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Super El Niño pode afetar consumo de cerveja e safra de cevada no Brasil

A primavera começa oficialmente no Brasil nesta terça-feira (22), às 21h05, e traz na bagagem um velho conhecido em sua versão mais radical: o El Niño. A NOAA, agência norte-americana de meteorologia, calcula mais de 90% de chance de que o fenômeno chegue, até novembro, à categoria “muito forte” — o chamado Super El Niño — e 69% de que seja o mais intenso desde 1950, de acordo com o terceiro boletim do Painel El Niño 2026-2027, do governo federal.

Para o setor cervejeiro, que costuma ver a chegada do calor como início da melhor fase do ano, isso é um sinal de alerta e pede cautela. Não só das cervejarias, mas da cadeia como um todo. O El Niño não só esquenta: ele bagunça o mapa do clima. A previsão dos órgãos federais é de mais chuva no Sul e menos chuva no Norte, no Nordeste e em parte do Centro-Oeste e do Sudeste, com temperaturas acima do normal em quase todo o país.

Segundo o Painel El Niño, boletim divulgado em agosto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em parceria com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e outros órgãos, dá para esperar de três a cinco ondas de calor no trimestre, contra duas a três nos anos sem o fenômeno. Mais intensidade não garante mais estragos, ressalva o próprio Painel, mas aumenta a chance de alguns deles.

Calor tem limite

Para quem olha de fora, a conta parece simples: dias mais quentes, praias cheias, cerveja em alta. E há números que sustentam essa tese. Um levantamento da Scanntech, que cruzou vendas do varejo com dados de cerca de 600 estações do Inmet entre 2022 e 2026, mostra que cada grau a mais na temperatura eleva em 4,1% o volume de bebidas sensíveis ao clima. Na cerveja, o ganho é de 5,0% por grau, o terceiro maior, atrás da água (5,7%) e dos isotônicos (5,4%).

O problema é que essa conta tem teto. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, da ETH Zurich e da Universidade Estadual da Carolina do Norte analisaram vendas no varejo dos Estados Unidos entre 2006 e 2023 e viram o consumo de bebidas alcoólicas subir com o calor até cerca de 32 °C. Acima disso, o efeito positivo diminui, segundo a agência Reuters. Em junho, Paris chegou a proibir o consumo de álcool na rua e a venda de bebidas durante uma onda de calor pelo risco de desidratação — ironicamente, o álcool inibe o hormônio que controla a diurese e gera perda de líquido total no corpo.

Se o Brasil vai esbarrar nesse teto, ainda ninguém sabe. Na teleconferência do balanço do segundo trimestre, em 30 de julho, o CEO da Ambev, Carlos Lisboa, disse a analistas que “o ano de 2024 ilustrou que temperaturas mais altas podem, sim, influenciar a demanda”, mas que “esses efeitos são imprevisíveis”. E completou: “O que podemos fazer é nos prepararmos para enfrentarmos diferentes cenários climáticos”.

Apreensão na lavoura com o Super El Niño

Se no bar a relação com o calor é ambígua, no campo os riscos são mais concretos. O principal está na cevada.

O Paraná, que responde por 84% da área e deve entregar 88,1% da safra brasileira, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vive uma contradição típica dos anos de anomalia climática. Plantou 130 mil hectares, área recorde e 23% maior que a do ano passado, animado pela demanda de novas maltarias. Agora, o excesso de chuva e a falta de sol ameaçam transformar o ano do recorde em um ciclo de apreensão.

O Boletim Conjuntural do Departamento de Economia Rural (Deral) do governo paranaense, divulgado na quinta-feira (17), mostra que o clima já deixa marcas. A colheita, iniciada em agosto, chegou a 4% da área total, ritmo parecido com o do ano passado (6%), sem atraso relevante. Mas, em uma semana, a fatia de lavouras em boas condições caiu de 86% para 80%. Um ano antes, eram 90%.

“O principal fator de incerteza recai sobre os efeitos do El Niño”, escreve o engenheiro agrônomo Carlos Hugo Godinho, autor da análise de cevada do boletim. Segundo ele, a chuva já se destacou durante o inverno, período historicamente mais seco no estado, e deixa “pouca margem para expectativas favoráveis na primavera”.

O pico da colheita cai em outubro e novembro, e a previsão é de chuva acima da média no Sul. O Painel El Niño alerta que o excesso de umidade pode comprometer a qualidade dos grãos. Repetir o rendimento de 4.736 kg por hectare da safra passada, avalia Godinho, é improvável. No entanto, a área maior ainda pode garantir um volume superior às 500 mil toneladas do ciclo anterior, desde que o clima, afetado pelo Super El Niño, dê trégua.

O boletim não estima perdas, e com a colheita no início ainda é cedo para medi-las. Para a cervejaria, porém, a questão não é só quanto de cevada será colhida, mas quanta terá qualidade para virar malte.

O problema vai além do Paraná, porque o Brasil ainda compra muito de fora. Em 2024, o país produziu 955 mil toneladas de malte, metade do 1,93 milhão de toneladas de que precisaria, segundo dados apresentados por Jeferson Caus, da Cooperativa Agrária, no congresso Do Grão ao Gole. Uma safra ruim tende a aumentar essa dependência.

Impactos indiretos

Fora da lavoura, os efeitos são mais difusos e mais difíceis de medir. Mas o setor cervejeiro pode sofrer com problemas que vão desde uma logística mais cara e complicada até o que os economistas chamam de inflação climática. Lisboa lembrou que eventos climáticos extremos podem afetar agricultura, commodities, preços de logística e custos de insumos.

A conta de luz é um dos pontos de atenção: a Aneel manteve a bandeira amarela em setembro, com adicional de R$ 1,885 a cada 100 kWh, por causa da estiagem típica da época e do maior uso de termelétricas, que geram energia mais cara. Se o calor elevar o consumo e a seca apertar os reservatórios, o custo chega a uma cadeia que depende de frio, da fábrica ao balcão do bar.

E se os alimentos ficarem mais caros por causa de safras ruins, o orçamento apertado pela inflação relacionada ao clima pode tirar a cerveja da mesa. Com o orçamento doméstico espremido por alimentos mais caros, o consumidor é forçado a redefinir prioridades e cortar gastos discricionários de lazer, o que afeta diretamente o volume de vendas de cerveja nos bares e supermercados.

Diante desse cenário imprevisível, a capacidade de antecipar oscilações passou a ser a principal ferramenta que o mercado deve desenvolver para lidar com os efeitos do Super El Niño, analisa Felipe Passarelli, diretor de inteligência de mercado da consultoria Scanntech, em reportagem do Valor Econômico. “Com um El Niño de intensidade elevada previsto para os próximos meses, o clima deixa de ser um imprevisto operacional e passa a ser uma premissa de planejamento”, disse. “A diferença entre reagir e antecipar está em tratar a temperatura como dado, e não como sorte”, finaliza.

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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