Nesta sexta-feira, 5 de junho, é o Dia da Cerveja Brasileira. Não é uma data oficial, daquelas formalizadas em lei. Mas já faz 14 anos que um grupo de blogueiros de cerveja (no qual eu estava incluído) fez a proposta da comemoração para exaltar a produção nacional. Era 2012, o mercado cervejeiro estava começando a acelerar o passo no crescimento e a ideia pegou, gerando celebrações por todo o país depois disso.
Muita água passou por debaixo dessa ponte desde então. E agora em 2026, pela primeira vez na história, o Concurso Brasileiro de Cervejas (CBC) de Blumenau (SC) — a mais tradicional competição do Brasil — condecorou três cervejas de estilos nacionais como as três melhores da competição. Ou seja, o país desenvolveu e está consolidando não apenas um, mas alguns tipos de cerveja diferentes.
Nada melhor, então, do que celebrar o Dia da Cerveja Brasileira com rótulos autenticamente nacionais. Separamos algumas sugestões para você conhecer mais sobre esses estilos brasileiros e levantar um brinde à produção nacional, aos profissionais envolvidos e a todo o mercado.
As origens do Dia da Cerveja Brasileira
O Dia da Cerveja Brasileira foi criado pelos Blogueiros Brasileiros de Cerveja (BBC) para homenagear o catarinense Rupprecht Loeffler, o mestre cervejeiro mais antigo do país em atividade até sua morte, em 2011. O dia escolhido, 5 de junho, era seu aniversário.
O movimento também buscou educar o público para o consumo de marcas locais, desmistificar a produção independente e criar uma vitrine de visibilidade política e econômica voltada às demandas das microcervejarias. Assim, a data nasceu como um manifesto em defesa da cultura brasileira da cervejeira, incentivando o público a valorizar a história, a economia e a criatividade contidas no próprio copo.
Catharina Sour
O primeiro estilo de cerveja brasileiro, o Catharina Sour, foi criado a muitas mãos. Deu seus primeiros passos em 2015 no meio dos cervejeiros caseiros de Santa Catarina. A primeira produção profissional aconteceu em 2016 pelo Liffey Brewpub e em parceria com a Cervejaria Blumenau. A cerveja foi a Coroa Real, feita com abacaxi e hortelã.
No mesmo ano, o estilo foi discutido e pensado em uma reunião entre caseiros e profissionais na Cervejaria Armada, da região de Florianópolis (SC). E a partir dali, passou a ser produzido pelas cervejarias da região e do país. Em 2018 acaba sendo inserido no Guia de Estilos do Beer Judge Certification Program (BJCP), um dos mais utilizados do mundo. Trata-se do único estilo brasileiro formalizado em um guia internacional até agora.
Catharina faz uma referência ao estado em que surgiu. E “sour” significa ácido, já que se trata de uma cerveja de acidez acentuada, corpo leve, feita com trigo na receita e frutas frescas. É extremamente refrescante.
Pina Colada – Faroeste Beer
Além do Dia da Cerveja Brasileira, você pode comemorar os dez anos de produção profissional da Catharina Sour experimentando a segunda melhor cerveja do CBC deste ano: a Pina Colada. Trata-se de uma Catharina Sour com abacaxi e coco feita pela Faroeste Beer, de Itajaí (SC). E, de fato, lembra o famoso drink tropical com um toque extra da acidez.
Caju Pitang – Cervejaria Unika
Outra opção de destaque é a Caju Pytang, uma cerveja do mesmo estilo com caju e pitanga, produzida pela Cervejaria Unika, de Rancho Queimado, na Serra Catarinense. Ela levou medalha de ouro no World Beer Cup (WBC) este ano, o mais renomado concurso mundial de cervejas. Em 2026, o Brasil teve o melhor desempenho de todos os tempos na competição com três ouros, uma prata e um bronze.
Madeiras brasileiras
Ainda não há nos guias de estilo um lugar específico para as cervejas maturadas em madeiras brasileiras. No entanto, concursos nacionais como o CBC procuram valorizar esse tipo de produção, abrindo categorias de inscrição de amostras em suas competições.
O Brasil faz cervejas em madeiras brasileiras desde que começou a entrar na então tendência mundial de produção desse tipo de bebida. Uma das primeiras a explorar as possibilidades da flora do país foi a Way Beer, de Pinhais, na região metropolitana de Curitiba (PR). Ela lançou em 2010 a Amburana Lager, que chegou a ser citada em livro do escritor cervejeiro canadense Stephen Beaumont. Trata-se de uma Lager escura e intensa (8%) maturada em Amburana Cearensis, madeira típica da Caatinga e do Cerrado brasileiros, preparada com alta tosta.
Cacacu Wood – Cervejaria Patanegra
Também maturada em Amburana por dois meses, a Patanegra Cacacu Wood é uma Imperial Sour — cerveja ácida e alcoólica (7,5%) — feita com caju, cajá e cupuaçu. Ela foi condecorada com o prêmio máximo de melhor cerveja da competição, além de conquistar a medalha de ouro no estilo de cervejas ácidas com madeira brasileira.
É uma cerveja de cor dourada com notas destacadas da madeira, que é meio condimentada, quase como canela. As frutas também aparecem bem, com corpo médio-baixo e bom aquecimento alcoólico.
Terminus 2026 – Daoravida Brewpub
Outra cerveja do tipo que se destacou em competições recentemente é a Terminus 2026, do Daoravida Brewpub, de Campinas (SP). Ela também ganhou medalha de ouro no WBC, na categoria Wood- and Barrel Aged Strong Beer.
Trata-se da edição comemorativa de 11 anos da cervejaria. É uma Barley Wine maturada em Castanheira (Bertholletia excelsa). A série Terminus da Daoravida já coleciona mais de 20 medalhas.
Manipueira Selvagem
O estilo de cerveja manipueira selvagem faz referências aos caiuns, bebidas fermentadas dos povos originários brasileiros. Para fazê-la, se aproveitam os micro-organismos presentes no caldo liberado na prensagem da mandioca (a manipueira) para fermentar a cerveja. Também pode utilizar mandioca como parte dos amidos da produção, substituindo parte do malte de cevada.
O estilo nasceu em 2018 na Cervejaria Cozalinda, em Florianópolis (SC). A ideia foi ampliada em um projeto colaborativo com a Cervejaria Zalas, de Paraisópolis (MG), em 2022. No mesmo ano, a ideia ganhou apoio da Associação Brasileira de Cervejas Artesanais (Abracerva), que ampliou o escopo com adesão de 55 cervejarias de todo o país pra produzir cervejas desse estilo com terroir local de suas cidades de origem. A safra foi lançada em 2023 durante o evento Semana Selvagem em São Paulo.
Por ser fermentada com micro-organismos diversos, é também ácida, com notas rústicas que lembram couro, mas também frutadas, como abacaxi e frutas amarelas e brancas.
Alagoas Funky Wild – Caatinga Rocks
Diretamente da cidade de Murici, no estado de Alagoas, no Nordeste brasileiro, vem a terceira melhor cerveja do Brasil segundo o CBC: Alagoas Funky Wild. Feita pela cerveja Caatinga Rocks, é uma cerveja complexa, com toques rúticos, como couro, e que mistura notas de mandioca com frutados e condimentados diversos.
Já Passou o Paulo Lopix? – Cozalinda
Outra boa pedida é a Já Passou o Paulo Lopix?, da Cozalinda, a mais tradicional produtora desse estilo no país. São cervejas safradas com os anos de produção. Portanto, é possível também entender, numa degustação de várias safras diferentes, os efeitos do tempo e a evolução da fermentação na garrafa.


