A relação entre cerveja e Páscoa é tão antiga que, dizem, foi Matusalém que fez o primeiro pão líquido da Quaresma. E isso enquanto ainda era jovem! Brincadeiras à parte, é fato comprovado que nossa querida bebida fez parte da vida nos mosteiros cristãos desde pelo menos a Idade Média, o que criou uma ligação bastante longeva com a religião cristã, suas datas e rituais.
Para os monges, mais do que apenas algo para beber, a cerveja era um alimento essencial do dia a dia e imprescindível na Quaresma. Nesse período, eles produziam e consumiam uma cerveja feita com ainda mais malte, resultando num suplemento proteico que compensava, pelo menos em parte, a alimentação regular e a falta da carne para os não vegetarianos.
Ela também ficava mais alcoólica — uma consequência que não era o objetivo final, mas também não era um problema. Já reparou que nas pinturas os frades estão sempre sorrindo?
Hoje em dia a relação vai além da questão religiosa. Ela está no potencial gigantesco de harmonização da bebida com o chocolate e pode ser também algo a se explorar com os pratos típicos, como bacalhau e cordeiro. E há também, claro, cervejas mais pascoais que outras. Existem rótulos com maltes torrados que naturalmente lembram chocolate, outros com cacau ou chocolate de fato na receita e até aqueles feitos para simular sobremesas, que são uma ótima pedida para essa época.
Selecionamos, portanto, seis experiências para você vivenciar em casa e curtir a Páscoa sob uma nova perspectiva cervejeira. Talvez as sugestões sirvam como inspiração para você se divertir com mais essa brincadeira no feriado.
Cervejas “de Quaresma”
A tradição de produzir cervejas especificamente para o jejum da Quaresma foi algo muito comum em mosteiros na Europa medieval. No entanto, foi especificamente no mosteiro de São Francisco de Paula de Munique, capital da Baviera, região Sul da atual Alemanha, que ela se transformou em uma cerveja reconhecível até hoje.
O local pertencia à Ordem dos Mínimos. Os monges eram conhecidos como paulinos. Lá, pelo menos desde 1634, é produzida a cerveja Paulaner. Filha da Quaresma, a Paulaner Salvator é considerada a primeira Doppelbock do mundo. E o estilo que ela fundou é a ligação mais próxima com a cerveja dessa tradição.
Com 7,9% de álcool, trata-se de uma cerveja encorpada e aquecedora – por isso muito procurada no inverno, mas faz um bom papel nos dias mais frios de outono também. Os aromas e sabores são maltados, lembrando tostado, castanhas e caramelo. Vale a pena!
Aromas e sabores que lembram chocolate
Páscoa lembra chocolate. E ele e cerveja têm mais semelhanças do que você imagina. Para fazer o doce, a amêndoa do cacau é fermentada, processo pelo qual também passa a cerveja. Depois, as sementes do cacaueiro são processadas, passando por uma etapa de torra – o que também acontece com os maltes das cervejas escuras. E isso faz com que muitas cervejas acabem tendo aromas e sabores que remetem ao chocolate naturalmente.
Portanto, estilos como Munique Dunkel, Schwarzbier, Porters e Stouts podem trazer essa característica sem que seja necessária a adição de qualquer ingrediente extra. Prove a Therezópolis Ebenholz, Dunkel da cervejaria da cidade homônima da Serra Fluminense, que remete ao chocolate ao leite, ou a Dama Bier Stout, uma Export Stout premiada, que traz notas de chocolate meio-amargo.
Cervejas com cacau ou chocolate
As Chocolate or Cocoa Beers são outra maneira de aproveitar a Páscoa cervejeira. Elas levam de fato adições de cacau ou chocolate na receita. Aqui vale ressaltar que é muito mais comum o uso do cacau, já que o chocolate pronto também traz gordura, o que prejudica a estabilidade da cerveja e sua espuma.
Para servir como base para o ingrediente, vale qualquer estilo de cerveja. Há aquelas que utilizam bases com maltes torrados, que têm as notas semelhantes ao chocolate reforçadas pelo cacau. É o caso da Baden Baden Língua de Gato, feita em parceria com a marca de chocolates Kopenhagen e recém-lançada pelo Grupo Heineken. Trata-se de uma releitura da antiga Baden Baden Chocolate, que foi descontinuada, mas deixou muita gente com saudades. Ela levava cacau e baunilha.
O segundo caso é o da Cacau IPA da cervejaria Bodebrown, de Curitiba (PR). Ela mistura os aromas cítricos e frutados dos lúpulos norte-americanos e o alto amargor típico do estilo com notas de cacau de Ilhéus (BA).
Simulando uma sobremesa
Mesmo que não necessariamente tenham cacau, Pastry Beers podem ser ótimas para essa época do ano. São cervejas feitas para simular sobremesas. As Pastry Stouts são as mais comuns, normalmente feitas com uma base Imperial Stout doce ou adicionadas de lactose, sendo complementadas com outros ingredientes conforme o caso.
A Captain Brew, de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, tem uma cerveja especialmente feita para essa época do ano. A Pascoadélica, uma Pastry Stout de 14,5%, é produzida em edições anuais. A versão 2025 leva cacau belga e da Bahia, avelãs torradas, baunilha Madagascar e café.
A Salted Caramel Peanut Cake, da Cervejaria 5 Elementos, de Fortaleza (CE), também é muito boa. É uma Pastry Stout com amendoim, cacau, baunilha, caramelo e sal do Himalaia. A cerveja lembra algo entre paçoca e caramelo salgado.
O caminho mais fácil da harmonização com chocolate
Harmonizar é combinar os sabores da cerveja com alimentos de modo que eles interajam, que se transformem mutuamente e assim fiquem mais gostosos juntos do que separados. E a combinação com chocolate é uma das mais saborosas e surpreendentes.
A forma mais fácil é aproveitar as cervejas de malte torrado já mencionadas justamente por lembrarem naturalmente o doce. Ao combinar, essas notas achocolatadas são enfatizadas. E para quem é chocólatra, quanto mais chocolate, melhor!
Para escolher o melhor rótulo e o doce mais adequado, há uma regrinha de ouro: quanto mais dulçor tiver o chocolate, mais amargor de maltes torrados deve ter a bebida para contrastá-lo. Pode parecer contraintuitivo, mas o objetivo aqui é buscar o equilíbrio para que não fique muito enjoativo ou sem graça. Assim, em geral, chocolates ao leite combinam bem com Extra Stouts (Dama Bier Stout), que são mais amargas, e aqueles de maior percentual de cacau combinam melhor com uma Munique Dunkel (Therezópolis Ebenholz), por exemplo
Essa é a fórmula básica. Mas dá para ir além, procurando aromas e sabores complementares, que fiquem bem junto com o chocolate e a cerveja. Ao inserir um chocolate com frutas vermelhas junto com a bebida, é possível conseguir algo como um bolo floresta negra. Se o doce tiver castanhas, elas vão ser ressaltadas na combinação.
Com pratos típicos de Páscoa, invista na Bélgica
O mesmo pode ser feito com os pratos típicos da época. E para a Páscoa, uma boa ideia é recorrer à tradição das cervejas belgas.
A bacalhoada, por exemplo, fica bem com uma Belgian Tripel, como a da Leopoldina – além de ficar linda na mesa por conta da garrafa de espumante de 750 ml! Diferente do que muita gente pensa, o bacalhau em si é um peixe magro. Mas o prato fica bem gordo se considerarmos a quantidade de azeite. Essa cerveja tem álcool suficiente para equilibrar a untuosidade e notas condimentadas que enfatizam os temperos.
Para um carré de cordeiro, carne também comum na Páscoa, invista numa Belgian Blond Ale, como a Leffe Blond. O álcool dessa cerveja de abadia é suficiente para equilibrar a gordura e os aromas e sabores, frutados, florais e condimentados, podem impulsionar molhos típicos à base de hortelã, mostarda ou um bom tzatziki (iogurte e pepino).
Para sobremesas à base de chocolate, valem os mesmos conselhos do chocolate em si. No entanto, uma boa Belgian Dubbel, como a Brugse Zot Dubbel, traz notas frutadas, como ameixas e uvas-passas, que complementam e trazem complexidade a uma boa mousse de chocolate.
Diante de tantas opções, a melhor escolha depende do seu gosto. Qual a sua preferida?


