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“A gente não faz festa porque a vida é boa”: Luiz Antonio Simas fala de cerveja, encontro e resistência

Quando o Guia da Cerveja conversou pela primeira vez com Luiz Antonio Simas sobre cerveja, o historiador colocou o botequim no centro de uma teoria do encontro: um espaço de conversa, sociabilidade e exercício informal da cidadania.

Mas essa ideia parte de um ponto menos confortável do que uma suposta vocação brasileira para a festa.

Para Simas, os encontros que marcaram a vida urbana brasileira foram construídos muitas vezes em resposta a um país organizado historicamente pela exclusão. Festa, samba, futebol, botequim e cerveja aparecem, então, não como ornamentos dessa história, mas como formas coletivas de reinventar a vida dentro dela.

E Luiz Antonio Simas sabe muito sobre isso. É um historiador, professor, escritor e compositor carioca, amplamente reconhecido como um dos maiores intérpretes das culturas populares, das religiões afro-brasileiras e do samba. Vencedor do Prêmio Jabuti pelo Dicionário da história social do samba (em parceria com Nei Lopes), ele é autor de mais de 30 livros, como “O corpo encantado das ruas”, além de ser um compositor de destaque gravado por grandes nomes da MPB. 

Nesta conversa com o Guia, Simas aprofunda essa relação e volta à Primeira República para localizar um momento fundamental da formação das sociabilidades urbanas brasileiras.

Você já falou da cerveja como parte de uma teoria do encontro. Como essa ligação se aprofunda quando você olha para a história nacional?

Acho importante não valorizar o encontro a partir de uma visão idílica da história do Brasil. Pelo contrário: temos uma história marcada por um projeto colonial que se aprofunda e, depois, se mantém mesmo com a independência.

O Brasil como Estado-nação foi projetado para a exclusão. O que surpreende, e acho que essa é uma chave para entender a cultura popular brasileira, é como, diante de projetos sistemáticos de exclusão, concentração de renda e propriedade, aniquilação de saberes não brancos e domesticação dos corpos, foram sendo construídos sentidos de afirmação da vida pela cultura.

Quando penso nos encontros, nas festas populares e nas sociabilidades brasileiras, percebo que elas não são construídas por causa de um projeto de Brasil. São construídas, muitas vezes, como resistência a esse projeto.

Então a festa não nasce simplesmente de uma suposta “alegria brasileira”?

É importante politizar isso.

Nós construímos sociabilidades festeiras e urbanas nas brechas de um projeto de exclusão. O Estado brasileiro, com exceções que confirmam a regra, nunca foi inclusivo. Ele é desigual e foi projetado para ser desigual.

O que é extraordinário é perceber como a cultura popular e as sociabilidades foram construídas coletivamente para reinventar a vida diante de um projeto de aniquilação e morte. Não dá para dourar essa pílula em nome de uma suposta alegria inerente ao brasileiro. A gente não faz festa porque a vida é boa. A gente faz porque a vida não é boa — é uma ideia que já desenvolvi em “O corpo encantado das ruas”.

Como essa leitura do encontro se relaciona com seu trabalho sobre cultura popular e antropologia urbana?

Não me considero exatamente um estudioso do “Brasil do horror”. Parto da constatação de que existe um projeto de exclusão, de concentração de renda, que vem da Colônia e se estende pelo Império e pela República. O que eu estudo é o inverso: a construção de sentidos coletivos de vida nas brechas desse projeto.

Sou um estudioso da cultura popular entendida como um conjunto de bens simbólicos e materiais de invenção de modos de vida. As maneiras como você come, bebe, brinca, festeja, reza, lamenta seus mortos e convive com os vivos fazem parte desse campo.

A cerveja entra diretamente porque está inserida na construção das sociabilidades urbanas, de uma cultura de rua e também de um exercício informal de cidadania.

E por que o botequim ocupa lugar tão importante nessa construção?

Costumo dizer que, em certo sentido, o botequim fez mais pela cidadania brasileira do que o Parlamento. Os parlamentos, na maior parte da nossa história, foram muito fechados aos interesses populares. O botequim, ao contrário, foi uma expressão da construção de coletividade.

É nesse ponto que a cerveja dialoga diretamente com meu trabalho: ela participa de um contexto de construção de sociabilidades humanas e urbanas. Quando estudo cultura popular, memória, história e antropologia urbana, estou interessado justamente nessa afirmação da vida diante de um projeto de país que, tantas vezes, esteve associado à exclusão.

Existe um período em que a cerveja ganha um papel especialmente importante na formação dessa cultura urbana?

A cultura cervejeira vai se desenvolvendo no Brasil com mais consistência ao longo do século XIX, mas eu destacaria sobretudo a Primeira República. É um período de avanço muito evidente da urbanização e da construção de sociabilidades urbanas. Posso falar principalmente do Rio de Janeiro, que é o que estudo mais de perto.

“É nesse ponto que a cerveja dialoga diretamente com meu trabalho: ela participa de um contexto de construção de sociabilidades humanas e urbanas. Quando estudo cultura popular, memória, história e antropologia urbana, estou interessado justamente nessa afirmação da vida diante de um projeto de país que, tantas vezes, esteve associado à exclusão”

Luiz Antonio Simas

O Rio da Primeira República é marcado pela consolidação do botequim como espaço de sociabilidade da classe trabalhadora, pela formação do samba urbano, pela consolidação de um modelo de Carnaval de rua que desembocaria nas primeiras escolas de samba e pela popularização do futebol, que chega ao Brasil no final do século XIX como esporte de elite e se amplia nas primeiras décadas do século XX. Há também, nesse ambiente urbano, a formação e o fortalecimento de diferentes religiosidades populares.

A cerveja está vinculada a tudo isso: ao botequim, à popularização do futebol, à formação da música urbana brasileira, sobretudo do samba, e a esse processo de consolidação do Carnaval. Por isso, se eu tivesse que apontar uma chave para entender a consolidação da cerveja como elemento importante da cultura brasileira, olharia para a Primeira República e para a formação dessas culturas de rua no Brasil pós-Abolição.

Marcelo Tárraga
Marcelo Tárraga
Marcelo Tárraga é jornalista, comunicador e estrategista de content marketing B2B. Formado pela Faculdade Cásper Líbero, tem MBA em Gestão de Marketing Digital e formação em empreendedorismo e Startup Education pelo Founder Institute. Ao longo da carreira, atuou em jornalismo, agências e empresas de tecnologia, em organizações como TV Globo, VML/Y&R e Meta. É Diretor de Marketing Digital do Guia da Cerveja.
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