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Helles é elemento de uso comum e pode ser utilizado como estilo, diz INPI

O registro do termo Helles como marca não tem como ser cancelado porque ninguém interpôs qualquer nulidade dentro do prazo de cinco anos. Mas, dado o entendimento de que se trata de elemento de uso comum, o registro não deve impedir que outros sinais marcários possam designá-lo como tipo de cerveja.

Em suma, essa é a posição do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) ao ser consultado pelo Guia sobre o caso Helles. Depois de registrar o termo em 2007, a Fassbier notificou recentemente cervejarias no Rio Grande do Sul pelo uso indevido da expressão. Mas, segundo o INPI, a empresa de Caxias do Sul deve “conviver” com outros registros quando estes designarem um estilo.

Mencionando o inciso VI do artigo 124 da Lei da Propriedade Industrial, o instituto explica que não se considera registrável sinais de caráter necessário que guardem relação com o produto ou empregado para designar uma característica quanto à qualidade, salvo quando revestidos de suficiente forma distintiva.

Dado o entendimento de que o elemento é de uso comum, “todo pedido de registro que for depositado contendo o termo helles e tiver um conjunto marcário registrável deverá conviver com o registro deste titular. Isto significa que o elemento helles, embora tenha sido concedido na forma nominativa, não poderá impedir que outros sinais marcários possam designá-lo como tipo de cerveja”, esclarece o instituto.

O próprio INPI demonstrou tal entendimento mesmo depois de conceder o registro em 2007, como explicam os juristas Clairton Kubaszwski Gama, especialista em Direito Tributário pelo Instituto Brasileiro de Direito Tributário (IBET), e Daniela Froener, especialista em Propriedade Intelectual pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI, na sigla em português).

Segundo detalham os juristas, o instituto reconheceu outros pedidos de registro de marca que usam a expressão Helles. É o caso da Raimundos Helles (Processo 909913161) e da Cidade Imperial Helles (Processo 910555125). Tais pedidos, porém, depois da Fassbier protocolar uma ação de nulidade, aguardam a decisão final.

“Verificamos que consta da busca na base do INPI dois registros em que tal procedimento foi empregado, ou seja, as marcas posteriores foram concedidas tendo o termo helles em seu bojo. No entanto, a empresa titular do registro helles apresentou nulidades administrativas visando impugnar as concessões, que se encontram ainda pendentes de decisão do INPI”, aponta o instituto.

Embora tenha poder de decisão para conceder ou não o registro, o INPI não pode interferir em ações judiciais. Até por isso, ele recomenda que “as empresas que se sentirem prejudicadas podem usar os meios legais para se defenderem, sob a alegação de que outros registros já foram concedidos pelo INPI e, por ser um termo inapropriável a título exclusivo, deverá conviver com os demais do mesmo segmento”.

Registro permanece
Mesmo avaliando que a expressão Helles deva estar em “convivência” quando designar um estilo, o INPI diz que seu registro como marca não tem como ser cancelado. O termo foi concedido em 14/8/2007 e, segundo o instituto, havia um prazo de cinco anos para o pedido de nulidade.

“Após a concessão do registro, abre-se o prazo de sessenta dias para que o INPI ou terceiros que se sintam prejudicados apresentem petição de nulidade ao registro. Nenhuma dessas partes instaurou o procedimento de nulidade administrativa. Em sede judicial, o INPI ou qualquer pessoa com legítimo interesse pode interpor ação de nulidade ao registro, no prazo de cinco anos a contar da data da concessão, conforme disposto no art. 173 da LPI. Isso também não ocorreu”, afirma o instituto, antes de acrescentar.

“Assim sendo, transcorridos mais de onze de concessão da marca helles, não existe medida administrativa ou judicial que possa ser empregada para reverter a situação do registro e o titular poderá prorrogar o seu direito a cada dez anos, indefinidamente.”

Por fim, ao avaliar porque teria registrado um estilo como marca, o INPI pondera que, “provavelmente, à época em que o processo foi examinado, o termo helles não deveria ser conhecido fora do âmbito do setor cervejeiro”.

Confira, a seguir, na íntegra, o esclarecimento do INPI

O termo helles foi concedido em 14/8/2007. Provavelmente, à época em que o processo foi examinado, o termo helles não deveria ser conhecido fora do âmbito do setor cervejeiro. Dado o desenvolvimento do segmento de cervejas artesanais, este e outros termos têm se tornado mais divulgados e conhecidos.

De acordo com o disposto no inciso VI do artigo 124 da Lei da Propriedade Industrial (LPI), não se considera registrável sinais de caráter necessário que guardem relação com o produto ou empregado para designar uma característica quanto à qualidade, salvo quando revestidos de suficiente forma distintiva.

Após a concessão do registro, abre-se o prazo de sessenta dias para que o INPI ou terceiros que se sintam prejudicados apresentem petição de nulidade ao registro. Nenhuma dessas partes instaurou o procedimento de nulidade administrativa. Em sede judicial, o INPI ou qualquer pessoa com legítimo interesse pode interpor ação de nulidade ao registro, no prazo de cinco anos a contar da data da concessão, conforme disposto no art. 173 da LPI. Isso também não ocorreu.

Assim sendo, transcorridos mais de onze de concessão da marca helles, não existe medida administrativa ou judicial que possa ser empregada para reverter a situação do registro e o titular poderá prorrogar o seu direito a cada dez anos, indefinidamente.

No entanto, dado o entendimento de que o elemento é de uso comum, todo pedido de registro que for depositado contendo o termo helles e tiver um conjunto marcário registrável deverá conviver com o registro deste titular. Isto significa que o elemento helles, embora tenha sido concedido na forma nominativa, não poderá impedir que outros sinais marcários possam designá-lo como tipo de cerveja.

Verificamos que consta da busca na base do INPI dois registros em que tal procedimento foi empregado, ou seja as marcas posteriores foram concedidas tendo o termo helles em seu bojo. No entanto, a empresa titular do registro helles apresentou nulidades administrativas visando impugnar as concessões, que se encontram ainda pendentes de decisão do INPI.

As empresas que se sentirem prejudicadas podem usar os meios legais para se defenderem, sob a alegação de que outros registros já foram concedidos pelo INPI e, por ser um termo inapropriável a título exclusivo, deverá conviver com os demais do mesmo segmento.

Páscoa: Tempo de harmonização de peixes e cervejas

Está chegando a Páscoa. Para muitos a maior – se não a única – oportunidade do ano em que o peixe é a atração principal sobre a mesa. Pensando nos cervejeiros que honram essa tradição, o Guia preparou, com a ajuda de especialistas, um “menu” com boa harmonização de peixes e estilos de cerveja. Não há regras imutáveis, e sim diretrizes que devem ser observadas antes de botar a mão na massa preparando seu pescado para o feriado.

Uma das características que devem ser observadas para um bom equilíbrio é a força tanto do prato quanto da cerveja. Mesmo receitas à base de peixes podem resultar em comidas gordurosas se preparadas com queijos, creme de leite e frituras, elevando a untuosidade. “Precisamos ter, do outro lado, cervejas com força maior,  com boa carbonatação e acidez para equilibrar tudo isso”, alerta Rodrigo Sena, sommelier e professor da Escola de Cervejas BaresSP.

Segundo ele, há diferenças significativas entre as carnes de diferentes peixes. “Peixes de água salgada normalmente têm mais gordura, a carne é mais macia e com sabor mais pronunciado. Já os peixes de água doce têm carne mais magra, mais suave, que desmancha com mais facilidade na boca”, pondera ele, elencando sabor, gordura, umidade e textura como fatores importantes para a harmonização.

Peixes são, também, abundantes no que se costuma chamar de “quinto gosto” essencial, o umami. Ele é sentido por receptores específicos do aminoácido glutamato, e também deve ser considerado na harmonização. “Cervejas com maltes tostados são uma excelente opção para equilibrar o umami e realçar o sabor da carne e dos temperos”, diz Rodrigo.

Preparo e ingredientes
Além dos atributos da carne, é essencial considerar os ingredientes e o modo de preparo, que também influenciam na escolha da cerveja para a harmonização de peixes. Um exemplo muito claro é o bacalhau, que a princípio é uma carne de sabor marcante e bastante salgado.

“Se o preparamos cozido com legumes e batatas, teremos sabores bem diferentes do que se fizermos no forno com queijo gratinado. Tudo influencia: o tipo de peixe, o tempero usado, os acompanhamentos, molhos e a forma de cocção”, afirma o professor.

Por fim, é preciso estar atento a dois temperos em especial: o sal e a pimenta. Segundo Rodrigo, cervejas mais amargas, como IPAs, potencializam esses temperos, o que faz necessário certo cuidado para não deixar o prato salgado ou apimentado em excesso.

A pimenta, diz ele, tem mais uma peculiaridade: quanto maior o teor alcoólico da cerveja, mais suas características se revelam. “Você pode ter feito um belíssimo prato, mas ao escolher uma cerveja muito alcoólica você pode destruí-lo.”

Combinações
A seguir, algumas sugestões de harmonização de peixes com cervejas, escolhidas por Rodrigo Senna, sommelier e professor da Escola da Cerveja BaresSP, e pela equipe de sommeliers da cervejaria paulista Blondine.

Dossiê Helles: A visão da Fassbier, dos juristas e do mercado cervejeiro

Uma polêmica ação na Justiça tem motivado discussões e causado preocupações no mercado de artesanais. A Fassbier, de Caxias do Sul, notificou judicialmente cervejarias no Rio Grande do Sul pelo uso indevido do termo Helles em seus rótulos. A ação só foi possível porque a empresa tem, há mais de uma década, a marca do produto certificada pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).

Empresas e associações do setor alegam, porém, que Helles dá nome a um estilo. Assim, não poderia existir o registro da marca com este nome. De todo modo, oito cervejarias foram notificadas, cinco com sede em Caxias do Sul, uma em Porto Alegre, uma em Bom Retiro do Sul e uma em Pareci Novo.

Para entender detalhadamente o caso, o Guia conversou com a Fassbier, com juristas e com importantes personagens do setor cervejeiro sobre a polêmica. Confira.

A história da Helles
O termo parece estar envolto em polêmica desde a sua origem. A Helles, afinal, nasceu como uma resposta dos alemães de Munique ao sucesso estrondoso do estilo que revolucionou o mundo: a Bohemian Pilsner. É o que conta Luís Celso Jr., jornalista, sommelier, consultor de cervejas e fundador do blog Bar Do Celso.

“Criado pelo mestre cervejeiro alemão Josef Groll em 1842 na cidade de Pilsen, na República Checa, esta foi a primeira cerveja clara, dourada e brilhante do mundo e fez muito sucesso”, detalha Celso. “Groll fez esta cerveja em Pilsen por conta da água da região, muito branda, ou seja, com poucos minerais. Além de uma série de inovações tecnológicas e a criação de uma malte super claro, esta é uma característica essencial para fazer uma cerveja com tal aparência.”

Os alemães, então, se esmeraram durante décadas para produzir algo à altura da Pilsen. Mas não foi simples. Munique, capital da Baviera, região que era famosa pela Munich Dunkel (do alemão, escuro) e por sua bandeira com tons de azul, branco e dourado, tinha uma água “dura”, ou seja, muito mineral.

“Na tentativa de fazer a sua própria cerveja clara, os cervejeiros alemães demoram cerca de 30 anos para aprender a tratar a água da região e fazer a Munich Helles, o que ocorre perto de 1870 (algumas versões da história apontam até 1890)”, conta o especialista.

Ainda assim, o resultado foi uma cerveja que conseguiu reproduzir parte das características das tchecas. “A Munich Helles é um estilo de cerveja de cor clara, dourada, que lhe dá nome. Em alemão, Helles significa claro. Ou seja, a clara de Munich. Traz bom equilíbrio entre notas de mate e lúpulo, lembrando cascas de pão e floral, baixo amargor e corpo, produzindo muita refrescância”, detalha Celso.

O lado da Fassbier
Fundada em novembro de 2006, a Fassbier é uma empresa familiar formada por Miguel Adelmo Schmitz, seu irmão, seu filho e sua esposa. Uma de suas marcas mais famosas é a Helles, adquirida da Cervejaria Schattenmann em 2007. Mas, para compreender um pouco mais sobre a origem do registro, é preciso voltar no tempo.

A Schattenmann foi fundada em abril de 1999 pelo próprio Miguel e outros dois sócios – Herbert Francisco Schumacher e Domingos Conrado Zanol – e tinha como sede a cidade de Nova Petrópolis (RS). Em 14/11/2003, a cervejaria fez o pedido de registro do termo Helles no INPI. Três anos depois, porém, os sócios entraram em desavença e ela se desfez, segundo relata o hoje sócio da Fassbier.

O fim da Schattenmann deixou como legado a criação de quatro marcas. E, ao fundar a sua própria cervejaria, Miguel ficou com duas – Schattenmann e Helles – enquanto o outro sócio, Schumacher, ficou com as demais – Slava e Emigrator -, de acordo com o sócio da Fassbier. Por fim, em agosto de 2007, o INPI concedeu o registro do termo Helles.

Questionado por que levou 12 anos para notificar judicialmente outras cervejarias, Miguel explica que sua principal questão não foi apenas a adoção do nome, mas também as características visuais das garrafas.

“A gota d’água que transbordou a nossa paciência foi quando abastecemos uma loja de conveniência e nos deparamos na prateleira com cinco garrafas, todas imitando a nossa, tanto no tamanho como nas logomarcas, usando as mesmas cores – a saber, azul, branco, preto e dourado – e gerando a maior confusão nos nossos clientes”, alega Miguel, antes de acrescentar.

“Daí, ao conversarmos com um advogado da área, que é nosso cliente, ele nos orientou a fazer as notificações extra-judiciais das cervejarias, dando uma prazo para adequação”, explica o sócio da Fassbier.

Miguel também rebate as críticas de que o termo Helles não poderia ser registrado. “O estilo ou tipo de cerveja tanto no BJCP, que o define como Munich Helles, como no decreto 6.871 de 04/06/2009, que em seu artigo 39 define os tipos de cerveja, faz menção ao tipo Munich, e não Helles, que significa clara. E na própria Alemanha, fora da região da Baviera, se você pedir uma Helles eles vão te servir uma Pilsner, pois é clara também”, justifica.

A avaliação dos juristas
Clairton Kubaszwski Gama, advogado, especialista em Direito Tributário pelo Instituto Brasileiro de Direito Tributário (IBET) e sócio do escritório Kubaszwski Gama Advogados Associados, e Daniela Froener, advogada, especialista em Propriedade Intelectual pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI, na sigla em português) e sócia do escritório Silva Lopes Advogados, avaliam que há um erro da Fassbier quando aponta Helles como mero adjetivo e Munich como nome do estilo. Para eles, é o contrário: o estilo Munich Helles seria, inclusive, mais popularmente conhecido como Helles.

“É importante observar que o próprio BJCP, ao abordar a questão da nomeação dos estilos, deixa claro que muitos estilos ali descritos podem ter nomes diferentes ou serem conhecidos por nomes diferentes em alguns países ou regiões”, comentam os advogados.

“Este é o caso: a Munich Helles é popularmente conhecida apenas como Helles, assim como ocorre com a Munich Dunkel – comumente chamada apenas de Dunkel – ou com a Irish Red Ale – quase sempre identificada apenas como Red Ale. Portanto, é inegável o fato de que estes estilos, dentre muitos outros, ficaram conhecidos e são comumente identificados apenas por parte do nome utilizado nos guias, o que torna estes termos denominações internacionalmente reconhecidas”, acrescentam.

Para os dois juristas, portanto, o INPI se equivocou ao permitir o registro de Helles como marca em 2007. “Nos termos da Organização Mundial da Propriedade Intelectual, a propriedade intelectual é aquela resultante da criação do espírito humano. Logo, para que uma marca possa ser passível de registro e integrar a propriedade de alguém, deverá ser fruto da criatividade humana, ser inovadora, distinta e autêntica, realmente uma novidade. E este não é o caso da expressão Helles, utilizada há muito tempo para distinguir um dos estilos cervejeiros mais tradicionais da Alemanha”, avaliam.

Os juristas também orientam como devem proceder as cervejarias notificadas. “É prudente que a cervejaria faça uma resposta, uma contra-notificação, argumentando a invalidade de tal registro e, consequentemente, a possibilidade de continuar utilizando a expressão Helles para identificar o estilo cervejeiro produzido. Também é possível recorrer à via judicial para buscar uma solução, que pode ser no sentido de se reconhecer a possibilidade de outras cervejarias utilizarem a expressão ou mesmo a declaração de nulidade do registro”, afirmam.

A análise do mercado
Presidente da Associação Brasileira da Cerveja Artesanal (Abracerva), Carlo Lapolli avalia que o conflito jurídico desagrega o setor de artesanais e deveria ser evitado. Ainda assim, ele prevê que o problema se tornará mais frequente diante do crescimento do número de marcas.

“Infelizmente é uma polêmica que não agrega. Esse tipo de polêmica, de confronto utilizando o registro de uma marca, de um estilo de cerveja como uma marca, é lamentável”, afirma o presidente da Abracerva. “Não foi o caminho mais adequado.”

Lapolli comenta, também, que a polêmica deveria servir de lição para problemas futuros. “Vai existir muito mais litígio em relação às marcas, porque existe uma coincidência. As cervejarias precisam ter uma postura de primeiro conversar, sem apelar para uma notificação”, analisa Lapolli.

Até por isso, a Abracerva pretende aumentar o diálogo com o INPI para que exista mais cuidado e seletividade em suas decisões. “Estamos fazendo um contato, criando uma agenda para expôr os termos técnicos, os estilos de cerveja. Para que eles se aprofundem um pouco mais quando forem fazer esse tipo de registro”, conta Lapolli.

Ainda assim, o presidente da Abracerva explica que a entidade tem atuação limitada neste caso específico. “Em uma ação judicial é importante notar que precisa de legitimidade para propôr. E, olhando por cima, entendemos que a associação ainda não tem essa legitimidade, que envolve um caso concreto entre as cervejarias. Tentei um diálogo com elas, que infelizmente não retornaram. Mas eu acho que daqui a pouco as coisas se resolvem”, aposta Lapolli.

Com visão parecida, Luis Celso Jr. também lamenta a polêmica e aponta a necessidade do INPI rever o registro do termo Helles. Para ele, o próprio Código de Propriedade Industrial estabeleceria o oposto.

“Acredito que não deveria ser possível registrar o nome de um estilo de cerveja como marca, já que o próprio Código de Propriedade Industrial (Lei nº 9.279, de 14 de maio de 1996) proíbe o registro de um termo técnico usado na indústria, na ciência e na arte, que tenha relação com o produto ou serviço a distinguir”, avalia Celso. “Acho que, independente das intenções de quem pediu o registro, o INPI errou ao concedê-lo e deve rever o quanto antes essa decisão.”

Veja também:

INPI se posiciona a respeito do caso Helles

Marca de material esportivo processa AB-InBev pelo nome Patagonia

A marca de vestuário e equipamento esportivo de montanha Patagonia processou, no Estados Unidos, a AB-Inbev por colocar no mercado a sua marca de origem argentina também chamada Patagonia. Na acusação, a fabricante alega que a gigante da cerveja estaria não só pegando carona em um nome já consolidado, mas tentando se passar por ele.

Segundo a marca californiana, criada na década de 1970, a cervejaria teria tentado ligar a cerveja com sua imagem ecologicamente responsável ao propor que plantaria uma árvore para cada rótulo vendido. “É uma iniciativa que a Patagonia Inc. felicitaria, se não fosse pelo fato de a AB estar claramente tentando copiar nossa já famosa identidade de marca para confundir os consumidores”, diz o texto da ação judicial.

A questão fica ainda mais confusa porque a marca de material esportivo tem, de fato, sua própria linha de cervejas. A Long Root conta com uma Pale Ale e uma Witbier feitas em parceira com a cervejaria Hopworks Urban Brewery, de Detroit. Ambas seguem a “pegada” da marca. O próprio nome, “raiz longa”, se refere à característica dos insumos usados: todos orgânicos e regenerativos.

Já os grãos perenes de trigo Kerzna, desenvolvidos em parceria entre a marca e o Land Institute em 2016, têm, de fato, raízes mais longas. Elas permitem à planta triunfar sem auxílio de pesticidas e usando menos água do que o convencional. Além disso, previnem o solo contra erosão e podem remover mais gás carbônico da atmosfera.

Montanhas no rótulo

Nas latas, está estampado o logotipo da marca: silhuetas de montanhas da Cordilheira dos Andes, região que contempla áreas do sul da Argentina e do Chile. O mesmo visual exuberante das montanhas geladas é retratado nas embalagens da Patagonia da AB InBev.

“A AB está deliberadamente tentando tomar vantagem da boa vontade tremenda que a Patagonia Inc. e a Patagonia Provisions cultivaram em sua marca, e da reputação conquistada e construída nos últimos 40 anos como uma empresa dedicada à preservação ambiental. A AB chegou a criar um logotipo claramente semelhante à famosa silhueta de montanhas da Patagonia Inc., que apareceu constantemente por décadas em milhões de produtos”, acusa a marca.

Desde 2013 a AB tem o direito de explorar no mercado norte-americano a marca, pertencente à sua subsidiária argentina Quilmes. No entanto, somente em 2018 a Patagonia foi lançada nos EUA. Em nota enviada à CNN, a AB afirma que a companhia está “ciente da ação e acredita que ela não tenha fundamento”.

Laboratório da Cerveja muda de status e passa a integrar ação do BiotechTown

Importante iniciativa para dar suporte técnico e científico ao mercado de artesanais, por meio de serviços voltados à microbiologia envolvida na produção de cervejas, o Laboratório da Cerveja passou a integrar um programa do BiotechTown, primeiro centro privado no país voltado exclusivamente para o desenvolvimento de empresas, produtos e negócios nas áreas de biotecnologia e ciências da vida.

O BiotechTown está localizado em Nova Lima, cidade mineira que se tornou um polo brasileiro na produção de artesanais. A mudança, assim, aproximará ainda mais o laboratório surgido na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) do mercado cervejeiro.

“No final de 2018, o Laboratório da Cerveja foi selecionado pelo programa de desenvolvimento de negócios Business Developer do BiotechTown, que é um centro privado localizado em Nova Lima que impulsiona negócios e empresas de base tecnológica e ciências da vida”, explica a Dra Luciana Rocha Brandão, sommelière, cervejeira caseira, cientista e CEO da startup.

Integrar o programa de um ano do BiotechTown, aliás, trouxe uma importante mudança de status ao laboratório: deixou de ser um projeto de extensão para se tornar uma empresa, uma startup, além de já “começarmos a aumentar o nosso portfólio de serviços, produtos e expansão de mercado”, segundo conta Luciana

“Nesse programa, de duração de um ano, nós recebemos investimento e assessoria em marketing, financeiro, jurídico para a estruturação e o crescimento da empresa”, acrescenta a cientista.

O Laboratório da Cerveja foi criado em julho de 2015 sob a coordenação do professor Dr. Carlos Augusto Rosa e das doutoras em microbiologia Beatriz Borelli e Luciana Brandão. Era um projeto de extensão executado pelo Laboratório de Taxonomia, Biodiversidade e Biotecnologia de Fungos localizado no Instituto de Ciências Biológicas da UFMG – até se tornar parte do programa do BiotechTown.

Para conhecer o “novo” trabalho desenvolvido pelo Laboratório da Cerveja, clique aqui e se inscreva no canal do BiotechTown.

Preço da cerveja descola do IPCA e volta a cair em março

O preço da cerveja continua em baixa nas principais capitais brasileiras, de acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Esse movimento foi ampliado em março e está no rumo contrário à tendência, pois a inflação nacional foi de 0,75%, a maior para o terceiro mês do ano desde 2015, com alimentação e bebidas registrando alta de 1,37%, inferior apenas ao grupo transportes (1,44%).

“A aceleração da inflação no mês foi determinada pelas altas de 1,37% no grupo Alimentação e bebidas e de 1,44% nos Transportes. Juntos, esses grupos responderam por 80% do índice do mês”, afirma o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Porém, o preço da cerveja em domicílio teve queda de 0,34% em março, de acordo com os dados divulgados pelo IBGE. Com isso, apresenta deflação de 0,29% em 2019, ainda que registre aumento de 0,25% nos últimos 12 meses.

Os preços da cerveja fora do domicílio também sofreram queda em março, de 0,36%, segundo o IPCA. Mas o cenário ainda é de inflação em 2019, de 0,32%, e também nos últimos 12 meses, de 4,09%.

Os preços de outras bebidas alcoólicas no domicílio tiveram queda de 0,29% em março, mas estão em alta em 2019 (0,74%) e também nos últimos 12 meses (3,36%). Já fora do domicílio há inflação em qualquer cenário: em março (0,94%), no ano (1,46%) e nos últimos 12 meses (2,27%).

Cerveja acessível da Perro Libre, estudo da Abracerva: As novidades da semana

A semana cervejeira trouxe inúmeras oportunidades para quem pretende se aprofundar nesse universo. A Perro Libre, por exemplo, lançou dois rótulos com um custo acessível, enquanto a Cozalinda apresentou um interessante clube cervejeiro. Já a Escola Superior de Cerveja e Malte abrirá cursos em cinco cidades brasileiras. E, em uma iniciativa inédita, a Abracerva se uniu com o Sebrae para fazer um estudo sobre o mercado de artesanais. Confira, a seguir, as novidades da semana.

Artesanal acessível
Com o intuito de facilitar o acesso às cervejas artesanais, tanto no paladar como no bolso, a Perro Libre apresentou duas novas cervejas em chope: Dame Lager e Dame IPA. A ideia foi trabalhar receitas simples, com um menor custo possível, mas respeitando os insumos e técnicas de produção. “Sabemos que beber cerveja artesanal ainda não é muito fácil, seja pela distribuição, pelos preços praticados ou pelas receitas desenvolvidas. Queremos facilitar. Nossa ideia foi produzir duas cervejas fáceis de beber, acessíveis financeiramente, que servirão de porta de entrada para muitos consumidores, mas também irão agradar a todos que já bebem e buscavam algo para o dia a dia”, explica Caio Martins, responsável pela comunicação da marca. A Lager possui 4,5% de teor alcoólico, 20 IBUs e um único tipo de lúpulo: Saphir. Já a IPA, inspirada na versão da costa oeste dos Estados Unidos, tem 5,6% de teor alcoólico, 40 IBUs e os lúpulos Centennial, Chinook, Columbus e Summit.

Pesquisa inédita
A Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) estabeleceu uma importante parceria com o Sebrae para tentar compreender um pouco mais do mercado cervejeiro nacional. As duas entidades vão elaborar um estudo inédito, a 1ª Pesquisa sobre Cervejarias Independentes Brasileiras, que está disponível no link: http://bit.ly/censocervejaria. As respostas serão coletadas até 15 de maio. “Entendemos que para manter a ascensão do setor é importante que tenhamos todos os planos bem estruturados. Para isso, precisamos conhecer melhor a realidade das marcas e suas atuações. Essa pesquisa vem ao encontro disso”, avalia Carlo Lapolli, presidente da Abracerva. Os participantes vão receber um compilado de informações para entenderem um pouco mais sobre o mercado em que estão inseridos.

Clube da Cozalinda
De Florianópolis, a Cozalinda acaba de apresentar uma boa novidade: um site de vendas de seu clube de cervejas, onde comercializa rótulos premiados e limitados que muitas vezes não saíam de seu bar. A assinatura dá direito a 12 garrafas por ano, que serão divididas em 6 tipos de cerveja, ou seja, duas de cada rótulo. O motivo? São cervejas de guarda, que apesar de terem prazo de validade de 5 anos, possuem potencial de envelhecimento que supera essa validade. Assim, o assinante recebe as duas cervejas, prova uma e deixa outra para envelhecer. “Nossas cervejas oferecem uma experiência diferente do que o consumidor do Brasil, em geral, está acostumado. Cervejas que você pode guardar por um bom tempo e abrir daqui a cinco anos e perceber a evolução que a cerveja sofreu com o tempo. O problema é segurar a ansiedade”, brinca Diego Simão, responsável pelas criações da Cozalinda. Uma das receitas é um rótulo que o cervejeiro desenvolveu para o seu casamento, fermentada em barricas de madeira que vieram da França.

Hop Lager da Blumenau
A Blumenau acaba de anunciar o terceiro rótulo da série Confraria. Trata-se da Hop Lager, que foi brassada com a presença de mais de 50 participantes, durante o Festival Brasileiro da Cerveja. O rótulo é um single hop, ou seja, utiliza apenas um tipo de lúpulo – o Sabro, que se destaca por notas intensas de tangerina, coco verde, frutas tropicais e ameixa, além de toques de menta. Tem 4,6% de teor alcoólico e 25 IBUs. “Entendemos que o mercado das artesanais está crescendo rapidamente e, por isso, se torna tão necessário explorar outros sabores. A ideia da Confraria é justamente essa: unir o conhecimento de diversos profissionais para criar algo novo e fora do comum. Esperamos que o público sinta isso em cada gole”, afirma Valmir Zanetti, diretor da cervejaria.

Pós da ESCM
A Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM) abriu inscrições para sua pós-graduação em tecnologia cervejeira em cinco cidades: Belo Horizonte, Florianópolis, Blumenau, São Paulo e Curitiba. O curso traz certificação do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA) e tem como pré-requisito a formação em curso de ensino superior. Serão 18 meses de aulas, com encontros quinzenais. “Só no ano passado foram 210 novas cervejarias no Brasil. Temos, atualmente, 889 fábricas em atividade e esse número deve crescer ainda mais. Isso abre possibilidades para que os profissionais que buscaram capacitação, se reposicionem e possam dar um direcionamento de ascensão para as suas carreiras”, comenta Carlo Bressiani, diretor da escola. As aulas terão três módulos práticos – ingredientes, processo produtivo e equipamentos e controle de qualidade – e um de encerramento, com o trabalho de conclusão do curso.

Slow Brew reforça caráter de “não festival” e delega ao público a escolha das cervejarias

Eleito o segundo melhor festival brasileiro de cerveja em 2018, o Slow Brew tem sua edição de 2019 marcada para o dia 7 de dezembro, no Centro de Eventos Pro Magno, em São Paulo. Neste ano, porém, uma inovação no modo como as 70 cervejarias serão escolhidas promete manter frequentadores e marcas bastante atentos até lá. Pela primeira vez, as participantes serão definidas pelo público.

A novidade segue uma tendência de valorização e empoderamento do consumidor, rompendo com os modelos mais tradicionais do mercado de festivais. Não apenas nos eventos cervejeiros, mas na maior parte dos setores da economia, o mais comum é que a participação das marcas seja decidida por diversos fatores, que podem envolver acordos comerciais, de patrocínio e até a compra de espaço. Uma lógica que o Slow Brew procura agora subverter.

“Decidimos inverter a posição do participante, saindo da posição passiva para ter um poder de decisão. Esse é o fator chave do Slow Brew. Com o poder de sua decisão, ele escolhe o que quer degustar”, afirma o Dr. Mauricio Leandro, organizador do evento, ao Guia.

Desde a primeira edição em 2014, um “conselho curador” era responsável pela seleção das marcas. Em 2019, por sua vez, 95 nomes entraram em uma lista que o organizador do evento gosta de chamar de “cervejarias de personalidade”, apontadas pelo conselho ou que tenham demonstrado interesse em participar.

“São cervejarias às quais as pessoas já estão atentas. O público conhece quais são as cervejarias boas”, diz Mauricio, lembrando que grandes cervejarias regionais, com uma produção mais “comum”, não são elegíveis.

Os “slowers” que já compraram seus ingressos receberam, então, por e-mail, uma lista com as marcas disponíveis. Cada um dos mais de 3 mil participantes votam em 10 cervejarias. Ao final, as 55 mais lembradas serão convidadas. E as outras 15 também foram escolhidas pelo público: são as mais bem avaliadas na pesquisa de satisfação do Slow Brew 2018.

Um não festival
A decisão de dar o poder de decisão para o público partiu de um questionamento sobre a essência do Slow Brew. Para Mauricio, a palavra “festival” não é exatamente adequada ao modo como ele é concebido.

“Qualquer evento virou festival. E o Slow Brew não tem características de festival. Pode até ter aparência, mas não é”, diz ele. “É uma reunião de pessoas que têm paladar e interesse diferenciados, que querem conhecer coisas de qualidade, terem uma experiência, evolução e realização gustativa”, diz ele, justificando a retirada da palavra ‘festival’ da descrição do evento.

Nesse contexto, Mauricio conta que a organização do Slow Brew passou a entender os participantes de maneira mais ampla. “Em uma reflexão mais filosófica, nos perguntamos ‘de que maneira o participante participa?'”

A partir disso, a participação foi repensada para deixar de ser “passiva”, com a simples compra de ingressos e experimentação de coisas escolhidas por outros. “Queremos fazer do participante a peça mais importante do festival”, conclui.

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Entrevista: Lohn Bier se reinventa para descobrir a própria identidade

Uma cervejaria artesanal multipremiada, reconhecida nacionalmente e com um dos rótulos mais cultuados dos últimos anos decide, repentinamente, alterar a logotipia e replanejar do zero o seu visual. E mais: apesar de toda a transformação, nada desse trabalho é feito para sinalizar qualquer mudança de rumo ou de perspectiva. Pelo contrário. O que a marca queria era, apenas, descobrir a sua identidade.

A história pode até soar inverossímil, mas foi exatamente o que fez a Lohn Bier ao lançar sua nova identidade visual durante o Festival Brasileiro da Cerveja, realizado em março, em Blumenau, no que pôde ser considerado um dos grandes “lançamentos” do evento.

“Entendemos muito mais da gente agora do que quando começamos o rebranding, o que é genial”, celebra Richard Westphal Brighenti, cervejeiro, beer sommelier e um dos fundadores da marca que conquistou o mercado com suas Catharinas Sour e, especialmente, a Carvoeira, um dos rótulos nacionais mais premiados dos últimos anos.

Em conversa exclusiva com o Guia, além de contar por que o novo logo representa um reencontro com as origens, com o jeito especial de fazer cerveja da marca, Richard fala sobre o difícil processo de descobrir uma identidade visual própria.

Descreve, também, os detalhes do novo logotipo que, ao menos no stand do festival, quando estava cercado por cores como amarelo, preto e azul piscina, trazia algo de Andy Warhol. E, por fim, revela uma interessante novidade: para comemorar seus 5 anos em 2019, a cervejaria está preparando um livro.

Confira, a seguir, a entrevista completa com Richard Westphal Brighenti, o cultuado e inventivo cervejeiro da Lohn Bier.

Em que momento veio a decisão de mudar a identidade visual? Como foi esse processo, como chegaram a essa decisão?
Para explicar a identidade visual nova de logotipo e de embalagem é preciso falar sobre a antiga. Quando surgimos como cervejaria, registramos dois nomes no INPI. E Lohn é o sobrenome de família, sobrenome alemão, do seu Francisco [patriarca da cervejaria], Lohn Felisbino – só que na época ele não assinava o nome da mãe, o que era muito comum. Eu era homebrewer há cinco anos e também sou descendente de alemães. Então, a gente não tinha muita história para contar, pois estávamos surgindo naquele momento.

Antigo logo

Mas a ideia de fazer cervejas boas, baseadas na escola alemã, nos parecia bastante agradável. Boas Lagers são adequadas, sempre voltamos para o conforto de uma Lager. Então, o símbolo da Lohn foi a silhueta do brasão da família e, no topo do logotipo, tínhamos a silhueta da Serra do Rio do Rastro, que é uma denominação de origem que valorizamos ainda hoje, mesmo no rebrand. Fazia todo sentido: ser alemão, mostrar força, o malte, uma florzinha de lúpulo. O logo era bonito, não nos desapegamos ainda. Ele nos ajudou, nos trouxe até aqui e não o desprezamos. E ele continuará por um tempo, alguns rótulos ainda serão envasados com ele, então o consumidor terá um período de transição.

E por que veio a decisão de mudar?
A gente não era necessariamente só alemão. A gente era bastante inventivo, colocava fruta desde o início, colocava caldo de cana, funghi secchi, cumaru, e fazia cervejas puro malte que não seguiam a Lei de Pureza Alemã. E tem uma questão de comportamento, do Brasil. A Catharina Sour, que é uma cerveja ácida, foi tendência nos Estados Unidos e depois reverberou para cá. As lupuladas norte-americanas também reverberaram para cá, assim como as Brut IPA, que já estão acontecendo de forma tímida, mas devem aumentar em 2019. Então, o comportamento do mercado brasileiro é bastante americanizado. E a gente estava se sentindo deslocado com o nosso logotipo, ele não representava mais a inventividade que dávamos para as cervejas. O logotipo mostrava uma cervejaria alemã, de tradição, e nossas cervejas eram mais descoladas, mais ousadas, mais criativas.

Novo logo

O que o novo logo traz que ajuda a representar essas influências?
Colocamos um logotipo que não tem cor necessariamente. Ele pode receber qualquer cor, o skin de uma foto, pode ser um mosaico de cores. Ele é só letra. É uma tipografia escrita à mão, não é uma fonte de computador. O Bier é alemão e o layout norte-americano, olha que incrível. Temos agora um símbolo, também. Antes não tínhamos, o simbolismo estava todo no logo. Agora temos um logotipo que é letra e um símbolo de apoio, que é a silhueta da Serra do Rastro. As pessoas até confirmaram que lembra muito o ícone do desbloqueio de celular com a digital, então fica nossa digital, nossa identidade, com um pouco de nossa geografia. Curiosamente, somamos tudo isso e estamos muito felizes com o resultado.

Como foi o processo para chegar a esse novo logotipo? Qual a inspiração, as influências, as ideias por trás dele?
Foi um trabalho de pesquisa de quase um ano, um estudo de branding, porque não é só logotipo, mas comportamento de marca, velocidade com que a gente se comunica, para quem a gente se comunica. Fizemos uma pesquisa de mercado e a agência que fez foi muito profissional. Entendemos muito mais da gente agora do que quando começamos o rebranding, o que é genial. Foram quatro tentativas de logotipia e tivemos uma quinta versão, mastigada de uma anterior, que foi a primeira. Esta primeira nos assustou e a gente foi fazendo, refazendo, fazendo, até que, depois da quarta, dissemos “não” e falamos “talvez, aquela primeira, se desse uma mastigada, está boa”. E assim foi. Acho o logotipo muito bonito, muito moderno, e penso que vamos ficar com ele por muito tempo, mais tempo do que ficamos com o anterior. Estamos bem contentes com o resultado. O feedback que estamos tendo é bastante grande. Existem algumas pessoas – poucas pessoas – que ainda ficam órfãs de mãe: “pô, mas eu gostava tanto, tenho o adesivo na geladeira, um boné…”. Que vire cult, que a pessoa tenha dois adesivos, dois bonés, dois copos.

É verdade também que a Carvoeira é uma cerveja icônica para a marca, parece impossível falar da cervejaria sem falar dessa cerveja. Fazemos muitas cervejas lindas, com madeira, lupuladas, com muito malte, mas a Carvoeira é um ícone e não negamos isso. Gostamos muito dela também. E envasamos agora um lote grande porque queremos guardar esse lote de Carvoeira. Terá validade de cinco anos e queremos guardá-la. Não sabemos ainda qual o período adequado, mas queremos lançar um kit colecionável com uma Carvoeira mais envelhecida e outra mais jovem, com o rótulo antigo e o novo. Ela foi a cerveja brasileira mais premiada em 2017, repetiu isso em 2018 e começa o ano correndo na frente – foi ouro no Festival de Blumenau. Então, vamos prestar atenção nela durante o ano para que continue muito boa. A embalagem muda, mas ela continua a cerveja muito boa que todos conhecem.

Especialmente na campanha inicial que vocês fizeram sobre a nova identidade e no stand do Festival de Blumenau, destacou-se bastante a cor amarela. Isso, em um primeiro momento, tem a ver com a questão da cana de açúcar, do cumaru, da brasilidade? Ou foi mais fortuito?
Acho que não teve muita ligação. Claro, o amarelo representa o Brasil, muitas vezes, a seleção usa o amarelo, a Canarinho, também reconhecemos um brasileiro fora do país quando está com essa camisa amarela, somos apaixonados pelo Brasil, mas não pensamos muito nisso. A gente erroneamente, durante um período de tempo, usou bandeira do Brasil quando não podia. Não chegamos a ser notificados, mas corrigimos em tempo. Nosso entusiasmo pelo Brasil é grande, fazemos cervejas brasileiras e gostamos de ser reconhecidos fora daqui com essas cervejas. Vendemos para três países, somos felizes em dizer isso, embora não represente muito em nosso portfólio. Mas é bem legal receber releases gringos. Essa semana, por exemplo, tinha gente tomando nossa Pilsen nos Estados Unidos. Um estilo que geralmente não atravessa estados estava lá, ganhando uma nota boa nos aplicativos, com #brasil, #brazil.

De onde veio, então, essa inspiração inicial pelo amarelo?
Curiosamente o amarelo é uma cor muito bonita, ainda mais em contraste com o preto. E existe um clube de futebol muito próximo da cervejaria que alcançou resultados nacionais relevantes, que é o Criciúma. Algumas pessoas chegaram a apontar essa conectividade. Mas a ideia é que o logotipo não tenha mesmo uma cor definida – na Carvoeira, por exemplo, ele é laranja. E, em Blumenau, coincidentemente o predominante foi o amarelo com um azul, um azul piscina. No ano que vem o stand deve estar bem mais colorido, com outras cores também.

Então, para resumir, mais do que apontar uma mudança de rumo, o novo visual de vocês marca um reencontro com a identidade?
Exatamente. Não queremos ser alguém diferente, estamos apenas demonstrando uma identidade que já tínhamos.

E para os próximos meses, que outras novidades vocês planejam?
Tem muito pré-projeto colocado em pauta. Já temos quatro cervejas que elegemos durante o ano. A cervejaria também faz aniversário de 5 anos em 2019 e, em todo aniversário, lançamos uma cerveja sazonal, que também é engarrafada. Então, vamos fazer uma cerveja para outubro. Nosso aniversário é em outubro, mas, na verdade, excepcionalmente neste ano, vamos fazer a festa algumas semanas antes para não concorrer com a Oktoberfest. Isso foi pedido por alguns viajantes, que queriam prestigiar as duas festas. E a data já foi escolhida, será em 21 de setembro. Dessa forma, é muito provável que cheguemos na data lançando um livro, contando os 5 primeiros anos da cervejaria e os 15 primeiros meses pré-operacionais antes dela abrir.

Como será o livro?
Vamos contar sobre o primeiro branding, esse segundo rebranding e toda a ideia de criação de receitas, de dificuldades de mercado. Ele está sendo escrito por mim e pelo Eduardo Felisbino, que é CEO da empresa e meu cunhado. Posso confessar que estamos muito empolgados. É um livro que quando estiver pronto eu vou querer ler, um livro muito bom, que conta um pouco da história das nossas cervejas, da nossa inventividade, do nosso projeto de cervejaria. É um livro para todos, não apenas para cervejeiros ou empreendedores. Todos que quiserem conhecer uma empresa por dentro terão uma boa oportunidade com esse livro.

Mudança no gosto do consumidor dificulta crescimento da Ambev, diz banco

A mudança de gosto do consumidor brasileiro no momento de escolher a cerveja dificulta o crescimento da Ambev, detentora de 63,7% do mercado nacional. A avaliação é de relatório divulgado nesta semana pelo banco suíço UBS.

Baseando-se em dados do mercado de 2017, o relatório lembra a queda no consumo de cerveja per capita no país em quase 10% nos últimos cinco anos, para cerca de 61 litros. E, principalmente, aponta as alterações no padrão de consumo, com o brasileiro mais interessado em bebidas premium e puro malte.

“Essas mudanças parecem jogar contra a Ambev, que historicamente se concentrou em volumes mais altos para aumentar a alavancagem operacional. Isso ajuda a explicar por que suas operações de cerveja no Brasil geraram em 2018 um EBITDA 14% menor em reais do que o pico de 2015”, detalha o banco suíço.

A análise também aponta que a expansão do mercado de artesanais no Brasil ensinou um novo comportamento, embora este segmento ainda tenha um alcance pequeno. Assim, houve alterações no gosto e o surgimento da preocupação sobre os ingredientes que estão sendo consumidos. E a puro malte se tornou atributo de qualidade.

Em meio a esse cenário, a Ambev lançou dois rótulos nos últimos meses: a Skol Hops e, mais recentemente, a Skol Puro Malte. No entanto, de acordo com o relatório do banco, que contou com a contribuição de conversas com a direção do Grupo Petrópolis para sua elaboração, “a receptividade do consumidor foi morna”.

“Eles também percebem que a estratégia de seus concorrentes com a Skol Puro Malte pretende tirar um pouco da excelência da tendência de puro malte, baixando os preços. A Petrópolis mencionou que possivelmente isso poderia ser feito reduzindo os dias de produção, mas se perguntou como os consumidores vão perceber a qualidade desta cerveja puro malte”, afirma o relatório do UBS.

A análise aponta também para a impossibilidade, neste momento, de surtos de demanda e guerra de preços no setor cervejeiro brasileiro. Isso se dá, segundo o relatório e de acordo com as conversas com a Petrópolis, por conta da oferta limitada de alumínio e garrafas de vidro pelo setor de embalagens.

“Nós interpretamos que tudo isso significa que Petrópolis e Heineken provavelmente continuem seguindo os aumentos de preços da Ambev e fiquem longe de guerras de preços para proteger suas margens brutas. Nós já vimos isso no ano passado, quando a Petrópolis aumentou seus preços em 5% em setembro, o que está em linha com os 5,4% do aumento do preço médio da Ambev em 2018”, conclui o banco suíço.