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A genialidade de Pelé em lances, no marketing e contra o racismo

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Eram decorridos 46 minutos do segundo tempo quando Tostão lançou Pelé em profundidade. O Rei do Futebol nem precisou tocar na bola para ludibriar o goleiro uruguaio Mazurkiewicz e driblá-lo. Com uma ginga de corpo, deixou o adversário para trás. A finalização, na sequência, passou raspando a trave e saiu para fora.

Não fez falta. Afinal, a seleção brasileira já vencia o Uruguai por 3 a 1 e, assim, se classificou para a decisão da Copa do Mundo de 1970, além de ter expurgado o trauma da derrota de 1950 com aquela vitória. Mais do que isso: eternizou aquele lance, pouco importando que ele não tenha sido gol.

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Com Pelé, afinal, era assim. A revolução podia, muitas vezes, ser silenciosa: sem um gesto, um toque na bola, uma palavra. Foi desse modo em toda a Copa de 1970, quando a aliança entre preparação, talento e determinação abriu caminho para a consagração daquela considerada como a melhor seleção de todos os tempos. E, claro, do Rei do Futebol.

É óbvio que Pelé fez seus gols em 1970 – foram quatro –, dois deles antológicos, com o domínio perfeito da bola no peito antes da finalização contra a Checoslováquia, na estreia, e o cabeceio fulminante na final contra a Itália –, assim como deu assistências – seis –, mas a beleza da sua consagração passou, também, pelo não fazer.

Eles foram eternizados nos quase gols: o do drible de corpo em Mazurkiewicz, na finalização de bate-pronto após bola mal distribuída pelo mesmo uruguaio, no cabeceio defendido pelo inglês Banks, pelo gol que Pelé não fez – ou pelo lance que sua genialidade criou? – em finalização do meio-campo diante da Checoslováquia.

Rei do marketing
Também foi assim com o marketing esportivo. Em 1959, na sequência da conquista do primeiro título mundial da seleção, quando Pelé cumpriu a promessa feita a seu Dondinho em 1950, de dar o título que o Brasil havia perdido naquele ano, ele teve outra conversa com o seu pai.

Nela, Pelé recusou a oferta de uma empresa do interior paulista para dar seu nome a uma caninha, a popular cachaça, por entender que não seria uma boa ideia associar a sua imagem com uma marca de bebidas alcoólicas. Com isso, a “Caninha Pelé” não foi além de um lote de teste.

E seria assim nas seis décadas seguintes. Pelé manteve o afastamento da publicidade envolvendo bebidas alcoólicas, incluindo a cerveja. Nem por isso deixou de revolucionar o marketing esportivo. Se tornou uma marca. Exportou o café brasileiro para o mundo com o Café Pelé e teve contratos longevos, como com a Mastercard, e marcantes, como no caso da Pfizer.

Já nos últimos anos, se inseriu no mundo das redes sociais e protagonizou propagandas com estrelas atuais do futebol mundial, como Cristiano Ronaldo e Mbappé, craque em ascensão e que segue seus passos ao evitar fazer propagandas de bebidas alcoólicas.

Mesmo sem o dedo de Pelé, a indústria da cerveja também se inseriu no marketing esportivo ao longo de sua trajetória, pelo alcance do futebol, liderado pelo seu rei, a ponto de ser impossível, hoje, imaginar uma grande competição, como a Copa do Mundo, sem o apoio de uma marca global. Veio, inclusive, de uma delas, uma das últimas homenagens a Pelé.

Depois de premiar o melhor jogador de cada partida do Mundial no Catar com o troféu “Player of the Match”, em ação iniciada na Copa de 2002, a Budweiser homenageou Pelé com o troféu “Player of the History”, em ação de marketing que contou com a participação de Neymar.

“Se a cada partida existe a expectativa pelo melhor em campo, quando falamos da história dos Mundiais, não resta dúvida sobre quem é o Rei”, afirma Carolina Caracas Gargione, head de marketing da Budweiser. “Então, criamos esse troféu especial para celebrar toda a carreira e a trajetória do Pelé, e tudo o que ele representa para o mundo, não apenas o nosso país”, acrescenta.

Fora de campo
Em alguns momentos de sua trajetória, Pelé foi cobrado – muitas vezes por brancos – para se engajar mais na luta contra o racismo. Seu brilho dentro de campo, sua presença global como um vencedor e um exemplo de êxito esportivo e do Brasil, por si só, significaram um importante passo para a representatividade negra em uma sociedade racista.

“Ao seu modo, Pelé colocou o homem preto no topo do mundo. Ele faz até os racistas reconhecerem que o melhor jogador do mundo é um homem negro. Com isso, Pelé ajuda a dar visibilidade e mostra que o homem preto pode ser o melhor de todos”, afirma Gustavo Bandeira, autor do livro “Uma história do torcer no presente”.

Confira 14 lançamentos realizados pelas cervejarias artesanais em dezembro

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A chegada do fim do ano veio acompanhada pela criatividade das marcas artesanais. Motivadas pelo período de festas, as cervejarias realizaram diversos lançamentos ao longo do mês de dezembro, oferecendo opções interessantes ao consumidor na saideira de 2022.

A Bodebrown, por exemplo, apresentou quatro novidades ao longo do mês, algumas delas levando frutas em suas receitas. A Soma também apostou no lançamento de vários rótulos em dezembro: uma Saison com Hibisco e uma Brazilian Ale.

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Confira esses e outros lançamentos realizados pelas cervejarias artesanais em dezembro e selecionadas pela reportagem do Guia:

Blumenau
Para celebrar o Natal, a Cerveja Blumenau apresentou um lote limitado da Blumenau Summer Warmer, uma versão brasileira das cervejas belgas, disponível em barris e garrafas de 500ml. O rótulo tem 8% de teor alcoólico e 15 IBUs de amargor. Possui cor dourada intensa e espuma abundante. No aroma, traz notas de frutas amarelas cristalizadas e especiarias, em uma combinação inspirada no tradicional panetone.

Bodebrown
A Bodebrown fez, em dezembro, o lançamento de várias cervejas: Luppolo Italian Pilsener, Gigantes de Olinda e Os Bonecos de Wallonie 6, Samuel .50 e Anna Guerra. A Luppolo Italian Pilsener é leve, com 4,6% de teor alcoólico. Na sua receita foram utilizados dois maltes (Pilsen e Munich) e o lúpulo europeu Sladek no dry-hopping. A Anna Guerra é uma Brut Saison com graviola, acerola e cupuaçu, além de leveduras belgas. A criação presta homenagem à artista Anna Guerra, parceira da Bodebrown. A Gigantes de Olinda e os Bonecos da Wallonie n.º 6 com jabuticaba tem inspiração na cultura belga e nordestina, relembrando a origem dos bonecos olindenses. Segue o estilo Belgian Dubel e tem adição de jabuticaba. Já a Samuel 50 foi criada por Samuel Cavalcanti, CEO da Bodebrown, para celebrar seu aniversário de 50 anos. É uma Strong Golden Ale com 9% de álcool.

Campos do Jordão
A Campos do Jordão preparou uma cerveja comemorativa para o Natal: é uma Winebeer. Também conhecida como Grape Ale, ela é feita com o mosto de uva Syrah, utilizado na produção do Vinho Brandina, da Vinícola Villa Santa Maria, localizada no Vale do Baú, em São Bento do Sapucaí (SP). A novidade possui coloração rubi cereja, alta complexidade de aromas como frutas vermelhas, cereja e especiarias, surpreendendo os paladares mais requintados. Tem 7,6% de teor alcoólico.

Cybeer Lab
A Cybeer Lab lançou, durante a sua participação no Mondial de la Biere, a Ping of Death, uma Barley Wine maturada em barricas de vinho do Porto, o que a permitiu absorver a complexidade de sabores e aromas provenientes do carvalho. A novidade tem 12% de graduação alcoólica.

Fat Bull
A cervejaria Fat Bull lançou uma novidade neste final de ano, diversificando a sua área de atuação. Elaborado no método charmat, com uvas Pinot Noir cultivadas na serra gaúcha, o espumante rosé da Fat Bull está disponível nas lojas da marca em Novo Hamburgo, Ivoti e Gramado. O espumante foi produzido na vinícola Montereale, em Flores da Cunha.

Landel
A Landel apresentou uma nova cerveja em dezembro, a Good Boy, uma English Brown Ale, com 6% de teor alcóolico e 30 IBUs de amargor. Segundo o descritivo, o lançamento apresenta notas de toffee, chocolate e caramelo, em um corpo médio equilibrado.

Noi
A cervejaria niteroiense Noi aproveitou a sua participação no Mondial de la Bière para apresentar a sua Extra Special Bitter, cerveja da escola inglesa. Com 5% de graduação alcoólica e 34 IBUs de amargor, a novidade promete ser uma boa opção para refrescar os consumidores.

ØL Beer
Em dezembro, a ØL Beer lançou a nona receita desenvolvida no projeto Usinøl, sendo a sétima em 2022, a Lager Time. É um Hop Lager com perfil de frutas secas, floral e um refrescante toque cítrico. A novidade apresenta amargor de 21 IBUs e teor alcoólico de 6,2%.

Soma
Nesse fim de ano, a Soma Cervejaria lançou uma Brazilian Ale, que leva lúpulos 100% brasileiros, e uma Saison com Hibisco. A Soma Brazilian Ale, com 28 IBUs e 4,5% de álcool, leva lúpulos 100% nacionais, Comet e Chinook, o que resultou em uma cerveja de corpo médio-baixo e espuma de cor branca, de boa formação e persistência no copo. Traz no aroma notas cítricas e resinosas. Já a Soma Saison com Hibisco (28 IBUs e 7% de álcool) conta com o aroma e sabor frutado desse estilo belga.

W*Kattz
A marca foi outra das cervejarias que aproveitaram a realização do Mondial de la Bière, no Rio, em dezembro para fazer lançamentos. A W*Kattz apresentou a Negro Gato, uma Black IPA com 6% de graduação alcoólica e amargor potente, com seus 45 IBUs de amargor.

EUA chegam a recorde de 9,5 mil cervejarias, mas número deve cair em 2023

Os Estados Unidos vão fechar o ano de 2022 com um número recorde de cervejarias em operação. São 9.500, de acordo com informações divulgadas pela Brewers Association (BA, na sigla em inglês), a associação de cervejarias artesanais e independentes do país. O número é resultado do saldo positivo entre as 550 inaugurações ao longo do ano e os 200 fechamentos permanentes.

A expansão de 350 cervejarias é responsável por um novo recorde de cervejarias registradas nos Estados Unidos, que já haviam atingido um novo patamar em 2021, de 9.247, contra as 9.025 de 2020.

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A associação também apontou que o segmento de cervejas artesanais apresentou crescimento de 8% em 2022, acima da expansão do mercado, que ficou em 1%. Porém, enquanto o consumo nos estabelecimentos recuperou a tendência de alta, o chope ainda não atingiu o nível anterior à pandemia.

Além disso, nem tudo é positivo para a indústria cervejeira nos Estados Unidos, que já vinha sofrendo com os desafios impostos pela pandemia do coronavírus. E a pressão sobre suas vendas e lucros cresceu com o aumento da energia e de outros custos, que também foi atormentada pela escassez de suprimentos e ingredientes, com interrupções no fornecimento de latas e CO2.

De acordo com a BA, a colheita de cevada até apresentou melhorias em 2022, mas acabou não sendo suficiente para encerrar os desafios provocados pela safra ruim de 2021. Já a área de lúpulo cultivada nos Estados Unidos sofreu ligeira queda, enquanto a colheita na Europa foi a pior em décadas. Associado a isso, a BA aponta que o segmento também sofre com a concorrência de outras bebidas alcoólicas.

Diante disso, a associação estima que o número de aberturas de cervejarias nos Estados Unidos em 2023 será o menor em uma década. “2023 será um reinício para muitos cervejeiros, pois a indústria artesanal em amadurecimento continua a se tornar mais competitiva, enfrentando pressões comerciais internas e externamente o crescimento contínuo de novos concorrentes de bebidas alcoólicas”, afirma a BA em comunicado.

Especialistas também acreditam que o ano de 2022 deve ser o pico do número de cervejarias registradas nos Estados Unidos, um número que dificilmente voltará a ser alcançado. Assim, para 2023, espera-se que o número de fechamentos de cervejarias supere o de aberturas.

“Embora esses desafios sejam assustadores, os cervejeiros artesanais são conhecidos por sua inovação e flexibilidade, e precisarão de ambos à medida que evoluírem para atender a próxima geração de amantes da cerveja com novas cervejas e novas ocasiões”, diz Bart Watson, economista-chefe da BA.

Balcão da Fabiana: Concursos cervejeiros – São válidos para o mercado?

Balcão da Fabiana: Concursos cervejeiros – São ou não são válidos para o mercado?

No fim de outubro, fui juíza e mestre de cerimônias da festa de premiação do Brasil Beer Cup, realizado em Florianópolis. Com ele, completei a lista de quatro concursos para os quais fui convidada a participar como juíza somente em 2022: World Beer Cup, Brasil Beer Awards, South Beer Cup e Brasil Beer Cup. E estou me referindo apenas aos concursos dos quais participei. Se formos contabilizar quantas outras competições foram realizadas este ano, no Brasil e em países das Américas, Europa e Ásia, seguramente chegaremos a mais de duas dezenas delas.

Fico me perguntando se, para as cervejarias, é ou não produtivo participar de inúmeros concursos no mesmo ano. Afinal, não é barato enviar as amostras e a logística para o transporte das cervejas não é das mais fáceis.

O que motiva, além da possível premiação, uma cervejaria a participar deste ou daquele concurso?

Quais critérios têm feito as cervejarias optarem por concorrer em uma competição em detrimento de outra?

São perguntas que venho me fazendo e que muitas vezes chegam até a mim por parte de muitas cervejarias. Não tem sido incomum o relato de cervejeiros que não querem mais participar das competições. E os principais motivos alegados por eles são:

  1. Juízes pouco qualificados para avaliar e julgar;
  2. Juízes brasileiros são despreparados em relação aos estrangeiros (sim, ouvi isso e mais de uma vez);
  3. Medalhas não servem para nada;
  4. Cervejarias premiadas fazem lotes especiais de cervejas que nunca chegarão ao mercado, apenas para ganhar medalhas;
  5. “ Minha cerveja que mais vende não ganhou nenhuma medalha em tal concurso. Isso não pode ser normal” – já ouvi essa alegação inúmeras vezes vindas de diferentes fontes;
  6. Concursos no exterior são mais sérios do que os realizados no Brasil.

Curiosamente, nenhuma cervejaria reclama da falta de feedback sobre sua cerveja. Mas se o feedback é negativo, aí sim o cervejeiro reclama. Ou seja, a análise só é válida se favorece a cerveja? Fichas que apontem problemas não devem ser levadas a sério?

Estaríamos diante então de um comércio de medalhas?

Se a cervejaria ganha medalha em algum concurso, a competição é séria. Se não ganha, a competição não tem o nível que a cervejaria merece. Ao mesmo tempo, se a competição confere muitas medalhas, é taxada de “pagou, ganhou”.

Estamos diante de um impasse, isso é fato. Não fosse só o número elevado de concursos, alguns outros pontos merecem nossa reflexão:

O primeiro deles é que estamos testemunhando a extensão das polarizações provocadas por ideologias e posições políticas para os concursos. Já existem disputas entre um concurso e outro sobre quem tem direito a usar nome que batiza o certame, sobre estilos próprios, sobre quem tem postura ética para coordenar o certame, sobre quem tem maior número de inscrições e até para quem tem o melhor time de juízes (o que é irônico, porque vários juízes participam de todos).

Em minha opinião, esse juízo de valor – melhor e pior – entre profissionais cria uma divisão por castas pouquíssimo saudável. Não é interessante para qualquer mercado criar inimizades e contendas entre os vários agentes que nele atuam. Quem ganha com isso?

Outro ponto que me chama atenção é a discussão sobre o pagamento de salários a juízes de concursos cervejeiros. Devo dizer que, mesmo sofrendo no bolso muitos gastos com os quais arcamos ao aceitar ser juiz em uma competição, sou contra essa ideia. Não acho que a autonomia de um juiz possa ser mantida quando se estabelece uma relação de patrão/empregado. Sim, porque ao se pagar salário a um avaliador, fica estabelecida essa relação. Imaginem patrocinadores exigindo medalhas das organizações dos concursos sob alegação de que “pagam o salário do juiz”? Onde entra dinheiro, pagamento, abre-se porta para corrupção. Não se iludam que isso não acontece.

Não tenho muitas respostas para as questões que levantei neste artigo. Também não consigo prever quais concursos vão se consolidar e quais tendem a desaparecer. O que me parece é que estamos chegando a um ponto de saturação do mercado com tantas competições, o que pode levar a descredibilização das premiações alcançadas.

Mais uma vez estou eu, aqui, lançando celeumas. Mas o papel do jornalista é este, não é? Provocar reflexões. Fica aqui o meu convite para pensarmos juntos em mais essa questão do mercado cervejeiro.


Fabiana Arreguy é jornalista e beer sommelière formada em 2010, pela primeira turma Doemens no Brasil, através do Senac SP. Produz e apresenta, desde 2009, a coluna de rádio Pão e Cerveja, sendo editora de site com o mesmo nome e autora de livros. É curadora de conteúdo, consultora de cervejas especiais, proprietária da loja De Birra Armazém Cervejeiro, além de professora do Science of Beer Institute e do Senac MG, assim como juíza dos principais concursos cervejeiros brasileiros e internacionais.

Eureka alcança proximidade estratégica de polos cervejeiros em 2022

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Estar próxima das cervejarias é um objetivo comum para qualquer empresa fornecedora de insumos, em função de questões logísticas para conseguir atendê-las, se tornando uma vantagem competitiva. E foi exatamente isso que a Eureka conseguiu fazer em 2022, especialmente após a inauguração de um centro de distribuição em Juiz de Fora (MG), o que levou o seu CEO, Dario Occelli, a avaliar o ano como positivo.

Em 2022, a Eureka passou a contar com três centros de distribuição no Brasil, pois já estava instalada em Sorocaba (SP), onde fica a sua sede, e em Araquari (SC). E a presença em três dos quatro estados com mais cervejarias registradas no Brasil, além da proximidade do Rio de Janeiro, é estratégica, como destaca Occelli.

Leia também – Eventos em sequência pressionaram fornecedores da indústria cervejeira

“Conseguimos cumprir todo o nosso cronograma de planejamento de expansão de nossas atividades, principalmente com a inauguração de mais uma filial no estado de Minas Gerais. Assim, fortalecemos cada vez mais nossa presença nos principais polos cervejeiros do Brasil”, diz.

O CEO da Eureka também ressalta a volta dos eventos como outro aspecto positivo da atuação da sua empresa em 2022. “Após um longo período sem eventos devido à pandemia, em 2022 participamos novamente da Brasil Brau e ficamos extremamente satisfeitos com o resultado do evento”, afirma.

O ano de 2022, porém, não foi sem percalços, como reconhece o CEO da Eureka. Atuando diretamente com diversas cervejarias, Occelli aponta que muitos representantes do segmento precisaram lidar com passivos advindos dos piores momentos da pandemia do coronavírus.

“Para o setor cervejeiro, 2022 foi um ano bem complicado. Muitas cervejarias ainda estão tentando recuperar o tempo perdido durante a pandemia. Várias ainda têm passivos financeiros, mas notamos claramente sinais de recuperação. Podemos dizer que o pior já passou”, avalia.

Assim, acreditando que os momentos mais complicados já foram superados, o CEO da Eureka exibe otimismo para 2023. Ele acredita que o segmento de artesanais pode recuperar o ritmo visto nos anos anteriores à pandemia. E projeta que a sua empresa vai ter condições de acompanhar esse ritmo.

“Será um ano de muitos desafios, mas continuaremos com a mesma política de ter um crescimento gradativo e sustentável. Esperamos fechar o ano de 2023 com recordes de faturamento históricos na empresa”, conclui o CEO da Eureka.

Artigo: Pesquisadores escrevem novo capítulo da história da levedura Lager

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*Por Luciana Brandão

Um artigo recente publicado em novembro de 2022 na revista FEMS Yeast Research relata pela primeira vez a descoberta por cientistas europeus da espécie ancestral da levedura Lager, Saccharomyces pastorianus, responsável por mais de 90% da produção mundial de cerveja.

Mas antes de te contar sobre essa descoberta, vamos de histórias científicas para entender como tudo isso começou.

Um pouco de ciência um pouco de história
Desde 1980, sabe-se da natureza híbrida da levedura Lager, ao contrário da espécie S. cerevisiae, considerada pura. Um organismo híbrido é aquele formado pelo cruzamento de dois progenitores diferentes, ou seja, possui parte do DNA (genoma) de um e parte do DNA do outro. No caso da levedura cervejeira, embora um dos progenitores da linhagem Lager tenha sido identificado como uma S. cerevisiae, a levedura Ale, o outro progenitor, permaneceu por alguns anos indefinido.

Leia também – Artigo: Como leveduras cervejeiras sobreviveram 120 anos em um navio

Foi somente em 2011, que essa espécie perdida foi primeiramente descoberta pelos nossos hermanos argentinos (Libkind et al., 2011), isolada dos bosques preservados de Nothofagus da Patagônia Argentina. Na ocasião, os cientistas identificaram vários isolados de uma nova espécie de levedura, que foi taxonomicamente nomeada de Saccharomyces eubayanus. Na pesquisa, os genomas dessa espécie e o subgenoma não cerevisiae de S. pastorianus tiveram 99,56% de identidade, demonstrando que a espécie S. eubayanus era o progenitor perdido da levedura lager S. pastorianus.

Até aí tudo bem. Um dos mistérios havia sido resolvido. A descoberta de uma das espécies parentais da levedura Lager. Mas, ainda havia um outro mistério pairando no ar. Como uma levedura poderia ter viajado e atravessado mais de 10.000km de distância entre a Argentina e o local onde possivelmente ocorreu a formação do híbrido pastorianus e consequentemente a produção das cervejas Lagers da Europa?

Novas pesquisas, novas descobertas
A busca por novas linhagens de S. eubayanus e a relevância dessas descobertas para a fabricação de cerveja motivaram pesquisadores de várias partes do mundo a investigarem ainda mais a distribuição geográfica dessa levedura em diferentes localidades.

A partir de 2014, novas linhagens desta espécie foram encontradas na China, Tibete, América do Norte e Nova Zelândia. Os estudos da genômica completa desses isolados mostraram que apesar da linhagem encontrada na Patagônia Argentina ser a mais diversa e abundante do globo, ela não é a que possui maior identidade com a levedura Lager e sim a linhagem tibetana com 99,82% do seu genoma correspondente com o subgenoma não Ale de S. pastorianus.

Mas o mistério ainda permanecia, pois a linhagem tibetana estava a 7.000km de distância da região original da cerveja Lager.

Enfim uma S. eubayanus europeia
Em 2022, mais um capítulo começa a ser escrito sobre a misteriosa história da levedura Lager no planeta. A ciência é algo incrível. E, enquanto mistérios não são desvendados, pesquisadores não se cansam de buscar respostas.

Embora os registros mostrem que o primeiro uso de S. pastorianus foi em cervejarias no sul da Alemanha, S. eubayanus nunca havia sido encontrado na Europa. Havia indícios, mas faltavam provas.

Foi então que pesquisadores da University College Dublin, na Irlanda, isolaram duas linhagens diferentes de S. eubayanus, dentre 100 outras espécies coletadas de amostras de solo provenientes do campus da universidade, como parte de seus projetos de pesquisa de graduação.

A descoberta de S. eubayanus na Irlanda mostra que esta levedura é nativa da Europa e parece provável que ainda existam mais isolados em outras partes do continente.

Ainda insatisfeitos, os cientistas decidiram aprofundar mais nas pesquisas e investigar um outro mistério. Qual das duas linhagens isoladas por eles seria o ancestral vivo mais próximo da levedura Lager? Mas infelizmente, pelo menos para os Irlandeses, e por obra da natureza, as pesquisas mostraram que, embora os isolados irlandeses estejam separados da Europa por apenas 1.300km de onde os isolados híbridos da levedura Lager ocorreram, as novas linhagens europeias não compartilham altos índices de ancestralidade, portanto não podem reivindicar ainda o posto de parentes mais próximos do subgenoma não cerevisiae de S. pastorianus.

Além disso, os isolados irlandeses crescem mal na presença de maltose e maltotriose, dois açúcares importantes na produção do mosto cervejeiro.

Sendo assim, o mistério ainda está para ser resolvido. Nenhuma das linhagens isoladas até o momento foi considerada o ancestral direto do progenitor da levedura Lager, muito provavelmente devido aos múltiplos eventos de hibridização ocorridos. E para concluir essa parte da história, a única coisa que podemos afirmar é que certamente os isolados que compartilham mais semelhança e ancestralidade com S. pastorianus ainda não foram encontrados na Europa, no Tibete e em lugar algum.

A busca pelo elo perdido continua. Só nos resta aguardar as cenas dos próximos capítulos do grande mistério da levedura Lager no planeta.


Referências bibliográficas:
Bergin et al., 2022. Identification of European isolates of the lager yeast parent Saccharomyces eubayanus. FEMS Yeast Research, Volume 22, Issue 1, https://doi.org/10.1093/femsyr/foac053

José Paulo Sampaio, 2022. Saccharomyces eubayanus—a tale of endless mysteries. FEMS Yeast Research, Volume 22, Issue 1, https://doi.org/10.1093/femsyr/foac058


Luciana Brandão é pós-doutorada em Microbiologia pela UFMG, cervejeira caseira, sommelière de cervejas, co-fundadora e CEO do Laboratório da Cerveja, empresa de biotecnologia e soluções em processos cervejeiros

Texto originalmente publicado no site do Laboratório da Cerveja

“Nespresso” da cerveja permite impressão no chope e escolha de lúpulos

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A produção de café em cápsulas se tornou uma febre global há alguns anos através da Nespresso e, aos poucos, possibilidades semelhantes vêm chegando ao mercado da cerveja, oferecendo ao consumidor a chance de customizar a sua própria bebida, sem precisar ser um especialista em sua fabricação.

Uma das novidades que está sendo preparada para lançamento no mercado permite ao cliente escolher o lúpulo e personalizar a cerveja. É o Espresso Dry Hopping, desenvolvido pelo Bev Hack Lab, que tem inspiração nas cafeterias, podendo ser utilizado nos bares ou mesmo nas residências.

Leia também – Com soluções sensoriais, FlavorActiV ajuda a avaliar sabor e aroma das cervejas

Se trata de um dispositivo que permite ao consumidor solicitar ou mesmo selecionar o lúpulo que mais agrada seu paladar e ter o seu chope customizado com a adição na hora desse ingrediente. A solução pode ser, inclusive, acoplada em qualquer chopeira caseira padrão.

O projeto está em fase final de testes, com a patente já submetida, mas ainda não tem data para lançamento pelo Bev Hack Lab, braço do Centro de Inovação Tecnológica da Ambev, com foco na inovação e 100% experimental.

Impressão no chope
Também seguindo a lógica do Nespresso, começam a se popularizar no mercado máquinas que preparam bebidas personalizadas em questão de segundos e, inclusive, imprimem mensagens e imagens específicas nelas.

Na Espanha, isso vem sendo feito com a Ripple Maker II Pro, que acrescenta o desenho desejado à espuma da bebida. As ilustrações podem ser fotografias, desenhos e letras, com uma grande variedade de tonalidades. Isso é conseguido com o uso de cápsulas, que têm o mesmo design dos cartuchos de tinta clássicos integrados às impressoras. Pela tela principal, o usuário pode escolher a imagem que deseja colocar em cima de sua cerveja.

A tinta é comestível e tem base de extrato de repolho sem sabor, para aplicar os padrões de cores sem risco à saúde e sem alterar o sabor da bebida. E ela se ajusta ao pH do líquido. Além disso, leva apenas dez segundos para a conclusão da impressão.

Bar em casa
Já para quem quer tirar a cerveja da chopeira em casa como se faz no bar, a Ambev trouxe para o Brasil a PerfectDraft. Essa chopeira tem capacidade para até 6 litros e conta com a tecnologia Smart Pour, que permite servir da forma ideal a cada tirada, com a quantidade de espuma desejada pelo consumidor.

Com o aplicativo conectado à chopeira, é possível controlar a temperatura da cerveja, monitorar a espuma e frescor do barril, acessar os serviços da PerfectDraft, incluindo o suporte, e receber notificações quando a temperatura desejada for alcançada ou quando o barril estiver acabando – a máquina possui um indicador LED que mostra a quantidade de cerveja restante.

É possível adquirir os barris das marcas Stella Artois, Colorado Ribeirão, Budweiser, Patagonia Weisse, Patagonia Amber e Goose Island com a tecnologia.

“Uma das nossas missões é conseguir desenvolver soluções inteligentes que impactem a experiência dos nossos consumidores com as nossas marcas. A Inovação tem sido uma grande aliada nessa jornada e, no caso da PerfectDraft, não poderia ser diferente. Pensamos em trazer não só um produto que oferecesse uma experiência completa dentro de casa, mas que também promovesse a conexão entre as pessoas”, afirma Gustavo Castro, diretor de inovação da Ambev.

Balcão Beersenses: São Nicolau e a Lager mais potente do mundo

Rodrigo Sena Beersenses

Balcão Beersenses: São Nicolau e a Lager mais potente do mundo

O objetivo desse texto de fim de ano é contar uma linda história natalina. Mas essa não é uma história qualquer, é uma tremenda história, com fatos que aconteceram em diferentes partes do mundo, em diferentes épocas, e que foram unidos pela cerveja – ah, sempre a cerveja para unir histórias e deixar nossa vida melhor!

Vou começar com a história de Nicolau, que viveu no século IV na cidade portuária de Myra, que naquela época pertencia à Grécia, mas hoje é a cidade de Demre, na Turquia. Diz a história que ele nasceu em uma família muito rica e que depois da morte de seus pais se desapegou de tudo, dando dinheiro e assistência aos pobres, principalmente às crianças.

Em uma de suas boas ações, Nicolau evitou que um pai falido enviasse suas três filhas crianças à prostituição, jogando três sacos de moedas de ouro pela chaminé da casa da família. Os sacos caíram em cima das meias das moças, que estavam secando à beira da lareira.

Logo as histórias de bondade de Nicolau ganharam fama e cruzaram fronteiras. Por toda a Europa, os relatos sobre Nicolau começaram a ganhar forma de lenda, até que a Igreja Católica o canonizou, e ele se tornou São Nicolau.

Bom, o resto da história vocês já conhecem: São Nicolau virou base para a criação da imagem do Papai Noel, que recompensava crianças bondosas com sacos de presentes jogados pelas chaminés das casas. A figura do Papai Noel, inclusive, se parece muito fisicamente com a aparência de São Nicolau.

A cerveja e São Nicolau
Agora você pensa: mas e o que isso tem a ver com cerveja? Então vamos já ao link entre os dois mundos: em 1979, Albert Hürlimann, mestre-cervejeiro e grande referência mundial no estudo de leveduras, criou na sua cervejaria na Suíça, a receita de uma Lager potente, baseada nas Doppelbocks alemãs, mas com um processo de fermentação diferenciado, mais longo, por 10 meses, e deixando a cerveja mais seca do que as primas alemãs.

Essa cerveja chegou a incríveis 14% de álcool por volume (ABV), sendo conhecida como a Lager mais forte do mundo. Hürlimann produziu a cerveja no dia 6 de dezembro de 1979, dia de São Nicolau, e batizou sua criação de Samichlaus, que significa São Nicolau em um dialeto suíço-alemão.

A Samichlaus
Por 17 anos, a cervejaria Hürlimann produziu a Samichlaus somente no dia 6 de dezembro, tornando não só a cerveja rara por ser apenas feita uma vez por ano, mas também uma tradição natalina. Até que, em 1997, a cervejaria faliu. Por 3 anos a Samichlaus deixou de ser produzida.

Foi quando na virada do milênio, a Pivovar Eggenberg, uma histórica cervejaria da cidade de Graz, nos Alpes Austríacos, assumiu a receita da Samichlaus e retomou as brassagens conforme a tradição, sendo feita apenas no dia 6 de dezembro.

As origens da Eggenberg
Aqui vale a pena um parêntese para falar da rica história da Pivovar Eggenberg. É uma trajetória cheia de mudanças, altos e baixos, que remonta ao século XIV, quando a família Rosenberg produzia cervejas no castelo de Český Krumlov, na República Checa. Em 1625, os Rosenberg transferiram a produção para o castelo nos Alpes na Áustria e, em 1628, Hans Ulrich von Eggenberg assumiu a cervejaria, dentro do Castelo que ganhou o nome da família: Schloss Eggenberg.

Em 1717, com a morte do último representante masculino da família Eggenberg, aos 13 anos de idade, a família Schwarzenberg passou a controlar a cervejaria, mas manteve o nome, até em função do castelo onde estava localizada. É aí que começa a história de sucesso da empresa. A produção aumentou muito, chegando a 350 mil litros no final do século XIX.

Hasta la vista, baby!
Aliás, enquanto eu fazia minha pesquisa para esse texto, descobri que a cidade de Graz, que abriga a Pivovar Eggenber, é também a cidade onde nasceu o ator e político Arnold Schwarzenegger, famoso por interpretar o Exterminador do Futuro nas telas dos cinemas. Isso foi só uma curiosidade mesmo, nada a ver com a cerveja!

O encontro da Samichlaus e da Eggenberg
A cervejaria Eggenberg se especializou em produzir Lagers potentes. Por isso, a tradicional receita da Samichlaus caiu como uma luva para eles. Mas para conseguir reproduzir fielmente a mesma receita, a Eggenberg contou com a colaboração inicial dos cervejeiros da Hürlimann. Com isso, o rótulo passou a se chamar Samichlaus Classic, com o perfil sensorial igual ao da original, com uma explosão de notas sensoriais, que lembram geleias de frutas vermelhas, frutas pretas, mel e condimentos.

Com sua expertise em Lagers potentes, a Eggenberg criou uma segunda versão da Samichlaus, envelhecida em barris de carvalho, que anteriormente maturaram uísque e foram feitos com madeira da floresta de Wienerwald, que fica nos arredores de Viena. Essa é a Samichlaus Barrique, com os mesmos 14% ABV, mas com um perfil sensorial diferente da original, ganhando notas de baunilha, mais amadeiradas, vindas dos barris e do uísque.

Preciso ressaltar que, tecnicamente, não é nada fácil produzir Lagers potentes e complexas, como a Samichlaus. Produzir uma boa Lager requer muito mais rigidez no processo, maior disciplina e controle de qualidade. Não que para produzir Ales isso também não seja necessário, claro que é sim, mas é que se houver uma falha, por menor que seja, ela ficará muito clara e evidente em uma Lager, enquanto uma Ale pode às vezes encobrir pequenos “deslizes” da produção.

Outro fator que observo é a variedade de Lagers que a cervejaria produz. Muita gente pensa que Lager é um estilo, mas não é. Lager é uma família que contém diversos estilos.

Bom, eu espero que você tenha aproveitado essa inusitada história. Agora me dá licença que vou escrever minha cartinha para São Nicolau pedindo minha Samichlaus.


Rodrigo Sena, jornalista, sommelier de cervejas especializado em harmonizações, técnico cervejeiro, criador de conteúdo para o YouTube e o Instagram @beersenses.

Carlsberg compra cervejaria no Canadá e terá sua 1ª fábrica nas Américas

O Grupo Carlsberg terá produção própria na América do Norte, mais especificamente no Canadá. A companhia de origem dinamarquesa vai dar esse passo expansionista com a aquisição da Waterloo Brewing, através da compra de todas as ações ordinárias emitidas e em circulação da cervejaria da província de Ontario, no Canadá.

Na transação, a Carlsberg vai pagar 4 dólares canadenses (cerca de R$ 15,3, na cotação atual) por ação ou um valor patrimonial total de aproximadamente 144 milhões de dólares canadenses (R$ 550,6 milhões) no total, incluindo opções.

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Com a aquisição, a Carlsberg espera fortalecer a posição de mercado do grupo no Canadá, a partir da produção local. Além disso, acredita que poderá aproveitar a sinergia com as marcas da Waterloo. A avaliação do grupo é de que o portfólio internacional de cervejas e sidras da Carlsberg complementa o portfólio de cervejas locais e bebidas prontas da Waterloo.

Um dos maiores grupos cervejeiros do mundo, a Carlsberg ainda não contava com uma fábrica própria nas Américas, tendo sua atividade concentrada na Europa e na Ásia.  

“Uma das prioridades de nossa estratégia SAIL’27 é expandir nossos negócios em mercados atraentes onde somos pequenos hoje, como o Canadá. A aquisição da Waterloo Brewing melhora significativamente nossas perspectivas de crescimento no mercado canadense”, afirma o CEO do Grupo Carlsberg, Cees ‘t Hart.

Com a aquisição, a unidade produtiva da Waterloo na cidade de Kitchener, que já fabricava a sidra Somersby, da Carlsberg, desde 2020, também passará a fazer as bebidas de outras marcas do grupo.

A Carlsberg também aproveitou um momento de desvalorização da Waterloo para fechar essa aquisição. A ação da cervejaria canadense perdeu mais da metade do valor ao longo dos últimos 18 meses – chegou a estar cotada a 7,88 dólares canadenses e valia 3,55 dólares canadenses na véspera da negociação.

A Waterloo Brewing é a maior cervejaria de origem canadense na província de Ontario. Ela foi fundada em 1984 por Jim Brickman como Brick Brewing, sendo a primeira marca artesanal da região e, até por isso, considerada pioneira nesse movimento no Canadá.

Em 2019, a empresa mudou seu nome para Waterloo Brewing para se alinhar com as marcas Waterloo. Além disso, fabrica e comercializa sua popular marca Laker. Em 2011, a Waterloo comprou os direitos canadenses da Seagram Coolers e, em 2015, garantiu os direitos canadenses de LandShark e da Margaritaville .

“Desfrutamos de um relacionamento próximo com a Carlsberg e estamos entusiasmados por nos tornarmos parte de uma das maiores empresas cervejeiras do mundo. A Waterloo Brewing se encaixa perfeitamente na cultura forte e voltada para o propósito da Carlsberg, e nosso conselho de administração está confiante de que ingressar na Carlsberg é a melhor solução de longo prazo para nossos funcionários, parceiros, clientes, consumidores e comunidade”, diz George Croft, presidente e CEO da Waterloo.  

A expectativa é de que a transação seja concluída durante o primeiro semestre de 2023. “Essa excelente oportunidade ampliará nossos negócios no Canadá. Os portfólios de marcas são complementares. O fornecimento local garantirá a robustez do fornecimento a longo prazo e aumentará a flexibilidade comercial e a velocidade de lançamento de inovações no mercado, mudando radicalmente a maneira como operamos”, conclui o diretor-gerente da Carlsberg Canadá, Anders Rud Jørgensen.

Balcão do Profano Graal: As consequência da lei seca nos Estados Unidos

Balcão do Profano Graal: A lei seca nos Estados Unidos – As consequências do nobre experimento

Salve nobres,

No dia 5 de dezembro de 1933, o Congresso dos Estados Unidos da América aprovou a 21ª Emenda da Constituição norte-americana. Essa emenda revogava a 18ª Emenda, aprovada 13 anos antes e que ficou mais conhecida na história como a Lei Seca (1920-1933).

A Lei Seca proibia “o fabrico, venda ou transporte de licores embriagantes dentro dos Estados Unidos e de todos os territórios submetidos à sua jurisdição, bem como a sua importação para os mesmos”. Foi ratificada por 36 dos então 48 Estados norte-americanos em janeiro de 1919, com previsão de entrada em vigor um ano depois.

Foi fruto de uma grande campanha contra o consumo de bebidas alcóolicas, impulsionada por grupos religiosos (especialmente metodistas, batistas e luteranos). Ao lado de argumentos morais e religiosos, o consumo excessivo de bebidas alcóolicas, principalmente de destilados, era considerado prejudicial à saúde física e psicológica, estando relacionado a problemas de violência doméstica e perda de produtividade no trabalho. Os movimentos pró-temperança tiveram início ainda no final do século XVIII nos Estados Unidos, mas ganharam força no final do século XIX. E os seus ativistas se dividiam entre aqueles que defendiam uma moderação do consumo e aqueles que defendiam a sua proibição completa.

Quando foi ratificada a 18ª Emenda, 33 dos 48 estados americanos já estavam “secos”. Ou seja, já possuíam leis estaduais que reduziam em algum nível (ou até mesmo baniam completamente) o consumo de álcool. A Lei Seca veio só ratificar essa situação. Na prática, a 18ª Emenda, Junto com a Lei Volstead (batizada com o nome do congressista pró-temperança Andrew Volstead), que definia bebidas alcóolicas como todas aquelas com mais de 0,5% ABV, colocou na ilegalidade de uma hora para outra a quinta maior indústria do país.

Porém, depois de 13 anos, ficou claro às autoridades norte-americanas que o “nobre experimento”, como o definiu o Presidente Herbert Hoover (1929-1933), não havia dado os resultados esperados. A primeira dificuldade encontrada foi a sua fiscalização em todo o território nacional. O pequeno efetivo não conseguiu impedir o contrabando de bebidas, facilitado, ainda, pela conivência de agentes públicos de segurança, o que levou ao aumento da criminalidade. O mercado de bebidas contrabandeadas enriqueceu mafiosos. E seu controle era alvo de uma disputa entre grupos de gangsters que ficou marcada por confrontos violentos e assassinatos.

O álcool contrabandeado era vendido em bares clandestinos, que se multiplicaram. Os famosos Speakeasy (“falem baixo”, em tradução literal), que funcionavam no porão ou nos fundos de outros estabelecimentos de fachada e também eram controlados, muitas vezes, por mafiosos. Um agente da Lei Seca calculou que em 1926 havia 100.000 deles apenas em Nova York, contando com autoridades locais entre os seus clientes regulares. Assim, Al Capone (1899-1947), o mais famoso dos gangsters, tinha razão ao afirmar certa vez: “Eu dou ao público o que o público pede”.

Além disso, a lei continha uma série de exceções e isenções que foram aproveitadas por todos aqueles que pretendiam burlar a lei. Permitia, por exemplo, a fabricação e venda de alcoólicos para outros fins que não bebidas, como o seu uso em pesquisas científicas; o consumo de álcool sob prescrição médica; e também a fabricação caseira de até 200 galões por ano.

A Era da Proibição teve grande impacto sobre a indústria de bebidas. Segundo Silvia Limberger, das 1568 cervejarias existentes em 1910, apenas 756 voltaram à atividade em 1934. E Tiago Gomes da Silva afirma que o número de destilarias foi reduzido em 85%. Apesar disso, a Lei Seca acabou tendo o efeito oposto ao que os defensores da temperança pretendiam. Segundo Pete Brown, antes da Lei Seca, havia uma tendência constante de mudança do consumo de bebidas alcoólicas em direção à cerveja. Porém, como cerveja era muito mais difícil de produzir ilegalmente do que o gim, durante a proibição os destilados passaram a representar 75% de todo o álcool consumido nos Estados Unidos.

A partir de 1929, fatores como o aumento da violência entre gangsters e os gastos públicos para se tentar fazer cumprir a lei, impulsionaram a discussão sobre a possibilidade de revogar a 18ª Emenda. A pá de cal sobre os argumentos econômicos a favor da Lei Seca foi a Quebra da Bolsa de Nova York em outubro de 1929, que jogou os Estados Unidos no período conhecido como a Grande Depressão. Os argumentos econômicos então viraram a favor da legalização da bebida, que geraria mais empregos, movimentaria a economia e aumentaria a arrecadação de impostos. Em 1932, Franklin Roosevelt (1933-1945) concorreu à presidência com uma plataforma de revogação da proibição, vencendo a eleição em 42 dos 48 Estados e obtendo 57,4% do total de votos.

Se você já assistiu a alguma aula sobre história da cerveja, deve ter ouvido falar que a Lei Seca dos Estados Unidos foi a responsável pela disseminação das American Lagers. O argumento, repetido por Pete Brown entre outros, é o de que “uma geração que não conhecia nada além de refrigerantes rejeitou o amargor das cervejas de estilo bávaro, populares nos Estados Unidos antes da Lei Seca, exigindo algo mais doce”. Mas a Lei Seca só poderia ter impactado significativamente sobre os paladares norte-americanos se, de fato, tivesse acontecido uma drástica redução no consumo de bebidas alcóolicas, o que não parece ter sido o caso, pelo que vimos acima. Quem tinha o hábito de consumir bebidas alcóolicas antes de 1920, deu seu jeito para continuar consumindo durante os 13 anos seguintes. E mesmo quem não ainda tinha idade para consumir bebidas alcóolicas em 1920 não parece ter tido dificuldades para conseguir um destilado ilegal durante a vigência da proibição. Principalmente se os seus pais fossem adeptos de um golinho.

Os motivos para o domínio do mercado pelas American Lagers deve ser procurado em outro lugar. O cenário de crise econômica da Grande Depressão, obrigou as cervejarias sobreviventes à proibição a apostar na produção de cervejas mais baratas de se produzir e mais fáceis de se vender. Portanto, cervejas mais leves, que alcançassem um público maior. Enquanto a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) desestruturou a produção de insumos e destruiu cervejarias na Europa, jogando o Velho Continente também em um cenário de crise econômica, o que ajudou as American Lagers a dominarem o mercado de cervejas também do outro lado do Atlântico.

Para terminar com uma curiosidade interessante: movimentos “pró-temperança” existiram também no Brasil, na virada do século XIX para o XX.  Mas, como explica Teresa Cristina de Novaes Marques, aqui a cerveja foi tratada pelos defensores da temperança como um mal menor, diante de bebidas destiladas de maior teor alcóolico, como a cachaça. Dessa forma, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, aqui os movimentos pró-temperança podem ter colaborado para fazer da cerveja a bebida preferida dos brasileiros. 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BROWN, Pete. Prohibition. In: OLIVER, Garret (org.). The Oxford Companion to Beer. Oxford Universitary Press: New York, 2012, p. 864-870.

DOMINGUES, Joelza Ester. Revogação da Lei Seca nos Estados Unidos. Ensinar História. Disponível em:  Revogação da Lei Seca nos Estados Unidos (ensinarhistoria.com.br)

HARFORD, Tim. Por que a Lei Seca, que faz 100 anos, foi um fracasso retumbante nos EUA. BBC News Brasil. 17 de janeiro de 2020. Disponível em: Por que a Lei Seca, que faz 100 anos, foi um fracasso retumbante nos EUA – BBC News Brasil

Lei Seca nos Estados Unidos. Wikipedia – a Enciclopédia Livre. Disponível em: Lei Seca nos Estados Unidos – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

LIMBERGER, Silvia Cristina. Estudo geoeconômico do setor cervejeiros no Brasil: estruturas oligopólicas e empresas marginais. Tese de doutorado. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2016.

MARQUES, Teresa Cristina de Novaes. Cerveja e Aguardente sob o foco da temperança no Brasil, no início do século XX. Revista Eletrônica de História do Brasil. v.9, n.1, jan-jul 2007, p. 48-70. SILVA, Tiago Gomes da. Lei Seca, Institucionalismo e Federalismo. Anais do XVII Encontro de História da Anpuh-Rio – Entre o Local e o Global. Rio de Janeiro, 2016.


Sérgio Barra é carioca, historiador, sommelier e administra o perfil Profano Graal no Instagram e no Facebook, onde debate a cerveja e a História.