A marca de vestuário e equipamento esportivo de montanha Patagonia processou, no Estados Unidos, a AB-Inbev por colocar no mercado a sua marca de origem argentina também chamada Patagonia. Na acusação, a fabricante alega que a gigante da cerveja estaria não só pegando carona em um nome já consolidado, mas tentando se passar por ele.
Segundo a marca californiana, criada na década de 1970, a cervejaria teria tentado ligar a cerveja com sua imagem ecologicamente responsável ao propor que plantaria uma árvore para cada rótulo vendido. “É uma iniciativa que a Patagonia Inc. felicitaria, se não fosse pelo fato de a AB estar claramente tentando copiar nossa já famosa identidade de marca para confundir os consumidores”, diz o texto da ação judicial.
A questão fica ainda mais confusa porque a marca de material esportivo tem, de fato, sua própria linha de cervejas. A Long Root conta com uma Pale Ale e uma Witbier feitas em parceira com a cervejaria Hopworks Urban Brewery, de Detroit. Ambas seguem a “pegada” da marca. O próprio nome, “raiz longa”, se refere à característica dos insumos usados: todos orgânicos e regenerativos.
Já os grãos perenes de trigo Kerzna, desenvolvidos em parceria entre a marca e o Land Institute em 2016, têm, de fato, raízes mais longas. Elas permitem à planta triunfar sem auxílio de pesticidas e usando menos água do que o convencional. Além disso, previnem o solo contra erosão e podem remover mais gás carbônico da atmosfera.
Montanhas no rótulo
Nas latas, está estampado o logotipo da marca: silhuetas de montanhas da Cordilheira dos Andes, região que contempla áreas do sul da Argentina e do Chile. O mesmo visual exuberante das montanhas geladas é retratado nas embalagens da Patagonia da AB InBev.
“A AB está deliberadamente tentando tomar vantagem da boa vontade tremenda que a Patagonia Inc. e a Patagonia Provisions cultivaram em sua marca, e da reputação conquistada e construída nos últimos 40 anos como uma empresa dedicada à preservação ambiental. A AB chegou a criar um logotipo claramente semelhante à famosa silhueta de montanhas da Patagonia Inc., que apareceu constantemente por décadas em milhões de produtos”, acusa a marca.
Desde 2013 a AB tem o direito de explorar no mercado norte-americano a marca, pertencente à sua subsidiária argentina Quilmes. No entanto, somente em 2018 a Patagonia foi lançada nos EUA. Em nota enviada à CNN, a AB afirma que a companhia está “ciente da ação e acredita que ela não tenha fundamento”.
Importante iniciativa para dar suporte técnico e científico ao mercado de artesanais, por meio de serviços voltados à microbiologia envolvida na produção de cervejas, o Laboratório da Cerveja passou a integrar um programa do BiotechTown, primeiro centro privado no país voltado exclusivamente para o desenvolvimento de empresas, produtos e negócios nas áreas de biotecnologia e ciências da vida.
O BiotechTown está localizado em Nova Lima, cidade mineira que se tornou um polo brasileiro na produção de artesanais. A mudança, assim, aproximará ainda mais o laboratório surgido na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) do mercado cervejeiro.
“No final de 2018, o Laboratório da Cerveja foi selecionado pelo programa de desenvolvimento de negócios Business Developer do BiotechTown, que é um centro privado localizado em Nova Lima que impulsiona negócios e empresas de base tecnológica e ciências da vida”, explica a Dra Luciana Rocha Brandão, sommelière, cervejeira caseira, cientista e CEO da startup.
Integrar o programa de um ano do BiotechTown, aliás, trouxe uma importante mudança de status ao laboratório: deixou de ser um projeto de extensão para se tornar uma empresa, uma startup, além de já “começarmos a aumentar o nosso portfólio de serviços, produtos e expansão de mercado”, segundo conta Luciana
“Nesse programa, de duração de um ano, nós recebemos investimento e assessoria em marketing, financeiro, jurídico para a estruturação e o crescimento da empresa”, acrescenta a cientista.
O Laboratório da Cerveja foi criado em julho de 2015 sob a coordenação do professor Dr. Carlos Augusto Rosa e das doutoras em microbiologia Beatriz Borelli e Luciana Brandão. Era um projeto de extensão executado pelo Laboratório de Taxonomia, Biodiversidade e Biotecnologia de Fungos localizado no Instituto de Ciências Biológicas da UFMG – até se tornar parte do programa do BiotechTown.
O preço da cerveja continua em baixa nas principais capitais brasileiras, de acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Esse movimento foi ampliado em março e está no rumo contrário à tendência, pois a inflação nacional foi de 0,75%, a maior para o terceiro mês do ano desde 2015, com alimentação e bebidas registrando alta de 1,37%, inferior apenas ao grupo transportes (1,44%).
“A aceleração da inflação no mês
foi determinada pelas altas de 1,37% no grupo Alimentação e bebidas e de 1,44%
nos Transportes. Juntos, esses grupos responderam por 80% do índice do
mês”, afirma o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Porém, o preço da cerveja em domicílio teve queda de 0,34% em março, de acordo com os dados divulgados pelo IBGE. Com isso, apresenta deflação de 0,29% em 2019, ainda que registre aumento de 0,25% nos últimos 12 meses.
Os preços da cerveja fora do domicílio também sofreram queda em março, de 0,36%, segundo o IPCA. Mas o cenário ainda é de inflação em 2019, de 0,32%, e também nos últimos 12 meses, de 4,09%.
Os preços de outras bebidas alcoólicas no domicílio tiveram queda de 0,29% em março, mas estão em alta em 2019 (0,74%) e também nos últimos 12 meses (3,36%). Já fora do domicílio há inflação em qualquer cenário: em março (0,94%), no ano (1,46%) e nos últimos 12 meses (2,27%).
A semana cervejeira trouxe inúmeras oportunidades para quem pretende se aprofundar nesse universo. A Perro Libre, por exemplo, lançou dois rótulos com um custo acessível, enquanto a Cozalinda apresentou um interessante clube cervejeiro. Já a Escola Superior de Cerveja e Malte abrirá cursos em cinco cidades brasileiras. E, em uma iniciativa inédita, a Abracerva se uniu com o Sebrae para fazer um estudo sobre o mercado de artesanais. Confira, a seguir, as novidades da semana.
Artesanal acessível Com o intuito de facilitar o acesso às cervejas artesanais, tanto no paladar como no bolso, a Perro Libre apresentou duas novas cervejas em chope: Dame Lager e Dame IPA. A ideia foi trabalhar receitas simples, com um menor custo possível, mas respeitando os insumos e técnicas de produção. “Sabemos que beber cerveja artesanal ainda não é muito fácil, seja pela distribuição, pelos preços praticados ou pelas receitas desenvolvidas. Queremos facilitar. Nossa ideia foi produzir duas cervejas fáceis de beber, acessíveis financeiramente, que servirão de porta de entrada para muitos consumidores, mas também irão agradar a todos que já bebem e buscavam algo para o dia a dia”, explica Caio Martins, responsável pela comunicação da marca. A Lager possui 4,5% de teor alcoólico, 20 IBUs e um único tipo de lúpulo: Saphir. Já a IPA, inspirada na versão da costa oeste dos Estados Unidos, tem 5,6% de teor alcoólico, 40 IBUs e os lúpulos Centennial, Chinook, Columbus e Summit.
Pesquisa inédita A Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) estabeleceu uma importante parceria com o Sebrae para tentar compreender um pouco mais do mercado cervejeiro nacional. As duas entidades vão elaborar um estudo inédito, a 1ª Pesquisa sobre Cervejarias Independentes Brasileiras, que está disponível no link: http://bit.ly/censocervejaria. As respostas serão coletadas até 15 de maio. “Entendemos que para manter a ascensão do setor é importante que tenhamos todos os planos bem estruturados. Para isso, precisamos conhecer melhor a realidade das marcas e suas atuações. Essa pesquisa vem ao encontro disso”, avalia Carlo Lapolli, presidente da Abracerva. Os participantes vão receber um compilado de informações para entenderem um pouco mais sobre o mercado em que estão inseridos.
Clube da Cozalinda De Florianópolis, a Cozalinda acaba de apresentar uma boa novidade: um site de vendas de seu clube de cervejas, onde comercializa rótulos premiados e limitados que muitas vezes não saíam de seu bar. A assinatura dá direito a 12 garrafas por ano, que serão divididas em 6 tipos de cerveja, ou seja, duas de cada rótulo. O motivo? São cervejas de guarda, que apesar de terem prazo de validade de 5 anos, possuem potencial de envelhecimento que supera essa validade. Assim, o assinante recebe as duas cervejas, prova uma e deixa outra para envelhecer. “Nossas cervejas oferecem uma experiência diferente do que o consumidor do Brasil, em geral, está acostumado. Cervejas que você pode guardar por um bom tempo e abrir daqui a cinco anos e perceber a evolução que a cerveja sofreu com o tempo. O problema é segurar a ansiedade”, brinca Diego Simão, responsável pelas criações da Cozalinda. Uma das receitas é um rótulo que o cervejeiro desenvolveu para o seu casamento, fermentada em barricas de madeira que vieram da França.
Hop Lager da Blumenau A Blumenau acaba de anunciar o terceiro rótulo da série Confraria. Trata-se da Hop Lager, que foi brassada com a presença de mais de 50 participantes, durante o Festival Brasileiro da Cerveja. O rótulo é um single hop, ou seja, utiliza apenas um tipo de lúpulo – o Sabro, que se destaca por notas intensas de tangerina, coco verde, frutas tropicais e ameixa, além de toques de menta. Tem 4,6% de teor alcoólico e 25 IBUs. “Entendemos que o mercado das artesanais está crescendo rapidamente e, por isso, se torna tão necessário explorar outros sabores. A ideia da Confraria é justamente essa: unir o conhecimento de diversos profissionais para criar algo novo e fora do comum. Esperamos que o público sinta isso em cada gole”, afirma Valmir Zanetti, diretor da cervejaria.
Pós da ESCM A Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM) abriu inscrições para sua pós-graduação em tecnologia cervejeira em cinco cidades: Belo Horizonte, Florianópolis, Blumenau, São Paulo e Curitiba. O curso traz certificação do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA) e tem como pré-requisito a formação em curso de ensino superior. Serão 18 meses de aulas, com encontros quinzenais. “Só no ano passado foram 210 novas cervejarias no Brasil. Temos, atualmente, 889 fábricas em atividade e esse número deve crescer ainda mais. Isso abre possibilidades para que os profissionais que buscaram capacitação, se reposicionem e possam dar um direcionamento de ascensão para as suas carreiras”, comenta Carlo Bressiani, diretor da escola. As aulas terão três módulos práticos – ingredientes, processo produtivo e equipamentos e controle de qualidade – e um de encerramento, com o trabalho de conclusão do curso.
Eleito o segundo melhor festival brasileiro de cerveja em 2018, o Slow Brew tem sua edição de 2019 marcada para o dia 7 de dezembro, no Centro de Eventos Pro Magno, em São Paulo. Neste ano, porém, uma inovação no modo como as 70 cervejarias serão escolhidas promete manter frequentadores e marcas bastante atentos até lá. Pela primeira vez, as participantes serão definidas pelo público.
A novidade segue uma tendência de valorização e empoderamento do consumidor, rompendo com os modelos mais tradicionais do mercado de festivais. Não apenas nos eventos cervejeiros, mas na maior parte dos setores da economia, o mais comum é que a participação das marcas seja decidida por diversos fatores, que podem envolver acordos comerciais, de patrocínio e até a compra de espaço. Uma lógica que o Slow Brew procura agora subverter.
“Decidimos inverter a posição do participante, saindo da posição passiva para ter um poder de decisão. Esse é o fator chave do Slow Brew. Com o poder de sua decisão, ele escolhe o que quer degustar”, afirma o Dr. Mauricio Leandro, organizador do evento, ao Guia.
Desde a primeira edição em 2014, um “conselho curador” era responsável pela seleção das marcas. Em 2019, por sua vez, 95 nomes entraram em uma lista que o organizador do evento gosta de chamar de “cervejarias de personalidade”, apontadas pelo conselho ou que tenham demonstrado interesse em participar.
“São cervejarias às quais as pessoas já estão atentas. O público conhece quais são as cervejarias boas”, diz Mauricio, lembrando que grandes cervejarias regionais, com uma produção mais “comum”, não são elegíveis.
Os “slowers” que já compraram seus ingressos receberam, então, por e-mail, uma lista com as marcas disponíveis. Cada um dos mais de 3 mil participantes votam em 10 cervejarias. Ao final, as 55 mais lembradas serão convidadas. E as outras 15 também foram escolhidas pelo público: são as mais bem avaliadas na pesquisa de satisfação do Slow Brew 2018.
Um não festival A decisão de dar o poder de decisão para o público partiu de um questionamento sobre a essência do Slow Brew. Para Mauricio, a palavra “festival” não é exatamente adequada ao modo como ele é concebido.
“Qualquer evento virou festival. E o Slow Brew não tem características de festival. Pode até ter aparência, mas não é”, diz ele. “É uma reunião de pessoas que têm paladar e interesse diferenciados, que querem conhecer coisas de qualidade, terem uma experiência, evolução e realização gustativa”, diz ele, justificando a retirada da palavra ‘festival’ da descrição do evento.
Nesse contexto, Mauricio conta que a organização do Slow Brew passou a entender os participantes de maneira mais ampla. “Em uma reflexão mais filosófica, nos perguntamos ‘de que maneira o participante participa?'”
A partir disso, a participação foi repensada para deixar de ser “passiva”, com a simples compra de ingressos e experimentação de coisas escolhidas por outros. “Queremos fazer do participante a peça mais importante do festival”, conclui.
O Slow Brew está em seu último lote de ingressos. Se quiser comprar, clique aqui.
Uma cervejaria artesanal multipremiada, reconhecida nacionalmente e com um dos rótulos mais cultuados dos últimos anos decide, repentinamente, alterar a logotipia e replanejar do zero o seu visual. E mais: apesar de toda a transformação, nada desse trabalho é feito para sinalizar qualquer mudança de rumo ou de perspectiva. Pelo contrário. O que a marca queria era, apenas, descobrir a sua identidade.
A história pode até soar inverossímil, mas foi exatamente o que fez a Lohn Bier ao lançar sua nova identidade visual durante o Festival Brasileiro da Cerveja, realizado em março, em Blumenau, no que pôde ser considerado um dos grandes “lançamentos” do evento.
“Entendemos muito mais da gente agora do que quando começamos o rebranding, o que é genial”, celebra Richard Westphal Brighenti, cervejeiro, beer sommelier e um dos fundadores da marca que conquistou o mercado com suas Catharinas Sour e, especialmente, a Carvoeira, um dos rótulos nacionais mais premiados dos últimos anos.
Em conversa exclusiva com o Guia, além de contar por que o novo logo representa um reencontro com as origens, com o jeito especial de fazer cerveja da marca, Richard fala sobre o difícil processo de descobrir uma identidade visual própria.
Descreve, também, os detalhes do novo logotipo que, ao menos no stand do festival, quando estava cercado por cores como amarelo, preto e azul piscina, trazia algo de Andy Warhol. E, por fim, revela uma interessante novidade: para comemorar seus 5 anos em 2019, a cervejaria está preparando um livro.
Confira, a seguir, a entrevista completa com Richard Westphal Brighenti, o cultuado e inventivo cervejeiro da Lohn Bier.
Em que momento veio a decisão de mudar a identidade visual? Como foi esse processo, como chegaram a essa decisão? Para explicar a identidade visual nova de logotipo e de embalagem é preciso falar sobre a antiga. Quando surgimos como cervejaria, registramos dois nomes no INPI. E Lohn é o sobrenome de família, sobrenome alemão, do seu Francisco [patriarca da cervejaria], Lohn Felisbino – só que na época ele não assinava o nome da mãe, o que era muito comum. Eu era homebrewer há cinco anos e também sou descendente de alemães. Então, a gente não tinha muita história para contar, pois estávamos surgindo naquele momento.
Antigo logo
Mas a ideia de fazer cervejas boas, baseadas na escola alemã, nos parecia bastante agradável. Boas Lagers são adequadas, sempre voltamos para o conforto de uma Lager. Então, o símbolo da Lohn foi a silhueta do brasão da família e, no topo do logotipo, tínhamos a silhueta da Serra do Rio do Rastro, que é uma denominação de origem que valorizamos ainda hoje, mesmo no rebrand. Fazia todo sentido: ser alemão, mostrar força, o malte, uma florzinha de lúpulo. O logo era bonito, não nos desapegamos ainda. Ele nos ajudou, nos trouxe até aqui e não o desprezamos. E ele continuará por um tempo, alguns rótulos ainda serão envasados com ele, então o consumidor terá um período de transição.
E por que veio a decisão de mudar? A gente não era necessariamente só alemão. A gente era bastante inventivo, colocava fruta desde o início, colocava caldo de cana, funghi secchi, cumaru, e fazia cervejas puro malte que não seguiam a Lei de Pureza Alemã. E tem uma questão de comportamento, do Brasil. A Catharina Sour, que é uma cerveja ácida, foi tendência nos Estados Unidos e depois reverberou para cá. As lupuladas norte-americanas também reverberaram para cá, assim como as Brut IPA, que já estão acontecendo de forma tímida, mas devem aumentar em 2019. Então, o comportamento do mercado brasileiro é bastante americanizado. E a gente estava se sentindo deslocado com o nosso logotipo, ele não representava mais a inventividade que dávamos para as cervejas. O logotipo mostrava uma cervejaria alemã, de tradição, e nossas cervejas eram mais descoladas, mais ousadas, mais criativas.
Novo logo
O que o novo logo traz que ajuda a representar essas influências? Colocamos um logotipo que não tem cor necessariamente. Ele pode receber qualquer cor, o skin de uma foto, pode ser um mosaico de cores. Ele é só letra. É uma tipografia escrita à mão, não é uma fonte de computador. O Bier é alemão e o layout norte-americano, olha que incrível. Temos agora um símbolo, também. Antes não tínhamos, o simbolismo estava todo no logo. Agora temos um logotipo que é letra e um símbolo de apoio, que é a silhueta da Serra do Rastro. As pessoas até confirmaram que lembra muito o ícone do desbloqueio de celular com a digital, então fica nossa digital, nossa identidade, com um pouco de nossa geografia. Curiosamente, somamos tudo isso e estamos muito felizes com o resultado.
Como foi o processo para chegar a esse novo logotipo? Qual a inspiração, as influências, as ideias por trás dele? Foi um trabalho de pesquisa de quase um ano, um estudo de branding, porque não é só logotipo, mas comportamento de marca, velocidade com que a gente se comunica, para quem a gente se comunica. Fizemos uma pesquisa de mercado e a agência que fez foi muito profissional. Entendemos muito mais da gente agora do que quando começamos o rebranding, o que é genial. Foram quatro tentativas de logotipia e tivemos uma quinta versão, mastigada de uma anterior, que foi a primeira. Esta primeira nos assustou e a gente foi fazendo, refazendo, fazendo, até que, depois da quarta, dissemos “não” e falamos “talvez, aquela primeira, se desse uma mastigada, está boa”. E assim foi. Acho o logotipo muito bonito, muito moderno, e penso que vamos ficar com ele por muito tempo, mais tempo do que ficamos com o anterior. Estamos bem contentes com o resultado. O feedback que estamos tendo é bastante grande. Existem algumas pessoas – poucas pessoas – que ainda ficam órfãs de mãe: “pô, mas eu gostava tanto, tenho o adesivo na geladeira, um boné…”. Que vire cult, que a pessoa tenha dois adesivos, dois bonés, dois copos.
É verdade também que a Carvoeira é uma cerveja icônica para a marca, parece impossível falar da cervejaria sem falar dessa cerveja. Fazemos muitas cervejas lindas, com madeira, lupuladas, com muito malte, mas a Carvoeira é um ícone e não negamos isso. Gostamos muito dela também. E envasamos agora um lote grande porque queremos guardar esse lote de Carvoeira. Terá validade de cinco anos e queremos guardá-la. Não sabemos ainda qual o período adequado, mas queremos lançar um kit colecionável com uma Carvoeira mais envelhecida e outra mais jovem, com o rótulo antigo e o novo. Ela foi a cerveja brasileira mais premiada em 2017, repetiu isso em 2018 e começa o ano correndo na frente – foi ouro no Festival de Blumenau. Então, vamos prestar atenção nela durante o ano para que continue muito boa. A embalagem muda, mas ela continua a cerveja muito boa que todos conhecem.
Especialmente na campanha inicial que vocês fizeram sobre a nova identidade e no stand do Festival de Blumenau, destacou-se bastante a cor amarela. Isso, em um primeiro momento, tem a ver com a questão da cana de açúcar, do cumaru, da brasilidade? Ou foi mais fortuito? Acho que não teve muita ligação. Claro, o amarelo representa o Brasil, muitas vezes, a seleção usa o amarelo, a Canarinho, também reconhecemos um brasileiro fora do país quando está com essa camisa amarela, somos apaixonados pelo Brasil, mas não pensamos muito nisso. A gente erroneamente, durante um período de tempo, usou bandeira do Brasil quando não podia. Não chegamos a ser notificados, mas corrigimos em tempo. Nosso entusiasmo pelo Brasil é grande, fazemos cervejas brasileiras e gostamos de ser reconhecidos fora daqui com essas cervejas. Vendemos para três países, somos felizes em dizer isso, embora não represente muito em nosso portfólio. Mas é bem legal receber releases gringos. Essa semana, por exemplo, tinha gente tomando nossa Pilsen nos Estados Unidos. Um estilo que geralmente não atravessa estados estava lá, ganhando uma nota boa nos aplicativos, com #brasil, #brazil.
De onde veio, então, essa inspiração inicial pelo amarelo? Curiosamente o amarelo é uma cor muito bonita, ainda mais em contraste com o preto. E existe um clube de futebol muito próximo da cervejaria que alcançou resultados nacionais relevantes, que é o Criciúma. Algumas pessoas chegaram a apontar essa conectividade. Mas a ideia é que o logotipo não tenha mesmo uma cor definida – na Carvoeira, por exemplo, ele é laranja. E, em Blumenau, coincidentemente o predominante foi o amarelo com um azul, um azul piscina. No ano que vem o stand deve estar bem mais colorido, com outras cores também.
Então, para resumir, mais do que apontar uma mudança de rumo, o novo visual de vocês marca um reencontro com a identidade? Exatamente. Não queremos ser alguém diferente, estamos apenas demonstrando uma identidade que já tínhamos.
E para os próximos meses, que outras novidades vocês planejam? Tem muito pré-projeto colocado em pauta. Já temos quatro cervejas que elegemos durante o ano. A cervejaria também faz aniversário de 5 anos em 2019 e, em todo aniversário, lançamos uma cerveja sazonal, que também é engarrafada. Então, vamos fazer uma cerveja para outubro. Nosso aniversário é em outubro, mas, na verdade, excepcionalmente neste ano, vamos fazer a festa algumas semanas antes para não concorrer com a Oktoberfest. Isso foi pedido por alguns viajantes, que queriam prestigiar as duas festas. E a data já foi escolhida, será em 21 de setembro. Dessa forma, é muito provável que cheguemos na data lançando um livro, contando os 5 primeiros anos da cervejaria e os 15 primeiros meses pré-operacionais antes dela abrir.
Como será o livro? Vamos contar sobre o primeiro branding, esse segundo rebranding e toda a ideia de criação de receitas, de dificuldades de mercado. Ele está sendo escrito por mim e pelo Eduardo Felisbino, que é CEO da empresa e meu cunhado. Posso confessar que estamos muito empolgados. É um livro que quando estiver pronto eu vou querer ler, um livro muito bom, que conta um pouco da história das nossas cervejas, da nossa inventividade, do nosso projeto de cervejaria. É um livro para todos, não apenas para cervejeiros ou empreendedores. Todos que quiserem conhecer uma empresa por dentro terão uma boa oportunidade com esse livro.
A mudança de gosto do consumidor brasileiro no momento de escolher a cerveja dificulta o crescimento da Ambev, detentora de 63,7% do mercado nacional. A avaliação é de relatório divulgado nesta semana pelo banco suíço UBS.
Baseando-se em dados do mercado de 2017, o relatório lembra a queda no consumo de cerveja per capita no país em quase 10% nos últimos cinco anos, para cerca de 61 litros. E, principalmente, aponta as alterações no padrão de consumo, com o brasileiro mais interessado em bebidas premium e puro malte.
“Essas mudanças parecem jogar contra a Ambev, que historicamente se concentrou em volumes mais altos para aumentar a alavancagem operacional. Isso ajuda a explicar por que suas operações de cerveja no Brasil geraram em 2018 um EBITDA 14% menor em reais do que o pico de 2015”, detalha o banco suíço.
A análise também aponta que a expansão do mercado de artesanais no Brasil ensinou um novo comportamento, embora este segmento ainda tenha um alcance pequeno. Assim, houve alterações no gosto e o surgimento da preocupação sobre os ingredientes que estão sendo consumidos. E a puro malte se tornou atributo de qualidade.
Em meio a esse cenário, a Ambev lançou dois rótulos nos últimos meses: a Skol Hops e, mais recentemente, a Skol Puro Malte. No entanto, de acordo com o relatório do banco, que contou com a contribuição de conversas com a direção do Grupo Petrópolis para sua elaboração, “a receptividade do consumidor foi morna”.
“Eles também percebem que a estratégia de seus concorrentes com a Skol Puro Malte pretende tirar um pouco da excelência da tendência de puro malte, baixando os preços. A Petrópolis mencionou que possivelmente isso poderia ser feito reduzindo os dias de produção, mas se perguntou como os consumidores vão perceber a qualidade desta cerveja puro malte”, afirma o relatório do UBS.
A análise aponta também para a impossibilidade, neste momento, de surtos de demanda e guerra de preços no setor cervejeiro brasileiro. Isso se dá, segundo o relatório e de acordo com as conversas com a Petrópolis, por conta da oferta limitada de alumínio e garrafas de vidro pelo setor de embalagens.
“Nós interpretamos que tudo isso significa que Petrópolis e Heineken provavelmente continuem seguindo os aumentos de preços da Ambev e fiquem longe de guerras de preços para proteger suas margens brutas. Nós já vimos isso no ano passado, quando a Petrópolis aumentou seus preços em 5% em setembro, o que está em linha com os 5,4% do aumento do preço médio da Ambev em 2018”, conclui o banco suíço.
Quero falar de uma mudança de cultura que, creio eu, está bastante promissora e me agrada muito: as latas estão chegando com força no mercado e as envasadoras de latas estão substituindo rapidamente as de garrafas. Há uma invasão das latas, e o mercado ganha muito com isso, na minha opinião.
As latas são mais leves, mais
baratas, menos taxadas, têm logística mais simples e muitas outras vantagens.
Especialmente, preservam muito mais a cerveja porque não deixam entrar luz. E,
para melhorar, é um material muito mais simples de se reciclar.
Mas, claro, temos problemas. O pessoal, o público em geral, tem um certo preconceito com lata? Tipo ligar o vasilhame à cerveja de baixa qualidade? Pode ser impressão minha. Mas tenho essa dúvida, especialmente porque a galera que começou esse movimento com latas foi uma galera de cervejas de altíssima qualidade e valor agregado.
As primeiras latas brazucas que eu
vi foram exatamente das primeiras New England IPAs. Cervejas que levam um
fermento diferente, uma quantidade abissal de lúpulos e, assim, custam caro pra
produzir. Mas que entraram no paladar da galera fortemente.
Já vejo no mercado uma boa
quantidade de cervejas com preço mais baixo envasadas com lata. Agora só falta
a galera começar a usar e confiar mais nos key kegs. Para distância e para
pequenas produções, é uma solução interessante.
Mas, para esses dois vasilhames, precisamos pensar firmemente a reutilização e a reciclagem. E reutilização sem ser colocando novamente cerveja nos kegs. Não façam isso. Mas não vou entrar nesse mérito hoje. Fica aí a pergunta: o que acham de latas e key kegs (ou pet kegs)?
Turismo cervejeiro Gostaria, agora, de recuperar um comentário que foi colocado na anterior. Sim, concordo com o amigo leitor Jairo que o turismo é uma boa fonte de sustentabilidade do mercado cervejeiro. Quando, há uns 10 anos, a prefeitura de Nova Lima começou a fomentar a criação do polo cervejeiro da cidade, o prefeito e o secretário de Turismo da época foram muito claros nesse ponto. A ideia sempre foi ter um polo cervejeiro que futuramente seria um polo turístico. Atualmente já é um polo gastronômico em franca expansão. Aqui em Minas, tudo gira em torno da mesa farta de boa gastronomia. Obrigado pelo comentário, Jairo.
Prost e vida longa!
José Bento Valias Vargas é um dos fundadores da Acerva-MG, sócio da Lamas Brewshop BH e da cervejaria Dunk Bier
Uma semana depois da Câmara do Rio abrir processo de impeachment contra o prefeito Marcelo Crivella, a capital carioca mais uma vez foi assolada por problemas climáticos, em uma tempestade que deixou dez mortos e expôs a falta de políticas públicas para evitar desastres. É um problema que já vai se tornando corriqueiro nas grandes cidades brasileiras. Nem tudo, porém, parece perdido. Em um país onde a tragédia se repete como subproduto do descaso, é preciso estar atento às pequenas iniciativas capazes de minimizar o caos e sedimentar a construção de possibilidades. Como a desenvolvida pela Rota Cervejeira RJ.
Maior desastre climático da história do Brasil, com quase mil mortos e dezenas de milhares de desabrigados, as enchentes e deslizamentos de terra na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro em 2011 também expuseram a falta de preparo para evitar tragédias, mas forçaram empresários das cidades a se reorganizarem. E foi a partir dessa união que surgiu a Rota Cervejeira RJ, interessante ação liderada pela Associação das Cervejarias e Cervejeiros do Estado do Rio de Janeiro (Accerj-Tur) para valorizar a produção local e as atrações turísticas da região.
“O projeto surgiu algum tempo depois da tragédia, quando percebemos que os turistas não subiam mais a Serra quando a meteorologia dizia que teria chuva naquele determinado final de semana”, explica Ana Cláudia Pampillón, coordenadora da Rota Cervejeira RJ. “Descobrimos que existia uma verba destinada à região para o fomento da economia local, e fomos a Brasília saber do que se tratava.”
A iniciativa, então, segundo relata Ana Cláudia ao Guia, tomou forma em 2014 e envolveu inicialmente seis cervejarias de três cidades da região: Therezópolis, Bohemia, Grupo Petrópolis, Ranz Bier, Cidade Imperial e Buda Beer – as duas últimas não fazem mais parte da Rota.
A avaliação era de que as conhecidas cervejas da Região Serrana seriam mais um apelo para os turistas, que costumavam ser atraídos pela natureza. “O turismo cervejeiro seria um grande chamariz devido às boas cervejas da região aliadas à beleza natural da serra do Rio”, lembra a coordenadora. O que acabou se concretizando.
Cervejas com história Por sua influência germânica, a Região Serrana do Rio está envolvida diretamente com a história da cerveja no Brasil, tanto que uma das primeiras fábricas do país foi instalada lá, no século XIX – a Bohemia. E essa tradição contribui para a associação da região com a cerveja.
A Rota, então, ampliou a presença de turistas em um dos principais destinos dos cariocas no inverno, além de trazer novos clientes para as cervejarias. O resultado, segundo Ana Cláudia, foi o aumento do número de associados e de projetos turísticos cervejeiros.
Além disso, a atenção conquistada pelas marcas tem impactado na produção de cervejas na região e na geração de empregos. “Muitas cervejarias ciganas têm vindo produzir na Serra, gerando mais renda e empregos para os municípios”, aponta a coordenadora.
Hoje, a Rota tem 24 cervejarias de quatro municípios – Teresópolis, Petrópolis, Friburgo e Guapimirim. São elas: Bohemia, Grupo Petrópolis, Therezópolis, Brewpoint, Ranz, Born2Brew, Barão Bier, Dr. Duranz, Odin, Cazzera, Guapa, Imperatriz, Vila de Secretário, Pontal, Alpendorf, Tortuga, Madame Machado, Serra Velha, Broers, Colarinho da Serra, Favre Baum, Soul Terê, Mad Brew e Rota Imperial.
Envolvendo uma variedade tão ampla de cervejarias, que passa por nomes mainstreans, marcas ciganas e conceituadas artesanais, a Rota RJ oferece uma série de passeios que inclui visitas a fábricas, degustação de diferentes rótulos e harmonizações, em meio a um cenário de montanhas e belas paisagens.
Rede de apoio E esse crescimento em cinco anos já fez a iniciativa fluminense virar exemplo para outras ações semelhantes. “Hoje somos referência em turismo cervejeiro para outros estados, inclusive em outros países”, garante Ana Cláudia.
Além de englobar as cervejarias locais, a iniciativa também envolve outros setores das cidades, como rede hoteleira, agências de viagens – com roteiros de dois a três dias -, restaurantes e supermercados, que apoiam a Rota através de descontos e incentivos a eventos.
Em 2019, a partir da realização de um evento no Rio, a iniciativa que une diferentes setores da Região Serrana pretende expandir e se tornar mais conhecida. “Temos planos de fazer um grande evento da Rota Cervejeira no Rio de Janeiro para chamar de nosso e com isso divulgar o destino turístico, as boas cervejas e toda a cadeia turística que envolve o turismo cervejeiro”, revela a coordenadora.
Se cresce exponencialmente em número de marcas e demonstra um imenso potencial de expansão, o mercado brasileiro de artesanais ainda luta para alcançar um público maior e romper a barreira do 2% de market share. Desafio que pode ser facilitado se o setor receber mais eventos voltados à cadeia produtiva, como feiras de negócios especializadas em cerveja.
É o que afirma José Joaquim Alves de Campos Filho, publicitário, ex-professor universitário, organizador de eventos e cervejeiro desde 2012, quando passou a atuar em uma série de festivais e criou o Cervejoca, um clube feito para promover a cultura das artesanais.
“A meu ver, vamos amadurecer os encontros de negócios com feiras voltadas exclusivamente para a cadeia produtiva, esperando que as cervejarias e grandes players aprendam a vender seus serviços tão bem como fazem com seus produtos”, avalia José Joaquim, mais conhecido como Joca.
Na avaliação do publicitário, conectar a cadeia produtiva a um público que começa a circular pelo setor, como amadores, ciganos “iniciantes” e consumidores que estão descobrindo as artesanais, pode ser um dos segredos para fortalecer o mercado. Hoje, há feiras de fornecedores como a Brasil Brau, que ocorre entre 28 e 30 de maio, em São Paulo, e a realizada paralelamente ao Festival Brasileiro da Cerveja, em Blumenau.
“O mercado de cervejas artesanais se encontra no estágio de adaptação aos processos de produção e distribuição. As demandas ainda não se consolidaram como a aceitação dos brasileiros por novos sabores de cerveja”, opina Joca.
Desta forma, segundo ele, vê-se grandes players de máquinas, equipamentos, insumos, serviços e a formação de uma rede de outros pequenos representantes, revendedores, parceiros destas tecnologias, entre outros, que precisam ser integrados.
“Compartilhar tecnologia e processos é o caminho para consolidar esta formação de novos negócios e fomentar investimentos no mercado. Disponibilizar recursos técnicos, financeiros, de produção, logística, capacitação e outros garante uma melhor qualidade no processo produtivo e deixará ainda mais sólida esta cadeia produtiva”, comenta.
Garantir essa integração seria especialmente importante pelas características do mercado brasileiro, que “não corresponde a nenhuma tendência estrangeira” e que convive com um cenário político e econômico incerto “contra um crescimento exponencial representado por abertura de cervejarias e números de rótulos”. Assim, segundo ele, quanto mais as tendências forem compartilhadas, mais o mercado tenderia a se democratizar.
“Não falta nada para desenvolver ainda mais este mercado, a não ser aproximar dos apreciadores iniciantes, paneleiros, ciganos e pequenos cervejeiros a rede produtiva da cerveja, seus equipamentos, tecnologias, serviços. Assim, considero as oportunidades de investimentos mais democráticas e próximas da realidade dos mini e pequenos produtores das cervejas artesanais”, finaliza Joca.