Em Porto Alegre, um bar na Cidade Baixa tem servido bem mais do que cerveja artesanal. O Mocambo, da Cervejaria Implicantes, é um espaço de afeto, ativismo e resistência. Fundada em 2018, a Implicantes surgiu como primeira fábrica cervejeira negra do Brasil. Desde então, enfrentou desafios, reposicionou o negócio e se consolidou como uma referência não só em qualidade das bebidas, mas na luta por mais inclusão racial e diversidade no mercado.
Conversamos com Marcelo Moreira Pires, sócio da Implicantes, sobre os caminhos que a cervejaria tem trilhado, os aprendizados da experiência com o bar Mocambo e os desafios ainda presentes na luta antirracista dentro da cultura cervejeira.
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Primeiramente, poderia falar sobre como está a produção da Implicantes atualmente?
A gente acabou vendendo a fábrica em 2022 e, desde então, estamos só com o bar Mocambo, que é na Cidade Baixa, bairro boêmio de Porto Alegre (RS) — e que já foi considerado um bairro negro. Começamos com produções bem pequenas, de 300 litros, de forma terceirizada, e vendendo exclusivamente no bar. Hoje em dia, a gente já está com produção um pouquinho maior e produzimos na modalidade royalties. Então, conseguimos acompanhar a nossa produção e vender os barris também de maneira terceirizada. No caso, uma fábrica terceirizada produz, assume o custo de produção e de uma boa parcela das vendas, mas quando eles vendem, eu tenho uma taxa de uso da minha marca. Dessa forma, a gente consegue focar nas receitas das cervejas e no bar, sem ter essa preocupação da produção, venda e de lidar com estoque. Vendemos no Mocambo e para mais alguns pontos em Porto Alegre.
Estão felizes com esse formato?
Sim. Mas foi muito difícil toda a nossa jornada com a fábrica. Até o momento que vimos que tínhamos que repensar o negócio. Atualmente, o bar é muito mais viável. Até em questão de trabalho mesmo. Quem tem cervejaria sabe que a fábrica exige até a última dose de energia, até o último fio de cabelo que você tem. E o bar funciona de forma um pouco diferente. Ele nos permite trabalhar bem mais livremente, inclusive com outras cervejarias. E temos parceiros comerciais super legais.
Como avalia esses dois anos de Mocambo?
Está sendo uma experiência muito massa. A gente não sabia muito o que esperar, mas fomos muito abraçados pela comunidade. O pessoal da rua nos adora e os vizinhos são maravilhosos. Estamos sofrendo atualmente por alguns processos da prefeitura. O bairro vive um processo de gentrificação. Mas todos os bares que funcionam lá são uma maneira de resistir, de manter viva a cultura boêmia dessa parte que é muito tradicional em Porto Alegre. Então, a gente foi para dar a cara a tapa. E conseguimos formar uma base de clientes muito rápido.

E o bar traduz muito da essência da Implicantes, não é?
Com certeza. O ambiente é totalmente “de esquerda”. Quando tu entra, dá de cara com a placa da Marielle. Na porta tem os nossos dizeres, que é livre de racismo e preconceito. E todo mundo aceita, sem drama. Ninguém nunca tentou ser babaca com a gente. Estamos muito felizes com nossa base de clientes.
Vi pelo Instagram que vocês estão fazendo um bolão para quem acertar a data de prisão do Bolsonaro. Qual o prêmio?
[Nota do editor: a entrevista foi feita antes do anúncio da prisão domiciliar, decretada na segunda-feira, 1º de agosto.]
O prêmio é um fardo de Brown Ale. Na terça-feira passada [29 de julho], fizemos uma promoção relâmpago de todas as cervejas da casa, por conta da prisão da Carla Zambelli. A gente quer aproveitar esses momentos tomando uma cerveja. E os clientes compram muito nossas ideias.
O público parece se engajar com essa postura da marca, né?
Sim. Tem gente que só aproveita um determinado mês para fazer alguma ação, por exemplo, fazer algo sobre o Dia das Mulheres somente em março. E acho que tem que ter essa autenticidade de se expressar sempre que alguma coisa notória acontece, se comunicar com o que está acontecendo no dia a dia mesmo, com o que os clientes e o povo brasileiro está vivendo.
Desde que vocês começaram, em 2018, como avalia a evolução da inclusão racial no setor cervejeiro?
Eu acho que o mercado ainda tem muito que se adaptar, mas dá para notar um avanço muito grande. A gente participou recentemente de um documentário sobre cervejeiros negros ao redor do país, que estava sendo realizado pelo Edital Fermenta da Ambev. É muito legal ver as maiores cervejeiras do mundo tentando fazer a sua parte, tentando aumentar a diversidade do mercado cervejeiro, que é muito importante. Para não ser só os pequenos lutando. Isso é uma coisa que lá em 2020 era muito difícil de imaginar. Acho que não só a cervejaria está assumindo um lugar de destaque, mas como a gente está podendo dar para outros cervejeiros negros e para pessoas que têm projetos diversos, um pouco mais de valorização e destaque dentro do mercado.

Esse documentário já está disponível?
Ainda não foi lançado. Filmamos nossa parte em março de 2025. É o Rota Cervejeiras, da Karla Danitza. É um documentário super lindo. Ela escolheu a gente para falar aqui do Sul, e ficamos muito felizes. E ainda mais por ela ter falado que havia outros cervejeiros aqui na região com quem ela queria falar também. É ótimo saber que tem outras pessoas negras fazendo cerveja, que tem mais gente no mercado. E que esse número aumente cada vez mais.
E como a Implicantes evoluiu neste processo de abrir espaço para produtores negros no mercado cervejeiro?
Nosso slogan antigamente era “a primeira fábrica cervejeira negra do país”. E de fato é o que somos, até onde temos registro. Hoje em dia, a intenção é trazer mais diversidade. Então, nos posicionamos como fábrica cervejeira negra. E aí eu acho que a gente está conseguindo acompanhar um aumento da diversidade. Tanto que o perfil de público do Mocambo também mudou um pouco. Apesar de ser o bar da Cervejeira Implicantes, hoje em dia a gente tem uma porcentagem que é 50/50 entre negros e brancos. Sempre tivemos um perfil de público majoritariamente negro, mas mudou um pouco. Até porque o bar está aberto ao público, então as pessoas que estão passando por lá, entram para conhecer e querem participar. Sempre com esse caráter de gente de esquerda mesmo. Tem muita gente LGBT e pessoas brancas de esquerda que estão lá com gente.
O que considera ser o principal desafio da Implicantes atualmente?
Acho que não só para gente, mas para todos os outros empreendedores, ainda existe falta de suporte e de políticas públicas. Pelo menos aqui em Porto Alegre, falta muito apoio da prefeitura. A gente, por exemplo, quer fazer uma extensão do bar, uma coisa bem simples, e o processo está parado na prefeitura. Em Porto Alegre é um plano muito difícil de mover, e aí acaba que outros bares conseguiram contornar isso com um pouquinho mais de tranquilidade. A gente tem que fazer campanha, mandar e-mail, entrando em contato com vereadores para tentar mover isso. Mas sei que isso não é exclusivamente nosso, mas sim de vários pequenos empreendedores.

Como você vê o trabalho da Afrocerva?
É um grupo de pequenos cervejeiros, sommeliers e profissionais negros que são associados à cerveja. Eles produzem principalmente manifestações culturais, movimentos em redes sociais, para poder empoderar cervejeiros negros, pequenos eventos e cerveja no geral. Foi originalmente fundada pelo Diego, um dos nossos sócios. Eles formam essa rede de cervejeiros negros ao redor do país, para ter uma forma de contato, networking, apresentação de oportunidades e desenvolvimento. É um grupo muito massa, recomendo a todo mundo que puder, seguir no Instagram, participar de alguns eventos que são super bem feitos e legais.
Quais os próximos passos da Implicantes?
Nossa batalha agora está sendo essa extensão do bar. Nós já contratamos dois arquitetos para fazer uma reforma. Então, queremos renovar o Mocambo, para depois a gente tentar expandir para outros estados — voltar a participar de mercados um pouquinho maiores, como o de São Paulo. E também temos planos para Salvador. São Paulo é um estado que nos acolheu muito bem. E Salvador, por motivo de cultura e herança histórica, por ser um estado majoritariamente negro.



















