respirada no copo. Frutado, vida real. Tropical, prazer sensorial. Nessa vibe, torno a pensar na cervejaria. Já tenho o lugar, preciso pensar na arquitetura, pois ela vai dizer tudo sobre a minha marca. Define um estilo de vida, sabe? Gosto de tijolinho “à vista”, meio vermelho queimado. Curto também um estilo meio norte-americano. Consigo ser brega até no sonho, misturando os designs. Vai ser sustentável em tudo. Invento máquinas de uma tecnologia que não existe. O sonho é meu, chamo até o Steve Jobs se eu quiser.

Ao que parece, grana não é problema, já que estou longeeeeeee nos pensamentos. Dou uma suspirada na vida e uma respirada no copo. Na vida real, grãos, uma boa mistura, nada que pareça caramelo, um biscoito pronunciado, mas uma textura aveludada. Como seriam as embalagens? Acho que latas: são mais fáceis e práticas de lidar na cadeia toda. Os rótulos? Nossa, nem brinca. Com tanta liberdade, iria escolher meus artistas favoritos e convidar um para cada estilo. E já que liberdade pouca é bobagem, vou colocar nomes que fazem apologia à cultura, à arte e aos valores humanos. Não é só sobre o líquido.

Mas tudo isso começou, esse sonho desenfreado, porque eu queria encontrar nas prateleiras os sabores que eu mais gosto. Um paladar mimado, eu diria. Cervejas com mais malte, com mais malte caramelo, com mais tons âmbar, com mais álcool, com mais café, cacau, defumado, doce de leite, panquecas e calda de chocolate. Ops, sonho errado? O sol já baixou e as cores do céu mudaram. Mas no meu copo a IPA continua me dando informações. Bem atenuada, ótimo drinkabiltypara sonhar despercebido. Sour de todos os estilos, vamos azedar tudo. Coisas na madeira. Lagers crispye delicadas. Michael Jackson deve me fazer uma visita. Brindo com ele e quase faço uma Goose IPA no copo que paira sobre meu colo na vida real.

Mas com a movimentação da casa, me desperto. E, ainda pensando sobre as probabilidades reais do sonho, vejo que temos uma linha muito tênue entre tudo isso e quem faz cerveja em casa. Pois em pequenas doses e com um pouco mais de humildade, em casa e com nossa criatividade, também podemos manipular as matérias e escolher os sabores. Com técnica e dedicação também aprendemos sobre qualidade.

Mas eu sou sommelière. Meu trabalho é entender o sonho, olhar para a realidade e ver que está tudo lá. As prateleiras com boa curadoria nos pontos de venda, as lojas virtuais, o nicho como um todo, têm tudo isso que eu disse. Tem lindas construções, tem lúpulo nacional saindo do papel e do sonho, tem profissionais competentes, tem rótulos incríveis, tem mensagens sendo passadas. Tem cerveja bem-feita, tem dedicação e esmero. No fundo, eu só sonhava com mais Browns Ales e Schwarzbier – e também com a Bélgica. Uma mistura de saudades e anseios por sair de casa e voltar a respirar o ar do boteco e do bar.

Eu estava ali sonhando, enquanto bebia o sonho que alguém concretizou. Um crossover cervejeiro sensorial. Esse é meu ideal de cervejaria. Como seria sua cervejaria? Já sonhou com isso? Nem tudo precisa sair do papel, mas sonhar, isso sim é preciso. Saúde.


Bia Amorim é sommelière de cervejas, filosofa de boteco on live, escritora de botequim virtual, a tia louca da louça. No instagram, @biasommelier no trabalho, @startupbrewing e vertentes.

Live do Guia vai discutir os desafios para a retomada dos bares

Alguns estados já planejam a forma de retomada de atividades, como as comerciais, incluindo os bares, a partir do início do relaxamento das medidas de isolamento social. Em São Paulo, por exemplo, o governador João Doria anunciou uma liberação por etapas, começando em 1.º de junho, que levará em conta os números de casos da Covid-19 e a disponibilidade de leitos de UTI em cada município. Em Minas Gerais, já há um funcionamento parcial de muitos estabelecimentos em algumas cidades.

A próxima live do Guia no Instagram, nesta sexta-feira, às 18 horas, vai debater os desafios dessa volta. Para isso, o jornalista e sommelier Rodrigo Sena, do canal Beersenses, receberá como convidado o co-fundador e diretor do BaresSP, Fabio de Francisco. O BaresSP atua há 20 anos como um hub de negócios e escola de formação de profissionais para bares e restaurantes em São Paulo.

“A reabertura dos bares, com essa retomada, é fundamental para o mercado cervejeiro, principalmente para a cerveja artesanal brasileira, pois os bares são o grande ponto de consumo da bebida”, diz Rodrigo.

O segmento de bares e restaurantes vive uma crise sem precedentes. Mais de 1 milhão de profissionais foram demitidos por causa da pandemia, segundo pesquisa da Associação Nacional de Restaurantes (ANR).

Além disso, a grande maioria dos estabelecimentos ainda não conseguiu crédito nos bancos, como indicou pesquisa Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). “Estamos vivendo de perto os problemas atuais do setor e sabemos que a retomada não será fácil”, conta Fabio.

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As lives do Guia são realizadas semanalmente. Assim como acontece com o conteúdo do site, o objetivo é que seja mais um espaço de discussão e divulgação da cultura que cerca a cerveja, oferecendo informação relevante e atualizada, além de análises profundas sobre o que acontece dentro desse universo.

Na semana passada, na segunda edição da live, a sommelier Candy Nunes conversou com o empresário Marcos Chimini, da Chima´s Bier, sobre a produção de cerveja caseira.

Confira na íntegra a live da semana passada.

Entrevista: Indústria de bebidas perde 50% de faturamento na crise, aponta Abrabe

Iniciada em março, quando medidas de isolamento social foram adotadas para tentar evitar a propagação da doença, a crise do coronavírus teve efeito devastador sobre a indústria de bebidas alcoólicas. A estimativa é de perda de 50% de faturamento durante esse período de paralisação das atividades, segundo revela Cristiane Foja, presidente-executiva da Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe), em entrevista ao Guia.

A queda se dá mesmo que o setor tenha intensificado novas modalidades para atender a clientela, com serviços de delivery e comércio digital. E deve durar bastante tempo, como reconhece a executiva da Abrabe, seja pela indefinição sobre quando as atividades serão retomadas sem restrições, seja porque a alta do dólar e o aumento do desemprego refletem diretamente sobre o consumo.

É um cenário bem diferente ao que se previa no fim de 2019, quando o setor cervejeiro vinha em expansão, com a produção de bebidas alcoólicas tendo crescido 4,8% no ano passado, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). E apenas em março, no início da crise, o recuo foi de 20,9%.

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Na entrevista, Cristiane também destaca a postura das empresas do setor, que vêm reforçando a necessidade de o consumo de bebidas alcoólicas ser consciente e moderado durante o período de quarentena. E elogia iniciativas de apoio no combate ao coronavírus e aos efeitos da crise social.

Confira, a seguir, a entrevista completa com Cristiane Foja, presidente-executiva Abrabe.

Qual é a situação do setor de bebidas nesse momento? É possível estimar em números o impacto da crise do coronavírus sobre o setor?
Os impactos estão sendo amplamente sentidos. Desde o início da pandemia, houve um desenvolvimento de vendas via canais on-line, como deliveries e e-commerces, mas nem de perto supre a demanda das vendas em bares, restaurantes e eventos, que seguem fechados devido ao isolamento social. A queda de faturamento médio do setor gira em torno de 50%, com base em dados extraídos das empresas associadas à Abrabe.

Como a Abrabe tem orientado as empresas do setor nesse momento para lidar com a crise?
Desde o início, a Abrabe incentiva suas associadas a realizarem ações que possam mitigar os impactos da crise junto à sociedade. A Abrabe ainda fomenta junto às empresas associadas e à comunidade a cultura de moderação do consumo de bebidas alcoólicas, atuando como aliada social neste momento de pandemia ao influenciar boas práticas de consumo responsável.

O que o momento exige especificamente para o setor de cervejas?
O momento exige dedicação de todo o setor de bebidas alcoólicas para que sociedade, parceiros e indústria possam superar a crise física, emocional e financeiramente. Vale olhar para as ações já realizadas por empresas de bebidas alcoólicas de forma positiva, pois desde o início o segmento tem se mobilizado e agido de forma bastante atuante para evitar a proliferação da Covid-19 no Brasil, como a doação de álcool 70%, água e cestas básicas para comunidades carentes e ações de apoio a bares e restaurantes.

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A Abrabe acredita que será preciso estímulos do governo federal para o setor lidar com a crise?
A Abrabe se manifestou fortemente junto ao governo desde o início da crise para propor sugestões que colaborem para minimizar o impacto econômico que medidas relacionadas ao isolamento social causam para o segmento de bebidas alcoólicas no Brasil. Dentre as principais solicitações da entidade, estavam a liberação de créditos e a revisão de tributos para o setor.

Qual é a perspectiva para o setor de bebidas nas próximas semanas?
A perspectiva é que a queda média de faturamento se mantenha em 50% até o final do isolamento social.

Como a Abrabe acredita que será o futuro do setor de bebidas e, mais especificamente, o de cerveja no pós-crise?
Imaginamos que o impacto da pandemia ainda será sentido por um bom tempo no setor de bebidas alcoólicas, sobretudo pelo fato de não sabermos a duração do isolamento social necessário, tampouco qual será o comportamento das pessoas após a Covid-19. O que podemos afirmar é que a crise econômica em decorrência da pandemia certamente refletirá nos hábitos de consumo de bebidas alcoólicas, pois um estudo que realizamos com a KPMG comprova que oscilações econômicas, como alta do dólar ou aumento da taxa de desemprego, refletem diretamente em um downgrade de categoria.